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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

MACBETH APLICADO À POLÍTICA PORTUGUESA

Dezembro 11, 2018

J.J. Faria Santos

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O que poderia dizer Rui Rio no Conselho Nacional do PSD

“Onde estamos, há punhais escondidos nos sorrisos – quanto mais parente, mais malevolente.”

 

O que poderia dizer, sobre Rio, Luís Montenegro

“Onde poderia ter vantagem, ele perdeu-a, já que grandes e pequenos contra ele se revoltaram, e só o acompanham alguns pobres constrangidos, de coração ausente.”

 

O que poderia dizer Passos Coelho aos que o incitam a regressar

“Se o acaso me quer rei, que o acaso me coroe; sem a minha intervenção.”

 

O que poderia dizer o juiz Alfredo Costa a Orlando Figueira

“A justiça aproxima-nos dos lábios o veneno que nós próprios preparámos.”

 

O que poderia dizer Marcelo aos que censuram o seu frenesim

“O repouso é cansativo, se me impede de servir-vos.”

 

O que poderia dizer Jerónimo de Sousa

“Nada se conquista, tudo são reveses, quando sem satisfação é um desejo alcançado.”

 

O que poderia dizer Catarina Martins

“ Eu não tenho esporas para espicaçar no flanco o meu desígnio; tenho apenas a ambição, que se ergue sobre a sela, impetuosa, mas apenas pra cair do outro lado do cavalo.”

 

O que poderia dizer Assunção Cristas aos seus correligionários

“Animai-vos tanto quanto puderdes, pois longa é só a noite à qual o dia não sucede.”

 

O que poderia dizer António Costa

“ Em breve poderemos claramente confrontar o que queremos com aquilo que o futuro nos reserva. O pensamento exprime incertas esperanças; Certezas, propriamente, só a guerra nos trará. E em direcção a elas – avancemos!”

 

Citações extraídas de Macbeth, de William Shakespeare, edição da Relógio D’Água com tradução de José Miguel Silva

Imagem: Macbeth e as Bruxas de Francesco Zuccarelli

A ONTOLOGIA DO TOURO E A TOURADA LIGHT

Dezembro 04, 2018

J.J. Faria Santos

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A discussão inflamou-se com o combustível ministerial. Uma questão de civilização, de recusa da barbárie, disseram uns; fundamentalismo da causa animal, recusa da tradição, liberdade ameaçada, afirmaram outros. Adquirido civilizacional versus ditadura do gosto. A refrega culminou com um desagravamento fiscal, que teve direito a banda sonora e a um efusivo “olé”, ambos cortesia do deputado Campos Ferreira.

 

Do ponto de vista dos aficionados, é no combate valoroso entre o homem e o touro que este último demonstra a sua natureza, se realiza enquanto ser vivente. E se porventura o leitor se incomodar com esta estranha forma de vida, com o seu quê de masoquista, saiba que, citando o site touradas.pt , o touro “tem reacções hormonais únicas no reino animal (que lhe permitem anestesiar-se quase imediatamente)”.

 

Um dos mais notáveis contributos deste site é a interpretação autêntica dos sons emitidos pelo touro, o que me leva a propor, no contexto de modalidades alternativas de tourada light, que, para além do velcro, se estudem formas de acoplar ao touro um microfone que amplifique os seus desabafos e imprecações, o que permitiria a arbitragem das suas motivações de uma forma inequívoca.

 

Vejamos um exemplo: se em plena arena, o touro emitisse um mugido (que é descodificado como uma “queixa”), não seria de concluir que não estava disponível para exibir a sua bravura? Podia estar doente ou a sua natureza ter sido pervertida…E por falar em perversão, se por acaso ele soltasse um bramido, definido como “um som irritado característico da época do cio e do acasalamento”, não seria avisado (atendendo à integridade física e ao direito à autodeterminação sexual dos forcados) interromper a faena? Já se o valoroso touro expelisse um verraqueo (semelhante ao “grunhir do porco” que indicia “enfado”), era de caras o toque de finados da pega, o fim da bandarilhada. Um touro enfadado é fado que não se deseja a nenhum dos gladiadores; nem ao homem que desesperadamente incita o animal, nem ao touro que nega a sua natureza cedendo à apatia. Deste modo, nem a cultura justifica a quebra na receita fiscal, nem a barbárie se concretiza de forma a justificar a indignação de uns e a aclamação de outros.

PORQUE VOLTO SEMPRE PARA ELLA

Novembro 27, 2018

J.J. Faria Santos

O tema Amor em Paz, da dupla Tom Jobim/Vinicius de Moraes, foi inicialmente gravado por João Gilberto. Na sua versão original ou na versão inglesa com o contributo de Ray Gilbert foi alvo de reinterpretações por nomes como Chet Baker, Dianne Reeves, Frank Sinatra, Luz Casal e Ella Fitzgerald. Vinicius, que escreveu mais de 300 canções, era nos anos 50 do século passado, “associado a uma improvável combinação de poesia, uísque e mulher”, explicou Ruy Castro, acrescentando que o envolvia “um halo de boémia e prazer”. De Tom Jobim, diz o mesmo Ruy Castro, que é “a referência, o parâmetro, o símbolo” da música popular brasileira.

 

Amor em Paz percorre toda a paleta de emoções do romantismo: o amor sem limites, a frustração, a tristeza, o desespero e, por fim, a redenção, o momento em que ele deixa de ser um turbilhão, um vórtex aliciante mas calamitoso, para se transformar num sereno usufruto. É o amor em paz, “ porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz”.

 

Ella Fitzgerald gravou a sua versão de Once I Loved para o álbum Take Love Easy, editado em 1973. Unicamente acompanhada pelo guitarrista Joe Pass, a diva do jazz é um prodígio de subtileza e emoção, criando em pouco mais de dois minutos uma interpretação canónica, naquele seu estilo effortless de três oitavas. Nem vestígios do drama de uma balada soturna, nem balanço de bossa nova para enganar a tristeza. Ella narra o percurso que vai do arrebatamento ao choro e da “infinita tristeza” ao apaziguamento sempre no mesmo tom sereno, ainda que possamos notar vulnerabilidade num verso e revigoramento noutro. Mas é a verdade da sua interpretação que nos interpela e comove. É por isso que volto sempre para Ella. E cada regresso é uma descoberta.

O SULTÃO DO TWITTER E A VERDADE EM FUGA

Novembro 20, 2018

J.J. Faria Santos

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O homem tem a altivez dos escolhidos. E gere as suas intervenções como se fosse um funâmbulo pisando a linha fina que separa a determinação da arrogância. Como se o sentido de Estado, e toda a dignidade da função, lhe tivesse sido incrustada no rosto como uma segunda pele. Porém, não há como não apreciar a clareza cortante de Emmanuel Macron quando afirma, tendo como destinatário Donald Trump, que “ser aliado não é ser um vassalo”. Ou a feroz defesa dos mecanismos institucionais, sublinhada pela irredutível noção de que “ a diplomacia não é feita com tweets, e sim com conversas bilaterais”.

 

A propósito da caravana que partiu das Honduras, e da proclamação de Trump no sentido de proibir os ilegais de solicitarem asilo nos EUA, Masha Gessen escreveu um texto notável na New Yorker online acerca da “falsa distinção entre ‘migrante’ e ‘refugiado’”. Que ela denomina de “ficção legal”, dado que pretende estabelecer que “as dificuldades económicas são de algum modo independentes da exclusão política e da perseguição política”. “Implícita nesta pretensão”, prossegue a autora “está a visão de que a desigualdade económica entre as nações é de algum modo natural, e por conseguinte, os cidadãos das nações mais ricas não têm a responsabilidade de acolher os que fogem da pobreza noutros lugares”. Gessen é particularmente assertiva na denúncia da “histeria trumpiana sobre o fluxo de imigrantes”, censurando a caracterização destes como violentos e criminosos, sendo que na narrativa oficial só muito poucos merecem ser acolhidos. E alerta para a necessidade de combater o argumento prevalecente de que “a livre circulação de pessoas pelas fronteiras é indesejável, assustadora e, em última análise, impossível”, porque doutro modo as pessoas que se caracterizam como “bondosas e compassivas continuarão a apoiar Trump e a guerra da sua administração contra os imigrantes”.

 

“Fazer campanha e incentivar a nossa base de apoio não é governar. Governar requer que se promova a aproximação dos diversos pontos de vista, em vez de simplesmente calcular ganhos e perdas”, escreveu, referindo-se a Trump, a historiadora Doris Kearns Goodwin na edição de Novembro da Vanity Fair. Num artigo em que compara as presidências de Trump e Theodore Roosevelt (descrito como uma figura carismática com apetite pela celebridade, feitio desafiador e talento para aforismos), com inquestionável vantagem para este, Goodwin traça um cenário actual preocupante onde as meias-verdades e as mais descaradas mentiras proliferam num ambiente putrefacto onde, cúmulo dos cúmulos, são as “análises críticas e as discordâncias [que] são classificadas como falsas”. Para a autora, neste inquinado jogo político, já não se trata de ganhar ou perder. Doris Kearns Goodwin destaca a “erosão do sentido” do discurso político, para antever um futuro próximo no qual “a confiança foi vaporizada e a verdade se tornou fugidia”.

FELGUEIRAS CONTRA BELÉM

Novembro 13, 2018

J.J. Faria Santos

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Dizem que o Presidente está indignado e furioso. E sob ataque. Por parte de quem? O Expresso revela “a convicção em Belém” acerca do rol dos interessados: a Polícia Judicial Militar, “sectores da direita mais conservadora dentro e fora do Exército e “se não o Governo, pelo menos alguns sectores do PS”. O que verdadeiramente enfureceu Marcelo foi a notícia do Sexta às Nove de que a Presidência da República teria sido informada do encobrimento de Tancos.

Daí a proclamação fulminante em tom alegrista: “Se pensam que me calam, não me calam”. Em pouco tempo, o histriónico comentador Marques Mendes veio do alto do seu púlpito televisivo anunciar à populaça, com a eloquência impressiva do português genuíno, que o “Governo ajudou à festa”, “directa ou indirectamente”, que é uma formulação nebulosa útil para todas as eventualidades. Talvez se possa ligar o “indirectamente” à alegada irritação que, a fazer fé no Expresso, o Presidente terá sentido pelo facto de António Costa não se ter pronunciado sobre a tese explanada pelo programa de Sandra Felgueiras.

 

É nesta fase da cavalgada heróica do Tancosgate que a ironia irrompe a galope – “o mais loquaz presidente da República pós-25 de Abril” (na definição certeira de António Guerreiro no Ípsilon) terá sentido necessidade de uma palavra de conforto do primeiro-ministro. Só faltou, portanto, António Costa voluntariar-se para a tarefa de desmentir La Felgueiras. Como não o fez, “ajudou à festa”. Estará o Marcelo Presidente (2018) assombrado pelas palavras do Marcelo secretário de Estado da Presidência (1982) que afirmou: “Não há dúvida de que o aparecimento em excesso, a intervenção em excesso, acabam por revelar-se contraproducentes não só para qualquer governante como para o órgão de que é titular.” Recriemos António Variações: quando o titular não se cala, o órgão é que paga.

 

O primeiro-ministro apressou-se a declarar que “o Governo é um livro aberto, não tem nada a esconder”. Claro que os livros abertos facilitam o acesso, mas não garantem a compreensão do seu conteúdo. E o estilo de escrita pode ser mais ou menos propenso a interpretações divergentes. A hermenêutica é um vício para um criador de factos políticos e, talvez por isso, o Presidente esteja “ansioso”, ou Costa ache que ele se excede na demonstração dessa ansiedade, ao passo que o Governo, com sintomas idênticos, opte por uma maior reserva. O dicionário explica-nos que a ansiedade é um “estado afectivo depressivo” provocado pela “apreensão mais ou menos vaga de um mal iminente, real ou imaginário”. Desconfio que a proclamação pública do primeiro-ministro acerca da maleita presidencial possa estar relacionada com a sua suspeita, real ou imaginária, de que no Marcelo de 2018 ainda resida o Marcelo de 1997, altura em que António Costa o via como “um verdadeiro mercado abastecedor da intriga política”.

 

O Presidente queixa-se do facto da RTP não o ter ouvido, isto é, faltou o contraditório. Felgueiras deveria ter-se deslocado a Belém, onde, depois de uma selfie e de uma longa dissertação presidencial acerca das propriedades terapêuticas dos comprimidos com que ele costuma encher os bolsos, seria brindada com um desmentido formal. E, por mais incisiva e insistente que fosse, seguramente que ninguém lhe retiraria o microfone nem lhe barraria o acesso ao provedor dos afectos. E tinha-se poupado nos ansiolíticos.

O FALSO MESSIAS

Novembro 06, 2018

J.J. Faria Santos

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Há algo de absurdo na necessidade que o Presidente eleito Jair Messias Bolsonaro teve de proclamar urbi et orbi (e às redes sociais…) que o seu “Governo será defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”. Como se não tivesse sido eleito para o cargo numa nação com instituições consolidadas e respeitadoras da ordem democrática. Claro que ele próprio intuiu que o seu notável cadastro de declarações incendiárias e degradantes, além de ter servido uma estratégia política vitoriosa, poderia impedir o mínimo de normalização do debate político e do exercício dos poderes de que será investido.

 

Sim, o Brasil queria a alternância democrática, mas justificar-se-á ficar só pela alternância? “As minorias têm de se curvar às maiorias. As minorias ou se adequam ou simplesmente desaparecem”, vociferou o Messias. E o eleitor brasileiro disse ámen. O Messias ameaçou prender ou exilar os adversários políticos, “combater a violência com mais violência” e condicionar a comunicação social hostil. Proclamou o seu apreço pela tortura. E o eleitor brasileiro disse ámen.

 

O Messias diz que foi escolhido e que “Deus capacita os escolhidos”. É difícil acreditar que Deus “capacite” quem espalhou uma mensagem de ódio e exclusão. Na primeira página da sua Proposta de Plano de Governo, Bolsonaro inscreveu uma citação da Bíblia: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Escusado será dizer que em nome de uma suposta verdade já se cometeram incomensuráveis atrocidades. E acresce que a mesma Bíblia transcreve os avisos de Jesus, referindo-se àqueles que dirão que vêm em seu nome e que “hão-de enganar a muita gente”, mas também aos “muitos falsos profetas que enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniquidade, resfriará a caridade da maioria; mas aquele que se mantiver firme até ao fim, será salvo” (Mateus 24: 4-13).

 

Jair Messias Bolsonaro nunca escondeu o seu apreço pela ditadura e a sua descrença no poder do sufrágio universal – “Através do voto você não vai mudar nada neste país, absolutamente nada. Infelizmente, só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil”. Agora, garante na sua Proposta de Plano de Governo: “A forma de mudarmos o Brasil será através da defesa das leis e da obediência à Constituição”. Afirmações contraditórias que expõem uma condição de falso Messias, que não só não parece reunir as condições para promover uma mudança que congregue e inspire a nação brasileira, como ainda se enreda numa duplicidade de afirmações que contraria a sua intenção de libertar pela verdade. Muita firmeza será necessária para manter o Brasil a salvo. 

UM PSICOTÉCNICO DELICADO MOROU EM BELÉM

Outubro 30, 2018

J.J. Faria Santos

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A revelação consta do último tomo que publicou da sua vasta obra de mais de duas dezenas de títulos. Mais do que um psicólogo capaz de analisar os sentimentos e os pensamentos dos outros, foi um psicotécnico arguto na avaliação das aptidões que os que com ele se cruzavam possuíam para o desempenho de determinadas funções. Parece que lidou com espíritos propensos à psicastenia (dados a hesitações e dúvidas), o que lhe deve ter sido particularmente difícil de entender, sendo legítimo ver a parte final do seu mandato como um verdadeiro psicodrama. Não sabemos se, nessa altura, não terá sido acometido pela maleita da psicolepsia (à semelhança da reacção vagal), mas a verdade é que é notável que um economista e professor, no desempenho do cargo de Presidente da República, tenha escondido tamanho talento.

 

Cavaco Silva explicou em entrevista à TSF que neste seu último livro de “prestação de contas” faz “avaliações de políticos, tendo presente o diálogo com eles mantido, procurando um rigor dos factos que seja difícil de desmentir”. Se imaginam que esta tarefa implica um elevada dose de subjectividade, enganam-se. As avaliações dele equivalem a factos consumados e indesmentíveis. Na mesma entrevista, frisou que foi “bastante delicado”, não contou tudo e entendeu “deixar de fora as questões pessoais”. Portanto, por favor, não o confundam com um magnata americano que trata os adversários políticos como se estivesse na escola primária: a “Hillary desonesta” ou o “Ted mentiroso”. Os retratos do Costa “artista de sorriso fácil”, do Seguro “inseguro, medroso e desconfiado” ou do Portas “ infantil e pouco patriótico” são apenas o produto de um método sofisticado, uma espécie de radiografia infalível (obviamente!) do carácter dos políticos. Que esta fenomenal experiência tenha sido conduzida com elevado grau de sucesso por alguém tão alheio ao fenómeno político é verdadeiramente assombroso.

 

Foi aliás esta condição (de ocupante de altos cargos no aparelho do Estado sem nunca ter sido político) que lhe permitiu extrair conclusões originais e não rebatíveis. Este horror à política manifesta-se na forma como classifica o actual primeiro-ministro de “político profissional de pendor tacticista” que aprendera com Passos Coelho “que, em política, uma excessiva preocupação com a verdade não era o caminho para o sucesso”. Porém, surpreendentemente, para quem vê a política com um certo asco, Cavaco Silva censura no seu livro a “desastrada estratégia de comunicação do Governo [de Passos Coelho], incapaz de apontar uma centelha de luz ao fundo do túnel”. Por outro lado, como na sua carreira não-política constam cinco vitórias eleitorais (um inequívoco sinal de sucesso), pode concluir-se que ele mesmo foi uma excepção à regra ou em alguma altura prevaricou e secundarizou a “ excessiva preocupação com a verdade” que enforma o seu carácter só questionável por quem nascer duas vezes?

 

A mim, custa-me a crer que alguém com tão elevado sentido de Estado, com um empenho indomável em prestar contas e com um desprezo acentuado pela política tenha alguma vez sucumbido a expedientes lícitos mas menos nobres. Sei lá, a ideia de congeminar pacotes de medidas populares ou aumentar os funcionários públicos antes de actos eleitorais, ou ainda menosprezar ou denegrir os esforços de um Governo que recorreu à ajuda externa e foi fundamental para a adesão europeia, para dessa forma ascender ao poder, no seu partido e no país, a pretexto da rodagem de um carro, são actos que me parecem inconcebíveis da parte de Aníbal Cavaco Silva. Teria de ser demasiado tacticista. O que ele não é, seguramente. Ele é um institucionalista, mesmo quando insiste em se referir ao XXI Governo Constitucional como “a geringonça”. Sejamos compreensivos. Serão ainda as sequelas dos últimos meses do seu segundo mandato presidencial, altura em que o psicotécnico poderá ter estado à beira da psiconeurose.

A SUSPEITA

Outubro 23, 2018

J.J. Faria Santos

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Carlos Alexandre estranha uma eventual extinção do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), como foi defendido pelo Conselheiro Henriques Gaspar, então Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, e achou a opinião “lapidar” na verdadeira acepção da palavra (apta a figurar na pedra tumular do TCIC?). Nunca tinha ouvido ninguém falar disso, frisou estar a “2000 dias úteis” da reforma, não perspectivar uma nova carreira e, por conseguinte, teria que passar pela maçada de “requerer outra colocação”. Mas acredita nos tribunais e acredita na Justiça.

 

Carlos Alexandre diz que na distribuição informática dos processos existe “uma aleatoriedade que pode ser maior ou menor consoante o número de processos de diferença que exista entre mais do que um juiz”. Sabendo-se que Ivo Rosa tinha em Julho cinco processos a mais do que o juiz de Mação, e que na altura do sorteio da Operação Marquês já só tinha um a mais, percebe-se a implicação (insinuação?) do farol da “comunidade maçaense”. Que teve de tirar dois dias por causa de um “contratempo pessoal”, o que o impediu de assistir ao sorteio. “Foi apenas uma coincidência”. E ele acredita nos tribunais e acredita na Justiça.

 

Carlos Alexandre não se vê como “um general preso no labirinto”, antes se coloca na posição de um “náufrago”, mas “acredita que vai sobreviver, pelos menos fisicamente”. A sua narrativa é a da apologia de uma vida modesta, da recusa do epíteto de “justiceiro” porque é apenas “aplicado no trabalho que faz”, e nega sucumbir aos defeitos da “pesporrência” ou da “altivez”. E, no entanto, apesar de fazer questão de notar que as suas decisões têm sido “acompanhadas em sede de recurso”, subjacente a toda a entrevista parece estar a suspeita de manipulação de procedimentos que conduziria à sua exclusão do processo, lançando, mesmo que inadvertidamente, suspeitas sobre o outro juiz do TCIC. E não parece vislumbrar mérito na possibilidade de juízes diferentes liderarem o inquérito-crime e a instrução de dado processo. Mas acredita nos tribunais e acredita da Justiça.

 

A verdade é que numa época em que o populismo assalta o poder, mais lamentável se torna que um juiz se abstenha de expor as suas preocupações ao Conselho Superior de Magistratura, privilegiando uma “denúncia” pública, ainda para mais repleta de insinuações e meias palavras. No Público, Amílcar Correia notou a ironia de Carlos Alexandre e José Sócrates terem “algo em comum: os dois não confiam no sorteio dos juízes e na imparcialidade de alguns deles”. Já Daniel Oliveira, no Expresso, opina que “ao ter preferido lançar a dúvida pública [Carlos Alexandre] mostrou que não é dado a formalismos e ao recato, como se espera de um magistrado, e que não o incomoda pôr sob suspeita todo o sistema de justiça, apelando à desconfiança popular”.

 

A entrevista-reportagem emitida pela RTP não escapou a um tom hagiográfico. Com testemunhos de amigos e do padre com quem partilhará confidências. Tivemos em reprise a referência às origens modestas, à sua dedicação ao estudo e às ameaças recebidas. Agigantou-se o seu papel como figura grada e prestigiada de Mação. O próprio reivindicou apoios para a calamidade do incêndio que assolou a povoação (“a casa do juiz escapou por um triz”, rimou o jornalista). Foi mais conversa que entrevista, com o contraditório e a incisividade trocados pelos motes que o juiz glosava. Carlos Alexandre queria passar uma mensagem. Que tenha coberto a Justiça com um enorme manto de suspeição é apenas um dano colateral. La Justice c’est moi, poderia ele ter dito. Se fosse pesporrente, claro.

UMA QUESTÃO DE HONRA

Outubro 16, 2018

J.J. Faria Santos

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É como se um canhestro argumentista de um filme do Steven Seagal quisesse fazer uma adaptação de um romance de John le Carré. O resultado seria uma intriga política manhosa, envolvendo o desaparecimento de material militar, mais tarde devolvido na sequência de uma conspiração que envolveu, pelo menos, a Polícia Judiciária Militar (PJM) e a GNR de Loulé. O conluio implicou ocultação e simulação, para além do atropelo de competências e normas legais.

 

Aparentemente, um conjunto de militares atreveu-se a negociar com um criminoso, atribuindo-lhe imunidade, em nome do interesse nacional, tal como eles o entendem. Como bónus, obtinham também a satisfação pessoal de ver a PJM retirar à sua homónima civil os louros da recuperação do material furtado. O espírito de corpo foi, assim, perversamente transformado em corporativismo. Tendo em conta que o princípio da autoridade formal é inerente à condição militar, interrogo-me até que nível da hierarquia terá a informação ascendido e, sobretudo, até que ponto o preceito da obediência obnubilou a análise fria e racional de uma acção inadmissível. E o próprio chefe de gabinete do ex-ministro, ter-se-á sentido dividido entre a sua condição de militar e a lealdade para com quem o nomeou?

 

Na verdade (e na mentira), este episódio (burlesco, rocambolesco) mancha toda uma instituição que, por vezes, permite que alguns dos seus membros utilizem a nobreza da sua missão para resvalar para a arrogância, para a superioridade moral. Esta displicente presunção pode levar uma instituição com algum capital de queixa a destratar os civis, incluindo o ex-ministro da tutela, que, por sua vez, se foi fragilizando pela fatal mistura de alguma inércia, excessiva parcimónia no uso dos seus poderes e uma perceptível ou real acumulação de manobras de autodesresponsabilização.

 

No filme Uma Questão de Honra (1992), a dada altura, pressionado em tribunal, Jack Nicholson, na pele do coronel Jessep e no seu habitual estilo incisivo, explica que há quem não consiga lidar com a verdade. O que é preocupante em todo o episódio de Tancos é a predisposição que revela uma instituição, que a toda a hora invoca, e na maior parte das vezes muito justamente, o seu código de honra, para manejar a mentira e o ludíbrio.

 

CR7 NO EPICENTRO DO FURACÃO KATHRYN

Outubro 09, 2018

J.J. Faria Santos

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A versão simplificada e simplista pode ser esta: uma oportunista de moral fluida, habituada a atrair clientes para que estes consumam nos bares, aproveitou a circunstância para se vitimizar com o fito do lucro. Ou, em alternativa, uma estrela em ascensão, jovem, rico, famoso e egocêntrico, julgou inimaginável e irrelevante  a possibilidade de alguém querer frustrar os seus apetites sexuais.

 

A versão dos acontecimentos narrada à Der Spiegel por Kathryn Mayorga teve já repercussões na cotação em bolsa da Juventus (queda de 9,92% na passada sexta-feira), e também na marca Ronaldo, com patrocinadores a exprimirem preocupação. A pior reacção, porém, foi a do próprio jogador, via Instagram, num lamentável vídeo. Mesmo que se prove que a razão está do seu lado, a displicência da pose e a alusão a fake news (uma expressão associada a quem manobra com deleite mentiras e falsidades) não credibiliza a sua posição.

 

O que é que julgamos saber com razoável certeza? De acordo com o relato da Der Spiegel, os dois encontraram-se num clube nocturno em Las Vegas em 12 de Junho de 2009. Depois de lhe ter pedido o número de telefone, Ronaldo acabaria por lhe enviar um SMS convidando-a para uma festa no seu hotel, para onde ela se dirigiu na companhia de uma amiga. Relutante em saltar para o jacuzzi, por não querer estragar o vestido, Kathryn acabaria por aceitar a camisola e os calções que ele lhe providenciou. Foi enquanto trocava de roupa que tudo se precipitou, culminando na prática de sexo anal. Às 14h16m do dia seguinte, Kathryn telefonou para a polícia e pouco antes das quatro começou a ser examinada no hospital. As lesões foram fotografadas.

 

A advogada dela sugeriu-lhe um acordo extra-judicial. A identidade da vítima seria protegida, o procedimento mais rápido, uma compensação seria obtida.  Num e-mail trocado entre os advogados de Ronaldo, constam declarações deste afirmando que Kathryn lhe dissera “não e pára varias vezes”. E ainda “não faças isso” e “não sou como as outras”. No final, pediu-lhe desculpa. Depois de a equipa legal do jogador nos Estados Unidos ter contratado detectives privados para vasculharem a vida dela, aparentemente sem resultados úteis, foi acordada uma compensação de 375 000 dólares que contemplava um rigoroso acordo de confidencialidade. Que agora foi quebrado, porque o novo advogado dela o considera legalmente inválido.

 

Subjacente a todo este episódio, pode estar implícita a noção caricatural da necessidade de uma espécie de regulamentação do exercício dos afectos. Como se, no limite, quase se tornasse necessário estabelecer um contrato com cláusulas que definam explicitamente as condições em que os dois outorgantes se podem envolver em práticas sexuais, bem como as variantes que estas podem assumir. Por outro lado, seria grosseiro e estulto imaginar que uma mulher num primeiro encontro não pudesse aceitar um convite para uma festa na casa de um homem, frequentar o seu jacuzzi e beijá-lo sem correr o risco de ser violentada.

 

As acusações têm de ser provadas. Só conhecemos, com algum detalhe, a versão de uma das partes. Que apesar de  suficientemente danosa ainda não passou pelo teste do contraditório. Kathryn Mayorga refere que Ronaldo lhe disse que em “99% das vezes é um bom rapaz”. A ser assim, esperemos que o 1% que corresponde à manifestação do mal (a que nenhum de nós, independentemente do sexo ou da condição social, é imune. Quem de nós nunca se confrontou com o arrependimento?), a ter sucedido aqui, não acabe por ter implicações criminais. É que nem sempre o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas.

 

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