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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS

Abril 04, 2013

J.J. Faria Santos

Philip Roth, embora dizendo que suicidar-se “seria idiota”, admitiu que “escrever esgota-nos, atira-nos abaixo”. Seria por essa razão que Virginia Woolf entrou rio adentro com pedras nos bolsos? Ou que Sylvia Plath depositou a cabeça no forno e abriu o gás? (“Dying / Is an art, like everything else. / I do it exceptionally well” escreveu ela sobre o dom para a tarefa da morte em Lady Lazarus, como escreveu em Years  acerca do seu repúdio da eternidade - “Eternity bores me, / I never wanted it”). Será que o ofício da escrita confere um excesso de lucidez, de capacidade analítica da realidade, que desagua com frequência no negrume existencialista? Ou será o inverso? Indivíduos com predisposição para a melancolia e o solipsismo encontram nesta arte o veículo que confirma e exponencia as suas mais íntimas convicções? (“Por mais pessimista que seja, também tenho uma dose de realidade quando acredito que a vida é sobre fracasso – nunca vamos conseguir 95 por cento das coisas que queremos. Isto é um facto básico e temos que saber lidar com ele e, depois, morrer”, disse Bret Easton Ellis, em entrevista ao Público  no ano 2000.)

Por outro lado, tornou-se um cliché associar as personalidades atormentadas à criatividade, assim como a loucura à genialidade. Previsivelmente, proliferarão sempre exemplos que confirmam os lugares-comuns. Num artigo escrito para a New Yorker  no ano passado acerca de James Joyce, Louis Menand recordou que o escritor se definiu perante Carl Jung como “um homem de pouca virtude, inclinado à extravagância e ao alcoolismo”. Para este psiquiatra suíço, discípulo e amigo de Freud, esclarece Menand, “Joyce era esquizofrénico, mas funcional porque era um génio”.

Se reflectirmos que os escritores são viciados em solidão (provavelmente um dos vícios menos nefastos que afectam a casta…), e que imitam os deuses quando constroem o seu universo ficcional, compreendemos a magnitude da empreitada. A usurpação do papel de Deus, mesmo no reino do faz-de-conta, obriga à dolorosa exposição (e confronto) das misérias e das grandezas da condição humana. E implica, à semelhança da relação tradicional entre os fiéis e o objecto da sua devoção, a probabilidade da rebeldia. É quando os personagens escapam ao escritor-deus que este se divide entre a insidiosa erosão do seu poder e o fascínio pela autonomia dos seus filhos dilectos. E nada nos aproxima mais da loucura que o contraditório nos sentimentos.

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