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NO VAGAR DA PENUMBRA

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SEGREDOS, MENTIRAS E ILUSÕES

Outubro 11, 2012

J.J. Faria Santos

“Twenty houses in a row / Eighty people watch a TV show / Paper people, cardboard dreams / How unreal the whole thing seems”. Assim principia o tema “Paper Maché”, com letra de Hal David, composto por Burt Bacharach e vocalizado por Dionne Warwick.

Não sei quantas centenas de milhares de pessoas correspondem ao share superior a quarenta por cento que certa gala da terceira edição do programa Casa dos Segredos atingiu. O que sei é que esta celebração profana com recursos quase religiosos (o “confessionário”) até tem como oficiante uma espécie de sacerdotiza do reality show.

Não deixa de ser irónico que, num programa cuja chave reside na promessa da revelação, o mais surpreendente seja o que é do domínio do visível: a forma estarrecedora como os concorrentes prescindem da privacidade, a inanidade presente nos diálogos que estabelecem, a alegre inconsciência com que quase celebram o desconhecimento e, sobretudo, o voluntarismo com que a troco de um módico de “celebridade” põem em risco a dignidade pessoal.

É certo que, na era do Facebook e dos perfis pessoais online, se esbateu a linha entre o que é público e que é privado, reforçando-se, por outro lado, a distinção entre o que é privado e o que é íntimo. No entanto, neste caso, está-se muitas vezes no domínio de uma exposição construída, fabricada, que vai de encontro ao que cada um julga ser as expectativas dos outros. Já na Casa dos Segredos, porém, a protecção do artifício é limitada pelas condições do próprio jogo (cada um sofre as investidas dos concorrentes em busca do segredo oculto), e pela omnisciência da produção. Não há rede neste paraíso da sobreexposição mediática. Dir-me-ão: mas os participantes não terão a noção desse grau de desnudamento físico e psicológico? A ver pelo percurso de alguns ex-concorrentes deste e de programas similares, não é certo que a tenham, muito menos das consequências da celebridade (na verdade, tornam-se mais infames que famosos).

Na busca algo ingénua da fama e do proveito (uma espécie de rota para a felicidade perpétua), a juventude dourada do Portugal em ajustamento demonstra uma vontade indómita de não perder uma oportunidade, nem que seja a oportunidade de se iludir. “There’s a sale on happiness / You buy two, and it costs less”, canta Dionne com velada ironia.

 

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