UM CONTO DE NATAL (II)
Dezembro 18, 2012
J.J. Faria Santos
2. Marco
“S.O.S. ou L.O.L?”, escrevera ela, depois de se recusar a falar com ele. Barricado na casa de banho, encostado à parede, testemunhava no espelho à sua frente o estupor que adivinhara enquanto estivera sentado na sanita, dividido entre a indecisão e a suspeita da impotência. Conseguia ouvir a algazarra do Martim, excitado com os presentes, com os avós, com as luzes, com as guloseimas. E até mesmo a Matilde, mais nova, que sempre o emocionava com a atenção extática com que absorvia pela enésima vez a leitura teatral que ele fazia da história da Cinderela, habitualmente mais circunspecta, contribuía para o alarido. Mais cedo que tarde, a Guida perguntaria com fingido agastamento: onde está o pai?
O que fazia ele ali, clandestinamente a tentar falar com quem não o queria ouvir? E com que direito é que Lana reaparecera na vida dele, vinte anos depois, como se quisesse obliterar o tempo, como se pretendesse recuperar sensações, e cobrar dívidas sentimentais e juros de mora por alegados incumprimentos reiterados. E, pior, por que motivo se deixara ele cair na emboscada da culpa? Mas, culpa de quê? E logo ele que não tinha tendência para a introspecção, e que via todo o deliberado remexer na ferida como uma falência da vontade e uma cedência ao adocicado remanso da vitimização.
Abriu a torneira e o jacto de líquido incolor ao chocar com as suas mãos produziu um borbulhar como numa fria ebulição. Ergueu-as até ao rosto e aspergiu-o com a água que não se escapara por entre os dedos numa espécie de baptismo profano. Enxugou o rosto e, ao afastar a toalha, observou-a por instantes, quase como se temesse que nela ficasse impressa a marca do seu desassossego. Talvez fosse melhor que tivesse ficado, se isso fosse garantia de que, ao reunir-se à restante família, ninguém notaria qualquer resquício de preocupação.
Ninguém notou. Entrou sorridente na sala, envolveu Guida com o braço direito, sinalizando mais amparo que posse, e preparou-se para o embate do afecto furioso de Martim e Matilde, num abraço de grupo que deixava sempre os seus sogros à beira de um ataque de comoção ternurenta. Foi, todavia, no meio desta celebração que ele percebeu que não se iria conseguir abstrair do que o incomodava. Arranjou um pretexto para se isolar e procurou no telemóvel o número de Marina.
(Continua)