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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

DA DEVASTAÇÃO À DEVASSIDÃO

Julho 31, 2018

J.J. Faria Santos

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Um professor de literatura monta um tripé com um pequeno telescópio, apaga a luz da sala e entretém-se a observar o quotidiano dos habitantes do prédio em frente. Interessa-se pelo que possam esconder, mas também pela medida em que as histórias deles possam mostrar-lhe a dimensão do seu próprio falhanço. É uma escolha, um caminho. Diz ele: “Andar perdido, perdermo-nos em jardins ou em lamaçais, tanto faz: é parte do percurso: mas não se perde quem não caminha.” E muitas vezes o caminho da perdição é a resposta a uma ausência. “Tornarei a minha vida mais devassa para não sentir tanto a tua falta”, promete o professor, escrevinhando no seu diário como se ele viesse a ser lido pela vizinha por quem se apaixona. A devassidão como produto da privação.

 

O Escuro Que Te Ilumina, de José Riço Direitinho (com edição da Quetzal), é um romance com uma amplitude de registos que vai do lirismo romântico à mais desbragada pornografia, numa linguagem que sem se perder em lugares-comuns ou recear quebrar tabus sabe encontrar a justeza em cada termo. Sem recuar perante a abjecção, sem questionar a lei do desejo, sem falsos moralismos. “Porque as almas gémeas não são as que se talham no Céu. Mas as que se esculpem uma à outra em alguma parte dos seus abismos.”

 

É na penumbra dos eclipses emocionais (como Bonnie Tyler canta em Total Eclipse of the Heart: “Once upon a time I was falling in love / But now I’m only falling apart”) que se questionam sentimentos e se refazem afectos. Nesse período de desabamento emocional, muitas vezes se alimenta o corpo para apaziguar a alma. Dizem que vale tudo no amor e na guerra, cenários em que a memória tende a ser difusa. Porque, como explica o professor de literatura a quem J. R. Direitinho atribui o estatuto de narrador: “Por vezes, há traços que não conseguimos já reconstruir: a vida perturba-nos o olhar.”

 

 Imagem: Foto de Helmut Newton (courtesy of Bert Christensen)

PORTUGAL.THE COUNTRY (CENAS DA VIDA LUSA)

Julho 24, 2018

J.J. Faria Santos

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Pode um erro numa chave do Euromilhões conduzir a uma espécie de patologia denominada “insuficiente vontade libidinosa”? Pode, diz o Tribunal da Relação de Lisboa. Em Outubro de 2016, César Augusto viu os números no rodapé do Jornal da Noite da SIC e achou que tinha ganho 156 milhões de euros. Acontece que a chave estava errada e passados 55 segundos a estação televisiva corrigiu o lapso. Mas o mal estava feito. Como explicou a jornalista Natália Faria no Público da passada quinta-feira, o apostador “entrou em depressão profunda”, e o “casamento de 20 anos começou a soçobrar” por causa do desaparecimento “da vida regular íntima” que mantinha com a sua mulher. É aqui que entra a “insuficiente vontade libidinosa”. Quem teria vontade de fornicar depois de ter “perdido” 156 milhões de euros em 55 segundos? A Relação condenou a SIC a pagar-lhe 7500 euros, a título de “lenitivo para a dor moral e desgosto sofrido”. Porque o abalo íntimo provocado pelo défice da libido, esse é impagável e insusceptível de compensação adequada.

 

Era previsível. Parece um remake duma fita clássica. Um filme-catástrofe que evolui para um libelo de denúncia de desonestidade e desvio de fundos. Primeiro, toda a gente (a começar pelo impulsivo e irrequieto Marcelo) exigia rapidez na reconstrução das habitações e apresentava queixa contra a burocracia. Zurzia-se nas entidades que faziam o apuramento das circunstâncias. O Estado falhara no socorro, não podia falhar no ressarcimento possível. Agora, que se suspeita que meio milhão de euros para reconstrução de moradias foram desviados para habitações não prioritárias, lá veio o intrépido Presidente da República exigir que se saiba o que correu mal. É que os “portugueses não podem ficar com dúvidas” em relação à aplicação dos donativos. Como, aliás, não ficaram em relação aos “malefícios” da “burocracia” e ao perigo de queimar etapas. Mas o povo, que é sábio, também compreende que depressa e bem, há pouco quem. Mas não nos martirizemos em demasia, nem tiremos conclusões apressadas acerca da nossa propensão para a vigarice. Veja-se o caso do povo germânico, celebrado pelo seu rigor e organização, que tenta desde 2012 inaugurar o aeroporto de Berlim-Brandenburgo. A dita obra, que começou por ter um orçamento de 2,5 mil milhões de euros e já vai em 6 mil milhões, debate-se com contratempos que vão desde 90 km de cabos com defeito até à escassez de balcões de check-in. No passado mês de Junho, soube-se que o espaço vai servir de parque de estacionamento para as viaturas da Volkswagen que não podem ser comercializadas por aguardarem o processo de certificação na sequência do escândalo da emissão de gases poluentes.

 

Manuel Pinho, ilustre cidadão do mundo, promotor de slogans espirituosos (Allgarve), amante de fotografia e frequentador de celebridades (Nick Knight, Michael Phelps) compareceu no Parlamento na condição de não se pronunciar sobre factos que estão a ser investigados pelo Ministério Público. “Teria o maior prazer em responder a isso. Era muito fácil e até era uma risota. Estou massacrado com esta situação. Mas não posso.”, disse ele. Acontece que a Justiça é lenta. Porquê continuar a submeter-se ao massacre? Porque não explicar já o motivo que justifica que tenha recebido cerca de 15000 euros mensais enquanto estava no Governo? Já nos rimos com os corninhos, mais valia continuarmos com a “risota”. Seria como assistir ao vivo a um episódio dos Donos Disto Tudo. Best of, claro.

Imagem: Wikimedia Commons

O PODER DO HUMOR CONTRA O PODER RISÍVEL

Julho 17, 2018

J.J. Faria Santos

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Sacha Baron Cohen, na pele de Ali G, Borat ou Brüno, sempre praticou um humor corrosivo e transgressor. A sátira aos costumes de uma nação ou a impiedosa desmontagem dos rituais do mundo da moda, por exemplo, parecem ter tido como único limite a sua imaginação para compor quadros hilariantes mas sobretudo ousados na sua concepção e concretização. De tal forma que alguns viram no seu estilo de fazer humor uma mera exploração infinita do efeito-choque.

O último projecto de Cohen, Who Is America?, mesmo antes da estreia provocou reacções adversas de entrevistados como Sarah Palin, quando percebeu ter sido vítima de uma partida do comediante britânico. Palin acusou-o de ter desrespeitado os veteranos de guerra americanos. Cohen respondeu na pele de uma tal Dr. Billy Wayne Ruddick, alguém que “só lutou pelo seu país uma vez quando disparou contra um mexicano que invadiu a sua propriedade”, acusando-a de ter sido atingida por “uma granada de falácias e estar a esvair-se em notícias falsas”.

 

A reacção do Dr. Ruddick apareceu no site Truthbrary (um neologismo destinado a ser o antónimo de um outro neologismo criado a partir de um jogo de palavras com lie e library). O Truthbrary assume a rejeição dos média tradicionais e pretende combater a falsa informação por eles propagada, e apresenta-se como uma selecção de estudos e inquéritos conduzidos “a favor do bem-estar do povo americano”. O site opta por um lettering carregado e/ou garrafal e tem um visual próximo dos da extrema-direita americana. À semelhança dos tweets de Trump, não faltam erros ortográficos. Eis uma amostra de alguns dos títulos das suas notícias: “Obama é queniano”, “Alemães sujeitos à sharia...Princípio do fim?”, “Sinais de que Hollywood é dirigida por uma elite satânica”, “As Forças Armadas implantaram um pó neural nas suas vítimas para as poder controlar remotamente”.

 

O que hoje pode ser entendido como chocante nesta encarnação de Sacha Baron Cohen é que ele nos confronta com uma realidade inequívoca. A sátira que supostamente carregaria em certos traços, ideias e situações para provocar o riso tem de se reinventar para não se limitar a ser uma retrato quase fiel de uma realidade, ela sim, delirante e tonitruante nas suas manifestações. Trump pode parecer um ditador de opereta, ignorante e inconstante, espalhando falsidades, inexactidões e puras mentiras, mas ocupa um lugar central no poder do mundo, acolitado por correligionários subservientes. Talvez o humor iconoclasta de Cohen contribua com a sua ferocidade para ajudar a demolir o muro de irrealidade que o trumpismo erigiu e que os argumentos racionais não têm sido capazes de combater eficazmente.

A ANTESTREIA DA SILLY SEASON

Julho 08, 2018

J.J. Faria Santos

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Porque não invadir a Venezuela? Eis a interrogação com que o intrépido Donald terá interpelado os seus conselheiros, em Agosto do ano transacto, numa reunião onde se discutiriam possíveis sanções. Alertado para os riscos de desestabilização da região (já para não falar da despicienda questão meramente burocrática da justificação de uma acção militar hostil), o magnata irascível não se deu por convencido. À margem da Assembleia-Geral das Nações Unidas, abordou vários líderes, entre os quais o presidente da Colômbia, certificando-se de que eles não estavam interessados em que ele pusesse em marcha os planos para a invasão. Os conselheiros e membros do seu gabinete revezaram-se nos argumentos, mas o que pode a sensatez contra a vontade de usufruto de um poder ilimitado? Poderiam ter arregimentado a capacidade de influência de Ivanka. Esta, por sua vez, até poderia procurar o aconselhamento da comunidade venezuelana radicada nos Estados Unidos. Sei lá, a Carolina Herrera, por exemplo.

 

Ao contrário da Venezuela, a Coreia do Norte possui armamento nuclear, pelo que nem o destravado Donald se atreve, seriamente, a ponderar invadir o país asiático. Em vez disso, escreve cartas a Kim Jong-un e oferece-lhe um CD do Elton John com o tema Rocket Man. Longe vai o tempo em que Trump era “mentalmente perturbado”,“gangster” e “velho”, e Kim “louco”, “baixo e gordo”. O certo é que esta espécie de Keeping Up With The Trumps continua a bater recordes de audiência. Infelizmente certos detalhes continuam envoltos na bruma do segredo de Estado, nomeadamente a magna questão de sabermos se Donald demora mais tempo a pentear-se que Melania.

 

E por falar em magna questão, Portugal debate com afinco e pundonor a cedência por parte da Câmara de Lisboa de um terreno para estacionamento da frota automóvel da Madonna e dos seus colaboradores. No Expresso, Daniel Oliveira pronuncia-se a favor da cedência; já Clara Ferreira Alves, em prosa de recorte queirosiano e ironia abundante, desanca no Medina e explica que “socialismo é generosidade e abertura” e que “uma pessoa muito rica tem direito a ser muito estimada”. O argumento do nosso provincianismo e deslumbramento com os famosos também abunda nas redes sociais e fora delas. Claro que repetir, cada vez que se pronuncia o nome de Cristiano Ronaldo, que ele é o melhor jogador do mundo não é provincianismo, é um facto indesmentível e um boost para o nosso orgulho. Da mesma forma, encarar um aperto de mão de Marcelo a Trump como um acto épico, ou uma sua réplica acerca da impossibilidade de CR7 ser eleito presidente em Portugal como o supra-sumo da verve não é provincianismo, embora se possa aproximar da idolatria. (E não será isto insultuoso para o melhor jogador do mundo? Não, porque foi dito pelo melhor presidente do mundo). Quanto a Trump, uma hora depois do encontro, deve ter magicado: Mar-celo, onde é que isso fica? Só conheço Mar-a-Lago em Palm Beach…

O RACISMO NUNCA EXISTIU

Julho 03, 2018

J.J. Faria Santos

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Vive em Portugal há 16 anos e há dois, quando se preparava para mudar de habitação, foi interpelada por um futuro vizinho: “Oh, preta, para onde estás a ir?”. Alguns dias depois, arremessou-lhe uma garrafa e deu-lhe um pontapé. Era preciso escorraçá-la. Há pouco mais de uma semana, numa paragem de autocarro, após ligeiras altercações, foi abordada pelo segurança que a agrediu violentamente com dois socos e a imobilizou no solo. Nas palavras da vítima, Nicol Quinayas, “depois de me bater veio para cima de mim com os joelhos, como se eu fosse um troféu”. O garboso atleta de um wrestling assustadoramente real garantira a Nicol: “Aqui não entras, preta de merda!”, a que se seguiu o tristemente clássico: “Vai apanhar o autocarro na tua terra!”.

 

No seu Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo escreveu: “O negro estava abaixo de tudo. Não tinha direitos. Teria os da caridade, e se a merecesse. Se fosse humilde. Se sorrisse, falasse baixo, com a coluna vertebral ligeiramente inclinada para a frente e as mãos fechadas uma na outra, como se rezasse.” Será possível que mais de quarenta anos depois do fim da guerra colonial persista no subconsciente de um povo uma noção absurda de superioridade de braço dado com uma assustadora falta de empatia pela condição humana? A celebrada amabilidade com que acolhemos os estrangeiros que nos visitam ou vivem entre nós não é generalizada. Aparentemente, há quem espere de alguns o low profile de uma cidadania diminuída, a subserviência agradecida, a gratidão temerosa, a subalternidade dos inferiorizados.

 

Acerca do nosso passado, Isabela Figueiredo escreveu “sobre o que muito se calou ou escondeu”. “Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.” O nosso presente tem a vantagem de não autorizar o esquecimento. As indignações tantas vezes fúteis das redes sociais também servem para afirmar e amplificar os valores civilizacionais que prezamos. O silêncio não é opção quando pode ser confundido com anuência ou tolerância. Ou ainda quando pode servir de suporte à noção estafada do país de brandos costumes onde o racismo nunca existiu.

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