O DESPERTADOR DE LEÕES E O MESTRE DA TÁCTICA
Janeiro 25, 2026
J.J. Faria Santos

O despertador de leões gosta de se mostrar intransigente com a “bandidagem” e até já asseverou que “no Chega, não há espaço para bandidos”. O candidato presidencial do “espaço não-socialista” diz que é “intolerável à violência” e que o Chega quer “melhorar a democracia”. Confrontado com o apelo ao voto nele que o grupo 1143 fez, recusa demarcar-se e explica que quer “o voto dos portugueses comuns”, e que nesses “portugueses comuns, estão pessoas de todos os tipos”. O grupo 1143 enfrenta uma acusação do Ministério Público por discriminação e incitamento ao ódio, é descrito como uma organização criminosa com ideologia neonazi e alguns dos seus elementos são suspeitos de se terem preparado para o “combate urbano” e até para uma “guerra racial”. Se tempos houve em que Ventura dizia liderar os “portugueses de bem”, agora pretende recolher o voto de “pessoas de todos os tipos”, incluindo criminosos condenados por incitamento ao ódio e à violência. A Rita Castro e João Peixoto, membros do 1143 que já figuraram como candidatos autárquicos pelo Chega, foram apreendidas diversas peças de merchandising do grupo, algumas delas com a inscrição “Os lobos não usam coleira”. André Ventura proclamou, entre o messiânico e o bíblico: “Eu não vim guiar cordeiros, eu vim despertar leões”. Os lobos, pelo menos, já estão de olhos bem abertos.
O mestre da táctica tem sido vastamente censurado pela sua opção pela “neutralidade” na segunda volta das presidenciais. Há quem ache que ele agiu “apenas por medo e não por convicção” (Ana Sá Lopes), posição secundada por António Barreto (“sinal e retrato de uma triste covardia de quem não corre riscos”). E há quem se concentre no “erro estratégico” que resultará na permissão para os eleitores do PSD votarem em Ventura, abrindo um precedente com possíveis consequências trágicas no futuro, para Montenegro e para o partido. Na formulação certeira de Manuel Carvalho no Público, “quando se troca a liberdade da democracia pela segurança nas carreiras, acaba por se perder as duas”. Enredado no seu tacticismo, é bem possível que Montenegro ache que a profusão de figuras de direita e centro-direita, e do próprio PSD, que apoiará Seguro o dispensará de marcar posição, e que os portugueses compreenderão que a sua renúncia se destina a preservar as condições de governação. “Planar”, como ele lhe chama, sem meditar que “sustentar-se no ar, com as asas estendidas, sem movimento aparente” não é propriamente sinónimo do “ímpeto reformista” que ele gosta de reivindicar. Mas esta proximidade entre Ventura e Montenegro parece ter resultado num dano colateral: acentuou-se a tendência para o primeiro-ministro proferir falsidades, agora despidas da ambiguidade e da escassa clareza que costumam caracterizar as suas declarações. Manuel Carvalho notou no artigo citado que “é uma mentira” dizer que “’o espaço político’ do PSD não está ‘representado na segunda volta’”. Escassos dias antes, o líder do PSD tinha classificado Seguro e Ventura como “dois extremos”. O líder do Chega combina o discurso agressivo, a ausência de propostas concretas, os slogans populistas e grosseiros e o tom esganiçado com a mentira compulsiva. Parece que o líder do PSD se rendeu às virtudes da pós-verdade e diz o que lhe vem à cabeça. O que o torna, entre outras coisas, vulnerável à sátira. Coisa que o tira do sério. E que lhe é muito mais incómodo do que acusações de apaziguamento ou colaboracionismo.
