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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

PLÁCIDO MAS NÃO FLÁCIDO

Agosto 20, 2019

J.J. Faria Santos

 

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“Tens mesmo de ir para casa esta noite?”, repetia ao fim de cada dia de trabalho com a meio-soprano Patricia Wulf o charmoso e fogoso Plácido Domingo (sim, até as vítimas reconhecem o seu encanto), mais uma figura pública a ser acusada de assédio sexual no seguimento da onda #MeToo. É caso para dizer “Também tu, Plácido?” (#YouToo?). Na esteira de um libertino como Don Giovanni, protagonista de uma conhecida ópera de Mozart, o tenor forçava beijos em camarins, segurava afectuosamente as mãos das comensais em almoços de trabalho, acariciava-lhes os joelhos e até se aventurava em regiões demarcadas da intimidade, supostamente protegidas pela saia e pelo imperativo do consentimento.

 

Os testemunhos a que a Associated Press teve acesso, e que jornais portugueses como o Público e o I deram eco, traçam um cenário de contactos persistentes no período nocturno, no decurso dos quais Plácido Domingo se esmerava em demonstrar interesse pela carreira das suas interlocutoras e se apressava a propor encontros privados nos aposentos dele para aconselhamento profissional. Das nove mulheres que alegaram abuso sexual, apenas uma, Wulf, aceitou ser identificada. Convidado pela Associated Press a reagir às acusações, que segundo ele se reportam a situações ocorridas há mais de trinta anos, Domingo considera-as “graves” mas “imprecisas”. Disse-se convencido de que tudo se passara de forma consensual, mas reconheceu “que as regras e os standards pelos quais nos regemos – e devemos reger – hoje em dia são muito diferentes dos do passado.”

 

Nas denúncias, narram-se pormenores picarescos, um deles particularmente ofensivo para a mulher que acabou por ceder aos avanços do tenor por recear que a sua carreira fosse prejudicada. Conforme descrição do jornalista Diogo Vaz Pinto no jornal I, Domingo presenteou a mulher com uma nota de dez dólares, proclamando: “Não quero que te sintas como uma prostituta, mas também não quero que tenhas de pagar pelo estacionamento”. Como quem diz, isto não é uma remuneração-base; trata-se apenas de ajudas de custo.

 

O movimento MeToo, com todas as suas declinações, pode ter introduzido dificuldades acrescidas nas coreografias dos jogos de sedução, diminuindo a espontaneidade e aumentando a necessidade de garantias de consentimento. Como em muitas outras circunstâncias, presta-se a radicalismos e abusos. Porém, é impossível não reconhecer o seu papel de denúncia e libertação, bem como na criação de redes de solidariedade. Há 30 anos (ou há 20, ou há 10), Plácido Domingo não era, apenas e só, um homem viril e impetuoso em busca da satisfação dos seus legítimos apetites; mercê do seu prestígio pessoal e/ou dos cargos que ocupava, detinha o poder de destruir ou potenciar carreiras. E parecia fazer questão de o lembrar às mulheres que cobiçava. A confirmarem-se as denúncias, o tenor pode não acabar como Don Giovanni (consumido pelas chamas do Inferno) mas não escapará a uma censura severa por ter cruzado o assédio sexual com o abuso de poder.

 

Imagem: Wikimedia Commons

 

PREC (PARDAL REVOLUCIONÁRIO EM CURSO)

Agosto 11, 2019

J.J. Faria Santos

 

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O homem fundou a International Lawyers Associated (também identificada como Sociedade PPH) e promete aos clientes o “mais avançado suporte jurídico”. No YouTube, explica que a empresa tem uma abrangência nacional e internacional” (125 advogados distribuídos por 24 países), e oferece-nos uma visita guiada às instalações com o mapa-múndi em relevo na parede e uma fotografia com Marcelo (quem não tem?), ao som de um instrumental intitulado “Creepy”, que pode ser traduzido como arrepiante, sinistro ou bizarro.


Se estranha que Pedro Pardal Henriques se tenha transformado numa estrela em ascensão, apesar de só há dois anos se ter inscrito na Ordem dos Advogados, lembre-se que, para além de assessor jurídico, ele é acima de tudo um influencer e um consultor multimédia. Não se trata de desvalorizar as suas competências no ramo do Direito. É que, a fazer fé nas declarações do bastonário Guilherme Figueiredo ao jornal I, “Criar um sindicato é muito simples: faz-se uma escritura pública de cerca de três pessoas e está criado o sindicato. Aquilo vai para publicação no Boletim do Trabalho e do Emprego e já começa a funcionar.”


É certo que Pardal Henriques tem um historial profissional algo conturbado (“cometi erros, assumi a responsabilidade moral”, explicou ao Público), mas o passado é um país estrangeiro e hoje ele aparece refulgente a ser disputado por cerca de quinze sindicatos, atraídos pelo seu estilo “oleoso e bem-falante” (na definição de Vasco Pulido Valente). O seu profissionalismo é de tal ordem que não hesita em recorrer ao jargão sindicalista mais radical, sem faltar a clássica alusão à ditadura. Talvez por isso a sua carreira política tenha ficado em stand-by. E ele tenha estado em contacto com “entidades importantes nas conquistas pós-25 de Abril”. Isto é mesmo um PREC (Pardal Revolucionário em Curso).


Com os sindicatos em ebulição, o Governo em modo preventivo a recorrer aos instrumentos de que dispõe e a população a precaver-se contra a escassez de bens, o que ocupa a mente brilhante do nosso Presidente? A necessidade de garantir o abastecimento de bens e serviços com a menor perturbação possível? A salvaguarda do direito constitucional à greve? Protagonizar uma qualquer tentativa de mediação? Nada disto. Segundo o Público, “Marcelo teme que crise faça disparar voto no PS em Outubro”. Deve ser uma questão de prioridades. O analista político tem precedência sobre o Presidente. Como habitualmente, a mensagem foi transmitida por fontes não identificadas. Para poder ser desmentida ou ignorada. É a chamada estratégia vichyssoise. Serve-se fria, claro. Como a vingança e os cálculos políticos.

AS COBRAS E OS SILÊNCIOS QUE METEM NOJO

Agosto 06, 2019

J.J. Faria Santos

 

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Ainda não chegámos à América, onde Trump considera a comunicação social “inimiga do povo”. Julgo, também, que ainda não chegámos à Madeira, onde um furibundo Jardim, há mais de uma década, chamava aos jornalistas (ou “alguns na comunicação social”, numa formulação propositadamente mais ambígua) “bastardos para não lhes chamar filhos da puta”. Recentemente, no calor do debate mediático acerca das golas inflamáveis (que afinal não o são, mas, por outro lado, poderão causar “crises respiratórias agudas”), o ministro Eduardo Cabrita teceu em on um comentário despropositado acerca da potencial inflamabilidade de um microfone e em off desconsiderou os jornalistas apelidando-os de “cobras”.

 

Nunca é excessivo frisar a imprescindibilidade de uma comunicação social livre. Livre para ser rigorosa, exaustiva, intrusiva ou até inconveniente para os poderes instituídos. Sobre estes recai o dever de acolher o escrutínio e oferecer os esclarecimentos que se impuserem. Ninguém, jornalistas ou governantes, está acima da crítica, mas o detentor de um alto cargo público tem um dever acrescido de prestar contas de forma urbana na forma e esclarecedora no conteúdo. E, sobretudo, tirar conclusões, para que não se repita a distribuição de materiais que não cumprem adequadamente o objectivo a que estariam destinados. Ou para obstar a que a aquisição de bonés e canetas seja feita por ajuste directo sob a alegação de “urgência imperiosa”.

 

Dito isto, parece-me que a hipersensibilidade é um mal que se distribui pelos dois lados, levando a conclusões extemporâneas. Quando a jornalista Graça Franco parte de uma censura lógica ao comportamento do ministro para aventar que tal “pode constituir a prática corrente de um futuro não muito longínquo”, e aproveita para relembrar uma célebre frase de Jorge Coelho (“Quem se mete com o PS leva”), entramos num território que se aproxima demasiado da delirante “asfixia democrática” que alguns tanto glosam. Quando os jornalistas se socorrem dos clichés dos agentes políticos, é legítimo que suspeitemos que o fazem por falta de confiança na independência das instituições que enquadram o seu trabalho, por simpatia ideológica ou por uma qualquer propensão para antecipar distopias a partir de um qualquer infeliz incidente.

 

Já Pedro Santos Guerreiro, numa nota de rodapé à sua coluna no Expresso, optou por uma formulação mais psicanalítica, aludindo a “um discurso parente do ódio de quem tem a mente entortada pela adversidade. Ou de quem está a precisar de férias.”  O que me fez de imediato recordar um artigo que o actual director do jornal, João Vieira Pereira, escreveu em Outubro de 2015, sob o título visceral de Um silêncio que mete nojo. Nele, Vieira Pereira insurgia-se contra o silêncio dos empresários, que ele pretendia ver unidos numa sublevação contra “um governo refém da extrema-esquerda”. E lamentava-se que os empresários portugueses não fossem “liberais”, acrescentando: “(…) não querem apenas a chucha de volta, Querem um biberão cheio de leitinho morno.” 

 

Não sei se o “nojo” de Vieira Pereira tinha origem numa “mente entortada pela adversidade”, numa falta de férias ou num forte ímpeto de intervenção cívica. Sei apenas que estava, legitimamente, vertido numa coluna de opinião. Hoje, mais do que nunca, é fulcral que se torne perceptível aos cidadãos a separação entre facto e opinião, evitando amálgamas. E, para além de ser útil um certo sentido das proporções, convém não confundir informação com ruído mediático.

 

Fotografia: jornaleconomico.sapo.pt

A ARTE DE BEM REPRESENTAR EM TODA A TELA

Julho 30, 2019

J.J. Faria Santos

Numa série onde a cumplicidade feminina/feminista se tornou mais relevante que a rivalidade social, não destoa que o final da segunda temporada tivesse culminado numa espécie de batalha de mães em pleno tribunal: Celeste, para manter a custódia dos filhos; Mary Louise para reabilitar a memória do filho (na impossibilidade de vingar a sua morte), apropriando-se dos netos e desqualificando a nora.

 

Já sabíamos que Meryl Streep é um compêndio de representação, com recursos quase ilimitados, mas a forma como deu vida a uma Mary Louise passivo-agressiva, exasperante e intrometida, navegando entre a sogra em modo megera e a avó extremosa dividida entre o sacrifício da renúncia (a separar os netos da mãe) e o ímpeto da conquista (da custódia deles) foi simplesmente soberba. Mas se Streep representou uma personagem movida pelo desejo de descobrir a sua verdade, a Celeste de Nicole Kidman viu-se forçada, para além de viver um luto dividido entre a memória do desejo e a repulsa pelo abuso, a lutar sem tréguas pela manutenção da tutela dos filhos, um dos factores que a tinham levado a suportar uma relação abusiva.

 

Não surpreende que Kidman tenha estado à altura da performance de Streep, ela que, aos cinquenta e um anos, acumula o reconhecimento dos seus dotes interpretativos com o estatuto de estrela de Hollywood. Krista Smith, que a entrevistou para a Vanity Fair de Maio, escreveu que vê-la “na cena em que ela está sozinha com a terapeuta debatendo-se com a semântica da violência doméstica é uma master class de interpretação”. A própria Meryl Streep declarou a Krista Smith acerca de Kidman: “Admiro-a. Ela é como uma Valquíria suave e secreta com uma coluna vertebral de aço (…) Ela mede cerca de um metro e oitenta, e às vezes eleva a fasquia. É o que vemos no final desta temporada. Vemos a verdadeira estatura da Nicole”.

 

Acerca da segunda temporada de Big Little Lies correram rumores de desinteligências entre um produtor e a realizadora da série, Andrea Arnold. Alguns críticos apontaram debilidades no desenvolvimento da intriga, bem como uma tendência para ceder aos clichés telenovelescos. Outros entretiveram-se a avaliar a plausibilidade de uma avó obter nestas circunstâncias a custódia dos netos. Mas numa temporada que deu mais espaço à personagem de Zoë Kravitz e abriu novos horizontes para Jane (Shailene Woodley), é impossível não sobrevalorizar o extraordinário desempenho do elenco, simbolizado, para além dos desempenhos das já citadas Streep e Kidman, por exemplo, pelas fúrias épicas de Renata (Laura Dern) e pelo dilacerante mea culpa conjugal de Madeline (Reese Witherspoon).

 

UM RACISTA NA CASA BRANCA

Julho 23, 2019

J.J. Faria Santos

Em face do inadmissível queremos seguir a doutrina Obama (de Michelle Obama), expressa na frase memorável “When they go low, we go high”. Ela explicou na altura ao New York Times que elevar o nível não implicava a inexistência de emoção ou sofrimento. O que era relevante era formular uma resposta que contivesse “uma solução” que não estivesse contaminada pela “raiva” e pela ânsia de “vingança”. Mas como não reagir com veemência e alguma destemperança perante a evidência de que o homem sem qualidades que dirige a Casa Branca é um impenitente racista? Que não só exibe um dos mais estúpidos preconceitos como o formula nos termos mais básicos possíveis, acicatando os mais reles instintos da turba. E ainda por cima falseando os pressupostos das suas declarações, ao recomendar a quatro congressistas do Partido Democrata (todas de nacionalidade americana, três nascidas nos EUA e uma outra refugiada da guerra na Somália) que deviam “voltar para a terra delas”. Enfim, nada que se estranhe vindo de quem se entreteve a alimentar a teoria abstrusa de que Barack Obama não era cidadão americano.

 

David Remnick escreveu na New Yorker online, num artigo intitulado Um racista na Casa Branca, que compete aos membros do Congresso “escolher o conluio ou a destituição, alinhar ou resistir” e aos cidadãos “votar ou ficar em casa”, acrescentando lapidarmente: “Em 2008, desfrutamos a ilusão do progresso racial. Hoje, Donald Trump está na Casa Branca”. Remnick sugere aos congressistas, independentemente da sua cor política, que removam ou resistam e censurem um Presidente que endossa a supremacia branca, mas a ideia de que os republicanos prescindiriam dos privilégios do poder ou arriscariam uma derrota eleitoral em nome da decência é uma ilusão (uma sondagem Reuters/Ipsos revelou que o apoio a Trump no seu próprio partido aumentou 5% na sequência dos seus comentários racistas no Twitter). Resta portanto estimular a participação eleitoral no próximo sufrágio para evitar a reeleição de quem, conforme notou Eric Lovitz na revista New York, citado no Público da passada quarta-feira, entende que “os cidadãos dos Estados Unidos de pele escura têm um direito provisório à pertença nacional (…) Se mostrarem suficiente deferência para com os cidadãos de primeira classe, podem apresentar-se como americanos. Se não o fizerem, podem voltar para ‘onde vieram’ (mesmo que os seus antepassados tenham chegado a este continente séculos antes dos antepassados de Trump.”

 

Vídeo: Lisa Simone, Dianne Reeves, Lizz Wright e Angélique Kidjo cantam o clássico de Nina Simone “Four women”, no qual a partir da enunciação de arquétipos de mulheres afro-americanas se faz a denúncia do racismo 

SILÊNCIO E TANTA GENTE (PARA ESCUTAR BESTEIRA)

Julho 16, 2019

J.J. Faria Santos

 

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O mito extraiu um dente e foi aconselhado a evitar falar durante três dias. Pode o Brasil passar 72 horas sem o seu verbo inflamado? Claro que sim, ainda para mais se meditarmos que uma das definições de mito é a de alguém que é representado de forma irrealista. Na verdade, não dá para acreditar no espectáculo de boçalidade, vacuidade e incompetência que ele com garbo protagoniza.

 

O herói, depois de perder popularidade entre os pobres e a classe média, vê agora resvalar a sua aprovação entre as classes mais abastadas. Conforme noticiou a Folha de S. Paulo, aumentou de 22% para 41% a percentagem dos que, neste segmento da população, consideram o desempenho do seu governo ruim ou péssimo. Já em Abril, dados do Datafolha mostravam que nos últimos 28 anos nenhum Presidente em início de mandato atingira um índice de reprovação tão elevado. Mas 59% da população ainda acreditava que ele fará uma gestão óptima ou boa.

 

Fiel seguidor da escola trumpiana, Bolsonaro esmera-se na demonstração das suas insuficiências e fraquezas, com o desplante e a confiança de quem se julga acima da crítica e ungido pelo Divino. Não há outro modo de interpretar o lacónico comentário ao desaparecimento de João Gilberto [“(Era) Uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?"]. Ou o desprendimento com que compromete as suas supostas credenciais de grande combatente da corrupção, ao sacudir as suspeitas de nepotismo, a propósito da nomeação do filho Eduardo para embaixador nos Estados Unidos, com esta tirada carregada de leveza: “O meu filho fala inglês e espanhol e é amigo dos filhos de Donald Trump. Está muito melhor capacitado do que eu.”

 

É ou não um visionário? Capaz até de contar entre as “jóias raras” que compõem o seu governo uma vidente, uma mulher “terrivelmente cristã” que viu Jesus Cristo em cima de um pé de goiaba. Longe de mim desdenhar da fé dos homens e das mulheres, mas é seguramente indigno e grotesco explorar as crenças religiosas para obter vantagens políticas. E mais ainda invocar o nome de Deus para promover políticas que contrariam a doutrina cristã. Antes o silêncio, a conselho médico, que nos poupe à incontinência verbal.

 

Imagem: Foto de Alan Santos (www.gazetadopovo.com.br)

A HISTORIADORA, A FARSA E A TRAGÉDIA

Julho 09, 2019

J.J. Faria Santos

 

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Estabelecer “quotas para deputados coloridos” de forma a tornar a Assembleia da República mais representativa da sociedade portuguesa, escreveu a historiadora Maria de Fátima Bonifácio no Público de sábado passado, não é viável. As mulheres, esclarece ela, partilham “as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos”. Estes últimos, decreta do alto da sua sapiência, “são inassimiláveis”; quanto aos primeiros, “auto-excluem-se (…) da comunidade nacional (,,,), são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou ‘nacionalidades rivais’”.

 

Dado o seu ofício, poderia ter-nos brindado com uma breve resenha histórica com alusões às raízes bíblicas do racismo, à tese de Platão de que uns povos nasceram para ser livres e outros para experimentarem a escravidão ou ainda à proibição de casamento entre patrícios e plebeus na Roma Antiga. Claro que se o fizesse talvez não pudesse ignorar que o período de difusão do cristianismo, defensor da igualdade racial, terá facilitado as ligações entre os diversos povos, o que não contribuiria para a sua tese do muro civilizacional. Como defender a priori a exclusão em nome de uma doutrina que postula o acolhimento?

 

Por outro lado, seria de esperar que alguém com pergaminhos académicos se abstivesse de fazer generalizações primárias e abusivas em tom panfletário. Um espaço público de debate talvez não lhe mereça os cuidados que dispensa às publicações validadas pela sua casta, mas a compreensível ausência de notas de rodapé não pode ser substituída por afirmações genéricas que aspiram a ser argumentos de autoridade ou conclusões frívolas baseadas em observações empíricas à la carte. A insigne historiadora que satiriza a criação de um “observatório do racismo”, imaginando o processo de monitorização da discriminação “a partir de gabinetes almofadados onde se sentariam os observadores”, apresenta como amostra representativa da sua conclusão de que os africanos se detestam uns aos outros o testemunho de uma “empregada negra” do seu prédio.

 

Tenho o hábito de ler os artigos de Maria de Fátima Bonifácio editados pelo Público, porque apesar de invariavelmente discordar dos seus argumentos não exerço nas escolhas que faço enquanto leitor um veto com base em preconceitos ideológicos ou discriminações de qualquer espécie. A historiadora poderia ter optado, a bem de um debate equilibrado e salutar, por discutir as limitações da integração ou do multiculturalismo ou, se assim o entendesse, a imprescindibilidade da assimilação ou a sua impossibilidade no caso das “minorias exóticas”. Ao escolher o território do radicalismo argumentativo e ao, no mínimo, acolher no seu texto considerandos de teor racista e xenófobo, desqualificou o seu contributo para um debate relevante em favor de tiradas polémicas que lhe garantirão, seguramente, os likes de gente pouco recomendável. Eis um mérito que não lhe gabo.

 

Bonifácio faz alusões ao que chama “farsa multicultural”. Considerando que se pode designar por farsa um acto pouco sério, uma mentira ou uma ilusão, a historiadora parece ter invertido com a sua diatribe um célebre postulado de Marx, calcorreando ela própria a passadeira vermelha da farsa em direcção à tragédia pessoal do descrédito e, sobretudo, da desumanidade.

FÉ, FOGO E FÚRIA

Julho 02, 2019

J.J. Faria Santos

 

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Há algo de profundamente obsceno em colocar a fé ao serviço de um objectivo político. O mesmo sucede quando se apresenta uma conquista eleitoral como se ela fosse um desígnio divino. Sarah Sanders, actual porta-voz da Casa Branca, declarou no princípio do ano em entrevista a uma televisão cristã que “Deus nos convoca a todos para ocupar diferentes papéis em diferentes momentos", e que “ele quis que Donald Trump se tornasse Presidente e é a razão pela qual ele está lá”. É possível que Trump se sinta um escolhido, de tal maneira que em modo de reeleição até já prometeu a cura do cancro e a erradicação da SIDA.

 

O problema da convicção expressa por Sanders é que o discurso deselegante e prepotente de Trump e as suas políticas divisivas, erráticas e restritivas até à desumanidade são inconciliáveis com uma prática cristã de temperança, acolhimento e misericórdia. Quando confrontado com a fotografia de Oscar Ramirez e da filha Valeria, que se afogaram ao atravessar o Rio Grande, o Presidente americano confessou “odiar” a fotografia e tratou de culpabilizar a oposição, que deveria ter alterado a lei. E aquele pai, que “provavelmente seria um homem maravilhoso”, acrescentou ele, não teria sucumbido juntamente com a filha. Ficamos a saber que Oscar foi poupado à inclusão na lista dos traficantes, criminosos e violadores. Deve ter sido da comoção, embora com o seu vocabulário escasso e a limitado rol de adjectivos que usa (maravilhoso, fantástico, tremendo), quase sempre para se auto-elogiar, é difícil averiguar  o grau de sinceridade ou de consternação. Quanto a Sarah Sanders, quase que apetece questioná-la se ela acha que foi para impor barreiras e muros ao acolhimento de migrantes e refugiados que Deus fez eleger Trump.

 

Com explicou Angelina Jolie de forma cristalina em artigo na Time, intitulado “O que o mundo deve aos refugiados”, estes mais não são que pessoas que  escolhem abandonar situações de conflito, sobrevivem a guerras e com frequência ajudam a reconstruir os seus países. Criticando a forma como se tem esbatido a distinção entre migrante e refugiado, Jolie reclama o direito de todos a serem tratados com dignidade e frisa que “ao abrigo da lei internacional a assistência aos refugiados não é uma opção, é uma obrigação.”

 

As peripécias da presidência de Trump assemelham-se com frequência a uma série manhosa protagonizada por um canastrão com tiques totalitários, mas se há algo que ficções inspiradas como Handmaid’s Tale evidenciam é que um poder absoluto de pendor teocrático pode reclamar como seu um discurso religioso e pervertê-lo. Um grupo de escolhidos ou iluminados pratica a segregação e a discriminação em nome de interpretações autênticas da palavra do Senhor. Não há liberdade sem verdade nem justiça. Conforme se pode ler no documento da Congregação para a Doutrina da Fé Libertatis Conscientia: “(…) cada homem é orientado para os outros homens e tem necessidade da sua sociedade. Somente aprendendo a pôr de acordo a sua vontade com a dos outros, em vista de um bem verdadeiro, ele fará o aprendizado da rectidão do querer. É, pois, a harmonia com as exigências da natureza humana que torna humana a vontade. Com efeito, esta exige o critério da verdade e uma relação justa com a vontade dos outros. Verdade e justiça são, assim, a medida da verdadeira liberdade. Afastando-se desse fundamento, o homem, ao tomar-se por Deus, cai na mentira e, ao invés de se realizar, destrói-se.”

 

Imagem: Oscar Ramirez acompanhado pela filha e pela mulher em foto cedida pela família (www.euronews.com)

 

ANATOMIA DA GREI VI - O MAL-RUIM

Junho 25, 2019

J.J. Faria Santos

 

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É uma expressão popular, comummente usada nas conversas do dia-a-dia, brutalmente explícita, longe, portanto, da asséptica e elíptica “doença prolongada”. Através dela não se evoca apenas o puro e simples mal (este suporta-se com abnegação, como se fosse um preço a pagar pelos momentos de felicidade, porque a vida pode ser bela mas não é isenta de riscos), do que se trata é de um género de mutação genética, de uma versão optimizada (na verdade, malignizada). O mal-ruim é uma espécie de traição do nosso corpo, que passa a albergar uma arma letal que se dissemina com um potencial de destruição avassalador.

 

No caso em apreço, o inimigo interior percorre o corpo de uma mulher insaciavelmente. Não sabemos se executa um qualquer plano ou se derruba defesas e conquista território ao sabor das possibilidades, ou seja, se é oportuno ou se é oportunista. Nem importa. Sabemos que é um mal que num momento parece bater em retirada (do cérebro) e, pouco depois, ressurge em novas frentes (no fígado ou nos pulmões). E sabemos que a mulher exprime incredulidade. Como é que isto lhe foi acontecer? Que esperança lhe restará, é coisa que ignoramos. Sobretudo quando o mal que a corrói resiste ao poder da medicina. Percebemos a revolta e ambicionamos que a próxima etapa não seja a resignação. Não porque reneguemos a pacificação, mas porque isso significaria um precoce fim do caminho.

 

Que a mulher em questão seja alguém com quem troquei escassas palavras não diminui a minha inquietação. Celebrar a nossa condição humana não se restringe aos mais próximos. A empatia com os fracos e os debilitados é um dever moral a exercer com discrição. Até mesmo à distância e com pudor. É que a compaixão não é como um frívolo like que se põe numa foto de férias ou num post inspirado. A compreensão da dor alheia é, adicionalmente, uma ajuda para sermos melhores pessoas.

 

Imagem: Wikimedia Commons

 

MADAME X

Junho 18, 2019

J.J. Faria Santos

 

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A mulher das mil imagens, a especialista da reinvenção visual e da apropriação iconográfica, deixou-se fotografar com um buraco negro no lugar do rosto. Como se a multitude de identidades de Madame X tornasse evidente a existência de um momento primordial em que o vácuo aguardasse o preenchimento. Numa outra foto, também incluída no booklet da edição deluxe do disco, Madonna revela-se por entre uma fresta de cortinas vermelhas, perturbante e enigmática, num cenário com reverberações lynchianas. Entre o momento zero de criação da persona e a antecâmara da sua exibição ao público há todo um percurso de escolhas e graus de risco, onde se procura harmonizar a integridade artística com o apelo das massas.

 

Sem deixar de estar desperta para as possibilidades comerciais, Madonna parece ter optado por dar primazia à sua criatividade artística, como sempre absorvendo influências e fórmulas, que reavaliou e reconstruiu, o que resultou num melting pot de sonoridades onde cabe a pop, a house, a música latina, o kuduro, o baile funk brasileiro, o hip-hop, o dancehall, a world music, o fado ou a música clássica de Tchaikovsky. “Admiravelmente bizarro”, escreveu sobre Madame X Rob Sheffield na Rolling Stone. “Um disco que explora incansavelmente todos os ângulos da pop contemporânea”, considerou um jornalista do New Musical Express. “Madonna lançou finalmente um álbum que está completamente à altura da sua reputação como uma das cantoras pop mais disponíveis para correr riscos”, decretou Jeremy Helligar na Variety. “Excêntrico, global e lisboeta”, sintetizou Vitor Belanciano no Público.

 

Madame X, o disco, é também a prova de que as mensagens políticas podem conviver com a celebração hedonista e com inúmeras variações dos deleites e das agruras amorosas. O mais relevante politicamente neste conjunto de temas não é, por exemplo, a eventual alusão a Trump em Batuka (“Get that old man / Put him in jail”), que não deixa de ser, porém, uma variação irónica e mordaz do slogan dirigido a Hillary Clinton (“Lock her up”). Acresce que o presidente americano é uma preocupação porque, como Madonna confessou ao New York Times, ele parece querer “remover sistematicamente todas as nossas liberdades pessoais”. A mais significativa mensagem política, contudo, é a própria abrangência de sonoridades, a variedade de estilos, numa celebração global de abertura ao mundo que o disco contempla. Sem muros nem barreiras. Como a cantora declarou à Visão: “Falo do mundo onde as pessoas são governadas e dominadas pela ilusão da fama e da fortuna, governadas e escravizadas pelas redes sociais, governadas e dominadas por opressores, pela discriminação – esse é o mundo de que eu não faço parte.” Madame X está na linha da frente do combate às distopias do presente.

 

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