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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

PORTUGUESE HORROR STORY

Março 21, 2013

J.J. Faria Santos

Comentando os resultados das quase três semanas de negociações entre a troika  e o Governo, no âmbito da 7ª avaliação do programa de ajustamento, um membro da comissão política do CDS, ouvido pelo Expresso, interrogou-se: “Para quê tanto sacrifício? Para esta porcaria de resultado?”. Já um dirigente do mesmo partido próximo de Portas recorreu à ironia: “Num mês o défice de 2012 passou de 4,9% para 6,6% E a receita da ANA não explica este desvio colossal!”(Expresso, edição de 16/03/2013).

Atolado no descrédito e desorientado pela natureza rebelde da realidade, Vítor Gaspar só consegue exprimir “desapontamento” pela subida do desemprego (será que esta expressão tão longe da neutralidade asséptica do pronunciamento de carácter técnico pode ser sintoma que o ministro das Finanças, na definição arguta do catedrático dos prefácios, está a “deixar-se arrastar por pulsões emocionais”? Já Pedro Passos Coelho admitiu que é necessário “dar mais atenção aos factores de equidade”, uma formulação compreensivelmente arrevesada para quem é infinitamente mais sensível à eficácia do darwinismo social.

Com o desemprego a caminho dos 19%, a dívida pública a galopar para os 124% do PIB, o défice a derrapar, a troika a acusar o Governo de não saber comunicar e a recriminá-lo por ter feito um ajustamento sobretudo pelo lado da receita, e este a pôr em causa as suas próprias previsões, quem emergirá para nos resgatar deste filme de terror, dirigido pelo messianismo alucinado de Pedro Passos Coelho? Seguramente, só com muita boa vontade é que alguém verá no líder da oposição convicção, capacidade de definir estratégias e rumos, credibilidade para reunir competências e, sobretudo, firmeza para estabelecer rupturas face ao inadmissível. Parece demasiado enredado num abstracto sentido de responsabilidade para ter a audácia de corporizar uma alternativa mobilizadora.

E quanto ao reformado indignado que mora em Belém? Bom, a excelsa figura, soterrada em leis e estudos, vergada a uma carga horária de 10 horas diárias, atormentada pela perspectiva do défice na sua economia doméstica, porfia na sombra, numa dolorosa porque sempre injustiçada notabilíssima acção ao serviço do superior interesse nacional. Por vezes, esta quase monástica aversão ao “culto do efémero e do protagonismo mediático” descamba. É então vê-lo contribuir, por acção ou por omissão, para que se instale a ideia de estar a ser espiado, e protagonizar conferências de imprensa repentistas acerca de questões jurídicas quase esotéricas. Nestas situações, febrilmente contrariado, permitiu-se  “satisfazer os instintos de certa comunicação social”. Que se deve esperar de alguém que postulou a existência de limites para os sacrifícios que se podem exigir e assiste, impávido e hirto, à violação reiterada desses limites? O ouvidor faz agora ouvidos de mercador.

E, no entanto, ela move-se. A alternativa.

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