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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O CASO DO MINISTRO EM AUTOGESTÃO

Julho 03, 2022

J.J. Faria Santos

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O caso tinha de terminar, evidentemente, com a afirmação inequívoca da autoridade do primeiro-ministro. Clara e brutal, pois é sabido que António Costa alia a frieza e a flexibilidade táctica ao killer instinct. A grande surpresa aqui é como um papel de embrulho que acondiciona o ministro das Infraestruturas. As suas motivações, a sua interpretação da realidade, a sua disponibilidade para acatar a desautorização, arriscando transformar a assunção da “falha relevante” num haraquíri político sem remédio. Terá sido vítima da sua ambição ou de um destemperado voluntarismo que o impeliu a exibir a sua capacidade de decisão perante um cenário que lhe terá parecido de águas estagnadas, argumentam uns. Terá querido forçar a sua saída (?), argumentam outros, dando lastro a uma hipótese tão retorcida (dada a sua decisão de “obviamente” continuar no cargo) que remeteria para a categoria das traquinices infantis o alegado maquiavelismo de Marcelo.

 

O episódio, ainda para mais ocorrido com um Governo a quem a oposição acusa de ter uma estratégia eficaz de comunicação e propaganda, não se consegue explicar só com o desconhecimento, a descoordenação ou o voluntarismo. Há aqui, portanto, um enigma que fez o executivo cair no pântano do ridículo. A ideia, porém, de que Pedro Nuno Silva (PNS) possa arriscar o descrédito e ter posto em risco a sua carreira política parece-me exagerado. Uma demissão irrevogável prontamente revertida acabou transformada numa bem orquestrada (e camuflada) candidatura presidencial em curso, pelo que um acto de contrição “sem má-fé” e um compromisso de lealdade confirmado pelo tempo poderão fazer com que PNS alcance a redenção.

 

O caso serviu também para a oposição aproveitar a brecha e adicionar carga dramática ao rocambolesco acontecimento. O Chega aprestou-se a anunciar uma moção de censura e o sempre excitável e iracundo Rangel tratou de aludir, com falsa subtileza, a uma “anomalia institucional”. E o Presidente da República, claro, com aquele seu peculiar sentido de equilíbrio, dias depois de ter salvaguardado a ministra da Saúde, tratou de repor a ordem natural das coisas insinuando, leve, levemente, de improviso, em horário nobre, que António Costa ao escolher/manter o “colaborador” Pedro Nuno Santos teria sido “infeliz”. O primeiro-ministro é, de facto, “o responsável pelas escolhas”, embora Marcelo se comporte como se tivesse droit de regard  sobre elas. Para poder escolher ministros, está no cargo errado. Claro que para exercer o cargo certo para o usufruto dessa prerrogativa não bastaria a magistratura dos afectos e a diplomacia da selfie.

 

Imagem: portugal.gov.pt

TRISTE SINA: JÉSSICA, A FADISTA E A BRUXA MÁ

Junho 25, 2022

J.J. Faria Santos

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A história contém os ingredientes de um conto infantil: a criança amorosa, a bruxa má, a cantora/fadista com ares de cigarra, o padrasto bom ou menos mau. O pai (a formiga?) ausente na Holanda e o marido da bruxa, chamado Justo (a ironia não quis faltar), cúmplice nos alegados crimes de rapto, extorsão e homicídio da pequena Jéssica. O móbil do crime? Uma dívida por “serviços de bruxaria”. Nesta versão negra de um conto de fadas, nada como uma motivação assente numa competência ilusória e intangível.

 

Ocasionalmente, emerge da sua hibernação acolchoada o sobressalto dos indignados. Daqueles indignados arrancados ao mundo VIP das famílias modernas (por oposição às famílias disfuncionais), onde via redes sociais se anunciam ao mundo o amor conjugal e o desvelo paternal. A boa consciência choca-se com a descida ao lúmpen dos sentimentos degradados.

 

O desfecho trágico ascendeu à categoria de facto noticioso. Agentes policiais, psicólogos e juristas enquadram a situação, debatendo-se com a dificuldade da investigação em curso, dos diagnósticos à distância e da especulação antes dos factos provados. Hordas de jornalistas tomam de assalto o plateau, perseguindo a mãe desnaturada, o pai ausente no estrangeiro, o padrasto alvo da “estratégia de amarração” e demais personagens, principais e secundárias. As questões, imperiosas, banais, intrusivas, repetem-se, sem que se perceba a sua pertinência para além da exploração do pathos. Não se recua perante nada. O descontrolo emocional de uma avó é escrutinado até à obscenidade, como se a expiação de uma qualquer culpa colectiva exigisse uma cena operática, onde só a exposição de um sentimento desmesurado pudesse fazer justiça a uma dor incalculável. Há gritos de “assassina”, tumulto, violência e desfalecimentos, tudo em nome de uma menina de 3 anos que jaz desfigurada num caixão branco, aberto à curiosidade humana e à avidez de fotógrafos acidentais.

 

Para quê fotografar? Para partilhar, como escreveu Ana Dias Cordeiro no Público, “a imagem mártir do indizível”? É que, como escreveu Susan Sontag em “Olhando o Sofrimento dos Outros”, “As fotografias atrozes não perdem inevitavelmente a sua capacidade de chocar. Mas não são de grande ajuda quando o que se pretende é compreender. As narrativas podem fazer-nos compreender. As fotografias fazem outra coisa: perseguem-nos.”

 

Imagem: wallpapers.com

AS ESTAÇÕES DO AVILTAMENTO

Junho 19, 2022

J.J. Faria Santos

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É meia-noite. Limiar de um novo dia. Sentado na cama, ouço a Smooth FM e folheio A Promessa do Damon Galgut. Não procuro na literatura tranquilidade e apaziguamento, mas julgo ter o traquejo suficiente para controlar a inquietação. Não sou dado a noites turbulentas de sono irregular. Muitos diriam que é sinal de consciência tranquila. Eu suspeito que tal de deve a uma generosa mas limitada no tempo (felizmente…) dose de inconsciência.

 

“A sobrevivência não é instrutiva, é só humilhante”, leio, e dou comigo, contrariado, a rememorar episódios banais, destituídos da grandeza da tragédia inelutável, cenas insusceptíveis de causar grandes traumas, mas que, porém, permanecem alojadas na memória, que as registou e preservou no atoleiro das coisas desagradáveis. Não invadem os meus pensamentos a toda a hora, mas quando uma verdadeira maré negra se aproxima, como réplicas aparentemente insignificantes estes capítulos do passado reaparecem na carta de navegação, pontos negativos que que se subtraem à nossa perícia na arte de viver (às vezes, sobreviver).

 

No livro, Anton, reflectindo sobre a sua trajectória de vida, com um falso distanciamento, conclui: “A dignidade foi a primeira coisa a desaparecer, largaste-a como se fosse um trapo sujo, na berma da estrada, e essa foi a primeira estação do aviltamento, muito piores estavam para vir”. É provável que estas palavras estejam condicionadas pelas circunstâncias (o funeral do pai, o reencontro com a família após 10 anos de afastamento) e pela frustração de expectativas e ambições pessoais. E pela constatação irremediável de que, a menos que seja tocada pela graça divina ou pela sorte, nenhuma existência se consegue eximir ao embate com a crueldade da nossa imperfeição. Nem sempre somos corajosos, nem sempre somos justos, nem sempre somos humanos.

 

A menos que sejamos terrivelmente abjectos, a nossa vida dificilmente será a loja de horrores que possa ser definida como uma sucessão de “estações do aviltamento”. Aqui e ali, haverá oportunidades de redenção numa qualquer temporária via-sacra. Às vezes, até nos surpreendemos com o resquício de humanidade que descobrimos em nós e que julgávamos perdido. E percebemos como fomos duros connosco, como nos deixámos soterrar no pântano da autocrítica militante, que não deixa folga para que a nossa auto-estima respire.

 

“Segue em frente porque, se o fizermos, acabaremos por chegar a um fim”, escreve Damon Galgut, penetrando na consciência de Anton. O importante, claro, é chegar a um fim (ou vários) antes do fim derradeiro. Depois da humilhação, da sobrevivência, da duvidosa instrução, dos pequenos triunfos e das inesperadas recompensas, no final da caminhada poderá restar a aquietação, a sensação de nos termos apresentado ao mundo equipados com a mais preciosa das nossas possessões: a nossa feroz individualidade, marca que torna cada um de nós único e inimitável.

(A Promessa, de Damon Galgut, tem edição portuguesa da Relógio D´Água e tradução de José Mário Silva)

 

Imagem: La Mémoire de René Magritte (wikiart.org)

UMA PROVOCAÇÃO OU UM DESAFIO?

Junho 12, 2022

J.J. Faria Santos

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A reafirmação por parte de António Costa de um propósito que consta do programa do Governo (“aumentar, até 2026, o peso das remunerações no PIB em 3 pontos percentuais para atingir o valor médio da União e de aumentar o rendimento médio por trabalhador em 20% entre 2021 e 2026”) provocou aceso debate. Desde o básico “deixe de pedir aos outros que lhe resolvam os problemas” do director do Expresso até às abordagens mais técnicas (crescimento real ou nominal, implicação na equidade), passando pela acusação de estar a fixar uma meta que não depende dele, de tudo um pouco se leu e ouviu.

 

De modo geral, comentadores e oradores institucionais citaram a premissa clássica de fazer depender a valorização salarial do aumento da produtividade, e não faltaram as costumadas alusões à burocracia, à morosidade da Justiça e à elevada carga fiscal. Como poderiam ter destacado aspectos como a baixa autonomia financeira das empresas ou o reduzido investimento em investigação e desenvolvimento. O que faltou? Sintomaticamente, a referência ao capital humano, nomeadamente as qualificações dos gestores portugueses. O programa do Governo, aliás, aposta “na negociação coletiva enquanto ferramenta que permite alinhar os salários com a produtividade das organizações” e acena com incentivos fiscais para as empresas que promovam a valorização dos salários médios.

 

A propósito desta matéria, o Conselho para a Produtividade notou no seu relatório de Março de 2019 que “a dispersão de produtividade entre empresas do mesmo sector é elevada e com uma tendência crescente”, sugerindo que “os factores intrínsecos à empresa (tais como a eficiência da gestão, do capital humano ou do nível de investimento) são mais relevantes para a produtividade do que os fatores relacionados com o funcionamento de mercado ou com o ambiente económico”. Embora dando nota de uma evolução recente mais favorável, o relatório sublinhava que a disparidade nas qualificações, “adquirindo particular relevância as qualificações dos gestores portugueses, constitui um fator limitativo do crescimento da produtividade”. Por fim, destacando que o nível de escolaridade dos gestores portugueses é “substancialmente inferior à média europeia”, o Conselho para a Produtividade apontava este facto como um entrave à “capacidade das empresas de se adaptarem às mudanças tecnológicas e à concorrência internacional”.

 

A questão da produtividade é um calcanhar de Aquiles que persiste na economia portuguesa, tendo manifestado os seus efeitos mesmo nos tempos áureos do crescimento económico. Luciano Amaral escreveu em Economia Portuguesa, As Últimas Décadas (2010) que “nos anos de 1986 a 1992, onde o crescimento do PIB per capita foi tão acentuado, a produtividade não teve sequer uma evolução digna de particular registo. A diferença entre as duas medidas só foi possível por duas razões: porque houve um afluxo de meios de pagamento internacionais permitindo-nos aumentar o bem-estar sem que tivéssemos de produzir e exportar na mesma proporção, e porque existia uma larga reserva de mão-de-obra disponível (constituída por mulheres e desempregados) para entrar no mercado de trabalho”.

 

Parece-me que em vez de atribuir as afirmações do primeiro-ministro a uma manobra de propaganda ou a uma espécie de provocação assombrada pelo espírito da geringonça, todos (parceiros sociais, políticos, jornalistas, comentadores e cidadãos) faríamos melhor em encará-las como um desafio em prol do desenvolvimento do país, com espírito crítico e sem partis pris. Até porque, meditando nas palavras citadas de Luciano Amaral, percebe-se que não é com a proclamação de ilusórias reformas estruturais, nem com o contributo de homens providenciais com um superavit de auto-estima que se promove o crescimento sustentado.

A ILUSÃO DA CERCA SANITÁRIA AOS RADICAIS INSANOS

Junho 05, 2022

J.J. Faria Santos

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“Houve uma altura em que se pensou que os partidos democráticos de direita se iriam demarcar dos extremismos, caracterizados pelo racismo, pela agressividade e combate aberto à democracia, mas o que se tem visto não é isso”, declarou, em entrevista ao Público, Paul Mason. Na verdade, incapazes de apresentar soluções dentro do seu quadro ideológico distintas das que ferem o Estado de direito e que seguem a via populista para explorar o descontentamento, os partidos da direita moderada acabam reféns do seu próprio desejo de maximizar as hipóteses de conquistar o poder ou de alargar as soluções de governabilidade. Neste contexto, alinham em acordos ou coligações com partidos da extrema-direita, ora confortados pela ilusão de os conseguir “desradicalizar”, ora sucumbindo ao pragmatismo com défice de princípios do usufruto do poder.

 

Mason, que não parece ter dúvidas de que “a invasão do Capitólio, se bem que fracassada, quis normalizar a insurreição armada como resposta à democracia liberal”, e que nota a existência de “uma espécie de sobreposição entre o populismo e autoritarismo de direita e o novo fascismo”, considera, ainda assim, que “não há para já o desejo de tomada de poder”. Para já, pode ser a expressão-chave nesta afirmação. James Pogue escreveu para a Vanity Fair de Maio um artigo intitulado Radicais livres, onde recolheu as suas impressões acerca de uma conferência que reuniu os representantes da nova direita americana. Como Pogue clarificou, não se tratava de uma reunião de apoiantes fanáticos de Trump (MAGA) ou de adeptos das teorias de conspiração do Qanon. Um dos presentes era J. D. Vance, autor de Lamento de Uma América em Ruínas e candidato a senador pelo Partido Republicano. Segundo Pogue, Vance descreveu numa entrevista a um podcast um cenário em que “ou o sistema se desagrega naturalmente, ou um grande líder terá de assumir poderes semiditatoriais”. Neste cenário, o papel da nova direita consistiria em preservar o possível e esperar pelo “colapso inevitável”. Defendendo de igual modo a “tomada das instituições da esquerda”, fazendo uma purga ideológica (“de-woke-ification program”), Vance acredita que Trump se vai recandidatar em 2024 e que deveria despedir todos os burocratas e funcionários públicos do Estado, “substituindo-os pela nossa gente”. E se o poder judicial o tentasse travar, ele deveria desafiá-lo e prosseguir o seu programa político.

 

Como Michiko Kakutani escreveu em A Morte da Verdade: “(…) a paranóia acerca do governo migrou de forma crescente da ala esquerda – que culpava o complexo militar-industrial pela Guerra do Vietname – para a ala direita, com trolls da direita alternativa e congressistas republicanos culpando hoje o dito ‘Estado profundo’ ou ‘governo sombra’ por maquinar contra o presidente.”  O presidente era Trump, o tal que parece ter assumido para si a profecia do exterminador implacável: “I’ll be back”. No entretanto, os seus sequazes preparam o terreno, o mesmo é dizer que o minam. Que fazer? A sugestão de Kakutani não é particularmente original: confiar nas instituições e na separação de poderes, apostar na educação e na preservação de uma imprensa livre e independente.

MARCELO EM DIGRESSÃO MUNDIAL

Maio 29, 2022

J.J. Faria Santos

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Como uma vedeta consagrada do showbiz, subitamente desafiada pelas estrelas instantâneas do YouTube ou do TikTok, Marcelo vai partir em digressão mundial. Com o seu soft power de influencer a ser claramente ofuscado por Marques Mendes e Paulo Portas e o seu hard power associado ao desempenho presidencial a ser alvo de acusações de “falta de sentido de Estado” por parte de militares, o Presidente da República prepara uma tournée, que começa em 10 de Junho no Reino Unido e, segundo o Expresso, vai “do Equador ao Brasil, passando pelo Canadá, Costa Leste dos EUA, Irlanda, Moçambique e Suíça”. Nada como uma recepção apoteótica em Moçambique ou um convívio alargado com as comunidades portuguesas no estrangeiro para dar novo brilho à sua star quality.

 

Claro que a estrela da companhia não pode admitir que os novos influencers, e sobretudo a circunstância da existência de um governo de maioria absoluta, lhe retiraram margem de manobra. Resta o poder da magistratura de influência e da palavra presidencial, neste caso, porventura, acusando alguma usura pelo uso excessivo e muitas vezes improdutivo. Por conseguinte, a justificação oficiosa é a de que o Presidente não pretende “continuar, ele próprio, a bipolarizar com o chefe do Governo”, abrindo assim espaço para a intervenção do novo líder do PSD. Doutro modo, terá dito Marcelo, correria o risco de “liquidar o próximo líder da oposição”.

 

A digressão, que tem o nome provisório de Tourbilhão 2022/2023, é ainda uma espécie de work in progress, não estando confirmada a hipótese avançada por fontes afastadas de que o PR iria sambar. Já se afigura incontornável que, em Moçambique, esteja previsto um número que inclua a marrabenta. Para já, foi posta de parte a ideia do PR ter uma página no Instagram, pelo que esta tournée é, para os fãs do homem por quem Cristo não se dignou descer à Terra, uma oportunidade para o fazer sentir-se perto do Céu.

A PAISAGEM HUMANA

Maio 22, 2022

J.J. Faria Santos

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O percurso é basicamente o mesmo nos dias úteis. Há sinais de permanência e de continuidade que constituem o conforto da rotina (o que deve horrorizar os apóstolos das “novas experiências”). Todos os dias, os mesmos prédios devolutos ou em ruínas, o mesmo cão idoso e pachorrento com nome de pintor célebre (Miró), a mesma avó a levar o neto à escola, o mesmo septuagenário na sua caminhada higiénica. E os exemplos poderiam continuar. Ao contrário do dito que termina com “…e o resto é paisagem”, neste caso é a paisagem, a paisagem humana, que interessa.

 

Porque um dia, um dia igual a qualquer outro, subitamente significativo para um grupo de indivíduos unidos por laços de sangue, de amizade ou de empatia, há uma ausência que se destaca, como uma árvore arrancada pelo vento inclemente ou uma pradaria destruída por um incêndio devastador. A mulher que tratava diariamente do seu jardim, o homem cabisbaixo de andar incerto, a rapariga que friccionava as raspadinhas ansiosa pelo Aladino da sorte, todos deixaram uma cratera no lugar do quotidiano. Na melhor das hipóteses, uma circunstância benigna ou uma doença passageira subtraíram-nos à nossa visibilidade; na pior, poderemos apenas revê-los numa fotografia numa lápide a testemunhar a “eterna saudade”.

 

Podemos, no lufa-lufa da nossa vivência, apreciar uma árvore frondosa, um gato audaz, uma refeição gourmet, o ronco do mar ou a penumbra da vida nocturna, mas é a paisagem humana que nos interpela e nos implica. E a súbita ausência de uma peça do nosso puzzle existencial, mesmo que aparentemente supérflua ou inócua, adquire um significado: o de nos lembrar que tudo é transitório e fugaz. Ficaremos, apenas, com as lembranças, esse poderoso placebo. E, citando Valérie Perrin (A Breve Vida das Flores – Editorial Presença), “as recordações são impasses por onde passamos sem cessar”.

 

Imagem: Michele Del Campo - "Floating Words" (micheledelcampo.com)

UM ESBOÇO DE TEOCRACIA

Maio 15, 2022

J.J. Faria Santos

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O primeiro foco do incêndio deflagrou com o projecto de decisão do juiz Samuel Alito que, a ser aprovado, coloca o Supremo Tribunal americano a decretar que o aborto “não está protegido por qualquer disposição da Constituição”. Depois, ganhou relevo uma nota de rodapé do projecto, descontextualizada e erradamente atribuída à juíza Amy Barrett Cohen, que aludia a uma “oferta interna de crianças” (“domestic supply of infants”). Por fim, num texto clarividente, conciso e incisivo intitulado “Eu inventei Gilead. O Supremo Tribunal está a torná-lo real”, escrito para The Atlantic, Margaret Atwood sustentou que “a opinião de Alito reivindica basear-se na Constituição americana. Mas conta com a jurisprudência inglesa do século XVII, uma era em que a crença na bruxaria causou a morte de muitos inocentes”. Subitamente, os EUA parecem estar em movimento de aproximação ao universo patriarcal, repressivo e teocrático de A História de uma Serva. Isolada do contexto, a expressão “domestic supply of infants” adquiriu uma ressonância sinistra, e ainda mais quando falsamente associada a Barrett Cohen, que transmite uma vibe de Serena Waterford, a antifeminista mulher do comandante Waterford do livro de Atwood.

 

Trump nunca escondeu o intento de transformar o Supremo Tribunal no posto avançado da agenda conservadora da sua base de apoio. A reversão de Roe v. Wade significaria o assalto definitivo à autonomia da mulher e à sua liberdade e autodeterminação, num processo de expropriação em que, citando o artigo de Atwood, “os órgãos reprodutivos da mulher não pertenceriam à mulher que os possuía”, mas sim ao Estado. Significaria o fim da multiplicidade de mundividências, de formas de expressar a condição feminina e a sua relação com a maternidade. Significaria um sinistro abrir de portas às brigadas do bem comum, apostadas na homogeneização de comportamentos e na hegemonia dos seus preceitos (e preconceitos). Com o respectivo aparelho de censura. Como desabafava a serva no livro de Atwood, referindo-se à implacável tia Lydia: “A sua voz é devota, condescendente, é a voz daqueles cujo dever é dizer-nos coisas desagradáveis para nosso próprio bem. (…) Cabe-lhe a ela definir-nos, temos de sofrer os adjectivos dela.”

 

2022 está a mostrar-nos que o improvável, mais do que isso, o irracional e o que julgávamos impossível pode cavalgar a nossa ingenuidade e desafiar a   nossa incredulidade, instalando o choque. É por isso que quando Margaret Atwood  escreve na The Atlantic que “as ditaduras teocráticas não são apenas parte de um passado distante” e se interroga acerca do que poderá “impedir os Estados Unidos de se transformarem numa delas”, a nossa reacção não se pode limitar a remeter estas reflexões para o domínio da especulação. A distopia espreita apenas o relaxamento da nossa vigilância do processo democrático.

 

Imagem: theguardian.com

O PORTEIRO DO DIA

Maio 08, 2022

J.J. Faria Santos

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Em fuga do seu país, invadido e bombardeado por um criminoso sem remissão, a refugiada ucraniana é acolhida por um diligente indivíduo com um computador portátil, registando os dados dos recém-chegados, providenciando que documentos fossem fotocopiados e questionando se o pai da inquirida “era combatente”. A cidadã ucraniana exilada pelo terror do poder militar russo acaba por ser recebida no país de acolhimento por um cidadão russo pró-Putin. O porteiro do dia no edifício de acolhimento é um cidadão com dupla nacionalidade que mantém contactos com organismos do Kremlin, o centro do poder do chefe dos torcionários.

 

Igor Khashin, para além de deter cargos em organizações cujo exercício de funções depende da aprovação das autoridades russas, caucionou a acção destas na Ucrânia quando começou a guerra pelo Donbass, e, sabe-se agora, é monitorizado pelo SIS há alguns anos. Mesmo desconhecendo as ligações de Khashin ao Kremlin, bastaria um módico de sensibilidade, uma réstia de bom senso, para perceber a delicadeza e a inadequação do facto de, citando Manuel Carvalho, “um cidadão de um país agressor acolher pessoas fragilizadas do país agredido”, o que motivou críticas justas ao autarca de Setúbal. Que esta e outras circunstâncias (como as declarações infelizes do presidente de uma associação de refugiados ucranianos) sejam utilizadas por um partido político como pretexto para aludir a um “ódio fascizante” e invocar perseguição é uma evidente falácia. “Ódio fascizante” e perseguição, muitas vezes até à morte, é o que sofrem os ucranianos, que quando alcançam refúgio seguro dispensam o contacto com cúmplices das políticas do carrasco.

 

Imagem: expresso.pt

MUSK - O PERFUME DE MARTE

Maio 01, 2022

J.J. Faria Santos

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Estivéssemos a falar do exercício de um poder benévolo, onde uma fulgurante inteligência se combinasse com uma atitude conciliatória, e as reacções à tomada do Twitter por Elon Musk não teriam tido a violência que faz jus ao ambiente efervescente da própria rede social em causa. Sucede, porém, que Musk é uma personalidade abrasiva com um historial onde se combinam o ambiente laboral tóxico nas suas empresas (incluindo acusações de racismo e de assédio sexual), a propagação de teses negacionistas em relação à Covid-19, declarações despropositadamente insultuosas ou mesmo difamatórias e uma predilecção por um conceito maximalista de livre expressão, complacente com a mentira e a desinformação e disruptora das sãs relações sociais e da democracia.

 

Numa recensão ao livro de Ashlee Vance Elon Musk: Tesla, SpaceX, and the Quest for a Fantastic Futur, Sue Halpern escreveu em 2015 na New York Review of Books que Musk “tem todos os atributos de um narcisista clássico – a grandiosidade, a ânsia de fama, a falta de empatia, a crença de que é mais inteligente que os outros, e o plano messiânico para salvar a civilização”. Ao mesmo tempo que reconhecia o seu perfil visionário, Halpern descortinava no retrato que Vance dava do sul-africano uma “ambição feroz” e, acima de tudo, uma condição de “bancarrota emocional”, que o tornava terrivelmente inadequado como gestor de recursos humanos.

 

Num recente artigo de opinião no New York Times, onde prognosticou o agravamento do ambiente radicalizado do Twitter, pouco dado ao “discurso racional, matizado”, Greg Bensinger considerou que “as razões para o Sr. Musk tomar o controlo do Twitter não se prendem com a liberdade de expressão; do que se trata é de controlar o megafone”, tratando a rede social como um amplificador dos seus interesses e das suas ideias, e como um rolo compressor dos seus críticos. A revista Time colocou na sua capa uma ilustração do dono da Tesla com o símbolo do Twitter engaiolado. Se o génio de Musk se aproximar do extremo oposto, a loucura, o resultado será transformar o Twitter numa espécie de cage aux folles?

 

Imagem: Time.com

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