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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

ESPIRITUOSAS E ESPIRITUOSOS

Maio 09, 2013

J.J. Faria Santos

                                      Imagem: Courtesy of www.bertc.com

 

Se pegarmos em dois dos lugares-comuns associados ao consumo em excesso de álcool, a locução latina in vino veritas e a noção de que se bebe para esquecer, poderemos concluir que os ébrios bebem para esquecer a verdade ou para a tornar evidente perante os outros sem a terem de verbalizar, ou ainda para a verbalizarem sem a censura do filtro das conveniências? Será este o corolário do processo de desinibição que a ingestão de bebidas espirituosas propicia?

Claro que teremos sempre de fazer a distinção entre o uso recreativo como lubrificante das relações sociais e o consumo regular e desproporcionado que cai na categoria do vício. A linha de separação nem sempre é fácil de definir, mas poderá residir na capacidade que o bebedor demonstrar de preservar a funcionalidade no seu estilo de vida (por exemplo, manter o posto de trabalho. Não terá sido por acaso que Oscar Wilde – que era inatamente espirituoso e igualmente viciante -  afirmou que o trabalho é a maldição dos bebedores – “Work is the curse of the drinking classes”).

Como a capacidade de absorver o álcool é variável, torna-se recomendável que cada pessoa tenha a percepção dos seus limites. Dorothy Parker tinha-a, e imortalizou a sua predilecção por Martinis numa deliciosa quadra em que estabelece a linha vermelha nas duas doses. A terceira conduzia ao relaxamento muscular e a quarta ao relaxamento dos costumes (“I like to drink a Martini / But only two at the most / Three I’m under the table, / Four I’m under the host”).

Algures nos anos 90 do século passado, desenvolvi um interesse relativamente passageiro por cocktails (Margarita, Manhattan, Bloody Mary…), que bebericava num bar portuense em cujas catacumbas se declamava poesia. Nunca tive a tentação de testar os meus limites. Sempre me pareceu que quando temos algo de substantivo a dizer ou a fazer nada de benéfico provém do facto de estarmos sob a influência de uma substância. Para os momentos banais não devemos necessitar de estimulantes; para os momentos importantes, bons ou maus, que por o serem durante uma vida são previsivelmente escassos, nada como a consciência aguda e a brutalidade da sinceridade.

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