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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

MENTALIDADE CRISTIANO RONALDO? É PREFERÍVEL A MENTALIDADE CAROL STURKA.

Dezembro 31, 2025

J.J. Faria Santos

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O que poderão desejar os portugueses para 2026? Acho que está na altura de fazer uma “reforma estrutural” ao cardápio de desejos. Que deve começar logo no vocativo. Temos de seguir o exemplo do primeiro-ministro na mensagem de Natal e privilegiar as formulações que incluam a palavra “compatriota” – “estimados compatriotas” e “caros compatriotas”. E temos de ser mais ambiciosos, não nos contentarmos apenas com a saúde, o amor e a paz (tudo coisas que namoram o efémero). Temos de “Acreditar” (com maiúscula) em nós, ingerir shots de “mentalidade Cristiano Ronaldo”, para “não só fazermos diferente”, mas também “fazermos a diferença”. Como nos garantiu o primeiro-ministro (em mais um exemplo de paixão pelas maiúsculas): “A Família Portuguesa, enquanto país e nação, tem motivos para se reunir e olhar com Esperança para o futuro.” Não é que eu queira ser picuinhas, mas por que razão o “futuro” é minúsculo se a “Esperança” transborda? E como se justifica que o “país” seja minúsculo quando, citando o chefe do governo (minúsculo na minha avaliação), “Portugal é hoje uma referência a nível europeu e mundial?”

 

Não sou fã da “mentalidade Cristiano Ronaldo”. Deploro que a competência profissional, a ética de trabalho e o esforço permanente de superação sejam manchados por um narcisismo que o impede de moderar as atitudes de soberba , as declarações destemperadas e as companhias que escolhe. É por isso que no cosmos Ronaldo a admirável filantropia se mistura com a convivência com ditadores sanguinários ou com o endosso a um Trump que despreza a Europa e procura implantar nos EUA uma autocracia ou um “regime autoritário competitivo”. Talvez a “mentalidade Cristiano Ronaldo” que o primeiro-ministro aprecia possa ser sintetizada nas palavras daquele a Piers Morgan, em que explicou “não ligar muito ao dinheiro”, mas frisou que “ser multimilionário era um dos meus objectivos”.

 

A ideia dos portugueses, perdão, dos compatriotas transformados em clones mentais do “melhor futebolista do mundo” não me é apelativa. Como alternativa e como hipótese meramente académica, proponho a “mentalidade Carol Sturka”. Sturka, para os mais distraídos, é a protagonista da série Pluribus, escritora de sucesso que se descobre imune a um vírus que transforma toda a humanidade numa espécie de irmandade pacífica e a beira da euforia. O contraponto é a assimilação, a abdicação da individualidade, a rasura da diferença, a diluição numa consciência colectiva. Carol Sturka, sarcástica, pessimista, amarga por vezes, resiste a uma organização mundial de felicidade que retira a cada pessoa o atestado de humanidade: a incerteza, a inquietação, o engano, a falha, a descoberta. É o género de pessoa que torce o nariz a mantras políticos manhosos comandados pela palavra “Acreditar”, grafada em caixa alta. É o género de pessoa que prefere palavras como “questionar” e “escolher”. No fundo, uma “mentalidade” assente na palavra Liberdade.

 

Imagem: a actriz Rhea Seehorn enquanto Carol Sturka 

É NATAL E HÁ QUEM LEVE A MAL

Dezembro 24, 2025

J.J. Faria Santos

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É Natal e há quem leve a mal. Isabela Figueiredo (de quem li o corajoso e incontornável Caderno de Memórias Coloniais) é uma dessas pessoas. Em crónica no jornal Expresso, deplorou “a mesma música todos os anos”, a “muita alegria e muito amor irreais” nos programas de televisão e na publicidade, as oportunidades que a quadra proporciona para “consumir irracionalmente” e o “ambiente de Natal tradicional, “penoso” para os solitários que, mesmo que participem nas celebrações dos amigos, sentir-se-ão sempre como se estivessem no “mundo dos outros (…) de passagem e por piedade”. No “mês mais triste do ano”, confessa ela, só escapa a “lareira acesa”, com “as suas chamas coloridas e o calor que se espalha pela casa”.

 

Contrariamente à cronista, sou um fã dos rituais da época. Não consigo escapar ao apelo dos hits natalícios (o veludo na voz de Nat King Cole em The Christmas Song ou a surpreendente sobriedade da versão de Blue Christmas  de Céline Dion, com Diana Krall ao piano, já para não falar do  meu favorito, Have Yourself a Merry Little Christmas, do qual me entretenho a procurar novas versões no YouTube). E dificilmente resistirei a ver de novo, mesmo que seja de forma pouco atenta, o filme O Amor Acontece, que não se esquiva a satirizar o “Natal tradicional” e onde a alegria pode ser “muita” mas nunca se insinua que será perpétua, e o amor mais do que “irreal” é apresentado como fruto de um trabalho por vezes árduo ou da capacidade de esquecer, não descartando a hipótese de estar condenado ao unilateralismo.

 

Se Isabela Figueiredo questiona “árvore de Natal e luzinhas para quê ou quem”, eu respondo: para meu deleite. A tradição instituída por mim é a de que todos os anos adquiro um novo enfeite para juntar aos que transitaram da época anterior. Os enfeites são, com raríssimas excepções, de cor vermelha ou amarela. Dada a heterogeneidade das peças, a sua colocação na árvore obedece a uma certa harmonia cromática horizontal ou vertical, pondo as peças douradas em cima e as vermelhas em baixo ou, em alternativa, umas mais à esquerda e outras mais à direita. Anjos, Pais Natais, sinos, renas, candelabros, imitações de bonecos de neve ou de ramos de azevinho espalham-se por diversas divisões da casa. Decorar a casa no Natal não é para mim uma imposição comercial, uma pressão familiar ou social ou uma competição com a vizinhança. E uma questão de prazer pessoal, sem concessões à extravagância ou preocupação com modas.

 

Entendo mal que Isabela Figueiredo ache que “para quem tem pouca família e não encontra forma de criar um ambiente de Natal tradicional, tudo é penoso”. É que o Natal tradicional é como a família tradicional: é mutante e está em evolução. E não vejo mal nisso. Nem compreendo por que razão uma noite de consoada como será previsivelmente a minha, com menos pessoas que os dedos de uma mão, não se enquadre no conceito de Natal tradicional, mesmo se, para mim, a palavra Natal dispensa o adjectivo.

 

Por outro lado, percebo as suas considerações acerca dos solitários, de quem não tem família ou dela se afastou e da sua difícil inserção no “mundo dos outros”. Mas não posso deixar de notar que a piedade é compaixão e que esta pode ser definida como “um impulso altruísta e solidário para com quem sofre” (Dicionário online Infopédia). Existirá algo mais natalício? E mesmo que o “solitário” se sinta “de passagem” e sem pertença, não precisamos todos do conforto dos “estranhos” (da “gentileza dos estranhos”) nos intervalos das nossas estadas nas células mais estáveis da sociedade? E gosto de pensar que, em última análise, Natal é sobretudo ser capaz de tornar nosso o mundo dos outros e deixar que os outros se aventurem pelo nosso.

 

O MINISTRO DA EDUCAÇÃO E OS CUSTOS DE (DES)CONTEXTUALIZAÇÃO

Dezembro 21, 2025

J.J. Faria Santos

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Esta semana ficámos a saber que se de repente um ministro da Educação afirmar que se “metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar de um serviço público, nós sabemos que o serviço publico se deteriora”, isso não é um lapsus linguae na vizinhança do preconceito ou do estigma, ou uma formulação infeliz, tratando-se, evidentemente, da explanação de um princípio fundamental da obra de um sociólogo que deu aulas na London School of Economics. Três breves notas sobre a polémica da semana.

 

Sendo ministro de um executivo que não esconde o seu desprezo pela “bolha mediática” e que ostensivamente prefere prescindir da intermediação jornalística quando comunica com o “povo que está com este Governo”, e supondo que o destinatário do seu discurso acerca do novo modelo de acção social no ensino superior seria esse mesmo “povo”, é no mínimo insólito que Fernando Alexandre parta do princípio de que a generalidade dos portugueses é versada nas teorias e conceitos de Richard Titmuss. Acresce que o Governo de que faz parte, a começar de forma exuberante pelo primeiro-ministro, é conhecido pela avareza das explicações e pela ambiguidade das proclamações, o que aconselha clareza e profissionalismo nos discursos públicos (ou será que a central de comunicação/propaganda está vocacionada apenas para a produção de “informação chave na mão”?)

 

O senhor ministro queixa-se de que as suas declarações foram descontextualizadas. Admitamos que sim. E que o académico se esqueceu de que também é um político a dirigir-se às massas. Sucede, porém, que Fernando Alexandre, por sua vez, também já tirou proveito da descontextualização, como quando acusou o reitor da Universidade do Porto de “mentir sem qualquer pudor”, afirmando que este dissera ao Expresso ter sido pressionado pelo ministro da Educação, facto imediatamente desmentido pelo reitor e que não encontra suporte na notícia do jornal. Se uma descontextualização não desculpa a outra, a incoerência retira alguma legitimidade. E não ajudou a soberba e a prepotência com que se propôs aceitar a demissão do reitor, algo totalmente alheio às suas atribuições e poderes.

 

O ministro da Educação não é um simples técnico prestigiado a debutar na dura arte de governar a nação. Tem experiência política e vocação para tiradas ambiciosas que acabam em manchetes de jornais. Como no caso da fantasiosa redução de 90% dos alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina, que acabou num honroso “pedido de desculpas” ao jornal Expresso e na admissão de ter fornecido “dados errados” e “não credíveis”. E como sucedeu quando se aventurou no esoterismo e decretou com sapiência que “alguém que anda em manifestações perde a aura”. Talvez um pouco de bom senso e alguma prudência sejam recomendáveis na transposição de conceitos académicos para o discurso político. Doutro modo, qualquer dia, ainda alguém se lembra de dizer que políticas para os pobres são políticas pobres.

MONTENEGRO NO TOPO (DO DELÍRIO)

Dezembro 14, 2025

J.J. Faria Santos

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Adicione-se à megalomania um exacerbado sentido de missão e uma vocação inegável para a propaganda estratosférica e o resultado é Luís Montenegro. Demos de barato que a alienação da realidade que o exercício do poder rodeado de bajuladores produz ainda não se manifestou. Estará, então, no terreno da realidade alternativa, ou, de forma mais benevolente, a promover de forma activa uma visão parcial dessa mesma realidade.

 

Se quiséssemos ser ainda mais indulgentes, poríamos a frase do primeiro- ministro “Estamos no topo: da Europa e do Mundo” ao nível de uma outra do Presidente Marcelo – “Nós somos o maior e o melhor país do mundo”, isto é, na categoria das frases proferidas por uma espécie de life coach ou provedor de auto-estima, sem pretensão de rigor ou veracidade. Sucede que o delírio ou a desonestidade intelectual estendeu-se ao valor do salário mínimo num futuro indeterminado, minando as fundações da nossa clemência. Montenegro garante que os 1600 € de RMMG (retribuição mímina mensal garantida) e o salário médio de 3 000 € constituem um cenário “realista”, e propõe-se “calendarizá-lo quando tivermos os alicerces”. O jornalista do Expresso João Silvestre, pouco impressionado com os atributos de engenheiro civil do primeiro-ministro, titulou a sua coluna “Porque não um salário de €1 milhão para todos?”, notando ainda que “ao ritmo da última década, serão necessários 11 anos até chegar aos €1600”.

 

Montenegro está sob a influência da revista The Economist e do galardão de “economia do ano” atribuído a Portugal, cujo comportamento neste ranking tem sido algo ciclotímico: 2º em 2022, 8º em 2023, 16º em 2024 e, agora, a liderança triunfal. Os portugueses certamente ficariam atordoados se se pusessem a matutar nas razões explicativas para este salto (de 16º para 1º), procurando avidamente no seu viver quotidiano e nos dados estatísticos evidências de alterações significativas. Parece que a posição neste ranking “muda muito com as variáveis usadas”, refere o economista Gonçalo Pina ao Expresso. E este ano, as variáveis…variaram. Voltaram os “indicadores de 2023”.

 

Uma vez que na economia a gestão de expectativas é determinante, influenciando as decisões relacionadas com o consumo e o investimento, e que Portugal é uma economia aberta fortemente condicionada por dinâmicas externas, é positivo que uma revista prestigiada sublinhe o “forte crescimento do PIB, a baixa inflação e um mercado de acções em alta”. Podemos relevar as limitações do mercado bolsista português e ignorar que “o forte crescimento do PIB”, pelos próprios critérios do Governo, seria considerado “medíocre”. Com o que não podemos compactuar é com a demagogia desbragada de quem vende ilusões, promessas sem alicerces e um futuro radiante a prazo indeterminado.

 

POSTO DE ESCUTA

Dezembro 07, 2025

J.J. Faria Santos

 

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A Justiça é um posto de escuta. Métodos investigativos estilo Sherlock Holmes estão claramente obsoletos. Que maneira mais eficaz haverá de a partir de indícios provar a ilegalidade, para além de qualquer dúvida razoável, do que escutar de viva voz os suspeitos? Claro que, por manifesta “falta de meios”, as intercepções, da ordem de grandeza das centenas de milhar, são uma tarefa hercúlea. As escutas non-stop, por exemplo, que chegam a durar o equivalente a uma legislatura, permitem uma análise preciosa do perfil do putativo meliante. Evidentemente, salvo qualquer lapso  ou erro de julgamento, estes procedimentos respeitam escrupulosamente o princípio da legalidade. Como não poderia deixar de ser. Os magistrados são patriotas de alto calibre moral, insusceptíveis de se deixarem contaminar por pragas como o populismo antipolítico ou a visão apocalíptica de uma nação atolada na corrupção. E sabem que a avareza no uso da palavra é um sinal de distinção e sapiência intrínseca.

 

Há umas ovelhas ronhosas na classe. Como aquele juiz-conselheiro que escreveu que as escutas são “apenas um meio de prova de factos integrantes de ilícitos criminais e não um meio de escrutínio da actividade governativa”. E que “não podem servir para escancarar a acção governativa”. Porque não? E a transparência? E a dessacralização do poder? Ninguém está acima da lei, e quem não deve, não teme. E também se indignam com a divulgação na comunicação social das intercepções, muitas delas inócuas e banais. Vistas bem as coisas, se a população aprecia reality shows, por maioria de razão vibrará com este Big Brother Governo, mesmo transmitido em diferido.

 

Em Novembro de 2023, o irregular funcionamento das instituições judiciais conduziu à demissão do então primeiro-ministro. Um parágrafo amplificando uma suspeita assente em hearsay (nas aspas das escutas) colocou um ponto final num governo de maioria absoluta e um ponto de interrogação na honorabilidade de António Costa. Passados dois anos, e alterada a titularidade do cargo de PGR, a Justiça persiste, em relação à Operação Influencer, no seu modus operandi de eleição: inquérito interminável e vazamento de informação para a comunicação social, com o consequente perpetuar da suspeita e o acirrar do julgamento popular. Já sabemos: é o tempo e o modo da Justiça, que arrisca atribuir um significado extra ao conceito de irresponsabilidade constante do Estatuto dos Magistrados Judiciais.

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