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NO VAGAR DA PENUMBRA

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CLASSES SOCIAIS: ESPERANÇA DE VIDA E VIDAS SEM ESPERANÇA

Março 11, 2012

J.J. Faria Santos

Downton Abbey retrata um tempo que projectava uma alegada ordem natural das coisas, onde os servidores nunca se sentiam serventuários e os poderosos esbanjavam magnanimidade e bom senso. Claro que este cenário idílico tinha as suas brechas – a discricionariedade raramente evita a prepotência. Numa sociedade altamente estratificada, a criadagem encontrava no grau de proximidade com o seu senhor a medida da sua auto-estima, quando não um sucedâneo de uma família ausente ou longínqua. Claro que esta “paz dos anjos” só poderia persistir enquanto todos respeitassem o acordo tácito de “cada um ocupar o seu lugar”. O diabo está nos detalhes e, aqui, o detalhe é como determinar o lugar de cada um e justificar a perpetuidade dessa condição.

No seu ensaio “A Classe Média: Ascensão e Queda”, Elísio Estanque cita um estudo realizado em Portugal e concluído em meados dos anos 90  do século passado para concluir que, apesar de ser inegável a ampliação da classe média e da mobilidade ser “um facto”, “quando olhamos as classes dos extremos, os índices de reprodução social são bem mais acentuados do que os da mobilidade”.O autor cita também um estudo comparativo da OCDE, de 2010, donde se pode extrair a conclusão de que “os países do Sul da Europa são os que evidenciam processos mais escassos de mobilidade social”.

Numa passagem recente pelo nosso país, Michael Marmot, professor catedrático em Epidemiologia e Saúde Pública, desfiou um série de dados eloquentes para se perceber o impacto que a desigualdade social tem na esperança de vida. Catarina Gomes, jornalista do Público, transcreveu alguns desses dados: em Westminster, “a diferença entre o mais rico e o mais pobre dos habitantes é de 17 anos”;em Washington D.C.: 18 anos. Se a comparação for feita entre países, chegamos a maiores disparidades: a esperança média de vida é de 42 anos para uma mulher no Zimbabwe e de 80 anos para uma mulher no Japão: de 47 anos para um homem no Quénia e de 82 anos para um homem na Suécia.

Desvalorizar a desigualdade social, remetê-la para o terreno da relíquia ideológica ou encará-la como um negligenciável dano colateral do dinamismo da economia de mercado tem um preço que se mede em vidas humanas – não só a sua qualidade mas, sobretudo, a sua duração.

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