CRIMES DE LESA-MAJESTADE
Junho 06, 2012
J.J. Faria Santos
Imagem: freefoto.com
Não! Não vou escrever sobre a informalidade, o amadorismo, a megalomania, o despudor, a promiscuidade, a patente ausência de noção de serviço público que corroeu e corrói os serviços secretos. Esqueçam a “lista de compras” e os clippings, o panda e outros animais, os sms e os e-mails, os eventos sociais e as reuniões de negócios, os relatórios apócrifos e as guerras empresariais. Esqueçam…mesmo que se enterneçam com cenários de inquéritos em que o inquiridor vai recolher o testemunho a casa do inquirido, lhe manda mensagens de encorajamento ou de apelo à calma. Compreendam, porém, que os nossos serviços secretos não são o MI5 nem o FBI, são, outrossim, uma espécie de spies’r’us.
Não! Os crimes a que alude o título deste post (fervorosamente hiperbólico…) são do domínio da ficção, o que não diminui a sua censurabilidade, sendo até passíveis de causar alarme emocional. A ideia aventada de transpor a saga de Hannibal Lecter para a televisão só seria admissível se pudesse contar com a interpretação de Anthony Hopkins. Ninguém mais será capaz de lhe conferir aquela mescla de erudição, sentido de humor e implacabilidade, de se abeirar do excesso sem cair no grotesco. Quem mais seria competente para emular a sua sofisticação de gourmet em frases como “I ate his liver with some fava beans and a nice chianti” ? E quem mais poderia declamar frases como “I’m giving serious thought to eating your wife" , onde o frémito do desejo dá nova amplitude ao canibalismo (ou vice-versa), dando-lhe a adequada camada de ambiguidade, entre o jocoso e o ameaçador, sem derrapar para a vulgaridade?
Por outro lado, a ideia peregrina de fazer o 007 trocar o seu martini dry pela cerveja é tão estapafúrdia que até parece ter saído do “ departamento de clipping” dos serviços secretos lusos. É verdade que podemos imaginar um Zé Gato, em plena missão ultra-secreta, a sentar-se ao balcão de uma tasca, a lambuzar-se com a espuma da cerveja enquanto catrapisca uma operária do sexo de perna enredada, busto industrial e olhar glutão de desejo profissional, mas James Bond? Imaginá-lo de smoking a aproximar-se de um bar de hotel, dissimuladamente a avaliar a disponibilidade da morena de decote vertiginoso, profissional e distinto, para acabar a pedir uma cerveja é uma afronta à nossa memória cinematográfica.
Perante estas duas heresias, só existe uma resposta admissível: não! E eu diria mesmo mais: não, não, não ,não…e não!
