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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

SOB O ESPECTRO DO RACISMO

Fevereiro 22, 2026

J.J. Faria Santos

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41% dos portugueses acham que “a convivência entre diferentes raças ou etnias quase sempre causa problemas”. 23% defendem que há “raças ou etnias por natureza mais inteligentes do que outras”. Estima-se que 15% se sintam “incomodados” perante a visão de pessoas negras em “posições de poder e influência”. 17% sustentam que a “mistura de raças ou etnias pode enfraquecer a evolução biológica da espécie humana”. Estes são dados de uma sondagem ICS/ISCTE para a SIC e para o Expresso, cujos trabalhos de campo ocorreram em Setembro de 2020. É caso para perguntar em que espécie de seres humanos nos estamos a tornar. E meditar nas palavras de Teresa Violante (Expresso – 26/12/2025), não apenas sobre os limites da tolerância (“a tolerância ilimitada do intolerante conduz à destruição da tolerância.”), como também acerca dos deveres da democracia (“a democracia pode – e deve – defender-se de quem instrumentaliza as suas liberdades para minar a igual dignidade de todos.”)

 

Esta foi a semana em que o espectro do racismo pairou sobre um campo de futebol. Esta foi a semana em que o repúdio epidérmico e a afirmação de um princípio basilar da convivência humana foram preteridos em favor de fervores clubísticos, teses sobre coreografias aceitáveis para a celebração de um golo, discussões semânticas e denúncias de liberdade de expressão amordaçada pelo wokismo. Esta foi também a semana em que ficámos a saber que as contribuições dos imigrantes para a Segurança Social ascenderam, em 2025, a 4162 milhões de euros. Como os benefícios que usufruíram totalizaram, no mesmo período, 827 milhões de euros, a Segurança Social registou, neste contexto, um saldo positivo de 3335 milhões. A secretária de Estado da Segurança Social, Susana Filipa Lima, apressou-se a concluir que os estrangeiros representam “um contributo positivo para a nossa economia”. Não basta, evidentemente, a racionalização de dados económico-financeiros. O combate ao racismo e à xenofobia tem de ser um adquirido civilizacional e representar um compromisso de eliminar uma violação dos direitos humanos.

 

Este foi também o mês em que o presidente dos Estados Unidos partilhou na sua rede social um vídeo onde o ex-presidente Obama e a sua mulher eram apresentados como macacos, recorrendo a uma representação que teve origem no chamado racismo científico e foi sucessivamente usada com intuitos de subalternização e desumanização. A América que resiste, a Humanidade que resiste, está também na capa de uma revista glamorosa, com Teyana Taylor a segurar a tocha da liberdade e da democracia, ao mesmo tempo iluminando o caminho e incendiando a esperança. E em jeito de epígrafe, no canto inferior esquerdo, versos do poderoso poema de Langston Hughes, I, Too, onde o “darker brother” antecipa um amanhã em que reclamará que, também ele, é América.

 

NOTA: 

Esta é a última publicação neste blog. 823 posts depois, disponibilizados entre Fevereiro de 2011 e Fevereiro de 2026, é tempo de encerrar aqui esta etapa, tendo em conta a descontinuação desta plataforma. Agradeço ao SAPO Blogs, aos subscritores e a todos os leitores que regular ou esporadicamente por aqui pararam. O destino dos conteúdos deste blog ainda vai ser alvo de ponderação, não estando posta de parte a hipótese de deixar que desapareçam com o big bang de Novembro, porque, afinal, tudo é efémero. Quem tiver a gentileza ou a curiosidade de me continuar a acompanhar pode encontrar-me em https://novagardapenumbraredux.blogspot.com, um blog exclusivamente com novos conteúdos. Um “começar de novo”, com a esperança de que “vai valer a pena”.

O TRIUNFO DA DECÊNCIA

Fevereiro 15, 2026

J.J. Faria Santos

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O melhor que se pode dizer da vitória de António José Seguro é que ela constituiu o triunfo da decência. Em tempos mais remotos, isto pareceria escasso. Eram tempos em que a valorização da cordialidade, do debate aceso mas leal e cortês, era remetida para o nicho da gentlemanship apregoada por próceres da esquerda liberal. Agora, com os ventos que sopram da América, onde um imperador narcisista se propõe subsidiar a insurreição iliberal na Europa, características básicas como a boa educação e o respeito pelos adversários políticos (e por todos os cidadãos) são pilares fundamentais para evitar que o dique da moralidade resista. “O triunfo da indecência”, foi assim que o editor da revista The Atlantic qualificou o mandato de Donald Trump. Jelani Cobb, escritor e historiador, escreveu que “a indecência se tornou no novo selo distintivo”. Bernard Goldberg, escritor e jornalista, titulou um seu artigo “a normalização da crueldade e do preconceito em Trump 2.0”. Cá, na noite das eleições, à saída de Igreja de S. Nicolau, o nosso radical Trump wanna be ainda foi capaz de declarar que “quando o povo fala, o povo é soberano”, mas não resistiu à desconsideração por quem o derrotou democraticamente: “Ele venceu, é o que temos”.

 

Do meu ponto de vista de eleitor que votou convictamente Seguro nas duas voltas, mas não foi apoiante desde a primeira hora, nunca esteve em causa o alegado pecado mortal da moderação. Nem a adequação das suas qualidades pessoais ao desempenho do cargo. A dúvida que persistia (e persiste) é se a sua vontade inabalável de conciliar vontades e congregar esforços não resultará num perpetuar de impasses, numa opção pelo mínimo denominador comum que se revele insuficiente ou em sínteses perniciosas. Há momentos em que a clarificação exige ruptura. Estará ele disponível para usar a sua legitimidade de “recordista absoluto de votos” para, quando necessário, reafirmar a importância dos factos e das evidências face às percepções e aos preconceitos ideológicos? Poder-se-á inferir isto da sua frase: “Não serei oposição, serei exigência”? Seja como for, o homem que diagnosticou a “desafectação” dos eleitores como “uma ameaça à democracia”, susceptível de ser aproveitada por movimentos populistas, e que só muito relutantemente se afirmou de esquerda, prepara-se para servir aos portugueses uma receita gourmet: pacto com laranja em cama de pétalas de rosas.

UM HERÓI PORTUGUÊS

Fevereiro 08, 2026

J.J. Faria Santos

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Um vídeo procurou resgatar de um “contexto de invisibilidade” o trabalho de um herói português. Com uma notável economia narrativa (menos de vinte segundos), a peça hagiográfica, pontuada por uma música tensa, retratava a dedicação ao serviço público de alguém que tem no seu currículo o anúncio da “proibição” de uma bactéria e, mais recentemente, o diagnóstico do “acto de desinformação com elevada difusão pública”.

 

A montagem é dinâmica sem ser frenética. Um mapa, uma conversa que se imagina permeada pela urgência, o SIRESP em metáfora em primeiro plano. O herói a falar ao telemóvel ou a dar uso aos seus polegares oponíveis, e a ser vítima de onicofagia (transtorno de ansiedade com possíveis consequências ao nível ungueal, dental e mandibular). E antes do plano final, a cena magistral, uma espécie de furtivo descanso do guerreiro, um insert a preto-e-branco (para carregar no páthos), cabeça encostada à parede e lábios entreabertos. Como se estivesse a tomar fôlego. Acusado de autopromoção descarada e de propaganda obscena em contexto de tragédia (bem visível), o herói viu-se forçado a apagar o vídeo, pretextando um qualquer mal-entendido, não tendo, porém, invocado o direito ao esquecimento de uma publicação que, não obstante a supressão, terá uma “elevada difusão pública”.

 

António Leitão Amaro foi apanhado no turbilhão da calamidade (refiro-me ao “comboio de tempestades” e não ao elenco governativo chefiado por Luís Montenegro). Acusado de incapacidade de prevenção, coordenação e reacção, e de falta de sensibilidade social, o Governo ainda viu (supremo ultraje) o Presidente da República opinar que a comunicação “não correu bem”. E se o primeiro-ministro garantiu que “nunca o país experimentou procedimentos tão expeditos, tão rápidos para uma situação tão excepcional como esta”, Marcelo, no seu afamado estilo, logo afiançou de viva voz estarmos perante “uma revolução na forma de actuação da administração pública”, para, no dia seguinte, fazer constar no Expresso, via fontes de Belém, que “teme [uma] crise prolongada e atrasos nos apoios”.

 

No meio do furacão opinativo, o primeiro-ministro foi asperamente censurado pela forma como se referiu às vítimas mortais das tempestades. Ignorando a natureza idiossincrática da sua retórica e a paixão por Luís de Camões de que já deu provas, ninguém deu mostras de perceber a ressonância camoniana da formulação “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”. Nada impede que estes se transformem naqueles “que por obras valorosas / Se vão da lei da Morte libertando”. Que haverá de mais valoroso do que defender uma vida, a integridade dos seus pertences, o inventário de uma vida?

 

De facto, lamentavelmente, este país não é para heróis, nem para primeiros-ministros que estão “mesmo a gostar muito de governar”. Muito menos para a epopeia do quotidiano, quando, à semelhança do vate, nos interrogamos: “Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?”

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA DIREITA RADICAL

Fevereiro 01, 2026

J.J. Faria Santos

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Há um novo rosto a protagonizar o combate ideológico da direita radical. Em vez de declarações tonitruantes, proferidas em tom descabelado (literal e figurativamente) e com a petulância de quem profere uma evidência, oferece proclamações suaves, nas quais à exibição dos pergaminhos académicos prefere o doce ronronar do pretenso senso comum, aditivado pela concepção de que “a nossa sociedade ainda tem um lado pouco democrático sob uma enorme hegemonia cultural da esquerda”, e de que o “centro-direita está colonizado pela esquerda”. Só mesmo ignorando a “colonização” da academia pela “ultradireita” (como a definiu Pacheco Pereira), o domínio das redes sociais pela direita radical e o papel de meios de comunicação como o Observador, é que alguém ainda pode invocar o chavão da “hegemonia cultural da esquerda”. Ainda que o faça com o glamour, o leve sorriso e a suavidade da direita caviar.

 

Teresa Nogueira Pinto faz questão de dizer que tem “amigos de esquerda” (à semelhança de certos figurões que dizem que até têm amigos “pretos”?), assegura que não é “saudosista do Estado Novo” e reclama poder defender que “só as mulheres menstruam sem ter medo de ser cancelada ou até mesmo presa”. Reconhece-se na trilogia “Deus, pátria, família”, porque é “uma ideia muito simples, e muito bonita: a humanidade é, na sua larga maioria, composta por pessoas com fé, com uma pátria, e uma família. Vivemos, e realizamo-nos, enquanto portadores de um legado e em lealdades concêntricas”. Que o discurso e a prática da direita radical entre em choque com a doutrina social da Igreja ou com as proclamações do Evangelho parece não perturbar a sua fé. Muito menos que o Papa Francisco, em carta aos bispos católicos dos EUA, tenha censurado as “lealdades concêntricas”, escrevendo: “Os cristãos sabem muito bem que só afirmando a dignidade infinita de todos é que a nossa própria identidade como pessoas e como comunidades atinge a sua maturidade. O amor cristão não é uma expansão concêntrica de interesses que pouco a pouco se estendem a outras pessoas e grupos”.

 

A sua investigação académica tem-se centrado na dissecação das dinâmicas de poder e na validação nos regimes autoritários, bem como na legitimação do poder para além dos processos eleitorais. Não sabemos se existe correlação entre os seus pontos de vista estritamente académicos e a sua admiração por Ventura que, argumenta, “representa uma fórmula disruptiva” e que, à semelhança de “Trump, Meloni, Milei”, se afirmou “atirando pedras para um charco onde as águas estavam paradas”. (Há quem sugira que o charco é na verdade uma pocilga e cite uma célebre frase de Bernard Shaw.) Pode ser que, como Ventura, Nogueira Pinto defenda que o seu trabalho académico (“ciência”) é distinto das suas posições políticas. A disrupção é vista aqui como sinónimo de temeridade. “André Ventura é um homem corajoso”, afirma a ministra-sombra da cultura. (Mesmo que isso possa não parecer evidente pelo facto de ele se deslocar sempre rodeado de seguranças.)

 

Teresa Nogueira Pinto vota André Ventura porque, como escreveu no Expresso, o “dissenso” é a “maior garantia de liberdade e pluralismo” e o líder do Chega abala o “consenso sufocante”. A direita pode ser hegemónica nos principais centros de poder, mas não a direita de que ela gosta. Entre a “hegemonia cultural da esquerda” e as tergiversações da direita com adversativas, o cenário é, do ponto de vista dela, de cortar a respiração ou de liberdade condicional.

 

No entretanto, o corajoso Ventura vai cumprindo o seu papel de insuflar o populismo e de inflamar as massas, de pôr os grunts na linha da frente do combate pelo Portugal primeiro, fazendo o trabalho de sapa de minar o “sistema” (jargão que ele transpôs do comentário desportivo para a acção política), enquanto as elites da direita em estado puro (miraculosamente protegidas do vilipêndio) aguardam entre o divertido e o ansioso pela entrada em cena. Porque o intrépido Ventura vai precisar da massa crítica dessas elites, de uma equipa que transmita competência e capacidade de liderança, visto que um homem só pode inspirar, mas não chega para governar. Nessa altura, e só nessa altura, é que Teresa Nogueira Pinto deixará de estar em apneia. E mesmo que a democracia liberal fique ligada às máquinas, é bem provável que ela ache que “é uma ideia muito simples, e muito bonita”.

 

(As citações, quando não assinalada a origem, são da entrevista de Teresa Nogueira Pinto ao jornal Sol. https://sol.iol.pt/politica/noticias/teresa-nogueira-pinto-deus-patria-e-familia-e-o-novo-e-proibido-proibir/20260126/6977719d0cf2d7f14f26f69c)

O DESPERTADOR DE LEÕES E O MESTRE DA TÁCTICA

Janeiro 25, 2026

J.J. Faria Santos

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O despertador de leões gosta de se mostrar intransigente com a “bandidagem” e até já asseverou que “no Chega, não há espaço para bandidos”. O candidato presidencial do “espaço não-socialista” diz que é “intolerável à violência” e que o Chega quer “melhorar a democracia”. Confrontado com o apelo ao voto nele que o grupo 1143 fez, recusa demarcar-se e explica que quer “o voto dos portugueses comuns”, e que nesses “portugueses comuns, estão pessoas de todos os tipos”. O grupo 1143 enfrenta uma acusação do Ministério Público por discriminação e incitamento ao ódio, é descrito como uma organização criminosa com ideologia neonazi e alguns dos seus elementos são suspeitos de se terem preparado para o “combate urbano” e até para uma “guerra racial”. Se tempos houve em que Ventura dizia liderar os “portugueses de bem”, agora pretende recolher o voto de “pessoas de todos os tipos”, incluindo criminosos condenados por incitamento ao ódio e à violência. A Rita Castro e João Peixoto, membros do 1143 que já figuraram como candidatos autárquicos pelo Chega, foram apreendidas diversas peças de merchandising do grupo, algumas delas com a inscrição “Os lobos não usam coleira”. André Ventura proclamou, entre o messiânico e o bíblico: “Eu não vim guiar cordeiros, eu vim despertar leões”. Os lobos, pelo menos, já estão de olhos bem abertos.

 

O mestre da táctica tem sido vastamente censurado pela sua opção pela “neutralidade” na segunda volta das presidenciais. Há quem ache que ele agiu “apenas por medo e não por convicção” (Ana Sá Lopes), posição secundada por António Barreto (“sinal e retrato de uma triste covardia de quem não corre riscos”). E há quem se concentre no “erro estratégico” que resultará na permissão para os eleitores do PSD votarem em Ventura, abrindo um precedente com possíveis consequências trágicas no futuro, para Montenegro e para o partido. Na formulação certeira de Manuel Carvalho no Público, “quando se troca a liberdade da democracia pela segurança nas carreiras, acaba por se perder as duas”. Enredado no seu tacticismo, é bem possível que Montenegro ache que a profusão de figuras de direita e centro-direita, e do próprio PSD, que apoiará Seguro o dispensará de marcar posição, e que os portugueses compreenderão que a sua renúncia se destina a preservar as condições de governação. “Planar”, como ele lhe chama, sem meditar que “sustentar-se no ar, com as asas estendidas, sem movimento aparente” não é propriamente sinónimo do “ímpeto reformista” que ele gosta de reivindicar. Mas esta proximidade entre Ventura e Montenegro parece ter resultado num dano colateral: acentuou-se a tendência para o primeiro-ministro proferir falsidades, agora despidas da ambiguidade e da escassa clareza que costumam caracterizar as suas declarações. Manuel Carvalho notou no artigo citado que “é uma mentira” dizer que “’o espaço político’ do PSD não está ‘representado na segunda volta’”. Escassos dias antes, o líder do PSD tinha classificado Seguro e Ventura como “dois extremos”. O líder do Chega combina o discurso agressivo, a ausência de propostas concretas, os slogans populistas e grosseiros e o tom esganiçado com a mentira compulsiva. Parece que o líder do PSD se rendeu às virtudes da pós-verdade e diz o que lhe vem à cabeça. O que o torna, entre outras coisas, vulnerável à sátira. Coisa que o tira do sério. E que lhe é muito mais incómodo do que acusações de apaziguamento ou colaboracionismo.

LUÍS MONTENEGRO E A PERCEPÇÃO INCONVENIENTE

Janeiro 18, 2026

J.J. Faria Santos

“As pessoas não precisam de ser alvo de crime para se sentirem inseguras, intranquilas. Basta assistirem a crimes que atingem outras pessoas, basta olharem para alguns fenómenos sociais e assustarem-se com eles”, dizia o primeiro-ministro, que, enquanto defendia que Portugal era “um dos países mais seguros do mundo” e negava que existisse uma associação “entre imigração e insegurança”, sempre ia oferecendo divagações como esta: "Eu não estou a dizer que as pessoas vêm do estrangeiro para Portugal têm essa tendência para criar problemas, mas criam um sentimento, quando não são bem integradas, e esse sentimento tem de ser combatido, como é evidente". Este era o tempo em que um Luís Montenegro sentimental parecia achar as percepções da realidade pelo menos tão importantes como a própria realidade factual. Era também o tempo em que outro Luís, Luís Neves, director nacional da PJ afirmava desassombradamente: “Estamos a assistir a um momento de desinformação, fake news e ameaças híbridas e é isso tudo que leva a fundamentar a perceção de insegurança”.

 

Flash-forward para 2026. Quem tão se esmerava na valorização dos sentimentos e das percepções, mostra-se agora incomodado com a “absoluta desproporção” entre o trabalho que é efectivamente prestado pelos profissionais de saúde e uma “onda noticiosa” que dá “uma percepção de caos, de crise e de problema permanente” no sector. O facto é que podemos dizer que as notícias sobre as disfuncionalidades do SNS estão mais próximas da realidade, enquanto que o exacerbar do “sentimento de insegurança” era (é) sobretudo uma construção mediática e política. Mas mesmo que assim não fosse, poderíamos sempre usar o template da frase do primeiro-ministro que abre este post, adaptando-a à área da saúde: As pessoas não precisam de ser alvo de doença para se sentirem intranquilas. Basta assistirem a ocorrências que atingem outras pessoas (doentes urgentes com tempo de espera de 16 horas, serviços de urgência fechados, 3 mortos em menos de 48 horas enquanto esperavam pelo socorro do INEM) e assustarem-se com elas.

 

Curiosamente, uma frase do PM, pronunciada em 13 de Janeiro de 2026, faz uma ligação entre estes dois momentos temporais, entre emigração, imigração e saúde. “O nosso SNS tem o constrangimento de ver muitos dos seus quadros qualificados procurarem oportunidades no estrangeiro e, portanto, ver migrar muito dos seus recursos humanos e, ao mesmo tempo, ver ingressar no país muitos migrantes que têm, e muito bem, direito a uma resposta de saúde”, disse Montenegro. Terá o primeiro-ministro, naquele seu estilo entre o factual, o sonso e o ambíguo, contribuído para a “percepção”, ou para o “sentimento”, de que os imigrantes (só cerca de metade dos imigrantes residentes estão inscritos em centros de saúde) contribuem decisivamente para os “constrangimentos” do SNS? E ter-se-á arriscado a criar uma “onda noticiosa” que valide a tese com grande tracção na direita radical de que os imigrantes estão a “passar à frente” dos portugueses no acesso aos serviços públicos?

A REALIDADE ALTERNATIVA DAS INTENÇÕES BENIGNAS

Janeiro 11, 2026

J.J. Faria Santos

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Segundo a narração do próprio Donald Trump, este terá dito a Maduro: “Tens de desistir. Tens de te render”. Na falta de anuência, os militares americanos “entraram à força e invadiram locais que, teoricamente, não podiam ser invadidos”, descreveu o Presidente americano, esclarecendo que os EUA iriam assumir o “controlo da Venezuela”. “Vamos permitir que as nossas gigantescas companhias petrolíferas americanas, as maiores do mundo, entrem, gastem milhares de milhões de dólares, reparem as infraestruturas petrolíferas em mau estado e comecem a gerar lucro para o país”, explicando que “a indústria petrolífera venezuelana”, construída pelos americanos, “durante administrações anteriores” tinha sido “roubada à força”. No entretanto, a administração americana deixou cair a acusação de que Nicolás Maduro liderava o Cartel de los Soles (cuja existência formal parece ter sido descartada). O Departamento de Justiça fala agora de conspiração para tráfico de drogas, e alude a um “sistema de clientelismo” e a uma “cultura de corrupção”. Todo este modus operandi, conjugado com a nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, levou comentadores de política internacional e especialistas em direito internacional a usarem expressões como “acto de agressão e ingerência ilegítima”, “regresso da diplomacia de canhoneira” e “imperialismo predatório”.

 

Confrontado com estes factos, o primeiro-ministro de Portugal, com a sua irreprimível tendência para vogar numa realidade alternativa, achou por bem tomar nota do “papel dos EUA na promoção de uma transição estável [rapto do chefe do Estado], pacífica [terão morrido pelos menos 100 pessoas, segundo o governo venezuelano], democrática e inclusiva [os americanos preparam um entendimento com Delcy Rodríguez, uma das cabecilhas do que Paulo Rangel apelida de “elite do narcoestado”] na Venezuela com a maior brevidade possível”. Já o insigne jurista que ocupa o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, lá admitiu que Portugal “acha que se deve respeitar a legalidade e a Carta das Nações Unidas”, e que “muitos consideram esta intervenção feita nestes termos, independentemente das intenções, que são benignas, não estão conformes ao direito internacional”. Ainda assim, prosseguiu Paulo Rangel numa curiosa fuga à declaração na primeira pessoa, considerando a “ilegitimidade de Nicolás Maduro (…), há quem entenda que possa haver algum grau de legitimação”.

 

Luís Montenegro e Paulo Rangel, cujas opiniões sobre esta matéria foram vistas como titubeantes ou mesmo miseráveis, fariam bem em atentar no artigo de Teresa Violante no Expresso, onde se pode ler que “o direito internacional não protege Maduro porque o seu regime é legítimo. Protege-o porque a alternativa – um mundo em que qualquer potência pode decidir unilateralmente quem é criminoso, entrar em território soberano e raptar um chefe de Estado para o julgar nos seus tribunais – é pior”. Houve quem justificasse a tibieza da posição portuguesa com a cautela em não hostilizar um aliado. Mas será ainda um aliado? E que parceria se pode construir com um aliado com o qual não pode haver um debate franco e se opta por assumir exclusivamente uma atitude de subalternidade? E se não se pode usar o softpower de uma declaração de princípios, que poder nos resta? Como escreveu Augusto Santos Silva no Público: “A força não é fonte do direito, e não é o número de mísseis que cada um detém que determina a sua quantidade de razão. Dizer não tem sentido e tem impacto.” Mas nada é mais demonstrativo de uma visão de realidade alternativa (ou pior, de um cinismo atroz) do que o contraste entre a assumpção por parte de Trump da primazia absoluta do interesse americano (sem alegações de nation building ou de um ideal de expansão da democracia – palavra que nunca pronunciou) e a “transição democrática e inclusiva” que só o primeiro-ministro de Portugal terá visto.

MENTALIDADE CRISTIANO RONALDO? É PREFERÍVEL A MENTALIDADE CAROL STURKA.

Dezembro 31, 2025

J.J. Faria Santos

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O que poderão desejar os portugueses para 2026? Acho que está na altura de fazer uma “reforma estrutural” ao cardápio de desejos. Que deve começar logo no vocativo. Temos de seguir o exemplo do primeiro-ministro na mensagem de Natal e privilegiar as formulações que incluam a palavra “compatriota” – “estimados compatriotas” e “caros compatriotas”. E temos de ser mais ambiciosos, não nos contentarmos apenas com a saúde, o amor e a paz (tudo coisas que namoram o efémero). Temos de “Acreditar” (com maiúscula) em nós, ingerir shots de “mentalidade Cristiano Ronaldo”, para “não só fazermos diferente”, mas também “fazermos a diferença”. Como nos garantiu o primeiro-ministro (em mais um exemplo de paixão pelas maiúsculas): “A Família Portuguesa, enquanto país e nação, tem motivos para se reunir e olhar com Esperança para o futuro.” Não é que eu queira ser picuinhas, mas por que razão o “futuro” é minúsculo se a “Esperança” transborda? E como se justifica que o “país” seja minúsculo quando, citando o chefe do governo (minúsculo na minha avaliação), “Portugal é hoje uma referência a nível europeu e mundial?”

 

Não sou fã da “mentalidade Cristiano Ronaldo”. Deploro que a competência profissional, a ética de trabalho e o esforço permanente de superação sejam manchados por um narcisismo que o impede de moderar as atitudes de soberba , as declarações destemperadas e as companhias que escolhe. É por isso que no cosmos Ronaldo a admirável filantropia se mistura com a convivência com ditadores sanguinários ou com o endosso a um Trump que despreza a Europa e procura implantar nos EUA uma autocracia ou um “regime autoritário competitivo”. Talvez a “mentalidade Cristiano Ronaldo” que o primeiro-ministro aprecia possa ser sintetizada nas palavras daquele a Piers Morgan, em que explicou “não ligar muito ao dinheiro”, mas frisou que “ser multimilionário era um dos meus objectivos”.

 

A ideia dos portugueses, perdão, dos compatriotas transformados em clones mentais do “melhor futebolista do mundo” não me é apelativa. Como alternativa e como hipótese meramente académica, proponho a “mentalidade Carol Sturka”. Sturka, para os mais distraídos, é a protagonista da série Pluribus, escritora de sucesso que se descobre imune a um vírus que transforma toda a humanidade numa espécie de irmandade pacífica e a beira da euforia. O contraponto é a assimilação, a abdicação da individualidade, a rasura da diferença, a diluição numa consciência colectiva. Carol Sturka, sarcástica, pessimista, amarga por vezes, resiste a uma organização mundial de felicidade que retira a cada pessoa o atestado de humanidade: a incerteza, a inquietação, o engano, a falha, a descoberta. É o género de pessoa que torce o nariz a mantras políticos manhosos comandados pela palavra “Acreditar”, grafada em caixa alta. É o género de pessoa que prefere palavras como “questionar” e “escolher”. No fundo, uma “mentalidade” assente na palavra Liberdade.

 

Imagem: a actriz Rhea Seehorn enquanto Carol Sturka 

É NATAL E HÁ QUEM LEVE A MAL

Dezembro 24, 2025

J.J. Faria Santos

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É Natal e há quem leve a mal. Isabela Figueiredo (de quem li o corajoso e incontornável Caderno de Memórias Coloniais) é uma dessas pessoas. Em crónica no jornal Expresso, deplorou “a mesma música todos os anos”, a “muita alegria e muito amor irreais” nos programas de televisão e na publicidade, as oportunidades que a quadra proporciona para “consumir irracionalmente” e o “ambiente de Natal tradicional, “penoso” para os solitários que, mesmo que participem nas celebrações dos amigos, sentir-se-ão sempre como se estivessem no “mundo dos outros (…) de passagem e por piedade”. No “mês mais triste do ano”, confessa ela, só escapa a “lareira acesa”, com “as suas chamas coloridas e o calor que se espalha pela casa”.

 

Contrariamente à cronista, sou um fã dos rituais da época. Não consigo escapar ao apelo dos hits natalícios (o veludo na voz de Nat King Cole em The Christmas Song ou a surpreendente sobriedade da versão de Blue Christmas  de Céline Dion, com Diana Krall ao piano, já para não falar do  meu favorito, Have Yourself a Merry Little Christmas, do qual me entretenho a procurar novas versões no YouTube). E dificilmente resistirei a ver de novo, mesmo que seja de forma pouco atenta, o filme O Amor Acontece, que não se esquiva a satirizar o “Natal tradicional” e onde a alegria pode ser “muita” mas nunca se insinua que será perpétua, e o amor mais do que “irreal” é apresentado como fruto de um trabalho por vezes árduo ou da capacidade de esquecer, não descartando a hipótese de estar condenado ao unilateralismo.

 

Se Isabela Figueiredo questiona “árvore de Natal e luzinhas para quê ou quem”, eu respondo: para meu deleite. A tradição instituída por mim é a de que todos os anos adquiro um novo enfeite para juntar aos que transitaram da época anterior. Os enfeites são, com raríssimas excepções, de cor vermelha ou amarela. Dada a heterogeneidade das peças, a sua colocação na árvore obedece a uma certa harmonia cromática horizontal ou vertical, pondo as peças douradas em cima e as vermelhas em baixo ou, em alternativa, umas mais à esquerda e outras mais à direita. Anjos, Pais Natais, sinos, renas, candelabros, imitações de bonecos de neve ou de ramos de azevinho espalham-se por diversas divisões da casa. Decorar a casa no Natal não é para mim uma imposição comercial, uma pressão familiar ou social ou uma competição com a vizinhança. E uma questão de prazer pessoal, sem concessões à extravagância ou preocupação com modas.

 

Entendo mal que Isabela Figueiredo ache que “para quem tem pouca família e não encontra forma de criar um ambiente de Natal tradicional, tudo é penoso”. É que o Natal tradicional é como a família tradicional: é mutante e está em evolução. E não vejo mal nisso. Nem compreendo por que razão uma noite de consoada como será previsivelmente a minha, com menos pessoas que os dedos de uma mão, não se enquadre no conceito de Natal tradicional, mesmo se, para mim, a palavra Natal dispensa o adjectivo.

 

Por outro lado, percebo as suas considerações acerca dos solitários, de quem não tem família ou dela se afastou e da sua difícil inserção no “mundo dos outros”. Mas não posso deixar de notar que a piedade é compaixão e que esta pode ser definida como “um impulso altruísta e solidário para com quem sofre” (Dicionário online Infopédia). Existirá algo mais natalício? E mesmo que o “solitário” se sinta “de passagem” e sem pertença, não precisamos todos do conforto dos “estranhos” (da “gentileza dos estranhos”) nos intervalos das nossas estadas nas células mais estáveis da sociedade? E gosto de pensar que, em última análise, Natal é sobretudo ser capaz de tornar nosso o mundo dos outros e deixar que os outros se aventurem pelo nosso.

 

O MINISTRO DA EDUCAÇÃO E OS CUSTOS DE (DES)CONTEXTUALIZAÇÃO

Dezembro 21, 2025

J.J. Faria Santos

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Esta semana ficámos a saber que se de repente um ministro da Educação afirmar que se “metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar de um serviço público, nós sabemos que o serviço publico se deteriora”, isso não é um lapsus linguae na vizinhança do preconceito ou do estigma, ou uma formulação infeliz, tratando-se, evidentemente, da explanação de um princípio fundamental da obra de um sociólogo que deu aulas na London School of Economics. Três breves notas sobre a polémica da semana.

 

Sendo ministro de um executivo que não esconde o seu desprezo pela “bolha mediática” e que ostensivamente prefere prescindir da intermediação jornalística quando comunica com o “povo que está com este Governo”, e supondo que o destinatário do seu discurso acerca do novo modelo de acção social no ensino superior seria esse mesmo “povo”, é no mínimo insólito que Fernando Alexandre parta do princípio de que a generalidade dos portugueses é versada nas teorias e conceitos de Richard Titmuss. Acresce que o Governo de que faz parte, a começar de forma exuberante pelo primeiro-ministro, é conhecido pela avareza das explicações e pela ambiguidade das proclamações, o que aconselha clareza e profissionalismo nos discursos públicos (ou será que a central de comunicação/propaganda está vocacionada apenas para a produção de “informação chave na mão”?)

 

O senhor ministro queixa-se de que as suas declarações foram descontextualizadas. Admitamos que sim. E que o académico se esqueceu de que também é um político a dirigir-se às massas. Sucede, porém, que Fernando Alexandre, por sua vez, também já tirou proveito da descontextualização, como quando acusou o reitor da Universidade do Porto de “mentir sem qualquer pudor”, afirmando que este dissera ao Expresso ter sido pressionado pelo ministro da Educação, facto imediatamente desmentido pelo reitor e que não encontra suporte na notícia do jornal. Se uma descontextualização não desculpa a outra, a incoerência retira alguma legitimidade. E não ajudou a soberba e a prepotência com que se propôs aceitar a demissão do reitor, algo totalmente alheio às suas atribuições e poderes.

 

O ministro da Educação não é um simples técnico prestigiado a debutar na dura arte de governar a nação. Tem experiência política e vocação para tiradas ambiciosas que acabam em manchetes de jornais. Como no caso da fantasiosa redução de 90% dos alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina, que acabou num honroso “pedido de desculpas” ao jornal Expresso e na admissão de ter fornecido “dados errados” e “não credíveis”. E como sucedeu quando se aventurou no esoterismo e decretou com sapiência que “alguém que anda em manifestações perde a aura”. Talvez um pouco de bom senso e alguma prudência sejam recomendáveis na transposição de conceitos académicos para o discurso político. Doutro modo, qualquer dia, ainda alguém se lembra de dizer que políticas para os pobres são políticas pobres.

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