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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UMA PALAVRA PROIBIDA, UMA IMAGEM ELOQUENTE

Novembro 28, 2017

J.J. Faria Santos

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O cardeal de Rangum pediu ao Papa que evitasse nos seus contactos oficiais com as entidades birmanesas pronunciar a palavra “rohingya”, sob pena de criar um incidente diplomático. Embora se compreenda que, em certos casos, a veemência bem-intencionada possa ter efeitos contraproducentes, confesso que me irritam os apelos ao recurso à diplomacia titubeante para lidar com a brutalidade mais ignominiosa. A minoria muçulmana da Birmânia está, na definição da Amnistia Internacional “encurralada num sistema perverso de discriminação institucional e sancionado pelo Estado que constitui apartheid”, e aquilo que as Nações Unidas já classificaram como “limpeza étnica” conduziu ao êxodo de mais de 600 000 pessoas, desde Agosto, para o Bangladesh. Massacres, violações e destruição de aldeias e vilas fazem parte do catálogo de atrocidades cometidas pelas autoridades birmanesas que não reconhecem aos membros desta minoria o estatuto de cidadãos.

 

A acompanhar as imagens que reportam a “jornada desesperada” que se conclui com o atravessamento do rio Naf em direcção ao campo de refugiados em Balukhali, o fotógrafo Kevin Frayer descreve na Time o impacto que nele teve a visão de um rapaz que trepou por um camião, estendeu a mão e tocou na perna do homem que distribuía ajuda alimentar, primeiro, e depois abraçou-a, enquanto suplicava e se desfazia em lágrimas. Frayer diz que é difícil comparar a “magnitude da tristeza” do rapaz com qualquer outra situação que ele tenha presenciado. E, embora receando que o seu contributo profissional para a denúncia de uma situação atroz possa não ter sido suficiente, acrescenta que se as fotografias, por mais “fugazes” que sejam, conseguirem despertar a consciência de alguém, impelindo à acção, então terá valido a pena. O desespero de um grupo étnico que representa cerca de 5% da população birmanesa e cujo nome não pode ser pronunciado, ora devido a um patente desprezo, ora devido a um qualquer tacticismo diplomático, encontra assim expressão no rosto de um rapaz em pranto.

THIS IS US (COM UMA PITADA DE TCHÉKHOV)

Novembro 21, 2017

J.J. Faria Santos

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Não é uma alegoria acerca dos bastidores do poder, suas intrigas e traições. Não é uma distopia futurista prenunciando os perigos da inteligência artificial. Não é uma ficção surrealista a redefinir os cânones do drama televisivo. Não é uma narrativa pós-apocalíptica onde cada acção pode pôr em causa noções de humanidade e civilização. This Is Us é uma comédia dramática familiar, povoada de personagens em luta com os seus fantasmas e à procura de reinvenção. Confrontados com a frustração das suas expectativas, no fundo com a impossibilidade dos seus talentos estarem à altura das suas ambições, poderiam dizer como a Irina da peça Três Irmãs de Tchékhov: “…o tempo passa e eu ando sempre com esta impressão de que nos afastamos da verdadeira vida, da beleza da vida, que cada vez nos afastamos mais, caminhando para um precipício qualquer.”

 

Mas ao contrário das irmãs da peça do autor russo, enclausuradas nas circunstâncias da sua própria existência, os Pearsons e os Taylors de This Is Us, excluídos os momentos compreensíveis de autocomiseração, estão mais próximos das interrogações do tenente-coronel Verchínin na citada peça: “Muita vezes penso: e se começarmos uma vida nova, mas em consciência? O que se viveu até agora é um rascunho, digamos, e a outra é passada a limpo!”

 

Nesta série televisiva ninguém parece prescindir de passar a vida a limpo, mesmo quando acabam por perceber que muitas vezes o que parecia conversa acabada não passava, de facto, de um rascunho. This Is Us não ambiciona a grande operática de Os Sopranos nem a genialidade de Sete Palmos de Terra. O seu território de eleição está próximo de seriados como Irmãos e Irmãs, onde se mostra como no quotidiano doméstico das famílias o banal se aproxima muitas vezes do extraordinário. This Is Us fala-nos dos obstáculos e de como os laços de entreajuda nos podem conduzir à superação. Porque afinal, para citar as derradeiras palavras de Macha na peça de Tchékhov: “É preciso viver…É preciso viver.”

 

(Citações de Três Irmãs extraídas da edição da Relógio d’Água com tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.)

CÃES DANADOS

Novembro 14, 2017

J.J. Faria Santos

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A Associação dos Profissionais da Guarda já remeteu um “ofício para o comandante-geral da GNR a expor a situação”. O jornal O Mirante fala de uma questão “complexa que passa pela segurança dos próprios guardas e pelas dificuldades operacionais de vários postos”. Ao Observador (sem relação com o Mirante…), César Nogueira, presidente da citada associação, levanta a magna questão que Portugal não pode ignorar: “Se o ministro que nos tutela não cria condições para os guardas na sua própria residência, será que o vai promover no resto do país onde há situações ainda mais complicadas?”

 

O assunto que deveria ter dominado o ciclo noticioso e ocupado todos os fóruns (não fosse a Web Summit e a crónica falta de cidadania…) sintetiza-se da seguinte forma: os guardas que se ocupam da segurança da casa do ministro da Administração Interna tiveram de ser deslocados para o exterior da habitação porque os cães do governante ladravam furiosamente aos estranhos e não deixavam ninguém descansar. Os militares, que inicialmente não tinham sequer acesso aos sanitários, dispõem agora de “uma pequena casa de banho junto à piscina”, mas continuam sem local para uma “refeição quente”.

 

O jornal Público divulgou o perfil (“de aparência fofa e inofensiva”) e a identidade (“Simão Cão e Kiko Bardinas”) dos meliantes. Um caso exemplar de como as aparências enganam: os “fofos” começaram por ser agentes de poluição sonora e acabaram por ser responsáveis pela degradação das condições do exercício da profissão dos guardas, num inadmissível desrespeito pela autoridade do Estado. Claro que este episódio só aconteceu devido à incompetência e à irresponsabilidade da geringonça (reparem no silêncio cúmplice do deputado do PAN!), sendo de estranhar a apatia da oposição (porque não fala Assunção Cristas?). Felizmente que, dada a sua função da válvula de escape do regime e a sua agudíssima sensibilidade política, o senhor Presidente da República estará fortemente inclinado a exercer a sua magistratura dos afectos com avisos a tiracolo (não passa uma semana sem que os jornais informem que o PR fez um aviso ou transmitiu um recado…ao Governo, geralmente).

 

Inicialmente, Marcelo terá ponderado uma comunicação ao país. As funções de soberania do Estado são-lhe particularmente caras. Cães, que não são de guarda, a fazer gato-sapato de militares que cuidam da segurança de ministros e que, por causa da habitação se localizar numa “zona isolada” parecem eles próprios precisar de segurança, quiçá, de cães de guarda? Confuso? Não desesperem. Provavelmente, Marcelo já vai a caminho de Casal da Charneca, Santarém. Leva resmas de afecto e também uma cozinha de campanha. Mas esta última só será necessária se falhar o grande trunfo que ele detém: leva consigo o ilustre Asa, o pastor alemão que lhe foi oferecido pela Força Aérea, que vai servir de mediador e, se for preciso, intimidar, perdão, chamar à razão canina, o Simão e o Kiko.

LEÕES DA SAVANA E RATOS DO TWITTER

Novembro 07, 2017

J.J. Faria Santos

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Leio no site da Newsweek que uma fotografia de um “aparente encontro sexual” entre dois leões do sexo masculino causou um grande escândalo no Quénia. A peça escrita por Conor Gaffey esclarece que comportamentos deste género ocorrem em centenas de diferentes espécies animais, embora tal aconteça geralmente como complemento de uma actividade sexual heterossexual e não como um acto exclusivo. Daí, escreve o jornalista, os “cientistas serem relutantes em utilizar termos antropomórficos – como gay e lésbico – para classificar os animais que se envolvem com parceiros do mesmo sexo”. O caso atraiu a atenção de Ezekiel Mutua, responsável pela entidade que regula o mercado audiovisual e visto como um zelador da moral e dos bons costumes, que entendeu afirmar: “Estes animais precisam de aconselhamento, porque provavelmente foram influenciados por gays que visitaram os parques nacionais e se comportaram inadequadamente”. Esta é uma extraordinária proclamação. Por onde começar? Demos de barato que reunidos certos pressupostos os animais imitam o comportamento dos humanos. De que forma é que os leões foram “influenciados”? Os gays que visitam os parques nacionais do Quénia vão acasalar para a savana porque gostam de o fazer sendo observados por leões? Ou a influência limita-se a gestos de afecto mais discretos que os leões depois extrapolam até à consumação do coito? E, mais interessante, irá o Sr. Mutua pessoalmente ministrar o aconselhamento?

 

Interrogo-me que tipo de influência exerceria Trump sobre os leões se porventura visitasse os parques naturais do Quénia acompanhado pela discreta e contida Melania. Arrisco a afirmação de que Ezekiel Mutua a encararia como positiva, desde que o Presidente americano não se oferecesse para o aconselhamento, já que a perspectiva da promoção de actos como agarrar a genitália não devem preencher os requisitos de decência do moralista queniano. Aliás, não deixa de ser simbólico que numa altura em que o assédio sexual está na ordem do dia na América, resida na Casa Branca um confesso perpetrador.

Trump pode parecer um leão no Twitter, mas na verdade é um rato. James Wolcott explica-o na Vanity Fair de Novembro num artigo ilustrado soberbamente por Darrow. Neste momento, escreve Wolcott, “seria prematuro descartar a presidência Trump como uma espécie de roedor morto esparramado no linóleo. Na sua detestável resistência, ele está mais próximo de um rato encurralado”. Consequentemente, é de esperar que ele continue a espernear e que não se renda com facilidade. Mas quando ele abandonar a Casa Branca, prossegue Wolcott, “por reforma antecipada, para a prisão, para um sanatório ou para asilo na Rússia”, nessa altura começará o juízo final sobre o seu mandato. O que não pode esperar é a reflexão acerca do grande “desafio pós-Trump”: tornar a América um “país à prova de tiranos”. Inoculada com o trumpismo, a nação americana deveria ficar imune. Será que ainda vai aceder a uma dose de reforço? Dois mandatos seria, isto sim, uma dose de leão.

 

(Imagem: Pormenor da ilustração de Darrow para a Vanity Fair)

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