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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

ANATOMIA DA GREI

Agosto 23, 2011

J.J. Faria Santos

No quarto habitado pela luminosidade de uma tarde de Verão, e de cuja janela de sétimo piso se pode alcançar uma vista panorâmica da cidade, quatro pacientes (haverá palavra mais justa, mais adequada, para definir um estado que une o padecimento à resignação?) desfiam histórias para passar o tempo. Confinada ao leito, maleita diagnosticada mas terapêutica sujeita a um compasso de espera, Magda compartilha com as parceiras de quarto o facto do seu ex-genro ter trocado a filha por uma brasileira que conheceu na internet. A sua incompreensão deriva da condição de namoro à distância, que persiste. Como subsiste um sentimento em relação ao qual a proximidade, o toque, a simples presença no mesmo espaço físico está ausente? Como pode o virtual sustentar um sentimento real? Assim pensa, no intervalo em que esquece as dores causadas pelas consequências da sua "osteoporose em último grau". Celeste, afogada na demência, passou a noite inteiro a balbuciar palavras e frases sem nexo, reproduzindo com as mãos e o lençol da cama gestos da sua profissão: modista. Uma enfermeira entra no quarto, cabelo louro apanhado a descobrir um rosto de belos traços, e pergunta-lhe qualquer coisa, antes de perceber que é a "senhora do Alzheimer". Sai do quarto com a mesma determinação com que entrou, e é fácil efabular e imaginá-la, daí a pouco, a sorrir para um médico engatatão e a condescender em furtivas manifestações de afecto. Palmira foi a última a chegar, parece dormir com o peso dos seus noventa e quatro anos, e acaba de ser alvo de uma desmesurada manifestação de carinho por parte da funcionária do lar que a alberga e que a trata por avó. O que parece desmentir a ideia comum dos lares serem depósitos de idosos, onde o tratamento asséptico e cortês nem sempre afasta o peso da despersonalização que a palavra instituição parece conter. Maria vai ser a primeira a sair, com o pé enfaixado, ansiosa pelos conselhos para o pós-operatório e pela posse do boletim de alta. Recusa a oferta do chá, cansa-se de esperar pela carta de alforria e, apoiada no andarilho, aventura-se pelo corredor em busca de quem cumpra a promessa de poder ir para casa. Regressa ao quarto, mais sossegada, a tempo de ouvir Magda contar um episódio que testemunhara nas Urgências: um casal, de partida para férias, que sofrera um acidente de viação e que, agora, na maca, colar imobilizador, um e outro moviam-se irrequietamente, perguntando pela carteira e restantes pertences. O homem acabara mesmo por tombar da maca, agravando o fluxo de sangue que fluía de um golpe no rosto. Maria despediu-se com um desejo de melhoras para as suas companheiras involuntárias, e abandonou o hospital, observando o médico e a enfermeira que, no exterior, fumavam desalmadamente. Era um gesto que de certa maneira os humanizava. Temos tendência a encara-los como deuses, capazes de nos curarem o corpo e a alma. A humanidade que nos assusta, porque associada à possibilidade do erro, é a mesma que nos consola, porque os coloca como nossos semelhantes, mas com o poder de um conhecimento vital.

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