O ALMIRANTE NO SEU LABIRINTO
Fevereiro 22, 2025
J.J. Faria Santos

Corria o mês de Fevereiro (do latim februarius, associado a Fébruo, deus da morte e da purificação) quando Henrique Eduardo Passaláqua (sobrenome italiano que significa pássaro de água, claramente um sinal de predestinação) de Gouveia e Melo decidiu enviar um texto ao Expresso. O jornal acusou a recepção (“do ex-chefe do Estado-Maior da Armada recebemos este artigo”), como quem diz, ninguém lhe pediu nada, ele é que quis enviar, procedendo à respectiva publicação.
O almirante entrou à bruta. Escreveu que se situa “politicamente entre o socialismo e a social-democracia”, o que teve dois efeitos imediatos: alienou os votos do Chega, da Iniciativa Liberal, do CDS e da ala do PSD que tem um choque anafiláctico cada vez que ouve a palavra socialismo; e lançou meio ciberespaço numa frenética consulta de ferramentas de inteligência artificial para tentar perceber a diferença entre socialismo (ou socialismo democrático?) e social-democracia. O socialismo do almirante é o do PS ou o do PCP? A social-democracia do almirante é a do PS ou a do PSD? Vá lá que mais à frente esclareceu que “o Estado não deve cair na tentação de conduzir a economia” e que os empresários devem estar “na linha da frente do caminho para a prosperidade”.
Gouveia e Melo escreveu que “os partidos políticos são fundamentais para o bom funcionamento da democracia”, mas não consegue evitar tratá-los como se eles tivessem peçonha, razão pela qual o Presidente não pode estar “associado a uma facção política, pois não terá a independência necessária para representar o interesse colectivo”, e tem de funcionar como “um poder-contrapoder de um sistema democrático equilibrado”. A aplicação estrita deste raciocínio conduziria a que jamais qualquer governo eleito fosse encarado como capaz de representar o “interesse colectivo”.
O almirante, com o seu perfil disciplinador e amante da ordem (há quem diga autoritário) defendeu, a propósito da liberdade de expressão, que “a democracia tolerante por natureza, não deverá, em defesa própria, permitir ideias e práticas intolerantes”, o que, sendo à primeira vista compreensível, poderá levantar questões relevantes acerca de quem determinará o que são “ideias práticas e intolerantes” (o próprio almirante-presidente?), com os riscos de subjectividade e arbitrariedade.
Almejando suceder a Marcelo, o Dissolvente, Gouveia e Melo descarta o chumbo do orçamento como motivo para convocar eleições, mas aventa como motivo para a dissolução do Parlamento um “desfasamento grave entre os objectivos-prática do Governo e a vontade previamente sufragada pelo povo”, ou seja, a quebra de promessas. É certo que ele se refere a um “desfasamento grave”, mas esta condição abre um largo espectro de possibilidades.
Num texto em que abordou “os tempos perigosos, com actores poderosos a tentar subverter a ordem mundial em função dos seus interesses”, sintomaticamente ignorou a possibilidade de “morrer para defender a Europa” e a defesa de cortes nas despesas sociais para alavancar o aumento dos gastos militares. Gouveia e Melo é agora um político em construção, o candidato do bloco central de eleitores, que quer ser o candidato de todos os portugueses antes de ser o Presidente de todos os portugueses, à margem dos interesses partidários. E nem falta uma tirada à Gustavo Santos: “É preciso saber sonhar, mas, acima de tudo, é essencial concretizar o sonho.”
Imagem: Wikimedia Commons (public domain)


