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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

IRRITAÇÕES

Agosto 29, 2021

J.J. Faria Santos

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Cristiano Ronaldo regressa ao Manchester United e o frenesim mediático instala-se. Tirando o talento invulgar, o profissionalismo inexcedível e as conquistas individuais e colectivas, dispenso tudo o resto que envolve o personagem. A começar pelas manifestações do seu desmesurado ego e a terminar nas aventuras empresariais e artísticas da família, passando pelo exacerbado papel de Mãe Coragem da D. Dolores, como se não existissem milhares de mulheres que com sacrifício pessoal e abnegação lograram ultrapassar dificuldades e contrariedades em busca de melhores condições de vida.

 

Apesar de todo o progresso científico, permanecia uma evidência a impossibilidade de prever o dia e o local em que ocorreria um sismo. Até agora. A azougada Suzana Garcia promete pôr muita gente a tremer das pernas no dia 26 de Setembro, num movimento tectónico com epicentro na Amadora. Os traficantes, a direita fofinha, a esquerda caviar, os tachistas, os burocratas, todos vão tremer. Até os populistas, diz ela, o que torna inevitável que também tremelique quem pretende fazer desabar os adversários à força de demagogia, olhos arregalados, língua destravada e rosto à beira da apoplexia. É o chamado efeito de ricochete.

 

Henrique Monteiro assinala no Expresso a saída do livro de memórias de Pinto Balsemão. Do “príncipe” da Lapa, de quem Monteiro diz nortear o seu comportamento por um estrito código de honra, ficámos a saber que chegou a viajar “pendurado num trolley do eléctrico para poupar dinheiro para ir ao cinema” (lá está, a caução cultural que desculpa a transgressão). Mas o mais relevante, com direito a chamada de primeira página, é o facto de ele se referir à mulher como “Queen Mother”. Monteiro diz que tal se deve à “influência emocional e apaziguadora” que Mercedes (aka Tita) exerce sobre Francisco. Mercedes, majestosa e benevolente, reinará sobre esta aristocracia por afinidade com a sabedoria de quem tendo lidado com sumidades de petit nom é capaz de limar arestas e evitar choques de titãs (ou Titas…)

 

De quem se diz ser um “príncipe” da política, no trato e na acção, é Jorge Sampaio. Republicano impenitente, recusaria este título, mas seguramente não levará a mal que o consideremos um gentleman. Numa altura em que se debate com problemas de saúde, questão de foro privado e a ser tratada com discrição e elegância, seria de esperar que o actual Presidente resistisse a ocupar o palco, qual repórter com fontes privilegiadas, protagonista de um lancinante Última Hora. Poderia deixar o boletim clínico para o hospital ou para o gabinete de Sampaio, mas seria pedir demais. Em plena Feira do Livro do Porto, logo tratou de relatar à comunicação social o que o médico da Presidência da República lhe transmitira acerca do estado de saúde do ex-chefe do Estado. Ninguém escapa à sua natureza, nem a coberto do verniz institucional.

 

Imagem: "Grand Shore" de Richard Ahnert (courtesy of Bert Christensen)

O TIO DE CASCAIS E O TIOZÃO DO CHURRASCO

Agosto 22, 2021

J.J. Faria Santos

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Parece que a boçalidade e a grosseria são a kryptonite de Marcelo. Na recente visita ao Brasil, Marcelo terá ficado incomodado e mal impressionado com o reportório de “piadas de cunho sexual” e “referências jocosas ao povo português” desfiado pelo oficial e cafajeste Jair Bolsonaro. Nem a sua prodigiosa inteligência, nem décadas de análise política e de frequência dos salões do poder, nem sequer a aclamada capacidade de se sentir à-vontade com o príncipe e com o pobre lhe forneceram ferramentas para lidar com a vulgaridade do Messias do Planalto.

 

Provavelmente, a sua educação religiosa católica (a tal que em matéria de sexo prefere a elipse ou a sublimação espiritual ao reconhecimento da relevância do conhecimento carnal), e a sua frequência dos selectos ambientes onde se movem as classes afluentes (locais em que a lascívia é sussurrada e envolvida em referências literárias ou cinematográficas, e em que qualquer ousadia, cuidadosamente calibrada, é assinalada com um benevolente arquear de sobrancelha) não lhe forneceram ferramentas adequadas para lidar com a baixeza moral e a ausência de sentido das conveniências.

 

Surpresa, não é argumento que possa ser invocado. O cadastro de declarações e comportamentos do Presidente brasileiro já é sobejamente indiciador do que esperar da criatura. Marcelo terá preferido, diplomaticamente, preservar o relacionamento luso-brasileiro. Deixou, pois, o tiozão do churrasco chafurdar na incivilidade e na descortesia, enquanto acumulava um rol de dados para mais tarde narrar, apimentados pela sua proverbial malícia, nas festas com os restantes tios de Cascais ou ao telefone, a ouvidos amigos, nos longos serões de Verão.

 

Imagem: 24.sapo.pt/Lusa

JOSÉ GOMES FERREIRA DERRETENDO A CREDIBILIDADE

Agosto 15, 2021

J.J. Faria Santos

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Ao contrário do que se possa pensar, o problema de José Gomes Ferreira não reside na forma directa e veemente com que expressa a sua opinião. Nem que esta transmita um evidente enviesamento político-ideológico. Nem sequer que ele apresente as suas legítimas interpretações dos factos como fotografias da realidade imunes ao filtro da sua visão do mundo. O problema de José Gomes Ferreira é o da credibilidade em fuga, graças à voracidade com que vai alargando os domínios da sua intervenção pública (primeiro, restrita à área da economia, com derivações para a análise política, agora estendendo-se à História, à astronomia e às alterações climáticas), alicerçando as suas quase sempre bombásticas conclusões (que não raramente contrariam o consenso científico e as teses consolidadas) em fontes inexistentes, duvidosas ou descredibilizadas.

 

O programa Negócios da Semana sempre me pareceu (pela amostra de algumas edições que vi e que me desencorajaram de ser espectador assíduo) uma espécie de clube de mentes alinhadas, em que os participantes eram convidados pelo apresentador com a convicção de que eles iriam reforçar a difusão do ponto de vista que aquele, a priori, já tinha consolidado. Aqui e ali, um desalinhado era alistado para dar a aparência de pluralidade e contraditório, arriscando-se a ser trucidado caso se deixasse condicionar pelo estilo jornalista-corajoso-que-sabe-mais-do-que-o-que-pode-dizer (mas que não cede a pressões) de Gomes Ferreira.

 

É certo que não se pode dizer que o jornalista fuja ao confronto, dispense a polémica ou tema contrariar um convidado. Lamentavelmente para ele, muitas vezes o resultado é que Gomes Ferreira veicule patentes disparates, como quando nos desafiou a não acreditar na “cor vermelha ou castanha de Marte” (asserção que Miguel Gonçalves, comentador de astronomia da RTP, definiu como um “atentado à ciência” e um “crime de desinformação”). Ou ainda a forma como desvalorizou o aquecimento global, tecendo considerações sem base científica (defendendo que o “deslocamento dos pólos magnéticos” pode ter influência nas alterações climáticas, ou negando o degelo da Antártida, dado que “enquanto derrete de um lado, acumula do outro”).

 

É provável que o grupo de comunicação social onde exerce actividade aprecie o seu estilo desassombrado (que confere sempre uma aura de feroz independência e uma espécie de selo de contrapoder), tolerando os seus passos em falso como uma família conservadora tolera os deslizes de um estouvado jovem adulto. Isto enquanto José Gomes Ferreira vai, neste caso de forma verídica, vivendo a sua Antártida: derretendo a credibilidade e acumulando ignorância.

 

Imagem: Notícias TV/Diário de Notícias

FRASES À PROCURA DE AUTOR IV (PASSATEMPO DE VERÃO)

Agosto 08, 2021

J.J. Faria Santos

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1/ “Fazer as pazes é esquecer. Para a reconciliação, é necessário que a memória seja imperfeita e limitada.”

 

  1. Sharon Stone
  2. Susan Sontag
  3. Hillary Clinton

 

2/ “As almas gémeas não são as que se talham no Céu. Mas as que se esculpem uma à outra em alguma parte dos seus abismos.”

 

  1. João Tordo
  2. José Luís Peixoto
  3. José Riço Direitinho

 

3/ “Não gosto do que é eterno. Prefiro uma rosa desfolhada a um cacto polido, erecto. Sobranceiro e intocável no seu vaso.”

 

  1. Teresa Veiga
  2. Margaret Atwood
  3. Leonor Beleza

 

4/ “Descobri que há duas maneiras de se perder a fé: alguns perdem Deus quando se encontram a si, outros perdem Deus quando se perdem de si.”

 

  1. Marieke Lucas Rijneveld
  2. Ali Smith
  3. Zadie Smith

 

5/ “Cristo não tinha paciência para os sistemas monótonos, inanimados e mecânicos que tratam as pessoas como se fossem coisas, por igual. Para ele não havia leis, apenas excepções.”

 

  1. Frei Bento Domingues
  2. Oscar Wilde
  3. Papa Francisco

 

6/ “O mal que os homens fazem vive depois deles, o bem é muitas vezes enterrado com os seus ossos.”

 

  1. Evelyn Waugh
  2. William Shakespeare
  3. Julian Barnes

 

7/ “Nisto consiste o erro tão frequente e tão grave dos novos: precipitam-se quando o amor os atinge, porque faz parte da sua natureza não saberem esperar. Entregam-se quando a sua alma é apenas esboço, inquietação, desordem.”

 

  1. Saul Bellow
  2. W. Goethe
  3. Rainer Maria Rilke

 

8/ “Muitas vezes penso: e se começarmos uma vida nova, mas em consciência? O que se viveu até agora é um rascunho, digamos, e a outra é passada a limpo!”

 

  1. Anton Tchékhov
  2. Gustave Flaubert
  3. Guy de Maupassant

 

9/ “Não há nada que nos isole mais do que termos uma história singular. Pelo menos era isso que eu pensava. Agora sei que todo o sofrimento é igual. Só os pormenores são diferentes.”

 

  1. Paul Auster
  2. Jonathan Franzen
  3. Kevin Powers

 

10/ “É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.”

 

  1. Bernardo Soares
  2. Bernardino Soares
  3. Pedro Passos Coelho

 

 

SOLUÇÕES:

1-b) Susan Sontag in Olhando o Sofrimento dos Outros 2-c) José Riço Direitinho in O Escuro Que Te Ilumina 3-a) Teresa Veiga in Antes da revolução 4-a) Marieke Lucas Rijneveld in O Desassossego da Noite 5-b) Oscar Wilde in De Profundis 6-b) William Shakespeare in Júlio César 7-c) Rainer Maria Rilke in Cartas a um Jovem Poeta 8-a) Anton Tchékhov in Três Irmãs 9-c) Kevin Powers in Pássaros Amarelos 10-a) Bernardo Soares in Livro do Desassossego

 

Imagem: Summer Girl 1 de Trish  Biddle (Courtesy of Bert Christensen)

A FÚRIA DO HERÓI

Agosto 01, 2021

J.J. Faria Santos

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O herói, oficial e cavalheiro, louvado e condecorado, posou de camuflado, o uniforme favorito daqueles em quem a nação deposita confiança e reconhece competência, e não esconde que considera estar num patamar superior ao lamaçal que parece associar ao sector onde pontifica como presidente do Sporting Clube de Portugal. Frederico Varandas diz que “odeia” mitos, mas não resiste a tiradas a roçar o épico (“Prefiro perder ou até morrer com as minhas ideias do que sobreviver sem acreditar no que estou a fazer.”), se bem que morrer com as suas ideias não é exactamente morrer pelas suas ideias.

 

O que perpassa por toda a entrevista de Varandas ao Expresso (como de resto na maior parte das suas proclamações) é aquilo que os anglo-saxónicos apelidam de self-righteousness, ou seja, a convicção de que as suas ideias e, sobretudo, o seu comportamento são moralmente superiores. Daí esgrimir a sua educação e os seus valores em contraste com os seus homólogos: um cuja prisão não o surpreendeu e outro cuja impunidade por ter sido apanhado numa escuta a “oferecer serviços de prostituição a um árbitro” lhe faz confusão. Reconheça-se-lhe, porém, a lucidez e o desassombro de admitir que um dos seus defeitos é “a irracionalidade” que tem com o futebol (“chego a ter vergonha das coisas que fiz”), dando como exemplo estados de exaltação que o levaram a “partir mesas”.

 

A mesma lucidez, aliás, que o leva a admitir que no desporto “mesmo que se faça tudo bem, tudo o que é correcto, tudo o que é teoricamente possível, às vezes, perde-se, porque do outro lado temos rivais fortes, com poder e competência.” (O que pressupõe que não necessitam de expedientes ilegais para serem competitivos.)  Se conseguir alcançar um equilíbrio entre a retórica desabrida e a roçar o populismo e o sentido de missão guiado pelos valores que acarinha, ganham o seu clube e o desporto nacional. Num sector pejado de declarações incendiárias e protagonistas salientes, mais do que “partir mesas” é preciso construir pontes. E recusar o maniqueísmo de construir uma narrativa que ponha em confronto o herói de capa e espada contra os bandidos que emergem do bas-fond para conspurcar o imaculado. Além do mais, parece-me ser uma evidência que a autoridade moral se obtém através do reconhecimento da comunidade, e não exactamente pela proclamação repetitiva urbi et orbi pelo próprio dos seus excelsos dotes.

 

Imagem: Pormenor de fotografia de Tiago Miranda (Expresso)

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