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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

3 DISCOS

Janeiro 20, 2020

J.J. Faria Santos

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Lana Del Rey parece ter alcançado o reconhecimento da crítica especializada, após anos de suspeitas de inconsistência e superficialidade, com o seu último trabalho: Norman fucking Rockwell. Nele prossegue a cartografia das emoções e das paisagens americanas (“You´re beautiful and I’m insane / We´re American made”, canta ela em Venice Bitch) e, sem perder o glamour e a sofisticação, confirma uma inflexão no sentido da autenticidade e do despojamento. Que se reflecte na desarmante franqueza das letras e no carrossel emocional que elas espelham. Na recensão crítica que fez para o New Musical Express, Rhian Daly notou uma evolução na sonoridade, de uma “pop tingida pelo hip-hop para uma folk boémia”, que conferiu ao álbum um pendor “intemporal”. A bad girl em modo starlet do êxito inaugural Video Games, com uma certa predilecção pelo drama e pelo fatalismo, transformou-se numa mulher que se permite acalentar esperança (Hope is a dangerous thing for a woman like me to have – but I have it é o nome da faixa que encerra o disco.)

 

FKA twigs, figura cimeira da música electrónica contemporânea, dá sequência em Magdalene (álbum inspirado na figura de Maria Madalena) ao seu estilo experimental, futurista e alienígena, ao mesmo tempo que desenha aproximações a estilos mais convencionais, como sucede nos temas sad day (há quem reconheça a influência de Kate Bush) e cellophane. Pungente e delicada, assertiva e agressiva, empolgante e operática, FKA twigs mais que uma cantora é uma experiência visual e sonora. Para escutar no silêncio contemplativo de uma sala de espectáculos ou na sala de estar insonorizada e à prova de bem-intencionadas mas inoportunas visitas. Aproximem-se dela. Como ela entoa em mary magdalene: “i can lift you higher / i do it like mary magdalene / i’m what you desire / come just a little bit closer / ‘til we colide”.

 

Volta e meia Camané esmera-se em dar-nos leituras (nem sempre ortodoxas) dos clássicos. Recordo com apreço um versão fado-western de Vendaval, tema celebrizado por Tony de Matos, na companhia dos Dead Combo. Em Aqui está-se sossegado, a meias com Mário Laginha, aproxima-se, mais uma vez, do sublime em Não venhas tarde (uma espécie de fado machista com um twist final carregado de insegurança) e em Com que voz. E também nas revisitações que faz a dois temas da dupla Manuela de Freitas/José Mário Branco: Ela tinha uma amiga e A guerra das rosas (um vertiginoso relato satírico dos desmandos conjugais). Como sempre, como dantes, Camané continua a brindar-nos com a excelência, neste caso com um cúmplice à sua altura.

A DONA DO PEDAÇO NA CORDA BAMBA EM TERRA BRAVA

Janeiro 14, 2020

J.J. Faria Santos

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Joacine “ditatorial”, Cristina à Presidência, Pinto Luz fake news, Raquel à beira de um ataque de nervos e Gama detido por violência doméstica. A novela do país real está mais emocionante que nunca. Prepotência, megalomania, ambição, drama e violência – os ingredientes do sucesso estiveram em exibição nos corredores do poder e nas telas televisivas.

A deputada do Livre já tinha declarado ao Expresso ser “o desconforto”, no que poderia ser interpretado como o símbolo da sua postura interventiva e reivindicativa, sem receio de abordar assuntos polémicos ou controversos. Algo inesperado é que esse desconforto se tenha virado contra ela. A tentativa de Joacine Katar Moreira de impedir a publicação de uma fotografia oficial de uma comissão parlamentar é apenas o último capítulo de uma sucessão de incidentes infelizes onde o estilo e os tiques de prima-dona se sobrepuseram à razão de ser da sua presença no Parlamento: acção política consistente e consequente.

A possibilidade de uma carreira política nunca tinha passado pela cabeça de Cristina Ferreira até que a vox populi tornou credível essa hipótese. Primeiro, entreteve-se a imaginar uma carreira autárquica, agora não lhe parecerá descabido um assento em Belém. Conforme confessou em entrevista à Visão, não se acha com capacidades para primeira-ministra, mas para “representar todos os portugueses” conseguiria preparar-se e não falharia. A provedoria dos afectos de Marcelo (e a elevação da selfie ao estatuto de ícone) parece ter reduzido a magistratura presidencial a isto: uma celebridade em representação dos portugueses manifestando-se através da omnipresença e da distribuição de cumprimentos.

Miguel Pinto Luz, no âmbito da sua candidatura à liderança do PSD, publicou nas redes sociais um vídeo simulando uma notícia de um canal de informação, onde era apresentado como tendo passado à segunda volta, no qual constavam fotografias de figuras como Marques Mendes, Miguel Sousa Tavares e Clara Ferreira Alves e supostas declarações delas acerca do candidato. É certo que logo no início da peça o próprio Pinto Luz se refere a ela como uma “reportagem fictícia” (emitida muito antes dos resultados serem sequer conhecidos), mas não se percebe o que pretenderia alcançar com esta mistura de fake news com um desejo mascarado de profecia. Clara Ferreira Alves, que não apreciou que lhe tivessem inventado a declaração “Pinto Luz mostra boa preparação”, não foi meiga na reacção e tratou de declará-lo “um idiota sem escrúpulo moral”.

Já sabemos que as personagens se cruzam ao sabor das intrincadas incidências do guião. Cristina Ferreira, ainda não em modo presidencial mas no pleno uso das suas capacidades afectivas, foi a anfitriã de uma Raquel Tavares à beira de um ataque de nervos. Explicando estar cansada do ritmo da vida artística, e do impacto que ela teve na sua vida privada, a fadista anunciou o fim da sua carreira. Para os seus admiradores (nos quais me incluo) resta a esperança de um futuro reavaliar da decisão, até porque ela gosta muito de cantar e “nunca nada é definitivo”.

Armando Gama, que também deve gostar muito de cantar Esta balada que te dou e outros temas, foi detido por violência doméstica (“agredia física e psicologicamente a companheira” na presença do filho de cinco anos), tendo saído em liberdade após a aplicação de medida de coacção, que determina o afastamento e a proibição de contactar com a vítima. Terá agora tempo para meditar sobre as agruras da vida conjugal e sobre o destempero dos ciúmes que descambam em comportamentos inadmissíveis. Poderá sempre actualizar a letra do seu grande sucesso para Esta estalada que te dou.

 

 

Nota: Ao assinalar a publicação nº500 deste blogue, aproveito para agradecer a todos os leitores em geral, e aos subscritores em particular, a disponibilidade que têm tido para ler, reagir e comentar. Seja por interesse, curiosidade ou mero acaso, a vossa participação é essencial para a vitalidade de um espaço que, desde o início, escolheu abordar um leque variado de assuntos com um estilo por vezes incisivo ou irónico, mas sem nunca recorrer ao insulto ou à agressividade gratuita. E se é verdade que este é um espaço de liberdade (onde a escolha dos temas não está dependente da actualidade, das modas ou das hipotéticas preferências de leitores numa busca desesperada por visitas e visualizações), não o é menos que sem aqueles não faria sentido a existência do No Vagar da Penumbra.

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TRUMP E OS TRUMPETES

Janeiro 06, 2020

J.J. Faria Santos

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Li o título da peça de João Lemos Esteves que esteve em destaque na secção do Sapo Opinião & Blogs (“Trump, o líder dos direitos humanos: hasta la vista, Quasem Soleimani!”) e ocorreu-me se não teria havido uma troca de identidades, tratando-se antes de um texto satírico de Ricardo Araújo Pereira. Mas não. O intrépido Lemos Esteves levou a sua condição de trumpete (admirador fervoroso de Trump a roçar o misticismo ) até ao paroxismo, proclamando urbi et orbi que “O ano novo começou com uma excelente notícia para a liberdade e para a democracia – e para a defesa dos direitos humanos.” Sintomaticamente, omitiu a paz, tão ansiosamente presente nos votos de quem deseja um auspicioso 2020.


Por detrás do título alucinado com uma alusão cinematográfica deve residir uma crença na visão estratégica do actual presidente americano (a quem Pacheco Pereira, escrevendo no Público, diagnostica “uma ignorância abissal, um simplismo grosseiro e uma agressividade sem limites, todos os defeitos de carácter [e] um comportamento errático e caótico”). Doutro modo, Lemos Esteves teria meditado no facto de anteriores inquilinos da Casa Branca, como Bush e Obama, se terem abstido de eliminar Soleimani, ponderando o potencial de desestabilização regional e a escalada de violência, optando, conscientemente, por tomar providências que impedissem o Irão de desenvolver armas nucleares.


Tentar apresentar como uma acção de defesa um acto de guerra (na definição do director do Público, Manuel Carvalho, “um assassínio intencional e selectivo de uma alta figura do Estado”), só é compreensível à luz da prepotência e da irresponsabilidade com que Trump exerce o seu cargo. Claro que para o trumpete Lemos Esteves, o editorial do Público deve explicar-se pelo facto de existirem jornalistas “que odeiam a tradição religiosa judaico-cristã da Europa – quase manifestaram a intenção de ir acender uma velinha em honra à alma do terrorista bárbaro Soleimani.” (?) Robin Wright notou na New Yorker a ironia do iraniano ter sucumbido num tipo de “operação que orquestrou contra os Estados Unidos com frequência ao longo dos anos e com resultados letais”, mas não deixou de sublinhar que o efeito do ataque americano pode vir a ser o inverso do pretendido. Para além de ter constituído um “embaraço para os líderes iraquianos e um desafio à soberania do Iraque”.


O “Presidente Trump é o melhor amigo da LIBERDADE e da democracia”, escreveu Lemos Esteves (sim, ele grafou liberdade com maiúsculas, como o seu ídolo gosta de utilizar a torto e a direito). Será que Trump considera ser seu desígnio promover uma mudança de regime no Irão? Ele negou-o, mais do que uma vez. Porém, como Dexter Filkins explicou, também na New Yorker, “desde que tomou posse, a administração Trump transformou a mudança de regime numa política implícita. Ao retirar-se do acordo nuclear iraniano e ao impor sanções que enfraquecem o país, os conselheiros de Trump apostaram que poderiam derrubar o regime”. Só nos faltava que este cenário se materializasse, mais um exemplo de voluntarismo na promoção da democracia que fatalmente acabaria no caos. Nada que preocupe o trumpete Lemos Esteves, chefe de claque, arrebatado pelo brilho do orador, pelo farol da liberdade, pelo magnata cor-de-laranja. Estranho arauto da liberdade e da democracia este, que se esmera na boçalidade, que destrata os adversários políticos, que desdenha da verdade e que rebola na ignorância. E que do seu púlpito no Twitter prega aos convertidos, trumpetes que como repetidores de wi-fi garantem que o sinal da intolerância e da ignorância se propaga. Cabe a todos nós o esforço de resistência para não permitir a subversão. E reagir. Para já, citando novamente Pacheco Pereira, “a resposta a Trump é débil para o grau da sua perigosidade”.

QUESTIONÁRIO DE WILDE

Dezembro 30, 2019

J.J. Faria Santos

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  1. Que conselhos daria a quem o admira?

“Dar conselhos é sempre estúpido, mas dar bons conselhos é desastroso.”

 

  1. Preocupa-se em ser um homem do seu tempo, ou é por natureza conservador?

“Nada há tão perigoso como ser excessivamente moderno. Existe a tendência para ficar fora de moda sem se dar por isso.”

 

  1. O que acha da devassa da vida privada, das indiscrições?

“É perfeitamente monstruoso apercebermo-nos de que as pessoas dizem coisas nas nossas costas, coisas que são absoluta e completamente verdadeiras.”

 

  1. Como reage nessas circunstâncias?

“Não presto a mínima atenção ao que dizem as pessoas vulgares e não interfiro nunca no que fazem as pessoas interessantes.”

 

  1. Nunca faz confidências?

“Nada há de mais interessante do que contar a um homem bom ou a uma mulher de bem até que ponto nos comportámos mal. É imenso o fascínio intelectual. Um dos grandes prazeres encontrados na má conduta é o de haver tantas coisas para dizer aos bem comportados.”

 

  1. Em que diferem um santo e um pecador?

“A única diferença entre santos e pecadores é que todos os santos têm um passado e todos os pecadores têm um futuro.”

 

  1. Que importância atribui à experiência?

“A experiência não tem qualquer valor ético; é apenas o nome que os homens dão aos seus erros.”

 

  1. Como seleciona as pessoas com quem se relaciona?

“Escolho os meus amigos pelo seu bom aspecto, os meus conhecimentos pelo seu bom carácter e os meus inimigos pelo bom uso que fazem do seu intelecto.”

 

  1. É supersticioso? Acredita no destino?

“Os presságios não existem. O destino não nos envia mensagens. É demasiado cauteloso ou cruel para tanto.”

 

  1. Como definiria a diferente expectativa que homens e mulheres têm em relação ao amor?

“Todos os homens querem ser o primeiro amor de uma mulher. É essa a sua desastrada vaidade. As mulheres têm um sentido mais seguro das coisas. Do que elas gostam é de serem o último amor de um homem.”

 

  1. Preocupa-o o fenómeno das fake news?

“O objectivo do mentiroso é simplesmente o de agradar, de encantar, de dar prazer. É a base da sociedade civilizada. Caso um homem tenha pouca imaginação para arranjar provas para a mentira, deve então dizer, de imediato, a verdade.”

 

  1. E a proliferação dos populistas autocratas?

“Existem três tipos de déspotas. Há o déspota que tiraniza o corpo. Há o déspota que tiraniza a alma. E há o déspota que tiraniza simultaneamente o corpo e a alma. O primeiro chama-se o príncipe. O segundo chama-se o papa. O terceiro chama-se o povo.”

 

(Nesta entrevista/questionário ficcionada, as “respostas” de Oscar Wilde têm por base excertos constantes do livro “Aforismos”, editado pela Contexto, com tradução de Levi Condinho.) Imagem: Wikimedia Commons

 

O NATAL DA TUA AUSÊNCIA (C0NTO DE NATAL)

Dezembro 23, 2019

J.J. Faria Santos

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É véspera de Natal. Já passaram quase seis meses desde que partiste e o nosso adorado gato persa (que partilha comigo uma aversão ao barulho) continua a saltar para o teu lado da cama e a olhar intensamente para mim. Não consigo perceber se se está a apropriar do teu lugar ou se está a marcar a tua ausência com a sua pose régia. Ocasionalmente, solta um miado. Demasiado enérgico para ser um lamento; demasiado suave para ser um incentivo. Escusado será dizer que me sinto entorpecido, sem vontade de me erguer do leito. Não é cansaço. Chamar-lhe-ia indolência, não fosse a pontada de desespero que traiçoeiramente se insinua na fímbria dos dias. Por isso, deixo-me ficar um pouco mais, de olhos fechados agarrado à almofada, com o corpo esparramado na diagonal, reclamando para mim parte do espaço que era (é) teu e que o Fred (como o Astaire, porque o nosso felino quando caminha parece bailar, com elegância e souplesse) não consegue abarcar. Sei que isto não pode continuar assim, mas continuo a desafiar as probabilidades, a esticar os limites do meu transtorno emocional que não me deixa, apesar de tudo, incapaz para as tarefas do dia-a-dia. Permaneço funcional, operativo, gregário quanto baste. As pessoas dizem-me que estou com bom aspecto e, nesta quadra, até se atrevem a desejar-me as boas-festas, mas não um feliz Natal (se a felicidade parece obscena perante a dimensão da tua ausência, já a bondade é admissível). E se o fazem com generosidade, acredito, não conseguem disfarçar a incredulidade que se inscreve nos seus rostos. Porque há um limite para o fingimento, para a credibilidade de uma proclamação que os lábios sopram, que a cabeça descrê e que os olhos desmentem. Sim, estou bem, replico, usando uma resposta socialmente aceitável, sensata. E, apesar de tudo, o caldo morno e suave das regras da convivência social tornam tudo mais suportável.

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O Fred esmera-se, agora, no asseio pessoal e ignora-me. Lambe metodicamente cada interstício das patas e depois, contorcionista, tenta expandir a língua pelo dorso, alisando o pêlo humedecido. E com franco despudor não se inibe de prosseguir com a higiene íntima, imperturbável, mesmo quando o colchão oscila à medida que me arrasto para fora da cama. A claridade filtrada pelo cortinado dá um tom sépia à assoalhada, vagamente irreal, fora do tempo. Dirijo-me para o quarto de banho, bocejando. Abro o armário para retirar o gel de duche por encetar, cuidadosamente encostado à direita do compartimento. Do lado esquerdo, de uma forma cativantemente desordenada, estão os teus produtos de beleza. (Lembro-me de pensar, nos primeiros tempos de coabitação, aqueles em que aprendemos a amar as idiossincrasias do outro, mesmo as que nos poderiam irritar, sobretudo as que nos poderiam irritar, lembro-me, dizia eu, de pensar: mas para que precisa ela de produtos de beleza?) Aposto que estás a atribuir ao encantamento do enamoramento esta minha espécie de espanto, mas a verdade é que os cosméticos poderiam apenas iluminar-te (como um holofote junto a uma obra de arte). A essência da beleza é outra coisa, subjectiva, certamente, mas intrínseca a cada ser, que irradia dele e se projecta nos outros. Apesar disto, não me atrevi a esvaziar o teu lado do armário. Quando me apetece sentir a tua presença, recorro a um estratagema insatisfatório: pego no teu perfume e ponho-me a aspergir o ar, inalando-o como se ele me estivesse a banhar, como se partículas de ti me abençoassem. Funciona como um remedeio, um placebo. Ou um paliativo, esse consolo dos malditos, esse edital dos condenados. Perco-me em devaneios, dos quais só o Fred me arranca, enrolando-se nos meus tornozelos, contornando-os como se estivesse numa pista de obstáculos. Pego nele, fofo, macio, quente, vivo e retiro-o do quarto de banho, sugerindo que vá ter com o Tiago. A água do duche derrama-se sobre mim, higiénica e terapêutica.

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Este ano foi o Tiago que seguiu a tradição e cumpriu o ritual. Subiu ao sótão no início do mês de Dezembro, retirou de lá a árvore artificial e os enfeites, e tratou de erigir na sala o tradicional monumento ao Natal. Interpretou o teu papel, ou melhor, recriou-o. E como um diligente e bem preparado actor foi mais superlativo que supletivo. Dou graças pelo facto de ele já ter doze anos, quase treze. Consegues imaginar o pesadelo que seria para mim explicar a um rapaz de três ou quatro anos que a mãe partira, adormecida, numa espécie de nave espacial de madeira, em viagem para as entranhas da Terra ou para os confins do Universo? Uma viagem sem regresso? É espantoso como ele conseguiu lidar com a tua partida de uma forma tão serena. Aposto que para isso contribuíram as conversas sussurradas com a tua mãe e com a minha. Há uma sabedoria ancestral que se manifesta nestas ocasiões e que as avós transportam como um testemunho a ser transmitido aos vindouros. E acredito que as duas olham para mim com a indulgência e uma certa ternura com que a generalidade das mulheres parece olhar para a generalidade dos homens: um grupo de crianças grandes, capazes de gestos de valentia e generosidade, mas emocionalmente incapazes de lidar sozinhos com as grandes contrariedades e os inescapáveis dramas do quotidiano.

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Não fui eu capaz de me manter impassível, de rosto absolutamente ilegível, quando o teu médico anunciou com suavidade e tacto, mas com voz firme, que o pesadelo regressara, com ramificações no estômago e no fígado? Terás sentido um leve aumento da pressão da minha mão no teu braço, mas ter-te-á passado despercebida a aceleração das minhas batidas cardíacas. E seguramente não notaste o breve momento de desorientação que coincidiu com a meteórica névoa que me toldou a vista. Depois, recompus-me e perguntei àquele que parecia ser o dono do roteiro do teu futuro qual era o prognóstico. A resposta não nos surpreendeu, mas nem por isso foi menos devastadora: as circunstâncias tinham-se agravado, a resposta aos tratamentos poderia não ser eficaz, o mal alastrava-se, persistente e indomável. Quando falaste, sem deixar transparecer qualquer inquietação ou ansiedade, perguntaste apenas pelo tempo que tinhas para gastar. Menos de seis meses, se os tratamentos não fossem sequer eficazes no retardamento do desfecho. Porque a possibilidade de cura era do domínio dos milagres. Saímos do gabinete em silêncio. E, depois, disseste que querias ir ver o mar. Ficámos a olhar para o desassossego das marés, de mãos dadas.

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Passados quase seis meses, aqui me tens a olhar para ti, para um instantâneo de ti aposto sobre uma lápide. Escolhi uma hora antes do meu jogging, uma altura da tarde em que o cemitério costuma estar despojado dos vivos, antes da missa da tarde e pouco depois da hora do almoço, período em que a generalidade das pessoas vai em procissão tomar a dose de cafeína. Sinto que ainda tenho muito para te dizer, mas persiste uma incapacidade de expressão aflitiva. Como se as palavras se acumulassem num túnel cada vez mais estreito e o bloqueio criasse um movimento de regressão. Exactamente como nas últimas horas da tua presença, em que deitada numa cama de hospital, impossivelmente luminosa para quem se aproximava da escuridão, desfiaste metodicamente uma lista de conselhos, sugestões e providências (“o meu colar étnico é para a tua irmã”. “tens de levar o Tiago a Londres”, “não sejas demasiado permissivo com o Fred”), enquanto eu me limitava a pegar nas tuas mãos, como se isso impedisse que escapasses por entre os meus dedos. Quiseste falar com o Tiago a sós. Nunca lhe perguntei o que lhe disseste e ele nada adiantou. Quando ele reabriu a porta, convidando-me a regressar, achei-o sereno, pacificado mais que conformado, sem sinal de revolta perante uma patente injustiça. Não me admiraria se lhe tivesses pedido que tomasse conta de mim. Passados quase seis meses, aqui me tens combalido, mas resistente. O Sol de Outono, tépido e indeciso, banha o jazigo onde me estendo, o meu corpo sobre o teu corpo encarcerado pelo granito, por madeira e por sete palmos de terra. Sentes a reverberação contínua do meu coração a bater por ti, imune ao frio tirânico que pune as minhas articulações e músculos, e para o qual o calor solar constitui fraco consolo? Cheiras a rosas brancas. Nos últimos tempos, andas muito volátil em termos de aromas. Já assisti à ascensão e queda dos crisântemos e dos lírios. Que triunfem, pois, as rosas brancas, que parecem engalanadas com purpurinas, tão apropriadas, também, para a passagem de ano.

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As nossas mães conspiraram para me manter fora de casa durante grande parte da tarde. Quiseram fazer os preparativos da ceia de Natal, sem estorvos, coadjuvadas apenas pela minha irmã. Devem ter achado que o leve espírito de celebração me transtornaria. (Meu Deus, desde quando as pessoas me terão encarado como uma flor de estufa?) A culpa deve ser minha. O meu rosto permaneceu fechado e até inamistoso durante um largo período de tempo em que as pessoas me repetiam que a vida tinha de continuar. E recentemente, a minha cara sogra (a tua dedicada mãe!) fez questão de me dizer, com suavidade e inequívoca sinceridade, que um dia eu encontraria alguém que me faria feliz, e que não via isso como um desrespeito a ti. Porque insistirão as pessoas em verem a persistência da tua presença na minha memória como algo potencialmente pernicioso? Não é como se eu estivesse trancado dentro de casa, mergulhado numa depressão, paralisante e potencialmente suicida. O luto precisa de tempo e espaço, não pode ser ultrapassado por receitas estereotipadas de gurus de auto-ajuda ou por mensagens positivas postadas no Facebook. O sofrimento não pode ser relegado para a porta dos fundos da alma, enquanto escancaramos o hall de entrada a um qualquer esfusiante recomeço.

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Chego a casa já a coberto do anoitecer, transpirado, mas revigorado pelas passadas aceleradas pelas ruas da cidade. A primeira coisa que noto é o aroma a canela, uma das minhas predilecções que só perde em confronto com o café. (Lembras-te de quando fazias o teu bolo gelado e era a mim que competia mergulhar as bolachas em café antes de as dispor na forma amovível? Mesmo depois de lavar as mãos, o aroma do café persistia e eu, deliciado, passava horas a cheirar os meus dedos.) Há travessas de aletria, rabanadas, leite-creme e farófias numa mesa. E recipientes com frutos secos e uma infinita variedade de bombons. A casa parece albergar uma multidão, e o burburinho de conversas transviadas encontra-se com o tilintar de copos e o gotejar de líquidos. A minha irmã aproxima-se e beija-me, sussurrando feliz Natal para não acordar o desgosto, o que espoleta uma sequência de cumprimentos que me deixam constrangido e com necessidade de alertar para o facto de estar a necessitar de um banho. A tua mãe, com o cabelo impecavelmente penteado e um avental imaculado, despeja farinha para dentro de uma forma enorme, e a minha, com aquele jeito que combina o voluntarismo com alguma precipitação, apressa-se a pegar na bacia com a massa, enquanto o forno, pré-aquecido, resfolega. As crianças cirandam pela casa, ornamentadas com hastes de rena, imiscuindo-se entre as pessoas e as conversas. Há uma selecção de músicas da época a servir de banda sonora. Apercebo-me de que o Fred, avesso à agitação infantil, permanece estrategicamente erecto junto à árvore de Natal. Ocasionalmente, flecte uma orelha quando inadvertidamente toca num enfeite. Noutras alturas, aproveitando a distracção geral, diverte-se a impulsionar repetidamente uma bola dourada com a sua pata direita. É então que me apercebo que a árvore sofreu recentemente uma espécie de upgrade e que o Tiago, o seu arquitecto, retomou uma das tradições que tu no ano passado decidiras interromper, porque te parecia, então, algo soturna. Sim, adivinhaste, o Tiago decidiu acrescentar à árvore uma série de bolas onde colou as fotografias das pessoas da família que já não estão entre nós. Estão lá a tua tia Ana (que tinha um sentido de humor cortante e uma generosidade infinita) e o meu avô Mário (com o ar distinto que as pessoas, por vezes, confundiam com vaidade). E estás tu. Que fazes no meio deles quando ainda te sinto no meio de nós? Então, de súbito, enquanto me enredo nas minhas interrogações e no meu aturdimento, e racionalizo um cenário de comunhão espiritual que triunfa sobre a degradação do corpo e o perecimento, compreendo, absorvendo a algazarra festiva, o caleidoscópio natalício e os aromas calorosos que revivificam a memória, que estás presente no Natal da tua ausência.

 

Imagem: "Christmas Aura" de Leonid Afremov (www.deviantart.com)

A MAGNA QUESTÃO DAS SANITAS COM DESCARGAS FROUXAS

Dezembro 17, 2019

J.J. Faria Santos

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Em plena reunião com um grupo de pequenos e médios empresários o presidente americano teve uma epifania. É o que sucede quando se tem estadistas de alto gabarito em funções executivas, figuras que se libertam de grandiosas proclamações ocas para se dirigirem ao âmago dos problemas reais das populações. Perante a admiração incontida dos seus interlocutores, Donald Trump tratou de assegurar que a agência de protecção ambiental americana estaria a analisar afincadamente o problema do baixo fluxo das descargas das sanitas, que necessitariam de ser accionadas “dez vezes, quinze vezes, em vez de uma”.

Deixando de lado o pequeno pormenor de, segundo informações veiculadas pela CBS News, os modelos menos eficientes de sanitas requererem que se accione o autoclismo quatro ou cinco vezes no máximo, não deixa de ser alarmante o cenário com que os americanos se confrontam e que Trump denunciou com crueza e coragem: “Vocês abrem a torneira e não têm nenhuma água. Eles tomam um banho e a água vem às pinguinhas.” A dimensão do problema implica que nem sequer se possa lavar as mãos adequadamente, “tal é a escassez da água que vem da torneira”. E prosseguiu, notando que com excepção das áreas desérticas, “existem muitos estados que têm muita água, cai do céu, chama-se chuva”. Como lembrou a CNN, no passado o intrépido Trump já censurou veementemente os moinhos de vento e a energia eólica, por criarem autênticos “cemitérios de aves” e o seu ruído “provocar cancro”.

De acordo com informações veiculadas pelo The Guardian, a lei que determinou o uso de sanitas que utilizam descargas de consumo reduzido teve origem na presidência de George H. W. Bush, tendo entrado em vigor em 1994 para edifícios residenciais e em 1997 para estabelecimentos comerciais. Apesar do optimismo presidencial, um relatório governamental de 2014, citado pela Bloomberg, concluiu que 40 em 50 empresas estatais de gestão da água esperam ser confrontadas com escassez de água na próxima década. O certo é que, para além das fake news, da imprensa “inimiga do povo” e do receio dos burocratas, o visionário Trump tem de combater as novas tendências, como o movimento que defende o fim das descargas substituídas por “sistemas de compostagem”.

É comum os grandes desígnios e as grandes transformações terem origem em banais acontecimentos do quotidiano. Por isso, não é de descartar que esta causa trumpiana, decerto fruto de uma observação repetida e maturada, possa ter tido um catalisador. Algures numa das suas idas nocturnas à casa de banho, entre um tweet pejado de maiúsculas e uma desconfortável obstipação, Trump terá constatado a necessidade imperiosa de um fluxo mais vigoroso para despachar o dejecto presidencial. No fundo, tornar as descargas novamente grandiosas, ou, como diria o Lauro Dérmio: Make Sanitas Great Again.

 

Imagem: Twitter de Donald Trump

TINA

Dezembro 10, 2019

J.J. Faria Santos

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É como se os anos 80 chegassem aos 80 anos. Uma matemática manhosa ao sabor dos delírios da memória. E isto só é possível porque Tina Turner, cantora, actriz e ícone feminista por excelência, foi capaz de superar traumas e abusos, reinventando uma carreira a partir dos escombros da sua vida privada. O renascimento, o segundo acto, iniciou-se com uma versão espantosa de Let’s Stay Together, celebrizada por Al Green (que tem uma daquelas introduções arrebatadas e arrebatadoras, porventura só comparável ao Somebody Else’s Guy de Jocelyn Brown), mas foi com What’s Love Got To Do With It que o mito se estabeleceu, alimentado pelo vídeo onde Tina passeava as suas belas pernas (enquadradas por um curto vestido de cabedal) e exibia uma cabeleira leonina. Camille Paglia escreveu na Billboard que o tema constitui um “pronunciamento feminista”, na medida em que acolhe “uma liberdade radical de escolha sexual”. Como se pode escutar na canção, quando o amor é uma “emoção em segunda mão” e o coração dispensável pela sua fragilidade e vulnerabilidade, resta o fervilhar físico despertado “pelo toque da mão que faz o pulso acelerar”.

Para quem duvidar do impacto do factor Tina no sucesso do tema, basta a audição da deslavada versão original dos Bucks Fizz para que as dúvidas se desfaçam. Ela conferiu ao tema espessura, autenticidade e fulgor. E sex appeal, claro, que acentuou o traço transgressor. Que ainda hoje, no século de todas as possibilidades e do acesso ilimitado ao outrora inacessível no reino do desejo, permanece actual. Como escreveu Alain de Botton em 2012, na sua obra Como pensar mais sobre sexo, “Está na altura de se dar o mesmo peso à necessidade de amor e à necessidade de sexo, sem o verniz moral por cima. As duas coisas podem sentir-se de forma independente e assumir um valor e uma legitimidade comparáveis.”

Ike Turner, o ex-marido abusivo e parceiro das aventuras musicais iniciais, faleceu aos 76 anos na sequência de uma overdose de cocaína. Tina chega aos oitenta anos como uma sobrevivente (da violência doméstica, do infortúnio familiar e da doença) e com um legado artístico que perdurará. Terminou a carreira há dez anos, porque, compreensivelmente, estava “cansada de cantar e de fazer os outros felizes”, explicou ao New York Times. Nós jamais nos cansaremos de a ouvir, porque ela é simply the best.

 

Imagem: Wikimedia Commons

3 LIVROS

Dezembro 03, 2019

J.J. Faria Santos

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Pessoas Normais de Sally Rooney – Amor e desejo numa relação tortuosa que procura sobreviver às diferenças de classe e sobretudo ao desequilíbrio entre a popularidade social dele e as notórias tendências para o isolamento dela. Com o decorrer do tempo, os papéis de certo modo invertem-se. Melodrama e redenção numa história onde a afirmação pessoal pode passar pelo estatuto transitório de misfit. Nenhum bem-estar é perene, mas também nenhum tormento é eterno, porque as “pessoas podem modificar-se mutuamente”.

Excerto: “A igreja da vila era pequena, cheirava a chuva e a incenso e tinha vitrais nas janelas. Ele e Lorraine nunca iam à missa, e até então ele só lá entrara por ocasião de funerais. Quando chegou, viu Marianne no vestíbulo, e ela fez-lhe lembrar uma peça de arte sacra. Ninguém o avisara que seria tão doloroso olhar para ela, e apeteceu-lhe fazer qualquer coisa terrível, imolar-se pelo fogo ou, ao volante do carro, atirar-se contra uma árvore. Quando se sentia angustiado, a sua reação era sempre imaginar maneiras de infligir danos extremos a sim mesmo.” (Edição Relógio D’Água com tradução de Ana Falcão Bastos)

 

O Fim da Solidão de Benedict Wells – Um percurso de cumplicidade e companheirismo, desde a infância, une Alva e Jules, este último atordoado pela circunstância da morte dos pais e do progressivo esboroar do relacionamento com os irmãos. Quando por fim, na idade adulta, as circunstâncias pareciam apontar para a felicidade conjugal, um novo golpe atinge Jules, a provar, caso fosse ainda necessário, que a vida não só não respeita guiões como tem um realizador caprichoso.

Excerto: “A vida não é um jogo de soma zero. Não deve nada a ninguém, e as coisas acontecem como acontecem. Por vezes de um modo justo e que faz sentido, por vezes de modo tão injusto, que se duvida de tudo. Arranquei a máscara do rosto do destino e por baixo encontrei apenas o acaso.”

(Edição Asa com tradução de Paulo Rêgo)

 

Os otimistas de Rebecca Makkai – Duas histórias paralelas e ao mesmo tempo complementares, separadas por trinta anos. A primeira desenrola-se a partir de 1985 e arranca com o funeral de uma das primeiras vítimas da SIDA, Nico, momento a partir do qual acompanhamos o quotidiano dos seus amigos, divididos entre a celebração e o medo, a tentação e o desvario, o presente vivido com voracidade e o futuro com apreensão. A segunda narra a estadia em Paris de Fiona, a irmã de Nico, numa viagem em busca de restabelecer laços com a filha (e com a neta), que lhe permite, ao mesmo tempo, rememorar um passado traumático.

Excerto: “ - É essa a diferença entre otimismo e ingenuidade – disse Cecily. – Nenhum de nós é ingénuo. As pessoas ingénuas ainda não passaram por verdadeiras provações, por isso podem pensar que tal nunca lhes acontecerá. Nós, otimistas, já passámos por isso e continuamos a levantar-nos da cama todos os dias, porque acreditamos que podemos impedir que volte a acontecer. Ou fingimos acreditar nisso.”

(Edição Asa com tradução de Elsa T. S. Vieira)

CHEGA PARA LÁ, ANDRÉ!

Novembro 26, 2019

J.J. Faria Santos

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E se o apoio militante que o deputado André Ventura devota às causas e às reivindicações das forças policiais tivesse como leitmotiv não exactamente a avaliação da sua justeza e pertinência mas sobretudo uma motivação muito pessoal, alicerçada em episódios traumáticos do seu quotidiano? É que, conforme confessou em entrevista ao Sol, já foi assaltado na Baixa de Lisboa, onde “estava numa esplanada, com a carteira em cima da mesa, e vieram umas romenas” que a pretexto de lhe pedirem indicações geográficas lha surripiaram. (Passemos à frente da incoerência do campeão das tiradas securitárias deixar a carteira à mão de semear e da ironia de não ter visto nas “romenas” uma potencial ameaça num país com “uma insegurança crónica”.) E desde que abraçou a carreira de comentador desportivo foi confrontado com “muita agressividade, ofensas, insultos e ameaças de morte”, o que se agravou com a entrada na política. Não vai a “centros comerciais”, onde é “insultado”. Evita restaurantes por causa das “más experiências” e saídas à noite em Lisboa que tendem a correr mal. Como mal correram pretéritas idas a supermercados. Será assim tão surpreendente que o homem só se sinta bem (e seguro) rodeado de forças policiais?

 

Claro que há o “pequeno” engulho da sua tese de doutoramento na Universidade de Cork, aquela onde ele se mostra apreensivo com “poderes policiais” que “envolvem uma constante degradação dos direitos fundamentais no que diz respeito a aspectos criminais”, censura a “estigmatização das minorias” e o excesso de detenções sem prova. Mas como ele já explicou, com fulgurante sapiência, a tese é “ciência” que não deve ser confundida com opinião. Nem com a “percepção real” da insegurança. E como ele, pessoalmente, percepcionou a insegurança na sua vida quotidiana, a sua opinião vociferante expulsou a “ciência” para os confins do Universo.

 

André Ventura fez, citando Nuno Ribeiro no Público, “o seu primeiro comício a céu aberto, com o à-vontade de quem falava aos seus”. Envergou a camisola (literalmente) de um movimento sindical e apropriou-se do seu protesto. Terá sido o momento em que o grau zero da ética política de Ventura coincidiu com a sua entronização como ícone dos elementos do Movimento Zero (“André Ventura recebido em êxtase pelos manifestantes” proclama o site do Chega! Êxtase? Como uma adoração mística ao santo padroeiro dos polícias?), cavando a dissensão no movimento sindical e dando um golpe na credibilidade de uma agenda reivindicativa que não pode ficar refém do extremismo ou de interesses políticos.

 

A dada altura da entrevista ao Sol, quando se referia às ameaças e aos insultos, Ventura confessou: “não sou hipócrita, eu sabia perfeitamente naquilo que me estava a meter”. Ele não é hipócrita e nós não somos ingénuos. É por isso que, respeitando a sua condição de deputado eleito e o seu direito à intervenção pública, preferimos manter uma distância higiénica da sua retórica e do seu estilo. Chega para lá, André! É que a manipulação da realidade, o discurso dúplice, o aproveitamento demagógico do medo e a instrumentalização de reivindicações legítimas é que são “uma vergonha”.

A PROCURADORA DESAPARECIDA

Novembro 19, 2019

J.J. Faria Santos

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A Procuradora desapareceu dos ecrãs. Queixou-se em entrevista do facto da SIC lhe ter consignado inicialmente 18 minutos para acabar com 8. Foi-lhe proposto um formato de entrevista que ela recusou. Preferiu afastar-se. Porquê? Porque ninguém ia “aceitar ser entrevistado” por ela, “só personalidades de terceira e quarta categoria”. A intrépida Procuradora não resistiu a alimentar uma teoria da conspiração: “receberam muitas pressões para me afastar”. A estação televisiva considera a existência de pressões uma “fantasia”.

No perfil profissional de Manuela Moura Guedes a coragem e a incisividade estiveram quase sempre acompanhados pela petulância e pela insolência. O que não seria demasiado perturbador se subjacente às suas peças jornalísticas não estivessem, muitas vezes, a superficialidade e a postura militante que dinamitavam a neutralidade e amalgamavam factos e opiniões. O que contribuía para a sua descredibilização mesmo quando poderia estar no rumo certo. Era como se para divulgar informações e, sobretudo, enunciar presunções e emitir julgamentos lhe bastasse um feeling baseado na sua experiência jornalística e no conhecimento dos bastidores do poder. E por isso, a sua agressividade (muitas vezes a roçar a má-criação) pode também ser entendida como um sintoma de insegurança. E a alusão a pressões, genérica e infundamentada, um recurso típico ao populismo: a justiceira injustiçada a ser vítima dos protectores dos poderosos.

Um trabalho desenvolvido no âmbito de um Mestrado em Ciências da Comunicação da Universidade do Minho (Limites, neutralidade e troca de papéis na entrevista televisiva) fez uma análise à entrevista conduzida pela jornalista a Marinho Pinto, em Maio de 2009, no Jornal Nacional da TVI. A reacção enérgica de Marinho Pinto levou os autores a considerarem que este se “apropriou” do “poder legítimo da jornalista”, e que esta a dado momento perdeu “o controlo sobre a condução da entrevista”. E relatam a forma como ela desviou “o olhar da câmara e do entrevistado, agarrando-se às notas” que tinha na secretária. Tendo começado por realçar que “é expectável que a postura do jornalista seja de mediação (neutro, exigente, mas implacável), mais incisivo e impertinente do que complacente”, os autores concluíram que neste caso Manuela Moura Guedes acabou por “converter a entrevista num debate”, tendo ocorrido “um desvio da posição neutral” que conduziu “a um claro choque frontal entre a postura da jornalista e as determinações inscritas no Estatuto do Jornalista e no Código Deontológico da profissão”. E acrescentam que este género de episódio televisivo se enquadra na chamada informação-espectáculo.

Poderíamos desvalorizar esta heterodoxia em relação à prática jornalística corrente se o resultado dessa opção fosse o esclarecimento dos factos e o rigor e a probidade na inquirição. Mas o apetite que Moura Guedes revela pelo confronto e pelo julgamento parece ser demasiado sôfrego para se deter perante a insuficiência de dados disponíveis ou pela sua ambiguidade. Estabelecida a sua verdade, parte para a hostilidade aberta para com o entrevistado. Mas se este riposta, com a capacidade retórica e/ou com a indignação dos rectos, a Procuradora sente-se posta em causa, vilipendiada, perseguida. Como se estivesse livre de escrutínio, imune à crítica, alcandorada ao Olimpo do jornalismo agressivo que denuncia corruptos, pedófilos e toda a sorte de monstros, firmemente encavalitada na sua apregoada “independência”, ungida como Procuradora do Povo e dotada de infalibilidade papal.

 

“Limites, neutralidade e troca de papéis na entrevista televisiva – A entrevista de Manuela Moura Guedes a António Marinho Pinto no Jornal Nacional de Sexta, TVI (22 de Maio de 2009)” por Ana Isabel Gomes Melro, Helena Filipa Carvalho, Mariana Lameiras de Sousa e Vítor de Sousa (revista Comunicação e Sociedade)

Imagem: Instagram de Manuela Moura Guedes

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