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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A PONTE - UM CONTO DE NATAL (I)

Dezembro 16, 2012

J.J. Faria Santos

1. Lana

 

 

Olhando as luzes da cidade reflectidas no leito negro e pastoso, sobrava-lhe ainda presença de espírito para meditar numa evidência irónica: enquanto as ondas revoltas no mar lhe devolviam a tranquilidade, as águas paradas do rio incitavam-na à mais irremediável das rebeliões. Estática, encostada ao gradeamento, iluminada pelo luar e fustigada pela brisa cruel de Dezembro, esperava, não sabia bem o quê ou porquê. Esperava, simplesmente, com o desprendimento assustador dos desapossados.

A sul da ponte, uma mulher saiu energicamente do carro e, acedendo ao banco traseiro, recolheu três ou quatro sacos, que transportou na direcção de um prédio de apartamentos. Do lado oposto, no ponto cardeal que as bússolas indicam, um homem de blusão de couro e pasta na mão caminhava resoluto mas cansado, como se todo o peso de um dia, a carga do viver quotidiano, invadisse a noite sem remorso de lhe toldar a mente ou sabotar o repouso.

Sentiu o telemóvel vibrar no bolso. Era a única coisa que vibrava, junto ou no interior do seu corpo. Tudo o resto era uma paisagem de devastação, uma espécie de coma induzido pelos golpes do destino, ou pela sua fraqueza intrínseca, ou pela sua predisposição para a passividade, ou pela sua inadequação para o exercício de viver. Houvera um tempo em que fora capaz, em que ousara disputar o jogo, em que se entregara com galhardia ao usufruto da sua condição de membro da tribo.

Recusou a chamada e pôs o polegar oponível a compor uma mensagem. Curta e incisiva. Seleccionou um nome e carregou no enviar. Olhou para um lado e para o outro. Tenteou a melhor forma de se empoleirar no gradeamento. Lá no fundo, as águas quase paradas, mansas e baloiçantes, aguardavam a sua decisão. Hesitou. Um carro passou, cheio de vozes em alvoroço, polvilhando o ar com as ondas sonoras do “Driving Home for Christmas”, do Chris Rea. “Driving”? Porque não “Diving”, pensou obscenamente divertida. Mergulhar num Natal molhado de espessa escuridão. 

(Continua)

 

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