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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

OS CONTESTATÁRIOS PREFEREM AS MORENAS, AS VILAS MORENAS

Março 07, 2013

J.J. Faria Santos

                             "La liberté guidant le peuple" de Eugène Delacroix

 

A esperança não parece morar ali. Nos rostos fechados, nas expressões amargas, nos gestos bruscos, em tudo reside a angústia de um futuro adiado. Canta-se, mas não há sinais de festa; o coro desafinado celebra uma irmandade de deserdados. Há quem derrame lágrimas, de raiva ou de comoção (devem ser piegas…). Há quem reivindique o direito ao emprego (devem ser os preguiçosos, ou os acomodados da zona de conforto…). Há quem reclame a reposição integral da sua reforma decepada (devem ser os membros da conspiração grisalha, os velhos inúteis que não se importam de sabotar o sucesso das novas gerações…). Há quem grite que o povo é quem mais ordena (devem ser os saudosistas do PREC, ou os líricos…). Há quem exija a demissão do Governo (devem ser os radicais da extrema-esquerda, os que não se conformam com as regras do jogo democrático…).

O Governo aguenta? Aguenta, aguenta! Custe o que custar! E o Pedro não é insensível… O Pedro do Facebook, o que conduz um utilitário que contribui para o envelhecimento do parque automóvel, o que vive nos subúrbios e é um adorável vizinho, o que faz questão de ensinar aos descendentes o valor do esforço e do mérito, o que vai ao supermercado e confecciona suculentas farófias, esse Pedro até era capaz de cantar a Grândola…

O pior é o outro Pedro. O Peter Steps Rabbit (chamemos-lhe assim, acrescenta-lhe à tecnocracia lusa uma aura de estadista europeu e um travo de cosmopolitismo atlantista) tem uma missão e o zelo dos déspotas iluminados no seu cumprimento. Ele é o ponta de lança da nova geração, o profeta da meritocracia e da sociedade civil do futuro, liberta da canga estranguladora do Estado. Ele é o apóstolo do triunfo da selecção natural, do Estado social dos serviços mínimos, da emergência de uma nova geração lusa expurgada dos pusilânimes, dos inúteis e dos obsoletos. Peter Steps Rabbit forma, conjuntamente com Victor Casper (recordista mundial das previsões falhadas) e o notável ministro dos pastéis de nata, You Can Call Me Al, uma formidável troika, soberbamente assessorada pelo eminente Michael Grass, notabilizado pelo seu amor ao saber, consubstanciado na sua proclamação da “busca permanente do conhecimento”, um assinalável profano Graal.

Peter Steps Rabbit quer ser o oficiante das exéquias do Portugal de Abril e o paladino empenhado do Poortugal de Março, o Poortugal que saiu à rua para gritar que “o povo é quem mais ordena”. Por que razão ninguém o ouve?

 

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