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NO VAGAR DA PENUMBRA

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LIBERDADE: A VIDA SEM INSTRUÇÕES

Setembro 08, 2011

J.J. Faria Santos

Será pouco atraente, talvez até um pouco redutor, dizer que a vida é feita de compromissos, renúncias e superação de erros. E, no entanto, as escolhas que trazem gratificação e sensação de completude são apenas um ínfimo episódio na aventura de viver. Por vezes, saber merecer o perdão dos outros não resulta numa redenção imediata, é uma via-sacra tortuosa sem resultado garantido. A vida não vem com livro de instruções, não tem um modo de usar, o que de resto seria perfeitamente supérfluo, uma vez que o processo de crescimento consiste em sabotar o conhecimento que os progenitores e outros bem intencionados profetas nos tentam transmitir.

Patty, com o seu défice de auto-estima e a sua exacerbada competitividade, atravessou a sua vida entre o questionar da sua escolha aparentemente sensata (Walter, marido dedicado, advogado competente, ecologista empenhado, com igual talento para os desafios do espírito e para a bricolage), e a perspectiva da transgressão (Richard, amigo íntimo do marido, egocêntrico e inconstante, músico inspirado e construtor de terraços em períodos de greve da musa). Mas não é a única. Joey, o filho que ela idolatra, popular e empreendedor, oscila entre Connie e a sua "inteligência irónica" e Jenna, a bela e fútil irmã do colega de faculdade. Walter, incapaz de arrancar Patty da abulia em que o álcool e a depressão a acabam por mergulhar, deixa de ser indiferente aos avanços de Lalitha, sua colaboradora num ambíguo projecto de preservação de espécies ameaçadas.

Mas as escolhas que os personagens de Jonathan Franzen  têm de fazer, no exercício da sua liberdade, não se limitam aos domínios do afecto. Em nome de compreensíveis, e por vezes até legítimos, interesses políticos, sociais e económicos, encobrem-se violações, disfarçam-se negócios corruptos e ruinosos, e minimizam-se atentados ecológicos no processo de criação de uma reserva para espécies protegidas.

Em "Liberdade", Jonathan Franzen confronta-nos com a fragilidade das nossas convicções, e com a inquietante volatilidade dos nossos desejos, mas também com a força de atrito que é a nossa interacção com o mundo que nos rodeia. Manter a nossa absoluta integridade é uma utopia em que fingimos acreditar para aplacar a nossa consciência. Inevitavelmente, fazemos concessões e alinhamos em compromissos. Doutra forma, só nos restaria renunciar a viver.

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