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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

2021 - DANÇA DO DESEJO E DA PAIXÃO

Dezembro 29, 2020

J.J. Faria Santos

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Basta o desejo. O simples e irreprimível desejo. Como explicou Martha Graham, pioneira e revolucionária da dança moderna, “cada dança é uma espécie de diagrama da febre, um gráfico do coração. O desejo é algo de adorável, e é daí que a dança provém, do desejo”. Pode sempre adicionar uma bolha de espelhos a girar no tecto e uma indumentária à maneira (peça conselho ao amigo(a) hipster ou ao seu personal shopper). E carregue no play soltando a música esfusiante para receber 2021.

 

O género é à sua escolha. Pessoalmente, recomendo a corrente mais revivalista da música de dança, revitalizada por uma infusão vigorosa da estética disco. O ano de 2020 (do qual nos despedimos com o alívio com que tratamos os parentes incómodos e os amigos inconvenientes) ofereceu-nos quatro belos exemplares desta tendência, todos incluídos na lista dos melhores álbuns de dança do ano pela revista Billboard. Do adequadamente intitulado Disco de Kylie Minogue (com influências dos Chic, de Giorgio Moroder e Donna Summer) a Future Nostalgia de Dua Lipa, passando pelo bom gosto e savoir-faire de Róisín Machine da irlandesa Róisín Murphy e pelo soberbo What’s Your Pleasure? de Jessie Ware (na definição da Billboard, “um álbum glamoroso e sensual, contido e, porém, ousado, uma sequência de sonho cinematográfico executada entre o rosado e o vermelho-sangue”, eis um quarteto à altura da banda sonora da passagem de ano.

 

E, acima de tudo, dance. Como se estivesse num ritual xamanístico a exorcizar os maus espíritos e a expandir a consciência. E não se iniba com a interiorização das suas limitações. Afinal, e citando novamente Martha Graham, “os grandes bailarinos não são grandes por causa da sua técnica, eles são grandes por causa da sua paixão”. Portanto, impulsionados pelo desejo e pela paixão, fechados nas nossas bolhas domésticas (cortesia de um coronavírus que queremos ver destronado), dancemos em nome da esperança e do futuro.

 

Imagem: Gifer.com

BONIFÁCIO E A BELEZA DE SALVAR FASCISTAS

Dezembro 22, 2020

J.J. Faria Santos

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Atente. Engatilhe a sua indignação. Prepare-se para usar a arma da petição. Sabia que está em cena uma peça que faz uma “chocante [e] implícita apologia da violência”, onde “o acto de matar ergue-se até ao elevado e sublime patamar do belo”? Felizmente, temos a historiadora M. Fátima Bonifácio para nos chamar a atenção para o “desaforo do título”, para “o sentimento de impunidade da esquerda” e, sobretudo, para a alarmante evidência de que “a ideia de violência revolucionária não morreu, apenas aguarda um momento oportuno para de novo matar fascistas” (Público, edição de 21/12/2020, artigo Matar fascistas).

 

A peça em questão intitula-se Catarina e a beleza de matar fascistas e tem texto e encenação de Tiago Rodrigues. A acção situa-se em 2028, num Portugal governado por uma extrema-direita em maioria absoluta apostada em ilegalizar sindicatos, instituir cercas sanitárias para os ciganos e desmantelar o SNS. Aquando da estreia em Guimarães, o encenador, citado pela Visão, fez notar que se trata de “uma peça que nos coloca num contexto imaginário, ficcionado, para pensarmos sobre as nossas vidas e sobre o que poderá ser o futuro se não tivermos cuidado e não refletirmos e agirmos no presente.” E acrescentou estar em causa uma “abordagem muito clara à ameaça da ascensão de populismos de extrema-direita, de tendência fascista” e à forma como a democracia se pode defender dessa “ameaça”. 22 representações da peça previstas para os primeiros meses de 2021 já se encontram esgotadas, facto certamente explicável pela adesão entusiástica da turbamulta de furibundos intelectuais de esquerda e de proletários sedentos de sangue, armados de alfaias agrícolas, prontos para esquartejar fascistas.

 

Bonifácio esclarece-nos, com uma clareza ofuscante, que a vida tem “corrido bem” a Tiago Rodrigues porque ser de esquerda “rende muito”, ilustrando esta premissa com a renovação do seu mandato como director artístico do Teatro Nacional e com a atribuição do Prémio Pessoa em 2019. É, aliás, do conhecimento público que o júri do Prémio Pessoa é uma corja de esquerdistas radicais. O mesmo pode ser dito de quem o galardoou com o Prémio Europa de Teatro em 2018 e da República Francesa que lhe atribuiu o grau de Chevalier des Arts et Lettres. E se não fosse a covid-19 (nem tudo é mau numa pandemia…), ele estrearia uma peça pela Royal Shakespeare Company baseada em dois livros do notório comunista José Saramago. Os indícios amontoam-se. É certo que foi nomeado para director do teatro em 2014 por Jorge Barreto Xavier, membro do Governo de Pedro Passos Coelho, mas quem nos garante que o secretário de Estado da Cultura não era um esquerdista aparentemente assintomático?

 

Mas a historiadora vai mais longe e mais rápido, iluminando com a sua clarividência as inúmeras e terríveis implicações de tolerarmos ou desvalorizarmos a noção da “beleza de matar”. É que, explica ela com uma linearidade assombrosa, “os assassinos do ucraniano, segundo a tese de Tiago Rodrigues, podem muito bem ter actuado impelidos por uma irreprimível sede de beleza”. Estaríamos assim, se não desvirtuo o pensamento de Bonifácio, muito perto de legitimar o assassinato de Ihor Homeniuk como uma espécie de arte performática.

 

Já dizia Oscar Wilde que “toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo. Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas próprias expensas. Os que lêem o símbolo fazem-no a suas próprias expensas.” Felizmente ainda existem pessoas corajosas como a historiadora, que não se deixam intimidar pela opacidade do símbolo, nem hesitam perante a sua aplicação empírica. Devemos estar todos gratos à professora doutora M. Fátima Bonifácio pela sua luta persistente e corajosa contra a barbárie esquerdista, a bem da nação e da preservação da fauna fascista. Principalmente aquela que na região demarcada do Chega pode ajudar a “terraplanar um território em que uma direita liberal e conservadora poderia assentar arraiais”, como ela escreveu num outro artigo, intitulado Desnorte. A minha única objecção é em relação ao termo “terraplanar”. Aterro e escavação parece-me um pouco sinistro, propício a evocações de violência e desordem, algo tão longe da tradição de uma conservadora de boa cepa.

 

Imagem: Inimigo Público/Marco Neves Ferreira

O NATAL DA TUA AUSÊNCIA II - FRED

Dezembro 20, 2020

J.J. Faria Santos

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É véspera de Natal. Já passou quase um ano e meio desde que partiste e continuo a saltar para o teu lado da cama conjugal que partilhavas com o Pedro. E a olhar para ele. Primeiro para o vulto enrolado nas mantas e depois para o rosto onde se misturam o espanto e a compreensão intuitiva. Os cínicos, os mal-intencionados ou os descrentes da bondade animal podem achar que o meu percurso matinal em direcção ao vosso quarto é apenas a manifestação de um hábito (é verdade que nós, os gatos, apreciamos a constância e as rotinas), mas seria estulto ignorar a possibilidade do sentimento de perda transcender a condição humana. E a verdade é que sinto a tua falta, da tua mão a percorrer o meu dorso, dos teus dedos enredados nas minhas orelhas, da tua voz pairando suave no reino da paz doméstica. Que importa que não me lembre dos traços do teu rosto? (Parece que os investigadores estão divididos no diagnóstico desta falha felina: há quem ache que nós somos incapazes de distinguir os rostos humanos e há quem ache que este é um detalhe que simplesmente nos deixa indiferentes.) Qual é o problema? Não proclamam vocês que “quem vê caras não vê corações”? Pois, nós vemos corações. E aspiramos o aroma da vossa essência humana, o cheiro da vossa identidade única e irrepetível. Nas primeiras semanas após o teu desaparecimento, sempre que me era possível, eu intrometia-me em armários e até gavetas onde repousavam as tuas roupas, as quais preservavam o teu cheiro, mesmo que mesclado com o dos detergentes e amaciadores. Agora, na impossibilidade de o reencontrar, contento-me com um sucedâneo. É por isso que interrompo a minha higiene pessoal quando o Pedro vai tratar da dele e o persigo. Porque sei que na intimidade da casa de banho, empunhando o teu perfume, ele vai evocar-te, permitir que revivas, sob a forma de um esparso aguaceiro perfumado. E quando ele pega em mim e me incita a ir ter com o Tiago, vou de boa vontade, porque graças ao mais apurado dos meus sentidos levo-te comigo.

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Mentir-te-ia se te dissesse que o confinamento me transtorna grandemente. Há alguma coisa mais deliciosa que passar longas horas a dormir, ou intermináveis minutos a fixar um ponto obscuro numa parede ou a examinar o comportamento de um pássaro irrequieto? Não sou um gourmet, nem tenho gostos requintados, e o sexo parece-me claramente sobrevalorizado. Pelo menos do que me lembro… antes de ser castrado, o que, ainda assim, me provoca sentimentos ambivalentes. Os ardores da paixão deixavam-me inquieto, insuportavelmente dependente da lei do desejo, mas, por outro lado, havia algo de boémio e sofisticado na vadiagem alimentada pela luxúria. Mesmo que tudo acabasse num beco esconso com uma gata sem pedigree. Não será exagerado da minha parte dizer que foi cometido um crime contra a minha autodeterminação sexual, mas tudo isto faz parte do passado, e de um passado anterior ao nosso encontro. E mesmo que esse crime pudesse ser reconhecido, certamente já deve ter prescrito. Não sou dado a lutas quixotescas, submeto-me à realidade mesquinha e subverto-a sempre que posso. E nos intervalos durmo. E sonho. E muitas vezes sonho que estou a dormir. E quando acordo, salto para a secretária do Tiago, e posto-me tipo torre de pêlo ao lado do portátil. A caminho dos 14 anos, o Tiago começa a interessar-se por alguns conteúdos que não deseja publicitar no seio familiar, e não serei eu que irei cometer inconfidências. Na verdade, de cada vez que me junto a ele, insiste em impingir-me a visualização de vídeos no YouTube protagonizados por gatos supostamente virtuosos ao piano ou do Instagram da Choupette, a gata “viúva” do Karl Lagerfeld. Ora aqui está um homem que, se fosse vivo, teria motivação, interesse e talento para criar uma máscara protectora para os felinos que se adaptasse aos nossos imprescindíveis bigodes…

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Na verdade, não é recomendada a colocação de máscaras em animais domésticos. Podem até ser prejudiciais. Lamentavelmente, tudo indica que os gatos sejam mais susceptíveis à doença do que os cães. Se eu for infectado, corro o risco de apresentar sintomas de problemas respiratórios e gastrointestinais. Temos de tomar precauções semelhantes às que são recomendadas aos humanos: permanecer em casa, e quando fora de casa manter a distância social, evitar aglomerações e a interacção com outras pessoas que não os coabitantes. A única parte boa é que não existe registo de que algum gato tenha contaminado um ser humano. Estou livre desse receio e do espectro da culpa, mesmo involuntária. E não posso dizer que o afastamento social seja um fardo. Gosto de observar o mundo do parapeito da janela e quando me aventuro no exterior, por períodos curtos, não me afasto dos meus domínios, cercados de muros e sebes. Já tive a minha dose de becos e travessias temerárias de vias rodoviárias. Sim, eu já fui um aventureiro, sedento de novas experiências, radical na minha exposição ao mundo. Agora, prefiro o conforto e o aconchego da repetição do ciclo de vida diário. E qualquer intromissão do inesperado parece (e é) um desaforo, uma contrariedade de proporções alarmantes. Não te quero perturbar, onde quer que estejas, mas uma intrusa ameaça imiscuir-se no nosso lar. Não me parece que a culpa possa ser atribuída ao Pedro. Mesmo sabendo que os homens têm certas necessidades, emocionais e também de índole sexual.  Se fossem apenas estas últimas que estivessem em jogo, eu diria que seria de ponderar a hipótese (horrenda, é certo, desumana, claro) de castrar o Pedro. Só de pensar na selvajaria disto, eriça-me o pêlo todo. Para já não falar do lamentável assassinato da minha coerência.  Eu também tive a minha dose de gatas fatais, miando maviosamente e abanando a cauda sedutoramente. E sucumbi várias vezes. Mas paguei o preço do desencanto e do desalento que as paixões inconsequentes geram. Eu sei que tu quererás que o Pedro persiga a felicidade, sem ficar preso na dor do irrecuperável, mas esta mulher, acredita, é uma sonsa insossa que não o merece.

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Eu sei que estamos na quadra da boa vontade e da comunhão dos espíritos, mas mesmo na época dos licores deixa-me servir o veneno. A candidata ao teu lugar já invadiu a casa. Em plena pandemia, diga-se, embora com a atenuante de ter feito o teste na véspera e o resultado ter sido “não detectado”. Chama-se Maria Ana. Não é Mariana, que é demasiado banal… é Maria Ana. Dá para acreditar? Aposto que se tiver irmãos se chamam Bernardo Maria, Pedro Maria, António Maria e assim sucessivamente. As classes afluentes têm uma fervorosa devoção mariana (ou será devoção maria ana?) Que tal te parece o meu sentido de humor? Cáustico? Que é que eu vou fazer? Sou felpudo, fofo, adorável, mas canso-me de ser bonzinho. Em vez de afiar as unhas, afio a língua? Perdoas-me? Tenho de admitir que ela se esforçou por ser agradável com toda a gente. O Tiago achou-a simpática, mas titubeante. Eu não a achei, digamos, asquerosa, mas deu um passo em falso que pesou sobre a minha consideração (e de que maneira…) Não é que a criatura, de uma forma assarapantada e inopinada, deslocou o pé direito e infligiu-me uma dor lancinante ao pisar a minha cauda? Claro que eu fiz questão de assinalar este humilhante incidente com um miado pungente, que trepou na escala dos decibéis, ao mesmo tempo que me pus em fuga com a agilidade que me caracteriza. Se eu quisesse ser verdadeiramente melodramático, no acto da fuga derrubava a árvore de Natal, mas a criatura não merecia tal tremendismo. E se achas que o pior já pensou, cogitas mal. Tentando emendar o faux pas, e preocupada com o meu desaparecimento fulminante, não obstante a terem tentado sossegar, a Maria Ana tratou de solicitar a minha presença, balbuciando uns piedosos “bichinho, bichinho”. Sabes bem como me irrita quando me tratam assim! O meu nome é Fred! Quem diria que por trás deste pretensioso Maria Ana se escondia uma saloia? Perdão! Uma saloia, não, que tem dignidade e merece respeito! Uma bimba! É o que ela é! Claro que pouco depois saí do meu recanto seguro, mantive uma distância de cerca de três metros (ela é mais perigosa que o coronavírus…) e tratei de me refastelar, permanecendo ainda assim bem alerta às manobras dela. Assoberbada pelo remorso, a criatura descaiu-se, comentando que eu a estava a fixar demoradamente. Que devia estar receoso ou traumatizado, ou, em alternativa, zangado. Seria tranquilizador se alguém explicasse à Maria Ana que graças à membrana nictitante eu não preciso de pestanejar tão frequentemente para evitar os olhos secos. E é isto que explico o magnetismo do olhar felino, que há quem ache enigmático e quem ache sinistro. Ainda bem que ninguém o fez. Não quero que a tranquilizem; quero-a inquieta. Está bem, admito. Quando quero, sou mau. O inconveniente é que ser mau deixa-me exausto. Acho que vou dormitar. Posso não ter a cama Swing da LucyBalu como a Choupette, mas tenho melhor. Tenho duas: a minha e o teu lado da cama.

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Do meu posto de observação, no parapeito da janela, assisto a dois tipos de curtas-metragens: ou ruas desertas de gente ou um soturno Carnaval em Dezembro, com gente exibindo umas máscaras que assustam a criatividade em nome da segurança. Para ser rigoroso, um ou outro exemplar da vasta galeria de humanos arrisca na inovação. São os que usam o acessório no queixo, por exemplo, ou os que deixam o nariz a descoberto. Outros ainda, portadores de máscaras sociais, inovam no tecido e nos padrões, mas a variedade não faz esquecer a ameaça subjacente. Os encontros na rua são furtivos, prudentemente distantes, por vezes deixando que a voz transporte o calor dos gestos que se evitam ou recusam. Muitos deles dedicam-se a passear os cães (quando não são selvaticamente rebocados por animais possantes com fúria de liberdade…), ao passo que outros também se dedicam a uma actividade chamada desporto. Que muitos prefiram correr desalmadamente em vez de se refastelar a dormir ou a descansar ultrapassa a minha capacidade de entendimento…A Maria Ana, a dita cuja, não aprecia o jogging, pelo que neste aspecto particular não acompanha o Pedro. Parece que é praticante de Pilates. Haja alguma coisa que a eleve aos meus olhos. Ouvi dizer que a maior parte dos exercícios de Pilates são executados com a pessoa deitada, o que me parece um franco progresso. Desporto deitado já me parece tolerável.

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Que será que vou receber de presente? Uma daquelas camas com ventosas que se podem prender às janelas para melhor apanhar sol? Um snack estaladiço com recheio de salmão? Um coffret com champô e condicionador? Pelo tamanho não consigo perceber. Já fui discretamente remexer o embrulho, tentar avaliar o peso e se chocalhava. A envergadura não diz nada. Pode ser um daqueles presentes-matriosca, com uma caixa dentro de outra caixa e assim sucessivamente. Não fui assim tão discreto na empreitada, pelo que acabei admoestado e escapuli-me com o rabo entre as pernas. Não por medo, claro está, mas por vergonha, porque fui incompetente e apanhado em flagrante delito. Como um rato reles e impaciente. Enfim, é Natal e ninguém leva a mal. A casa está menos agitada, com menos pernas para contornar ou envolver (e também menos crianças excitadas que acham que a minha cauda é uma espécie de liana preparada para ser manipulada a seu bel-prazer). A Maria Ana não vem. Passa o Natal com a família dela, naturalmente. Também não faria sentido que viesse. Cá entre nós, deixa-me que te diga que acho que o Pedro vê nela apenas um placebo para o desamparo, ou um daqueles medicamentos SOS que os médicos prescrevem para as dores mais insuportáveis. Não há qualquer risco da drageia Maria Ana causar habituação e o único efeito secundário provável é o reavivar da nostalgia. Ela não é feita do material do qual as sucessoras emergem. É esta a minha opinião definitiva, embora tenha de admitir que acho que dificilmente alguém estará à tua altura. Não se trata do exagero da admiração, trata-se de uma evidência irrefutável. Tão irrefutável como o espírito de Natal. Não quero saber dos que acenam com o consumismo ou com a frivolidade dos enfeites. Não há como negar a força da corrente que liga quem percebe partilhar um destino comum ao qual é indispensável um módico de afecto e solidariedade. Eu ia evocar o humanismo, mas que sei eu do humanismo? Eu sou apenas um simples (e ao mesmo tempo esplendoroso, concedo…) felino. Já em relação ao afecto, sinto-me com legitimidade para o invocar, mesmo que o pratique com irregularidade e ao sabor dos meus caprichos. Hoje, esparramado junto a uma fonte de calor, embalado pela música das palavras, sublinhadas pela percussão dos talheres e dos copos que se tocam, aconchegado pela tribo humana reunida à volta da mesa natalícia, sinto um pouco menos a tua falta. Perdoas-me? É que aquela dor aguda, persistente e desorientadora foi substituída por uma melancolia apaziguadora. Graças aos trezentos milhões de neurónios que possuo (quase o dobro dos neurónios dos cães, essas criaturas medonhas claramente sobrevalorizadas…), e à minha intensa devoção a ti, permaneces viva na minha memória, que é por natureza selectiva e episódica, e presente nesta reprise do Natal da tua ausência.

 

Imagem: Rosa Bebb (freevintageart.com)

 

2020 - ANNUS HORRIBILIS

Dezembro 13, 2020

J.J. Faria Santos

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O que tornou 2020 um ano tão horripilante foi a simples (e ao mesmo tempo insuportável) circunstância de, para evitar a progressão de uma doença, nos termos visto forçados a renunciar aos sinais e aos gestos da nossa humanidade. E termos tido de os substituir por sucedâneos insatisfatórios e até caricaturais (um encontro mediado por um ecrã é escasso, e um presencial toque de cotovelo um frouxo e insólito sinal de afecto por comparação com o enlaçar das mãos ou o toque dos lábios na face).

 

A propósito de um ano medonho, Stephanie Zacharek escreveu um ensaio na Time do qual podemos retirar encorajamento e esperança. Sobretudo quando ela recorda que o Renascimento se desenvolveu sobre os escombros de uma Europa dizimada pela peste negra. “As nossas vidas podem ser duras – neste dia, neste mês, neste ano – mas contemplem o que outros alcançaram em eras de sofrimento”, nota Zacharek, que considera que “a ameaça mais debilitante neste ano foi a sensação de desamparo”.

 

Desamparo e, porventura, impotência. Citando declarações de Barack Obama em entrevista à The Atlantic, editada em Portugal pelo Expresso, noutro contexto, mas que podem ser aplicadas a este, “a questão não é se as coisas podem ficar melhores; é quanta dor temos de sofrer para chegar lá”. Confrontados com um acontecimento que se tornou viral (na mais pura acepção da palavra), resta-nos confiar no progresso científico e adoptar rigorosas regras de convivência que evitem ou minimizem o risco de contágio, no fundo estender ao nosso quotidiano o código de conduta que Obama diz aplicar na sua acção política, a saber: “ancorar o nosso comportamento na ética e na moralidade e na decência humana básica.”

QUIZ CHICÃO - SOPHIA OU AGUSTINA?

Dezembro 06, 2020

J.J. Faria Santos

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  1. “Afinal a revolução não emancipara os pobres, os infelizes, só os tornara menos anónimos. Lamentavam-se como crucificados, mas faltavam os meios para os descer da cruz.”

 

  1. “Sou a seta lançada em pleno espaço e tenho de cumprir o meu impulso, sou aquelo que venho e logo passo.”

 

  1. “Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro sabendo que o real o mostrará.”

 

  1. “Um pequeno indício conduz a uma prova sonhada.”

 

  1. “Quanto deserto atravessei para encontrar aquilo que morava entre os homens e tão perto.”

 

  1. “A dicção não implica estar alegre ou triste mas dar minha voz à veemência das coisas.”

 

  1. “O melhor da vida está em provocar um facto, tirando a Deus a prioridade.”

 

  1. “A verdade não é uma especialidade para especializados clérigos letrados.”

 

  1. “Porque erramos? Naturalmente porque a verdade se adianta a nós e ameaça assim a nossa liberdade.”

 

  1. “Tudo o que há de bom sai dum coração que conheceu o desespero da liberdade.”

 

SOLUÇÕES: 1) Agustina in “A Ronda da Noite”; 2) Sophia in “Catilina”; 3) Sophia in “Poema”; 4) Agustina in “A Ronda da Noite”; 5) Sophia in “A Estrela”; 6) Sophia in “Arte poética”; 7) Agustina in “A Ronda da Noite”; 8) Sophia in “Nesta hora”; 9) Agustina in “A Ronda da Noite”; 10) Agustina in “O Comum dos Mortais”.

 

IMAGEM: Facebook Jardim de Sophia (Sophia e Agustina na Grécia em 1963)

EDUARDO LOURENÇO (1923-2020) EM DISCURSO DIRECTO

Dezembro 01, 2020

J.J. Faria Santos

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“Devemos falar de nós como se estivéssemos mortos. Para ter a sorte de algum dia parecermos vivos. Ao menos por comparação com essa morte que nunca contemplaremos. Se a contemplássemos saberíamos então o que é mesmo estar morto. Mas mesmo então não saberíamos o que é ser morto.” (2000)

 

“A mais alta forma de caridade é aceitar a nossa morte porque os outros que nós amamos também morreram.” (2003)

 

“Mesmo entregas de prémios, homenagens, cenas assim, criam-me um enorme stress. Depois de uma delas, das primeiras, estive seis meses sem escrever uma linha. Foi como se tivesse assistido ao meu próprio enterro.” (2003)

 

“Tudo quanto toquei me formou e deformou. Como um búzio desejei guardar o mar dentro de mim.” (1953)

 

“Reveladoras são as nossas atitudes face ao imprevisto permanente que é o mundo e os outros para nós. São os outros quem nos conhece. Ou, pelo menos, são a ponte de passagem para o nosso conhecimento: a ocasião de uma revelação.” (1952)

 

“É fácil escrever sobre o Diabo. É sempre um texto autobiográfico.” (2001)

 

“Entramos na idade da Internet. Próxima etapa: falar directamente com Deus. O que nós fazemos desde que falamos.” (2003)

 

“Nós temos alguns momentos shakespearianos na nossa história, mas alguém tapou esses buracos todos. Não há conflito. Há passividade.” (2010)

 

“De regresso de um passeio breve abro a cancela do jardim e deparo comigo absorto diante do cipreste que projecta a magra sombra no branco da casa. Assim, distraído de mim, no intervalo de nada, descobri num segundo que são as coisas que nos amam e não o contrário. Em silêncio amparam-nos por existir sem ter existência e esta calada vida é um olhar pousado sobre nós. Um aceno sem olhos, um abraço sem mãos. De quem?” (1991)

 

Fontes: Público, edições de 21/04/1996, 11/11/2000, 26/05/2001 e 26/05/2003; Visão de 22/05/2003; Expresso de 30/12/2010.

Imagem: Pormenor de fotografia de Rui Gaudêncio

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