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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O PASSADO DE(S)COMPOSTO

Fevereiro 09, 2012

J.J. Faria Santos

A nossa percepção da realidade é sempre subjectiva e transitória. No entanto, quando essa percepção se centra no passado há sempre uma ilusória noção de imutabilidade, como se a narração da nossa vida pretérita estivesse escrita na pedra. Atribuímo-nos, sem grande espírito crítico, o distanciamento suficiente para uma análise clínica de factos e pessoas. Privilegiamos o apaziguamento, até porque o ressentimento ou a frustração perturbariam demasiado os nossos dias. A nostalgia vive dessa cristalização da realidade passada, como uma fotografia a preto-e-branco.

Mas o que acontece quando um passado arrumado irrompe no presente e cedemos à tentação de o revisitar? E se nesse processo algo lunático nos apercebemos de quão erradas estavam as nossas ideias preconcebidas?

Tony Webster, ao confrontar-se com o seu passado, percebe que certos gestos de grandeza não passam de uma estratégia de fuga, que o julgamento superficial que por vezes fazemos das pessoas mais que idealizado ou injusto pode ser cruel, e que é sempre fútil e infrutífera a tentação de reescrever o passado.

 “O Sentido do Fim”, de Julian Barnes, é uma meditação sobre o tempo e a memória. Interroga-se Tony Webster: “Vivemos com suposições tão fáceis, não vivemos? Por exemplo, de que a memória é igual aos acontecimentos mais o tempo (…) Quem foi que disse que a memória é aquilo que pensávamos ter esquecido? Para nós devia ser óbvio que o tempo não actua como fixador, e sim como dissolvente”.

Por entre a bruma do tempo, os acontecimentos gravados na película da nossa memória não asseguram a autenticidade ou a fiabilidade. E imaginar que podemos sempre rectificar ou inverter actos ou omissões que fazem parte do nosso passado é um exercício condenado ao fracasso. Que a consciência desta impossibilidade não nos angustie será sempre a medida de uma certa sabedoria. 

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