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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O PIANISTA

Junho 30, 2024

J.J. Faria Santos

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Janelas estilhaçadas com vista para a natureza. Destroços no chão de um compartimento, onde a claridade se imiscui para desenhar sombras. No meio do retrato do caos, um militar das Forças Armadas ucranianas toca piano. Variações sobre a guerra. Só podemos imaginar se ele, num intervalo das trevas do combate, escolheu um nocturno melancólico para sublinhar o torpor de um soldado cansado da desumanidade, ou se, tomado por uma ânsia de oblívio, se lançou num scherzo vivaz, deslizando os dedos pelas teclas com a alegria tensa de quem tacteia a pele de um interesse amoroso. Tudo é precário neste cenário, tudo apela à incongruência, tudo parece desmentir a inesperada irrupção da beleza num palco de destruição.

 

E o piano estará afinado? As cordas sob tensão terão resistido às flutuações de temperatura, à humidade, à utilização mais ou menos intensiva e a esse fenomenal teste de stress que é um conflito bélico? Se escutar nos fosse permitido, obteríamos nitidez sonora e um timbre apurado? Neste interlúdio na cidade de Chasiv Yar, equipado com capacete e, porventura, colete à prova de bala, um homem de armas sentado ao piano desafia os deuses do Apocalipse. Que alguém no meio da barbárie, abstraindo-se do caos e da destruição, procure resgatar a voz de um piano ferido na sua imponência e no seu brilho, eis um sinal de que os ventos de guerra não dobram os espíritos indomáveis.

 

Imagem: Jornal Público

O MINISTÉRIO PÚBLICO E A PROCURA ACTIVA DO CONHECIMENTO FORTUITO

Junho 23, 2024

J.J. Faria Santos

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A procuradora-geral da República, com aquela determinação, presteza,  sentido de responsabilidade e apego ao rigoroso cumprimento da legalidade que se lhe conhece, abriu um inquérito à violação do segredo de justiça, consubstanciada no acesso concedido à CNN Portugal de “todas as conversas  e detalhes que constam dos 21 volumes e 16 apensos da Operação Influencer”.

 

A origem deste rigoroso exclusivo Ministério Público/CNN Portugal/TVI, tendo em conta que, segundo o jornal Expresso, “os arguidos do processo, incluindo o ex-ministro João Galamba, estão há cinco meses sem fazer uma consulta actualizada aos autos e continuam sem ter acesso às gravações telefónicas de que foram alvo ao longo de quatro anos”, só pode ser assacada ao órgão titular da acção penal, o que lhe confere, objectivamente, o estatuto de fora-da-lei. Já não bastavam as escutas non-stop plurianuais, a guarda de escutas criminalmente irrelevantes à espera de melhor oportunidade, as ilações abstrusas e a presunção de culpabilidade da classe política.

 

Parece que o motivo pelo qual se mantêm escutas telefónicas sobre matérias estranhas a determinado processo se deve aos “conhecimentos fortuitos”, não relacionados, por conseguinte, com o que está a ser investigado, mas susceptíveis de originarem novos inquéritos. Eu diria que as escutas non-stop plurianuais configuram uma procura activa do conhecimento fortuito. Por outro lado, para o Supremo Tribunal, a jurisprudência prevalecente é a de que só se destroem escutas que digam respeito a segredos de Estado. O resto é para preservar, de forma a manter em sentido uma classe vista como propensa a controlar o poder judicial e a sucumbir às mordomias que a corrupção proporciona.

 

O mais recente desempenho do Ministério Público tem sido objecto de severas e merecidas críticas, com alusões a processos kafkianos,  julgamentos políticos, “vigilância própria de um estado policial”, “autonomia que ronda a arbitrariedade” e “violação das regras básicas do Estado de Direito Democrático, com envolvimento e participação de responsáveis dos sectores da justiça e da comunicação social”.

 

Lucília Gago justificou a existência de um certo parágrafo por uma “necessidade de transparência” (e por interpostas “fontes judiciais” fez questão de esclarecer que temia que o MP viesse a ser mais tarde acusado de proteger o primeiro-ministro). Aplicando o mesmo raciocínio, espero que o inquérito agora aberto à violação do segredo de justiça obedeça à celeridade das conclusões, bem como nas sanções que sejam de aplicar, e à transparência na sua comunicação. A “costumada justiça” já não nos serve. Doutra forma, perceberemos que a PGR só está preocupada em proteger o MP e, de caminho, com o seu irresponsável silêncio, assiste impávida à implosão do Estado de direito.

O ESPELHO NÃO REFLECTE O PERFIL

Junho 16, 2024

J.J. Faria Santos

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A revista Salus Magazine publicou a 7 de Março uma entrevista a Ana Paula Martins, desafiando-a a definir o perfil do próximo ministro da Saúde. A resposta foi: “alguém que olha para a evidência como uma fonte substantiva de apoio à decisão”, “que não se feche no gabinete”, “que apareça sem ser convidado e que surpreenda, que apoie quem está no terreno”. Em síntese: “um perfil de sabedoria, energia, e resistência”, ou seja, alguém com a perfeita noção do seu campo de acção, das tarefas delegadas nos organismos que superintende, consciente dos constrangimentos do SNS, pronta a colaborar com quem está “no terreno” e a avaliar as situações de forma rigorosa, com base na “evidência”.

 

3 episódios recentes revelaram que a agora titular do ministério enfrenta severas dificuldades para se encaixar no perfil que definiu. Em relação ao Plano de Contingência do Verão do SNS declarou-se surpreendida por ele ainda não existir e mostrou contrariedade pelo facto de a Direcção-Executiva não o ter preparado, para logo depois se perceber que tal tarefa era incumbência da Direcção-Geral de Saúde, cujo referencial orientador já tinha sido publicado, demonstrando assim desconhecimento em relação ao funcionamento do próprio ministério e leviandade na avaliação das responsabilidades da Direcção-Executiva.

 

Na Assembleia da República, a ministra declarou enfaticamente que há “lideranças fracas” nos hospitais portugueses. Mesmo que se louve o grau de exigência, para quem pretende a colaboração de quem está no “terreno” talvez fosse avisado analisar primeiro as condições de exercício do cargo em cada instituição (orçamento, número de profissionais disponíveis, tipo de morbilidades, etc.), antes de fazer proclamações genéricas susceptíveis de instalar um clima desestabilizador e potencialmente injusto. Que têm um efeito pernicioso adicional: é que para que a autoridade de quem comanda seja reconhecida pelos subordinados é indispensável que se sustente na lisura dos procedimentos e na clareza das instruções.

 

Por fim, a ministra socorreu-se dos dados que constam na página 26 do Plano de Emergência da Saúde, repetindo que o número de doentes oncológicos em lista de espera acima do Tempo Máximo de Resposta Garantida (TMPG) era, em Abril deste ano, de 9 374, o que é manifestamente falso. Nesta data o número ascendia a 2 645. Na primeira semana de Junho aguardavam cirurgia 2 341 doentes foram do TMPG. Convém que a “evidência” que “apoia a decisão” seja à prova de bala e imune a lapsos porventura induzidos pelo calor da luta política.

 

O Plano de Emergência da Saúde tem o subtítulo de Um Plano de Emergência e Transformação. O ex-ministro da pasta, Correia de Campos, disse, em entrevista ao Público, que ele é “um plano de emergência, não estratégico”, que parte das medidas não é nova, mas de “pura continuidade”, e que “com a consideração mítica de que o privado resolve tudo, acaba por ser estratégico nas consequências de destruição do SNS”. Confrontado com a ideia do recurso aos sectores social e privado, depois de esgotados os recursos do SNS, Correia de Campos recorda que “no sector privado mais de 70% dos médicos trabalham também no SNS”.  

 

A ideia que perpassa na comunicação social e entre os profissionais de saúde é a de ausência de resposta e “algum caos”, noticiava o Expresso esta sexta-feira, designadamente referindo-se aos hospitais de Lisboa. A ministra da Saúde foi lesta em projectar uma imagem de autoridade a roçar o autoritarismo. Consciente ou inconscientemente, preteriu o rigor em favor do ataque político ou das suas preferências pessoais. Sente-se a “rainha de Inglaterra” por não poder nomear e exonerar gestores hospitalares (prerrogativa do Direcção-Executiva do SNS). Fernando Araújo, que a ministra tratou de afastar, de acordo com declarações de gestores hospitalares ao Expresso, chegava a “contactar médicos para ‘tapar buracos’”, ou seja, fazia uma “gestão de grande proximidade”. No fundo, encaixava no perfil ministeriável. E isto é uma evidência.

O GURU DO SEXO TÂNTRICO E OS SEUS CÃES CONSELHEIROS VIA TELEPATIA

Junho 09, 2024

J.J. Faria Santos

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O homem define-se como um “anarcocapitalista”, tem publicações académicas, trabalhou como analista financeiro e, mais recentemente, fez carreira como comentador televisivo; gaba-se de ser um guru do sexo tântrico e é adepto do traço grosso no simbolismo, daí a motosserra como metáfora dos cortes orçamentais; e o seus melhores conselheiros, com quem tem conversas telepáticas, são os seus cinco cães, todos clonados, o que lhe terá custado cerca de 50 000 dólares, não duvidando nós de que, seguramente, terá efectuado uma análise custo-benefício. Eis o material de que é feito um estadista liberal latino-americano.

 

6 meses de mandato de Javier Milei na Argentina resultaram num desempenho que o previsível FMI classificou de “impressionante”, mas também numa recessão técnica. Se a inflação está em desaceleração, a taxa de pobreza aumentou para 55,5% no primeiro trimestre de 2024. Em consequência, os hábitos de consumo alteraram-se: 35% das pessoas deixaram de adquirir produtos que compravam habitualmente e 55% delas fazem as compras em função da necessidade imediata, tendo em conta ofertas e promoções. Milei congelou as obras públicas e anunciou o despedimento de 70 000 funcionários públicos.

 

O político cuja vitória foi celebrada efusivamente por militantes da portuguesa Iniciativa Liberal, entrevistado pela Time, mostrou hostilidade perante a imprensa livre, apelidando os jornalistas de “extorsionários” e “mentirosos”. A revista escreve que “muitos do que interagem com ele dizem que ele vê o mundo sob o prisma dos memes da extrema-direita”. Num acto facilmente confundível com nepotismo (mas talvez seja meritocracia…), o Presidente nomeou para Secretária-geral da Presidência a irmã, uma ex-leitora de tarot que, de acordo com a Time, agora “controla quais os jornalistas com quem o irmão fala, que fotos dele podem ser publicadas, e, alegadamente, que ministros nomear e demitir”.

 

Milei apresenta o cardápio completo dos populistas e extremistas autoritários. Despreza a igualdade de género, ataca os activistas climáticos e acha que a educação pública é equivalente a uma “lavagem cerebral”. Adepto ferrenho do mercado livre, chegou até a defender a comercialização de órgãos humanos. Como o definiu um diplomata americano, por oposição a Donald Trump, Milei é um “verdadeiro crente”, ao passo que Trump só “acredita nele próprio”. Talvez por isso, Milei, diz-se, terá feito constar que Deus o terá instigado a candidatar-se à presidência da Argentina.

 

Enquanto aguardam pela retoma que configuraria uma recessão em V, conforme prometido pelo Presidente, resta aos argentinos obter alguma forma de alívio face à dose cavalar de “liberalismo”, porventura seguindo os conselhos terapêuticos do guru do sexo tântrico. Porque afinal, como já explicava há quase 100 anos Cole Porter no tema Let’s Do It: “Some Argentines without means do it / People say in Boston even beans do it / Let’s do it, let’s fall in love”.

EVANGELHO DE MARCELO, O PIO, SEGUNDO ÂNGELA SILVA

Junho 01, 2024

J.J. Faria Santos

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Os evangelhos são um género literário que não se deve confundir com a biografia, nem com o relato jornalístico comprometido com a verosimilhança ou a fidelidade aos factos. São compostos por narrativas e testemunhos ao serviço do proselitismo. O tema de capa da revista do Expresso, que para uns é uma desajustada crónica sentimental e para outros um imprescindível retrato da solidão do poder, é, justamente, uma espécie de evangelho de Marcelo, o Pio, segundo Ângela Silva.

 

O retrato que emerge é o de um homem “atormentado pelo gozo e pela culpa”, que “tem muita noção quando peca, fica muito aflito e sofre com isso”. Como todos os santos, tem ou teve uma relação intensa com o pecado. Que ele vai a caminho da canonização, não parecem restar dúvidas: “vai vezes sem conta visitar pobres e doentes” e desenvolveu “um dom notável para falar com pessoas à beira da morte” (embora eu achasse mais relevante se ele tivesse desenvolvido um dom para falar com as pessoas depois da morte), “senta-se ao lado dos sem-abrigo na rua a comer papos-secos e leva sempre no bolso notas de cinco e 10 euros para distribuir por quem precisa”, é “desprovido de interesses materiais”, reza a toda a hora, inclusivamente a nadar e no trânsito, e “chega a ir a Fátima de 15 em 15 dias”.

 

Cultor de uma religiosidade tradicional e popular, só lhe falta alinhar com André Ventura no uso do cilício. Por agora, fica-se pelas paredes forradas  com “pagelas de santos com orações e promessas” e pelas expedições à Capelinha das Aparições. O retrato da solidão do poder, com referências à religiosidade, ao alívio da pobreza com recurso à esmola e à noção de que a indissolubilidade do matrimónio católico condena à castidade as novas relações, aproximam-no do conservadorismo e da mitologia de uma outra figura que exerceu o poder em Portugal. Marcelo angustia-se com o receio de falhar, “a sensação de permanentemente se ficar aquém”. Como o poeta Sá-Carneiro, poderia dizer: “Num ímpeto difuso de quebranto, / Tudo encetei e nada possuí…”

 

Parece evidente que o timing deste perfil, a sua natureza de radiografia privada e mesmo íntima, fica muito a dever ao facto explicitado na própria peça de a sua popularidade ter entrado em “terreno negativo”. Ora estando em causa um profundo conhecedor dos mecanismos de funcionamento dos meios de comunicação social, por um lado, e uma jornalista com um nível de cumplicidade e até admiração pelo Presidente, por outro, pode levantar-se a questão, não pondo em causa o profissionalismo daquela, se não estaremos perante uma espécie de artigo algures entre o relato em nome próprio em registo ghost writer e o perfil biográfico autorizado com recurso a testemunhos dos “amigos mais próximos”. Estaria em causa um benefício mútuo sem erros de percepção: a jornalista construiria um valioso perfil íntimo do Presidente e este, para tentar contrariar a derrapagem nos afectos dos portugueses, ver-se-ia retratado na peça como um homem de fé, preocupado com os pobres e os doentes, numa narrativa capaz de inverter o precipício da sua popularidade.

 

Se me é permitido oferecer um modesto conselho a quem pondera mais acerca da indissolubilidade do casamento do que sobre a dissolução de governos em funções, um voto de silêncio talvez fosse mais útil. Para quem tanto procura a assimilação com o povo, nada como meditar na sabedoria dos provérbios populares: quem não aparece, esquece; mas quem muito aparece, tanto lembra que aborrece.

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