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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A ARTE DA SALVAÇÃO

Junho 29, 2020

J.J. Faria Santos

David Ligare_symi-thrown-drapery-1978.jpg

Symi(Thrown Drapery) - David Ligare_1980.jpg

Apesar de se tratar de uma evidência desmentida quase todos os dias, persistimos na presunção de conhecer o grau de felicidade dos outros. Fiamo-nos nas convenções sociais, nos sorrisos abertos, nos “tudo bem” estereotipados que trocamos com uma leveza que se aproxima da futilidade. Não é sequer por mal. É uma forma de exorcizarmos os nossos próprios fantasmas, como se a proximidade da tristeza ou do desgosto nos contaminasse, como um vírus que nenhuma máscara conseguisse deter. Por outro lado, ao trocarmos juras de bem-estar (pronunciadas com energia e convicção) julgamos criar uma espécie de imunidade de grupo. Armados com estes códigos de leitura, tratamos de os aplicar aos amigos e aos conhecidos, mas também às figuras públicas que admiramos ou toleramos. E quando o comportamento ou as acções de alguém destoam deste cenário de bem-aventurança, ficamos estupefactos e mergulhamos na incompreensão. Como foi possível? Como é que ninguém se apercebeu? A quem imputar a falha no discernimento do risco? Até nos podemos sentir traídos por quem, intuímos, escolheu abandonar-nos. Esquecemos, claro, os insondáveis desígnios da alma humana e o íntimo e oculto desespero que a pode enegrecer, e que torna essa “escolha” o resultado de um dilema dilacerante.

 

A Arte já nos dá tanto (por exemplo, fruição estética e ferramentas para a compreensão do mundo ou para a construção da nossa identidade) que seria manifestamente exagerado que lhe exigíssemos que assumisse o papel de salva-vidas. E os seus protagonistas, no fundo os veículos que a conduzem até nós, confrontam-se, também eles, com os imponderáveis da natureza humana, quer esteja em causa um actor atormentado pela auto-estima em falência ou uma diva do canto confrontada com um terrível diagnóstico médico. Mesmo assim, Amália clamava que os musicais de Fred Astaire lhe salvaram a vida. Invadida pelo temor de um tumor, hospedou-se num hotel em Nova Iorque, pediu um equipamento de vídeo e cassetes dos filmes de Astaire e a crença de que “ia morrer”, ou de que se “ia matar”, foi substituída pela vontade de resistir e viver. A arte da salvação consistiu na salvação pela Arte.

 

Vivemos tempos desafiantes e terríveis na sua complexidade e incerteza. Tempos em que, por razões profilácticas, e citando Lauren Slater num texto escrito para a Time, a imposição da utilização da máscara por causa do SARS-CoV-2 resultou no facto de “metade do rosto humano ter sido erradicado por este vírus, ficando visíveis apenas os olhos”. Tempos em que “privados da intimidade e da simples amizade, estamos todos em risco”. E se em alturas de plena normalidade falhamos na percepção (e no debelar) dos dramas dos que nos são mais próximos ou mais queridos, como poderemos ajudar em plena era do distanciamento físico? Teremos que reinventar as condições de proximidade. E fazer um esforço de eloquência para que o poder da palavra possa mitigar a ausência da proximidade e do toque. Mesmo que nos digam, como no clássico do cancioneiro americano que Amália Rodrigues cantou (The Nearness of You):“It’s not the pale moon that excites me / That thrills and delights me, oh no / It’s just the nearness of you”. (Qualquer coisa como: “Não é a Lua pálida que me excita / Que me emociona e delicia, oh não / É somente a tua proximidade”.)

 

Imagens: Obras de David Ligare (wikiart.org)

A SOLIDÃO E O RECOLHIMENTO SEGUNDO EDWARD HOPPER

Junho 22, 2020

J.J. Faria Santos

Room_in_New_York_Hopper.jpg

Nas masmorras do confinamento, privadas da interacção social, restritas a um núcleo duro de afectos insuficiente, obrigadas ao convívio forçado, as pessoas experimentaram o paradoxo do convívio da brutal solidão com o anseio do isolamento. A dada altura, esgotados os jogos de salão e com a imaginação em perda, recriar no microcosmos do lar toda uma existência revelou-se esgotante e exasperante. E até a realidade virtual do Facebook e do Instagram sofreu pela falta de “eventos” e de oportunidades para realçar o glamour e o lifestyle. A vida interrompida passou a vida recriada (com uma viagem pelo interior, na dupla acepção de reflexão íntima acerca do sentido da existência e das intimações da morte e também de experimentação da turbulência causada pela convivência no casulo, com expedições cirúrgicas ao exterior sob o espectro do medo) e, por fim, ao resgate mitigado das condições de vida tradicionais que o desconfinamento permitiu.

 

Num artigo acerca da “iconografia do isolamento”, editado em Abril no Público, Vítor Belanciano notava que em tempos de pandemia se partilhavam nas redes sociais imensas reproduções de obras de Edward Hopper, mas fazia questão de lembrar que “a solidão não tem necessariamente que ver com o confinamento físico. É mais um sentimento de ausência de ligação, de proximidade, de intimidade. Como se resultasse de uma dificuldade em definir o grau de vínculo desejado.” Neste caso, a culpa é da vontade ou da indecisão no grau de comprometimento. Belanciano defende que “cada quadro parece ser a atomização de uma imagem pertencente a uma realidade mais vasta”. E esta circunstância, claro, convida ao enredo, a efabulação, à dramatização, onde cada cena do quotidiano (no teatro, numa cafetaria ou num quarto numa habitação) é um prenúncio de descalabro emocional.

 

Não que esta pareça ter sido a intenção de Hopper - criar uma espécie de fotograma de um filme, um melodrama, que o espectador realizaria na sua mente. Pedro Mexia citou no Expresso o crítico de arte da New Yorker, que considerou a ideia de associar os quadros de Hopper à solidão como “uma projecção lamechas”. O próprio Mexia confessa ter encontrado neles “mais introspecção e despojamento do que desespero de não ter ninguém”. Peter Schjeldahl, o crítico da New Yorker, escreveu que nas obras do pintor nenhum juízo é emitido acerca dos retratados, dado que a “evidência nua e crua da existência deles é suficientemente provocadora”. É, porventura, esta capacidade de nos interpelar que leva Schjeldahl a considerar que Hopper “deixa-nos a sós com o nosso próprio isolamento, retirando-nos o fôlego sem no-lo devolver”.

 

Respiremos fundo, então. Concentremo-nos na nossa condição de espectadores, cujo olhar, na análise de Ivo Kranzfelder num volume da Taschen dedicado a Hopper, é o tema de quase todas as telas do pintor americano. Claro que “o contemplador permanece no exterior”, remetido ao papel de voyeur. E para Kranzfelder “a questão fundamental incansavelmente posta por Hopper é a seguinte: como funciona o fenómeno da percepção? Ou, ainda mais precisamente, o que é a realidade?” Remetidos a esta condição e confrontados com figuras que nos ignoram, mas intrigam, como resistir à tentação da construção de uma narrativa? Como declinar a excitante tarefa de, sobre uma tela de Hopper, desenvolver a nossa percepção da realidade (“lamechas” ou orgulhosa, devastadora ou ferozmente independente, ou ainda, pura e simplesmente, banal)?

 

Vejamos, a título de exemplo, o quadro Room in New York. Um instantâneo de tédio, uma instalação de monotonia? Uma cena doméstica, urbana, com a mulher a martelar displicentemente o piano, enquanto o homem, aparentemente mais concentrado se debruça sobre o jornal. O que retirar desta provável cena conjugal: a tensão da incomunicabilidade? Arrisquemos a “interpretação” contra a corrente. Imaginemos um cenário pós-confinamento em que, por caprichos da vontade, decidem ficar em casa (precisamente porque já não se sentem coagidos a fazê-lo). Ele acaba de ler o jornal e pousa-o na mesa. Recosta-se no assento e contempla a mulher que se ergue e aproxima, trocando o afago das teclas do piano pela suavidade das veias que mapeiam as mãos dele. Com as crianças ausentes de visita aos avós sedentos de afecto, há todo um mundo de possibilidades que se abre para as manobras da conjugalidade. Adicionemos o estímulo de uma bebida espirituosa e o som de Keith Jarrett a tocar Someone To Watch Over Me. A ausência de palavras, longe de serem sinónimo de desistência ou desalento, são agora o testemunho de uma cumplicidade, o prenúncio de um festim.

 

IMAGEM: "Room in New York" de Edward Hopper (www.wikiart.org)

A ESQUERDA CONTROLA A COMUNICAÇÃO SOCIAL?

Junho 14, 2020

J.J. Faria Santos

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Até parece que estamos na Coreia do Norte, na Rússia ou na Venezuela. “O Governo é hoje o grande timoneiro da comunicação social, isto é, o mais feroz condicionamento da liberdade de expressão (…) Os noticiários das televisões parecem feitos nos gabinetes dos ministros”, escreveu o cronista António Barreto em Dezembro do ano passado no Público, naquele seu estilo apocalíptico que pretende fazer passar por lucidez indesmentível um entranhado desencanto. E acrescentou: “(,,,) existe uma espécie de ambiente geral, de clima cultural ou de moda e espírito sempre disponíveis para agradar à esquerda, calar os defeitos, inventar conveniências e fabricar verdades, mas sobretudo condicionar e definir agendas”. Como se vê, faltou pouco para agitar o espantalho do “marxismo cultural”… E faltou, também, como elemento do coro, o estilo gongórico e barroco de um Paulo Rangel a denunciar a “asfixia democrática”.

 

Num artigo em que se queixava do excesso de exposição a notícias que se debruçavam sobre “ridículas campanhas anti-racistas”, e lamentava que permanecesse “quase oculto” o “miserável estado” do SNS, parece ter escapado a Barreto a existência de órgãos de comunicação social e jornalistas de créditos firmados e reputações sólidas, incapazes de compactuarem com as condições por ele enumeradas num cenário de condicionamento da liberdade de imprensa. A verdade é que a formulação de António Barreto corresponde a uma análise enviesada que determinados sectores da sociedade portuguesa pretendem que seja indiscutível. E cria uma amálgama que gera injustiças e atinge a própria credibilidade de quem a promove. É verosímil, por exemplo, a ideia de um jornal como o Expresso, dirigido por um João Vieira Pereira insuspeito de simpatias pela esquerda, “inventar conveniências e fabricar verdades”? E estão a ver o José Gomes Ferreira na SIC ou na SIC Notícias a fazer as suas análises de forma a “calar os defeitos” e a “agradar à esquerda”?

 

Volta e meia, o assunto da independência da comunicação social e a sua relação com os meios financeiros indispensáveis à sua subsistência regressa à ordem do dia, como ainda sucedeu recentemente com os apoios definidos pelo Governo. A pretexto de critérios sempre discutíveis e de procedimentos atabalhoados, lá vem a suspeita de simpatias ou da futura cobrança de favores. Critérios editoriais são encarados como “censura”, e jornalistas com uma imagem pública de assertividade e com um pendor sensacionalista pespegam no peito a medalha dos injustiçados.

 

A televisão, dado o seu imediatismo e o seu impacto, é a arena por excelência das disputas ideológicas. Tendo em conta a importância do comentário político televisivo para a formação das opiniões, o MediaLAB do ISCTE-IUL apresentou no ano transacto um estudo que “analisou 16 programas televisivos, entre o dia 1 de Março e o dia 1 de Abril de 2019, que continham 53 espaços semanais ‘fixos’ de opinião ou debate político ocupados por comentadores ‘residentes’”. O trabalho de análise realizado pelos investigadores Paulo Couraceiro, Gustavo Cardoso, Ana Pinto Martinho e João Sousa permitiu verificar que entre os comentadores “conotados politicamente, existe uma primazia, ligeira mas existente, de comentadores de direita (55%)”. Dos 53 espaços de opinião, 17 correspondiam a “espaços de comentário de ‘assinatura´”, ou seja, os seus protagonistas discorriam livremente, sem estarem sujeitos ao contraditório (para além das questões introduzidas pelo jornalista), sendo que nesta circunstância “a vantagem da direita aumenta (69%)”. Numa análise por estação, conclui-se que a SIC Notícias dedica “igual número de espaços à esquerda e à direita”, ao passo que na TVI24 a direita “começa a ganhar terreno face à esquerda”, “vantagem que se acentua “na CMTV (71% para 29%)”. A TVI e a SIC “desequilibram os números a favor da opinião de direita, uma vez que não têm comentadores políticos de esquerda em espaços de opinião ‘fixos’”.

 

Os autores do estudo têm o cuidado de frisar (e muito bem) que “a análise política à esquerda ou a direita não significam necessariamente um apelo ao voto em determinado partido, nem tão pouco um apoio partidário manifesto”. Na actualidade, por exemplo, permanecem em antena, em horário nobre, o ex-líder do PSD, Marques Mendes, e o ex-líder do PP, Paulo Portas. Será possível que do alto dos seus púlpitos, com acesso a fontes privilegiadas, com conhecimento próprio da área da comunicação social, permaneçam cegos e surdos, coniventes com o abastardamento da missão do jornalismo que Barreto antevê sob a forma do “condicionamento da liberdade de expressão”?

 

António Barreto terminava o seu artigo no Público com um lamento: “É pena que não haja oposição. Nem de direita, nem de esquerda”. Curiosamente, mais de cinco meses depois, Rui Rio abordava o tema ao seu estilo inimitável: apesar de para o Governo ser “mais simpático dar dinheiro à comunicação social”, porque precisa dela para “passar a sua mensagem”, explicou Rio, “as empresas de comunicação social são empresas iguais às que fabricam sapatos. Se têm uma dificuldade, devem ter os apoios que existem para todas as empresas.” A verdade, digo eu, é que não existem dados objectivos que permitam afirmar que os mass media, como alguns sapatos, apertem os calos à direita e reservem o conforto para a esquerda.

 

Imagem: mag.sapo.pt

UM SONHO ADIADO NUMA AMÉRICA SEM ALMA

Junho 08, 2020

J.J. Faria Santos

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“Tenho um sonho de que os meus quatro filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.” 57 anos depois, o sonho de Martin Luther King permanece adiado. E o lar dos bravos e a terra dos homens livres assemelha-se cada vez mais a uma república das bananas.

 

A 5 de Setembro de 1958, King declarou perante um juiz: “Fui vítima de arbítrio policial gratuito. Fui agarrado nas escadas do tribunal, empurrado para a rua com os braços dobrados, sufocado e pontapeado. Todavia, no meu coração não há nem ressentimento nem amargura contra os polícias mencionados. (…) Estes homens, tal como demasiados dos nossos irmãos brancos, são vítimas do seu meio, um meio cego há mais de três séculos pelos efeitos da desumanidade de escravatura e da segregação.” A 25 de Maio de 2020, George Floyd morreu devido a uma redução do fluxo de sangue para o cérebro, motivada pela compressão que o joelho do polícia que o manietara exercera sobre o seu pescoço. “Por favor, não consigo respirar”, implorou Floyd perante o impassível agente da autoridade com uma mão descontraidamente aconchegada no bolso das calças. A América era novamente confrontada com o racismo institucional e a revolta eclodiu alimentada pela indignação e pela suspeita da impunidade. E embora muitos protestos tivessem um carácter pacífico (descontando os radicais que aproveitaram a boleia e os criminosos que se dedicaram ao puro vandalismo e à pilhagem), tem sido difícil seguir o exemplo de King (“Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto criativo degenere na violência física. Temos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.”)

 

Não ajudou que a comandar o país esteja um incendiário inconsciente e ignorante, um narcisista que se julga omnipotente, um mentiroso compulsivo que propaga a desinformação e se mostra geneticamente incapaz de liderar pelo exemplo. O resultado é a “carnificina americana”, expressão que ele usou para definir a era pré-Trump, e que agora parece adequada para definir o seu mandato assente no conflito e na divisão. Robin Wright anota na New Yorker que em 2016, num comício, Trump afirmou: “Esta eleição determinará se permaneceremos um país livre na mais verdadeira acepção da palavra ou se nos transformaremos numa república das bananas corrupta, controlada por grandes doadores e governos estrangeiros”. Inadvertidamente, ou talvez não, ele parece ter acertado. A América é governada por uma espécie de “ditador de opereta”, apostado em dinamitar todos os freios e contrapesos da democracia para se perpetuar no poder, que chamou para o seu governo amigos multimilionários, doadores e correligionários com propensão para a bajulação, e que tratou com displicência as acusações de interferência nas eleições americanas por parte de Putin. O único factor que parecia contribuir para alguma estabilidade e bom senso (a presença de militares) aparenta estar a esboroar-se. Em declarações à The Atlantic, a propósito da agora infame fotografia do Presidente com a Bíblia, James Mattis, ex-secretário da Defesa, declarou: “(…) jurei apoiar e defender a Constituição. Jamais imaginei que a tropas que fizeram esse mesmo juramento seria ordenado, em qualquer circunstância, que violassem os direitos constitucionais dos seus concidadãos – muito menos para possibilitar uma oportunidade fotográfica bizarra para um comandante supremo eleito, com os chefes militares ao seu lado.”

 

Sintomaticamente, numa altura em que à crise de saúde pública motivada pelo coronavírus se junta a degradação da conjuntura económica e a agitação social provocada pelo assassinato de George Floyd, a celebrada resiliência da democracia americana parece estar a ser posta em causa. O historiador Robert Kagan afirmou à New Yorker que “muito do que faz funcionar o nosso sistema depende da fidelidade a um ethos [conjunto de costumes e práticas] democrático por parte de todos os envolvidos”, sendo que Trump já demonstrou que o “sistema contém em si a capacidade de ser subvertido.” Na mesma revista, Masha Gessen, num artigo intitulado A performance fascista de Donald Trump, escreveu que “na sua intuição, o poder é autocrático; ratifica a superioridade de uma nação e de uma raça; reivindica a dominação total; e suprime impiedosamente toda a oposição”. Ou seja, a democracia pode estar em perigo.

 

Em tribunal, em Setembro de 1958, Martin Luther King afirmou também que “a América corre o risco de perder a sua alma e, desse modo, resvalar na anarquia fatídica e no fascismo paralisante. Tem de acontecer alguma coisa que acorde a consciência adormecida da América antes que seja tarde demais”. Palavras proféticas que permanecem actuais e exigem um sobressalto cívico. E desiludam-se os que acham que isto é um problema americano. Há uma quadrilha de seguidores de Trump prontos a cavalgar os ressentimentos e as misérias morais e económicas um pouco por todo o mundo.

 

Imagem: Martin Luther King em 1963, no dia em que fez o célebre discurso "I Have a Dream" (Wikimedia Commons)

O TRUMP DOS TRÓPICOS

Junho 01, 2020

J.J. Faria Santos

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“No futuro, os manuais de História falarão de um doente mental assassino que foi Presidente do Brasil. É já o que reconhece o mundo inteiro. Mas o mundo inteiro não percebe como se chegou a isto”, escreveu o realizador Sérgio Tréfaut no Público de 24 de Maio, aludindo ao impacto da pandemia e ao descalabro do sistema de saúde brasileiro. Na Time, a jornalista Ciara Nugent escreveu que “mesmo pelos padrões de outros populistas de direita que procuraram desvalorizar a pandemia de covid-19, a maneira como Bolsonaro desafiou a realidade foi chocante”. Nada de verdadeiramente surpreendente, pois Bolsonaro deve ter aprendido com o seu ídolo na arte da política a promover “factos alternativos” quando a realidade não respeita os seus desejos, ou não fosse ele apelidado de Trump dos trópicos.

 

Sabemos que os seus modos são grosseiros, o seu estilo de liderança abrasivo e provocatório, e que colhe inspiração política nos protagonistas da ditadura, pelo que as suas credenciais democráticas são escassas, mas, mesmo assim, esperaríamos que o desenrolar de uma reunião ministerial ocorresse sob a capa da urbanidade e de alguma solenidade institucional. Em vez disto, tivemos o vislumbre de uma assembleia de governantes irados e à beira do descontrolo, como se fossem energúmenos a prepararem linchamentos. Um Presidente a asseverar a necessidade de alterações na Polícia Federal (“não vou esperar foder a minha família toda”) e a apelidar governadores e prefeitos de “bosta” e “estrume”; um ministro da Educação a manifestar a sua predilecção pelo encarceramento dos “vagabundos” juízes do Supremo Tribunal Federal; a ministra dos Direitos Humanos a sugerir a prisão de governadores por causa das medidas de confinamento e a estabelecer uma ligação estapafúrdia entre a pandemia e o aborto (“Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil?”); eis três exemplos do delírio demencial e da espiral de ódio que transformou este encontro ministerial num misto de associação de malfeitores e agremiação de pacientes do manicómio.

 

Não deixa de ser irónico que Sérgio Moro tenha declarado à Time que no último ano o “novo governo não estava a cumprir as suas promessas de combater a corrupção e fortalecer as instituições”, e que “o seu foco é o Estado de direito”. A sério? E não hesitou em aceitar o convite para ministro de quem faz a apologia da tortura e declarou em Junho de 2016 que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”? Não lhe pesará na consciência ter servido de caução de responsabilidade e seriedade a quem se transformou numa perigosa ameaça a esse mesmo Estado de direito? O mais provável é ter sucumbido à vaidade, sobrevalorizando os (seus) fins e remetendo a legitimidade dos meios para a arena da futilidade.

 

O outro Sérgio, o cineasta, escreveu no citado artigo que estava “prestes a deixar o Rio de Janeiro, num momento em que já nem os hospitais privados dão garantia de atendimento”. E acrescentou: “Sinto-me na obrigação de fugir por razões de sobrevivência. Mas os 210 milhões de brasileiros não podem, nem têm meios para fugir.” De facto, nós não compreendemos como o Brasil “chegou a isto”. Conhecemos as teorias explicativas (a descredibilização do PT, a percepção de uma sociedade corrompida e corruptora a precisar de regeneração, o infame ressentimento de uma certa classe com a ascensão dos mais desfavorecidos), mas a escolha de Bolsonaro para liderar uma suposta nova era na política brasileira desafia qualquer racionalidade e qualquer crença. Como uma personagem de Clarice Lispector (a Lóri de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres), não faltará quem diga: “Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.” É preciso resistir. Combater a brutalidade e a ignorância. Apoiar a imprensa livre e todas as instituições de controlo democrático. Limitar o prepotente aprendiz de ditador e os seus intolerantes acólitos. Resgatar a decência humana.

 

Imagem: Twitter - Memetrópoles

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