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NO VAGAR DA PENUMBRA

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MARTIN AMIS, A AMÉRICA E O DESCALABRO DO PASSISMO

Setembro 13, 2012

J.J. Faria Santos

Martin Amis, reputado escritor inglês agora radicado nos Estados Unidos (mais exactamente em Cobble Hill, Brooklyn, numa residência que partilha com a mulher, a também escritora Isabel Fonseca, e dois filhos), escreveu para a Newsweek  as suas impressões acerca da convenção republicana em Tampa. Impressionado pelo aparato de segurança, entediado pela banalidade (e inanidade) repetitiva dos rituais da militância e convencido que o fervor religioso de Mitt Romney se reflecte na sua jovialidade (“A consciência da mortalidade é em si um factor de envelhecimento”, afirma Amis, achando que o candidato republicano tem “o ar de quem pensa seriamente que vai viver para sempre”), o repórter acidental acaba a elogiar a portentosa serenidade de Obama. Talvez com uma réstia de provocação, o artigo abre com uma citação de Lenine e termina com uma outra de Gorki, fazendo referência pelo meio à ideia de Henry James de que a “América é mais um mundo que um país”.

Amis afirma que a oratória do candidato a vice-presidente, Paul Ryan, foi o detonador do momento de maior triunfalismo, mesmo que no dia seguinte a conclusão generalizada tenha sido a de que o seu discurso estava recheado de imprecisões e mentiras. O escritor contesta veementemente a noção, adiantada por elementos da campanha republicana, de que, actualmente, não existe “penalização” pelo logro político, ou seja, pela utilização despudorada da falsidade como argumento de persuasão política. “Os efeitos da desonestidade são cumulativos”, defende Martin Amis, antecipando um dado momento no futuro em que o eleitor não tolerará mais ser enganado, criando-se também o género de desconforto que impelirá os indecisos a escolher.

Por outro lado, considerando que os americanos têm uma “reverência supersticiosa pelo dinheiro”, o escritor acha que em nenhum outro país da Terra seria aventada “a única ideia dos republicanos  até ao momento neste século”: cortes nos impostos para os ricos, medida que ele considera não só indecente como um “comprovado falhanço”. Em jeito de conclusão, interroga-se: “sabemos que os republicanos se recusam a ceder (to compromise) perante os democratas. Durante quanto mais tempo se recusarão a ceder perante a realidade?”.

Transportemos estes dois tópicos (a mentira na actividade política e a cega persistência num rumo cujo virtuosismo a realidade desmente) para o território mais ocidental de um outro continente, mesmo que os enquadremos numa conjuntura de “governação tutelada” e consequente limitação de soberania. Qual a racionalidade por detrás desta versão intocável do “ajustamento”? Os politólogos e os líderes de opinião dividem-se entre duas hipóteses: encarniçamento ideológico ou experimentalismo. Estamos, pois, perante duas leituras possíveis da realidade política: ou o poder executivo está nas mãos de aprendizes de feiticeiro (entretidos a criar um Frankenstein socioeconómico) ou, após décadas de governação inspirada pela social-democracia e pela democracia-cristã, o destino de Portugal é agora delineado pela direita radical.

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