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NO VAGAR DA PENUMBRA

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ANATOMIA DA GREI IV- O LUTO

Março 14, 2013

J.J. Faria Santos

Já passou mais de um mês desde que o tempo de Frank se esgotou. Aparentemente, o tratamento da fractura resultante da queda desmascarou uma série de achaques que resultaram numa múltipla falência de orgãos e ele não resistiu. Há pouco mais de uma semana, o estado de saúde, já debilitado, da cunhada de Frank, que o velara, agravou-se inapelavelmente e uma complicação de cariz cerebral abreviou a sua vida. Subitamente, para a família, a ideia da morte atingiu uma dimensão avassaladora. Como se um certo inesperado evento (o falecimento) e uma incerta acumulação (um corpo e depois outro) se combinassem para subverter a aritmética da existência – a vida deveria ser mais adição do que subtracção. 

Em O Ano do Pensamento Mágico, Joan Didion retratou exemplarmente a perplexidade da vivência do luto, que junta o sentido prático das acções com o inconformismo pouco racional do pensamento. Descrevendo a tarefa de recolher a roupa, para posterior oferta, do marido, escreveu: “Ainda não estava preparada para enfrentar os fatos, as camisas e os casacos, mas pensei que podia tratar dos sapatos que restavam, já era um começo. Parei à porta do escritório. Não podia dar os sapatos restantes. Fiquei ali por um momento e depois percebi porquê: ele ia precisar dos sapatos quando voltasse.”

Seria de esperar que algo de inevitável não nos surpreendesse impreparados, todavia, a nossa capacidade de previsão fica sempre aquém da dimensão da realidade. Regressemos a Joan Didion: “Não temos maneira de saber que o funeral em si será anódino, uma espécie de regressão sob narcose, durante a qual nos envolvemos no carinho dos outros e na gravidade e significado da ocasião. Também não podemos conhecer antecipadamente ao facto (e aqui reside o âmago da diferença entre a dor conforme a imaginamos e a dor como ela é) a interminável ausência que se segue, o vazio, o verdadeiro oposto de significado, a implacável sucessão de momentos durante os quais nos confrontaremos com a experiência da ausência de significado.” (Edição Círculo de Leitores, tradução de Eduarda Correia).

É possível que a evocação de um cortejo fúnebre assuma a forma de uma celebração de vida? A resposta pode ser resoluta e inusitadamente afirmativa. A minha mais vívida recordação do funeral de Frank consiste na imagem impressiva de uma das filhas dele, de mãos dadas com o marido e os dois filhos, caminhando serenamente atrás do carro fúnebre, formando uma espécie de guarda de honra de afecto e apaziguamento. A mais bela maneira de homenagear uma vida que acaba é, certamente, alimentar a corrente de vida que continua.

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