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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

MARCELO EM DIGRESSÃO MUNDIAL

Maio 29, 2022

J.J. Faria Santos

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Como uma vedeta consagrada do showbiz, subitamente desafiada pelas estrelas instantâneas do YouTube ou do TikTok, Marcelo vai partir em digressão mundial. Com o seu soft power de influencer a ser claramente ofuscado por Marques Mendes e Paulo Portas e o seu hard power associado ao desempenho presidencial a ser alvo de acusações de “falta de sentido de Estado” por parte de militares, o Presidente da República prepara uma tournée, que começa em 10 de Junho no Reino Unido e, segundo o Expresso, vai “do Equador ao Brasil, passando pelo Canadá, Costa Leste dos EUA, Irlanda, Moçambique e Suíça”. Nada como uma recepção apoteótica em Moçambique ou um convívio alargado com as comunidades portuguesas no estrangeiro para dar novo brilho à sua star quality.

 

Claro que a estrela da companhia não pode admitir que os novos influencers, e sobretudo a circunstância da existência de um governo de maioria absoluta, lhe retiraram margem de manobra. Resta o poder da magistratura de influência e da palavra presidencial, neste caso, porventura, acusando alguma usura pelo uso excessivo e muitas vezes improdutivo. Por conseguinte, a justificação oficiosa é a de que o Presidente não pretende “continuar, ele próprio, a bipolarizar com o chefe do Governo”, abrindo assim espaço para a intervenção do novo líder do PSD. Doutro modo, terá dito Marcelo, correria o risco de “liquidar o próximo líder da oposição”.

 

A digressão, que tem o nome provisório de Tourbilhão 2022/2023, é ainda uma espécie de work in progress, não estando confirmada a hipótese avançada por fontes afastadas de que o PR iria sambar. Já se afigura incontornável que, em Moçambique, esteja previsto um número que inclua a marrabenta. Para já, foi posta de parte a ideia do PR ter uma página no Instagram, pelo que esta tournée é, para os fãs do homem por quem Cristo não se dignou descer à Terra, uma oportunidade para o fazer sentir-se perto do Céu.

A PAISAGEM HUMANA

Maio 22, 2022

J.J. Faria Santos

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O percurso é basicamente o mesmo nos dias úteis. Há sinais de permanência e de continuidade que constituem o conforto da rotina (o que deve horrorizar os apóstolos das “novas experiências”). Todos os dias, os mesmos prédios devolutos ou em ruínas, o mesmo cão idoso e pachorrento com nome de pintor célebre (Miró), a mesma avó a levar o neto à escola, o mesmo septuagenário na sua caminhada higiénica. E os exemplos poderiam continuar. Ao contrário do dito que termina com “…e o resto é paisagem”, neste caso é a paisagem, a paisagem humana, que interessa.

 

Porque um dia, um dia igual a qualquer outro, subitamente significativo para um grupo de indivíduos unidos por laços de sangue, de amizade ou de empatia, há uma ausência que se destaca, como uma árvore arrancada pelo vento inclemente ou uma pradaria destruída por um incêndio devastador. A mulher que tratava diariamente do seu jardim, o homem cabisbaixo de andar incerto, a rapariga que friccionava as raspadinhas ansiosa pelo Aladino da sorte, todos deixaram uma cratera no lugar do quotidiano. Na melhor das hipóteses, uma circunstância benigna ou uma doença passageira subtraíram-nos à nossa visibilidade; na pior, poderemos apenas revê-los numa fotografia numa lápide a testemunhar a “eterna saudade”.

 

Podemos, no lufa-lufa da nossa vivência, apreciar uma árvore frondosa, um gato audaz, uma refeição gourmet, o ronco do mar ou a penumbra da vida nocturna, mas é a paisagem humana que nos interpela e nos implica. E a súbita ausência de uma peça do nosso puzzle existencial, mesmo que aparentemente supérflua ou inócua, adquire um significado: o de nos lembrar que tudo é transitório e fugaz. Ficaremos, apenas, com as lembranças, esse poderoso placebo. E, citando Valérie Perrin (A Breve Vida das Flores – Editorial Presença), “as recordações são impasses por onde passamos sem cessar”.

 

Imagem: Michele Del Campo - "Floating Words" (micheledelcampo.com)

UM ESBOÇO DE TEOCRACIA

Maio 15, 2022

J.J. Faria Santos

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O primeiro foco do incêndio deflagrou com o projecto de decisão do juiz Samuel Alito que, a ser aprovado, coloca o Supremo Tribunal americano a decretar que o aborto “não está protegido por qualquer disposição da Constituição”. Depois, ganhou relevo uma nota de rodapé do projecto, descontextualizada e erradamente atribuída à juíza Amy Barrett Cohen, que aludia a uma “oferta interna de crianças” (“domestic supply of infants”). Por fim, num texto clarividente, conciso e incisivo intitulado “Eu inventei Gilead. O Supremo Tribunal está a torná-lo real”, escrito para The Atlantic, Margaret Atwood sustentou que “a opinião de Alito reivindica basear-se na Constituição americana. Mas conta com a jurisprudência inglesa do século XVII, uma era em que a crença na bruxaria causou a morte de muitos inocentes”. Subitamente, os EUA parecem estar em movimento de aproximação ao universo patriarcal, repressivo e teocrático de A História de uma Serva. Isolada do contexto, a expressão “domestic supply of infants” adquiriu uma ressonância sinistra, e ainda mais quando falsamente associada a Barrett Cohen, que transmite uma vibe de Serena Waterford, a antifeminista mulher do comandante Waterford do livro de Atwood.

 

Trump nunca escondeu o intento de transformar o Supremo Tribunal no posto avançado da agenda conservadora da sua base de apoio. A reversão de Roe v. Wade significaria o assalto definitivo à autonomia da mulher e à sua liberdade e autodeterminação, num processo de expropriação em que, citando o artigo de Atwood, “os órgãos reprodutivos da mulher não pertenceriam à mulher que os possuía”, mas sim ao Estado. Significaria o fim da multiplicidade de mundividências, de formas de expressar a condição feminina e a sua relação com a maternidade. Significaria um sinistro abrir de portas às brigadas do bem comum, apostadas na homogeneização de comportamentos e na hegemonia dos seus preceitos (e preconceitos). Com o respectivo aparelho de censura. Como desabafava a serva no livro de Atwood, referindo-se à implacável tia Lydia: “A sua voz é devota, condescendente, é a voz daqueles cujo dever é dizer-nos coisas desagradáveis para nosso próprio bem. (…) Cabe-lhe a ela definir-nos, temos de sofrer os adjectivos dela.”

 

2022 está a mostrar-nos que o improvável, mais do que isso, o irracional e o que julgávamos impossível pode cavalgar a nossa ingenuidade e desafiar a   nossa incredulidade, instalando o choque. É por isso que quando Margaret Atwood  escreve na The Atlantic que “as ditaduras teocráticas não são apenas parte de um passado distante” e se interroga acerca do que poderá “impedir os Estados Unidos de se transformarem numa delas”, a nossa reacção não se pode limitar a remeter estas reflexões para o domínio da especulação. A distopia espreita apenas o relaxamento da nossa vigilância do processo democrático.

 

Imagem: theguardian.com

O PORTEIRO DO DIA

Maio 08, 2022

J.J. Faria Santos

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Em fuga do seu país, invadido e bombardeado por um criminoso sem remissão, a refugiada ucraniana é acolhida por um diligente indivíduo com um computador portátil, registando os dados dos recém-chegados, providenciando que documentos fossem fotocopiados e questionando se o pai da inquirida “era combatente”. A cidadã ucraniana exilada pelo terror do poder militar russo acaba por ser recebida no país de acolhimento por um cidadão russo pró-Putin. O porteiro do dia no edifício de acolhimento é um cidadão com dupla nacionalidade que mantém contactos com organismos do Kremlin, o centro do poder do chefe dos torcionários.

 

Igor Khashin, para além de deter cargos em organizações cujo exercício de funções depende da aprovação das autoridades russas, caucionou a acção destas na Ucrânia quando começou a guerra pelo Donbass, e, sabe-se agora, é monitorizado pelo SIS há alguns anos. Mesmo desconhecendo as ligações de Khashin ao Kremlin, bastaria um módico de sensibilidade, uma réstia de bom senso, para perceber a delicadeza e a inadequação do facto de, citando Manuel Carvalho, “um cidadão de um país agressor acolher pessoas fragilizadas do país agredido”, o que motivou críticas justas ao autarca de Setúbal. Que esta e outras circunstâncias (como as declarações infelizes do presidente de uma associação de refugiados ucranianos) sejam utilizadas por um partido político como pretexto para aludir a um “ódio fascizante” e invocar perseguição é uma evidente falácia. “Ódio fascizante” e perseguição, muitas vezes até à morte, é o que sofrem os ucranianos, que quando alcançam refúgio seguro dispensam o contacto com cúmplices das políticas do carrasco.

 

Imagem: expresso.pt

MUSK - O PERFUME DE MARTE

Maio 01, 2022

J.J. Faria Santos

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Estivéssemos a falar do exercício de um poder benévolo, onde uma fulgurante inteligência se combinasse com uma atitude conciliatória, e as reacções à tomada do Twitter por Elon Musk não teriam tido a violência que faz jus ao ambiente efervescente da própria rede social em causa. Sucede, porém, que Musk é uma personalidade abrasiva com um historial onde se combinam o ambiente laboral tóxico nas suas empresas (incluindo acusações de racismo e de assédio sexual), a propagação de teses negacionistas em relação à Covid-19, declarações despropositadamente insultuosas ou mesmo difamatórias e uma predilecção por um conceito maximalista de livre expressão, complacente com a mentira e a desinformação e disruptora das sãs relações sociais e da democracia.

 

Numa recensão ao livro de Ashlee Vance Elon Musk: Tesla, SpaceX, and the Quest for a Fantastic Futur, Sue Halpern escreveu em 2015 na New York Review of Books que Musk “tem todos os atributos de um narcisista clássico – a grandiosidade, a ânsia de fama, a falta de empatia, a crença de que é mais inteligente que os outros, e o plano messiânico para salvar a civilização”. Ao mesmo tempo que reconhecia o seu perfil visionário, Halpern descortinava no retrato que Vance dava do sul-africano uma “ambição feroz” e, acima de tudo, uma condição de “bancarrota emocional”, que o tornava terrivelmente inadequado como gestor de recursos humanos.

 

Num recente artigo de opinião no New York Times, onde prognosticou o agravamento do ambiente radicalizado do Twitter, pouco dado ao “discurso racional, matizado”, Greg Bensinger considerou que “as razões para o Sr. Musk tomar o controlo do Twitter não se prendem com a liberdade de expressão; do que se trata é de controlar o megafone”, tratando a rede social como um amplificador dos seus interesses e das suas ideias, e como um rolo compressor dos seus críticos. A revista Time colocou na sua capa uma ilustração do dono da Tesla com o símbolo do Twitter engaiolado. Se o génio de Musk se aproximar do extremo oposto, a loucura, o resultado será transformar o Twitter numa espécie de cage aux folles?

 

Imagem: Time.com

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