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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A HONRA PERDIDA DE MÁRIO MACHADO

Setembro 24, 2023

J.J. Faria Santos

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O cidadão fez parte de um grupo que se dedicou com afinco à “caça de pretos no Bairro Alto” como forma de comemorar o “Dia da Raça”. Sequestrou, espancou e torturou pessoas de forma metódica e selvática. Ameaçou “cortar a cabeça” a Daniel Oliveira e afirmou que os políticos só reconheceriam o direito dos nacionalistas a terem voz quando começassem a ser “pendurados no Terreiro do Paço”. Tentou extorquir a uma ex-companheira de movimento 30 000€ sob a ameaça de morte a cumprir diante dos filhos. Ameaçou uma magistrada. Mostrou-se preparado para a “luta armada” em nome do ideário nacionalista. O cidadão é uma das principais figuras do movimento neonazi em Portugal. O cidadão Mário Machado, licenciado em Direito pela Universidade Autónoma, viu o Ministério Público pedir a condenação do activista Mamadou Ba por o ter difamado. Porque, no dizer da procuradora: “Não se pode dizer que os condenados e as pessoas que estiveram presas não têm direito à honra”.

 

O senso comum define a honra como um conjunto de qualidades morais e acções que conferem ao seu protagonista respeitabilidade. Honestidade, rectidão, noção de dever, civismo, são algumas dessas qualidades. Quem infringe reiteradamente e de forma violenta os princípios e as regras da vida em sociedade desfere um golpe fatal na sua reputação. O respeito das normas vigentes é imperativo, mesmo quando não se concorda com elas, pelo que abster-se de perturbar a paz social e trabalhar para as modificar dentro da legalidade, se for o caso, é a única via.

 

Em artigo publicado no Diário de Notícias, em Junho deste ano, as jornalistas Fernanda Câncio e Valentina Marcelino divulgaram extractos de um acórdão do Juízo Central Criminal de Lisboa onde o arguido Mário Machado era condenado pelo “crime de incitamento ao ódio e à violência”. O colectivo de juízas destacou o facto de o arguido “não ter mostrado qualquer arrependimento nem demonstrado assunção da responsabilidade pelos seus atos, nem qualquer empatia com as vítimas deste tipo de crimes". Escreveram ainda as jornalistas: “A decisão fala até de persistente energia criminosa’, da violação das ‘regras básicas da vida em sociedade de forma exuberante’, de ‘insensibilidade’ e de não se estar perante atos únicos mas do ‘culminar de um processo longo de exercício continuado de extremismo xenófobo, pela humilhação e pelo uso da violência’”.

 

Esta não é uma história de queda e redenção. De descida aos infernos e de expiação. Este é um relato de motivações racistas, xenófobas, antidemocráticas e de apologia da violência. Não tem direito ao bom nome o homem mau que defende abertamente o extermínio de seus concidadãos. A honra perdida de Mário Machado é insusceptível de ser recuperada.

 

Foto: Miguel A. Lopes/Lusa

O ESTEVES JÁ NÃO ESTÁ

Setembro 17, 2023

J.J. Faria Santos

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É possível que a melhor chave para a compreensão do caso Lemos Esteves esteja nesta declaração que Pacheco Pereira fez ao Público: “Parto do princípio de que uma pessoa que é professor de Direito sabe o que é crime e que a Universidade de Lisboa não contrata pessoas para dar aulas que não estejam em pleno uso das suas faculdades”. A sugestão de que aquele que foi catalogado por Marcelo Rebelo de Sousa de “génio do comentário político” e que alegou estar a ser perseguido pelo SIS possa estar no limite da sanidade mental pode ser mais do que um artifício de retórica.

 

“Comentador político desde os 14 anos”, colaborou num blogue do Expresso e com o jornal Sol, onde em Janeiro de 2020 qualificava Donald Trump como “o melhor amigo da LIBERDADE e da democracia”, antes de se embrenhar numa espiral conspiracionista, que inclui sites de propaganda e de desinformação, e que culminou num descabelado ataque a Pacheco Pereira, em artigo pejado de mentiras, o que lhe valeu uma acusação de calúnia e o forçou a admitir o recurso a “fontes falsas” e a comprometer-se  a pagar uma indemnização de 10 000 €.

 

Consta que Lemos Esteves idolatrava Marcelo, o qual, segundo testemunhos na rede X (ex-Twitter) tanto o “promovia como humilhava”, tendo chegado a referir-se a ele como “aquele assistente com ar cadavérico”. Assistente universitário e blogger de jornal de referência, é admissível que, jovem e impressionável, se tenha sentido a caminho do topo do mundo e que a frustração das expectativas o tenha levado a enveredar por uma frenética actividade conspiratória onde se sentiria validado pelos excêntricos e ressentidos pares. E não é de descartar que a militância numa realidade virtual alternativa se tivesse misturado com uma espécie de delírio de grandeza. Que tivesse arrolado como testemunhas de defesa no processo que Pacheco Pereira lhe moveu Marcelo e o director do Sol ainda se pode perceber, mas como interpretar a presença na lista de nomes como o ex-director da CIA Mike Pompeo ou Donald Trump?

 

Não é claro se o homem que à Visão revelou ter recebido “a visita de um ‘enviado da Presidência do Conselho de Ministros’ na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, para negociar uma ‘vida tranquila’ em troca do meu silêncio sobre a atividade da Rússia, da China e do Irão no Portugal de Costa… se não, sofreria consequências” continua a dar aulas. Ao Público, instigado a explicar como irá dar “máxima publicidade” ao desmentido das falsidades que escreveu, o jurista desabafou: “Já não escrevo, eu agora não escrevo.” Como se se lamentasse, à la Bocage: “Já Lemos Esteves não sou!...À cova escura / Meu estro vai parar desfeito em vento…” Foi-se a inspiração e só restou a conspiração.

 

Foto: Matilde Fieschi (publico.pt)

A ALGAZARRA DO CULPADO

Setembro 10, 2023

J.J. Faria Santos

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Se “o clima é de guerra fria”, o culpado mora em Belém. Quem é que alimentou, dias a fio e despropositadamente, o cenário da dissolução do Parlamento? Quem se arrogou o direito de sugerir/exigir a demissão de um ministro e, não satisfeita a pretensão, passou a retaliar com comunicados ásperos a anunciar a promulgação ou o veto das leis? Quem é que se atreveu a “ameaçar” uma ministra, caso não cumprisse “a taxa de execução dos fundos europeus”? Quem é que apelidou o Governo de “maioria requentada e cansada”? Quem é que alimenta, através das “fontes de Belém”, o semanário do regime, tecendo considerações acerca de cenários de governabilidade e de construção de alternativas à direita? Quem é que usa o Conselho de Estado como arma de arremesso político? Quem é que pretende esticar a sua capacidade de influência até ao limite da ingerência? Quem é que pretende chamar a si, de maneira informal, poderes legislativos?

 

O Presidente da República é a maior ameaça ao regular funcionamento das instituições democráticas. É preciso impor limites aos bullies. O primeiro-ministro sempre tratou Marcelo de uma forma institucionalmente (e até pessoalmente) irrepreensível, como, aliás, tinha tratado Cavaco, a quem chegou a convidar para presidir a um Conselho de Ministros. Qualquer cedência adicional a Marcelo transformaria Costa num primeiro-ministro sob tutela e colocaria o seu Governo ao sabor dos caprichos e dos tiques autoritários do Presidente. Não será por acaso que Daniel Oliveira, à esquerda, afirmou que “Marcelo está a transformar-se num Presidente de facção”; e que Francisco Mendes da Silva, à direita, a propósito dos protocandidatos às Presidenciais de 2026, tenha escrito no Público que “o grande objectivo de quem quer ser Presidente da República é só esse mesmo: ser Presidente da República. Não é a oposição ao Governo, não é a promoção de uma agenda para o país, não é a reconfiguração do espectro partidário nem a reinterpretação dos poderes presidenciais”.

 

O Expresso diz que Marcelo tenciona evitar o confronto total, e o próprio, em declarações na Feira do Livro do Porto, relembrou a amizade que o une ao primeiro-ministro, afirmando que “as amizades não de deixam cair. São importantes na vida”. A questão é se o próprio Marcelo não se deixará cair em tentação, porque como versejou Natália Correia (citada por António Valdemar na Revista do citado periódico): “o Marcelo neste mapa / a brincar aos cowboys não há nenhum. / passa rasteira: o mais subtil derrapa; / dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.” Se Costa, nesta matéria, pode invocar o silêncio do inocente, Marcelo não tem como escapar à algazarra do culpado.

 

Foto: Nuno Veiga/Lusa (expresso.pt)

O VICE-COMENTADOR-EM-CHEFE A CAMINHO DE BELÉM?

Setembro 03, 2023

J.J. Faria Santos

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Após décadas de carreira política seguidas de largos anos de carreira política continuada por outros meios (audiovisuais), seguindo o template do actual PR, Marques Mendes anunciou em horário nobre a sua pré-candidatura à Presidência da República. A notícia foi de tal forma inesperada que um outro pré-candidato, Santana Lopes, comentou: “E como a pescada. Antes de ser já o era”.

 

Marques Mendes condiciona o seu avanço à utilidade do gesto. É possível que o próprio PSD ache mais útil o seu desempenho de comentador “independente”, tarefa durante a qual, e citando Miguel Sousa Tavares no Expresso, “teve sempre a cautela de nunca se afastar do partido quando não era conveniente e de fazer soar as trombetas da imprensa amiga para que notassem que discordava do partido quando tal era inócuo”. O herdeiro de Marcelo nas conversas em família em versão democrática (que agora se prepara para fazer nova habilitação de herdeiros com o foco em Belém) prosseguiu o legado, com menos humor e sofisticação (embora mantendo os gestos largos e uma vivacidade algo artificial), mas é justo reconhecer que inovou nas cachas jornalísticas. É certo que deu alguns passos em falso, mas nunca anunciou, ao contrário do actual inquilino de Belém, a morte de uma pessoa que insubordinadamente teimou em manter-se viva.

 

Em entrevista ao Observador em Agosto de 2016, o protocandidato descrevia-se como alguém “viciado em política”, assumia-se como um “animal político” e admitia que em 2024 pensaria em candidatar-se a PR (antecipou o calendário, talvez para marcar terreno). Interrogado acerca do início da sua carreira na comunicação social, no caso em funções governativas em que granjeou a fama de telefonar para a RTP e fazer o alinhamento dos Telejornais, respondeu nada ter a “confessar”, não sem antes ter afirmado: “Não vou dizer que nunca falei para a RTP. Agora, houve uma mudança grande. Seguramente que todos os governantes têm nesse domínio os seus pecados ou pecadilhos.”

 

Tal como Marcelo, Marques Mendes tem uma ligação ao mar - um é mais mergulhos e o outro era devoto do bodyboard -, mas falta-lhe gravitas, grandeza (não é piada) e, sobretudo, propósito. A política não pode ser só um vício nem se comprazer no anúncio de virtudes retóricas. Que grande desígnio para a nação, que projecto mobilizador, que capacidade de criar sinergias se poderá adivinhar na futura candidatura a Belém do vice-comentador-em-chefe?

 

Na resposta a um inquérito de Verão do Diário de Notícias em Agosto de 2014, quando questionado se ao ser fotografado por um paparazzo preferiria “aparecer na capa de frente ou de costas”, Marques Mendes respondeu: “Nu numa praia? Eu? Absolutamente impossível. Comigo o paparazzo não tem grande sucesso”. É provável que comentador vá nu e que lhe digam que ele vai engalanado com um sumptuoso atavio que só os inteligentes conseguem ver.

 

Imagem: Marques Mendes em 1975 (pormenor de foto publicada em observador.pt)

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