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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

ESTE DOMINGO HÁ DESEMPATE TÉCNICO

Janeiro 28, 2022

J.J. Faria Santos

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Rui Rio é católico, mas não crente, e decerto se acreditasse na sua ressurreição como candidato a primeiro-ministro seria com base na mais pura racionalidade. A menos que não tendo fé, tenha sempre uma fezada. A transfiguração do político tecnocrático com um perfil autoritário (com posições muito próprias acerca de dois domínios fundamentais do Estado de direito - a Justiça e a comunicação social) em afável cat lover com um humor esforçado e um trabalhado ar genuíno terá contribuído para a inesperado crescimento do PSD. Mesmo que nos derradeiros dias de campanha tenha ressurgido a figura conflituosa.

 

Outros dirão que o excessivo tacticismo de Costa terá contribuído para o encurtar das distâncias. A aposta inicial na maioria absoluta, procurando congregar a confiança do eleitorado central e dos descontentes com a pouca flexibilidade dos parceiros da geringonça, falhou. O plano B mais credível é o plano G de geringonça, o que levou Rio a considerar que os portugueses não irão “compreender” o regresso da solução. O líder do PSD parece ignorar que António Costa se apresenta ao eleitorado com um balanço que inclui, no contexto do combate à pandemia, uma campanha de vacinação bem-sucedida e um conjunto de apoios às pessoas e às empresas que minimizaram o seu impacto na sociedade e na economia. O seu legado é o de um crescimento económico acima da zona euro, de uma baixa taxa de desemprego e de contas públicas controladas.

 

A motivação para o eleitorado castigar o incumbente passa também (ou sobretudo) pelo perfil inovador e disruptivo do challenger. Que ideia inovadora ou galvanizadora propõe Rio? O propósito de “reorganizar o Ministério da Agricultura”? A “Revisão Constitucional Verde”? A prioridade da redução do IRC sobre o IRS?  A menos que seja a garantia de afastar o espectro da geringonça, que poderá atormentar os chamados eleitores moderados. Infelizmente para ele, a sua ascensão ao poder estará sempre dependente do liberalismo “moderninho” (como diria o Chicão) e delirante da Iniciativa Liberal (com escassos pontos de contacto com a realidade portuguesa) e, sobretudo, do beneplácito sob a forma de apoio ou abstenção do extremismo do Chega. O eleitorado dito moderado que se assustaria com a geringonça vai tolerar o populismo boçal, a retórica incendiária e fascizante e a instabilidade do Chega?

 

Apesar do empate técnico que as sondagens prenunciam, continua a ser significativamente superior o conjunto de inquiridos que reconhecem a António Costa qualidades superiores às de Rui Rio, e esmagadora a percentagem dos sondados que consideram que o PS, independentemente da sua preferência, vai vencer o sufrágio. Podemos no domingo à noite assistir a mais um dos épicos e inesperados triunfos de Rio? Podemos, mas o mais provável é os portugueses que oscilam entre os dois partidos de poder fazerem (permitam-me invocar o diabo) uma vénia à expressão de língua inglesa better the devil you know, escolhendo o Costa que conhecem há seis anos em vez de um Rio, colheita de 2022, descafeinado para efeitos eleitorais. A menos que o milhão de confinados ou o factor Zé Albino condicionem decisivamente o resultado das eleições.

 

Imagem: portaldoeleitor.pt

CAUSA PRÓPRIA

Janeiro 23, 2022

J.J. Faria Santos

51770787464_b928054891_c.jpgSombras e nevoeiro. O lago dos patos e os despojos de um crime. O bailado da juventude inquieta de uma pequena cidade. O rasto do preconceito. O que toda a gente sabe e o indizível. Causa Própria, série de Rui Cardoso Martins e Edgar Medina, realizada por João Nuno Pinto, alcança um notável equilíbrio entre o ritmo de progressão da acção e a criação de uma atmosfera de tensão e dúvida, adensada por uma banda sonora pungente e inquietante da autoria de Justin Melland, autor cuja afinidade com o trabalho do responsável pela banda sonora de Twin Peaks, Angelo Badalamenti, se nota.

 

Aliás, à semelhança da série de David Lynch, o retrato é o de uma pequena cidade, onde quase todos se conhecem e partilham afectos e afinidades, mas também onde se silenciam violências em nome da boa vizinhança e as consciências podem permanecer neutras perante os interditos e o inadmissível. Porque afinal boys will be boys e o carácter fortalece-se perante as adversidades, mesmo quando estas se manifestam através da desproporção de meios.  E se é fácil censurar e condenar o mal quando ele se apresenta com o rosto medonho do desconhecido e do repelente, como lidar com esse mesmo mal quando ele nos toca pela beleza ou pela familiaridade?

 

O dilema da juíza protagonizada por Margarida Vila-Nova, dividida entre a protecção da família e o imperativo moral de exercer a sua função com isenção, pode ser também, dir-se-á, o dilema de uma povoação inteira, forçada a enfrentar o perfil chiaroscuro dos filhos da terra. Mesmo numa sociedade cada vez menos condicionada pela religiosidade, continuamos a querer que alguém nos livre do mal, e a olhar para as suas manifestações com aquele sentimento de estranheza, espanto e impotência que nem mesmo os inspectores interpretados por Nuno Lopes e Catarina Wallenstein, apesar das suas qualificações e experiência, conseguem evitar.

 

Causa Própria apresenta uns interlúdios na trama principal, constituídos por cenas de tribunal, ora trágicas ora caricatas, compondo um bouquet de casos à espera de uma resolução satisfatória, por vezes frustrada. É que na mediação das relações humanas, não há como escapar ao erro e à imperfeição. E por mais que repetidamente nos surpreendamos com a irrupção do mal, sabemos que ele tem quase sempre um rosto humano. Resta-nos, como no tema-título da série Twin Peaks, onde Julee Cruise  cantava “Don’t let yourself be hurt this time”, escapar às suas investidas. Até um dia.

 

Imagem: media.rtp.pt / Flickr

O CANSADO E OS INSUFICIENTEMENTE FARTOS

Janeiro 16, 2022

J.J. Faria Santos

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A tese é a seguinte: “António Costa já não tem vontade de ser primeiro-ministro”, mas “Rui Rio vai perder as eleições”. Porquê? Porque “os portugueses ainda não estão suficientemente fartos de António Costa”. Estes considerandos foram desenvolvidos em dois artigos no Público por João Miguel Tavares. Em suma, António Costa estará cansado de ser primeiro-ministro, mas os portugueses ainda não estão suficientemente cansados de António Costa.

 

O tema do cansaço tem sido glosado com persistência e intencionalidade por analistas de direita. Eu, quando ouço os comentários de personalidades como, por exemplo, Maria João Avillez, vem-me imediatamente à memória uma frase do insuspeito José Miguel Júdice, em entrevista há poucos dias ao Diário de Notícias, em que ele afirma: “As pessoas desejam uma coisa e, portanto, acham que o comentário político deve ser para ajudar a que essa coisa aconteça”. Ninguém parece ponderar que um perfil de Costa mais sério e mais sereno, menos exuberante e menos enérgico, possa corresponder a uma estratégia política que privilegie a gravitas da pose institucional ao dinamismo quantas vezes balofo que pretende passar por predisposição reformista.

 

Apetece dizer que aos que lhe apontam a fadiga, Costa poderia responder com uns versos de José Régio: “Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “Vem por aqui”! / Eu olho-os com os olhos lassos, / (Há nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali…”

 

Como é difícil defender que Portugal está hoje pior do que há seis anos, o argumento principal de J.M. Tavares é o de que trilhamos “um rumo de empobrecimento relativo e de fatal decadência”. Mas “a catástrofe não é imediata” e “há mínimos de gestão que vão sendo cumpridos”. E “Bruxelas tem apreciado, aprovado e sustentado”, ou seja, não só Bruxelas não está suficientemente farta de Costa como até parece apreciar as suas qualidades.

SANGUE DO SEU SANGUE

Janeiro 09, 2022

J.J. Faria Santos

 

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Já não bastava a um serial killer com código ético gerir as circunstâncias de uma nova identidade e de um novo habitat, bem como as manifestações dos seus instintos (o seu “passageiro negro”) e dos eventuais efeitos da abstinência de matar, eis que surge um fantasma do passado a exigir aptidões de paternidade.  Quando Dexter Morgan, rebaptizado Jim Lindsay, que trocou o calor abrasador de Miami pelas paisagens geladas de Iron Lake (porventura mais consentâneas com a sua personalidade), viu subitamente emergir na sua habitação o filho Harrison, estava longe de perceber que a construção de uma figura paternal acarretaria não apenas o agudizar do instinto de protecção, com os riscos inerentes, como também deixar em suspenso a magna questão de saber se quem sai aos seus não degenera.

 

Dexter: New Blood, situada uma década depois do desaparecimento no olho de um furacão do mais célebre (mais celebrado?) dos assassinos em série, marca o regresso deste, a braços com um jejum (que se vai tornar intermitente?) de chacina e esquartejamento, que a Showtime pespega num cartaz com um mordaz “Long time no spree”. Aliás, as notas humorísticas são constantes, desde piscadelas de olho a outras séries (Fargo, por exemplo) até tangentes a Oscar Wilde. Se este terá dito, nos últimos dias de vida, lamentando a qualidade da decoração do seu aposento, segundo uns “Ou estas cortinas desaparecem ou desapareço eu” e segundo outros “Este papel de parede mata-me – um de nós terá de desaparecer”, o próprio Dexter acaba por ter uma exclamação do mesmo teor (“Eu deveria matar este tipo só por causa do papel de parede”).

 

Confesso que me é indiferente se o regresso de Dexter Morgan é produto da nostalgia de uma indústria que tem apostado no reboot de séries da era de ouro da TV ou se, por outro lado, é uma forma de emendar o desfecho da série original, quase unanimemente apontado como desapontador. Como escreveu Daniel Fienberg  no The Hollywood Reporter: “No seu ponto mais alto, Dexter Morgan era a apoteose do anti-herói da televisão de prestígio. Ele tinha a brutalidade cómica e negra de Tony Soprano, a duplicidade astuta de Don Draper e a moralidade equívoca de Walter White elevadas ao extremo.” Mesmo que apenas uma fracção desta irresistível equação se manifeste neste Dexter: New Blood, já é o suficiente para que nos detenhamos colados ao ecrã, embrenhados nas contradições de um protagonista capaz de fazer abanar os alicerces morais das nossas mais arreigadas convicções. Prova disso é que o nosso fascínio seja superior à nossa repulsa.

 

Imagem: imdb.com

UM LONGO ADEUS OU UM DESPOJADO ATÉ JÁ?

Janeiro 02, 2022

J.J. Faria Santos

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Com 2022 a estrear-se no ecrã panorâmico das nossas vidas e com um Big Brother Políticos marcado para o final deste mês, amontoam-se pitonisas e astrólogos, videntes e médiuns na tarefa de adivinhar os acontecimentos que marcarão a nossa casa comum. O futuro do actual primeiro-ministro, dada a conjugação das estrelas mediáticas opinantes, parece sombrio. Daniel Deusdado escreveu no Diário de Notícias que “se torna difícil não se pensar que António Costa está de saída. Não se vê de onde possam vir os votos para o segurar”. Já Clara Ferreira Alves escreveu antes do Natal no Expresso que “no dia 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo depois de perder a cabeça”. E numa cedência pouco comum ao sentimentalismo sentenciou que “Costa perdeu muitos corações do PS que votarão em Rui Rio”, considerando que “o PSD ganhou aquilo que se chama momentum”.

 

Há ainda quem veja no comportamento do líder do PS uma certa resignação ou desprendimento, como se lhe competisse adoptar uma atitude mais combativa e agressiva na marcação da agenda mediática. Há quem veja nisto um sintoma de declínio, de percepção de derrota iminente. A questão é se o eleitorado central, que supostamente decide eleições, se reveria na bravata retórica ou se prefere a força tranquila. Como o próprio Costa referiu em entrevista a Anabela Neves, durante seis anos os portugueses acompanharam e avaliaram o seu trabalho. Para o bem e para o mal, conhecem-no. Será que a alternativa é assim tão aliciante, tão inovadora e disruptiva? E se não se quer a disrupção, mas sim a continuidade, Rio reúne um conjunto de qualidades de liderança que face ao incumbente constituem indiscutíveis mais-valias?

 

Uma sondagem do ICS e do ISCTE para o Expresso (edição de 30/12/21) inquiriu os participantes acerca das qualidades dos líderes do PS e do PSD. O resultado é largamente favorável ao líder socialista, visto como mais experiente (65% contra 14%), mais competente (46% contra 26%), mais honesto (36% contra 21%), mais simpático (53% contra 21%) e mais preocupado com as pessoas (43% contra 19%). Rio vence no capítulo da frontalidade (“diz mais o que pensa” – 41% face a 31%), mas, talvez consequência disso ou não, é percepcionado como menos ponderado (26%) do que Costa (48%). A questão é, pois, se o alegado momentum de que o PSD goza insuflará as qualidades do seu líder ou fará esquecer as suas debilidades, sendo certo que são inegáveis quer a sua capacidade de resistência quer o seu currículo de vitórias inesperadas.

 

No mesmo jornal, um artigo de opinião de Ângela Silva anuncia que “para o Presidente da República, Rio não é a solução” e que para Marcelo “adiar uma solução liderada pelo ‘pedronunismo’ é um objectivo”, enquanto espera pela ascensão de Moedas. Portanto, o Presidente que Clara Ferreira Alves considerou que “desapareceu de cena devido a complicações de saúde”, reapareceu rapidamente na plena posse das suas faculdades de encenador com prerrogativas de director de casting. Mas são os portugueses que vão decidir se ganha o António ou se ganha o Rui. No Big Brother Políticos de 30 de Janeiro, Marcelo limitar-se-á a envergar as plumas de mestre-de-cerimónias. Depois, mas só depois, será o pivot da solução política.

 

Imagem: multinews.sapo.pt

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