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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A VOZ HUMANA

Outubro 17, 2021

J.J. Faria Santos

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Há aquele momento, precedido por um silêncio à espera do deslumbramento, do desencanto ou da perplexidade, em que soa um acorde e uma voz se projecta ou sussurra, e a roda da fortuna gira implacável. Rodará a cadeira? De repente, damos por nós a tentar influenciar o júri telepaticamente, com a força dos nossos gostos, subitamente enlevados por uma versão folk do Fly Me to the Moon, aturdidos por uma recriação soberba do Georgia on My Mind ou emocionados por uma voz masculina a elevar aos píncaros o All I Ask of You da Adele.

 

Poderia chamar-lhe um guilty pleasure. Só que assistir ao The Voice não tem nada de culposo e é seguramente um prazer. E eu não tenho complexos por oscilar entre a “alta” e a “baixa” cultura. Haverá alguma desqualificação intelectual no facto de se poder apreciar Maria Callas, Ella Fitzgerald, Nat King Cole ou Amália e reservar algumas horas da noite de domingo para testemunhar um grupo de pessoas, de todas as idades, à procura de um sonho à medida do seu talento?

 

Imaginem uma espécie de A Star is Born em modo compêndio, em pequenos segmentos de vocação, ambição e drama, onde se misturam grandes esperanças com contratempos e melodramas familiares, tudo orquestrado por uma produção atenta aos detalhes e arbitrado por um grupo de jurados que oscila entre a divertida provocação mútua e a angústia no momento da decisão. Podem concorrentes e jurados falhar, aqui e ali? Podem, mas o espectáculo continua. E até parece que o talento é inesgotável. E começa tudo com uma voz, a voz humana.

 

Imagem: Facebook The Voice Portugal

A POESIA BRUTA DA ECONOMIA DOMÉSTICA

Outubro 10, 2021

J.J. Faria Santos

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Cortesia de uma gravidez inesperada, de um namorado violento, de um pai abusivo e de um conjunto de empregos mal pagos, Stephanie Land viu-se atirada para a terra da pobreza, uma povoação mal-afamada, vista por parte dos afluentes como território dos incapazes, dos fracos, dos que sucumbem ao vício ou ao comodismo. Stephanie Land não se encaixa neste perfil estereotipado e injusto e a sua história, contada pela própria no livro Maid: Hard Work, Low Pay, and a Mother´s Will to Survive (Empregada Doméstica: Trabalho Árduo, Salário Baixo, e a Vontade de Sobreviver de uma Mãe), agora transformado numa série da Netflix, é um testemunho pungente de uma luta titânica pela sobrevivência e pela manutenção da dignidade.

 

Num ensaio para a Time, Land revela que quando assinou o contrato com a editora para a publicação do livro, era ainda a mãe solteira de duas crianças de 2 e 9 anos pressionada por um ordenado em atraso e forçada a reduzir na alimentação e a ingerir piza paga com um cheque careca. Nada de original para quem utilizou frequentemente senhas de alimentação (food stamps), cortava refeições e reservava a fruta fresca para as crianças. Mesmo o adiantamento que recebeu da editora para escrever o livro (“uma quantidade de dinheiro que não parecia real”) não lhe permitiu esquecer os 20 000  dólares para pagar referentes ao cartão de crédito, uma viatura constantemente avariada e os 50 000 dólares que devia de empréstimos que contraíra para estudar. Já para não falar do desequilíbrio emocional e mental.

 

Emily Cooke, na crítica que publicou no New York Times acerca deste livro, escreveu que, apesar de ele não ser particularmente virtuoso, devemos escutar uma autora que “ultrapassou as agruras dos anos de empregada doméstica, de corpo exausto e mente assoberbada por uma aritmética sombria, para nos doar o seu testemunho”. Cooke chama ao equilíbrio instável das despesas (renda, alimentação, combustível, seguros, etc.) e das receitas (ordenado ligeiramente acima do salário mínimo e o “escasso apoio governamental concedido em prestações com espectacular relutância”) “a poesia bruta da economia doméstica”. A propósito da “avareza” governamental, sempre me provocou asco a veemência com que alguns  esgrimem (com pouco fundamento, aliás) o argumento da fraude nos subsídios que pretendem mitigar a pobreza, por comparação com a suavidade com que lamentam as “irregularidades” na obtenção e utilização dos subsídios disponibilizados às empresas.

 

Numa estratégia de luta contra a pobreza, antes de se partir para uma abordagem multidimensional (que vai da assistência social à saúde, da habitação à educação, visando a autonomização dos sujeitos e a consistência das soluções personalizadas), é preciso não esquecer o patamar inicial de emergência, que exige acção imediata. Como escreveu Stephanie Land no seu ensaio na Time: “Quando as pessoas me perguntam como podem ajudar, eu digo-lhes para perguntarem às pessoas do que é que sentem necessidade. Aposto que as respostas serão coisas como tampões ou fraldas e dez dólares para combustível, porque a vida é tão tacanha e limitada quando se tem fome que não se exige habitação a custos controlados e um salário adequado. Isto é só para aqueles de nós que têm meios para lutar.”

 

IMAGEM: edition.cnn.com

O DESGASTE HABITA EM SÃO BENTO E A INSTABILIDADE MORA EM BELÉM

Outubro 03, 2021

J.J. Faria Santos

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Há um limite para a estratégia de minimização dos conflitos e desvalorização dos erros e omissões. E ele torna-se óbvio quando um ministro (um candidato a futuro challenger dotado de verve e determinação) se atira à jugular do seu colega das Finanças. A inequívoca vitória do PS nas autárquicas (“… quando olhamos para os resultados globais no país, verificamos que se é verdade que o PS confirma não estar em condições de atingir uma maioria absoluta em eleições legislativas, também é manifesto que o PSD continua a larga distância desse mesmo PS, em autarquias, mas sobretudo em votos” – Paula Teixeira da Cruz, in Público, edição de 29/09/21) não pode iludir o desgaste de seis anos de governação, reflectido na perda de parte do voto urbano, embora seja manifestamente exagerado o anúncio da inversão do ciclo político (“Não houve nenhuma alteração qualitativa, nenhum ‘novo ciclo’” – Pacheco Pereira in Público, edição de 2/10/21), dado que nada nos permite concluir que essa perda não possa ser estancada ou invertida. A menos que a direita em recomposição consiga apresentar uma alternativa consistente e credível, o grande desafio do primeiro-ministro vai residir na dinamização do PRR em conjugação com a manutenção do controlo das finanças públicas. Uma economia altamente endividada permanece necessariamente  condicionada pelos humores dos decisores europeus, pelas oscilações da conjuntura e pela flutuação das taxas de juro, mesmo quando a confiança e o PIB crescem e o desemprego diminui. Neste contexto, a autoridade de um ministro das Finanças tem de ser preservada, o que não conflitua com o facto de este dever ter sensibilidade política para dosear a ortodoxia.

 

“Crises políticas nos próximos dois anos não fazem sentido”, disse o Presidente da República. O mesmo Presidente que em encontro recente com empresários os encorajou a ir “à luta” em prol de alternativas “políticas e eleitorais”. (Já não basta a concertação social e a acção de lobby? O que é certo é que o presidente da CIP entrou no campeonato das frases bombásticas, do género “O barco está a ir ao fundo e a banda continua a tocar” e “Não estamos aqui para pedir subsídios. O Estado que nos saia da frente”, esta última francamente temerária, tendo em conta o perfil e as motivações dos empreendedores nacionais.)  O mesmo Presidente que, citando São José Almeida, “age, em público ou através de informações que são dadas do Palácio de Belém a jornalistas, de forma a desgastar a imagem do primeiro-ministro”.

A “agência noticiosa” Marcelo Rebelo de Sousa (para usar a terminologia jocosa usada recentemente por Barata-Feyo para se referir a Marques Mendes) esteve, mais uma vez, na berlinda esta semana a propósito da substituição do Chefe do Estado-Maior da Armada. O que começou por parecer um exorbitar de poderes e uma falta de tacto governamentais, acabou por se revelar uma intrigalhada, onde convivem alegremente notícias de uma exoneração que nunca existiu, um parecer sobre a dita exoneração discutida e votada pelo próprio militar em risco de ser demitido (parece que a ética militar passa por cima dos conflitos de interesse…) e a suspeita de que Marcelo terá sido mal informado e “manipulado” pelo seu chefe da Casa Militar, aliás, um dos potenciais candidatos ao cargo em caso de vagatura. A tudo isto, o sempre prolixo Presidente, depois de uma tríade inicial de explicações, respondeu com uma lacónica nota com alusões a “equívocos”.

Num artigo editado no Público de 23/05/2020, Pacheco Pereira previu que o segundo mandato do Presidente iria ser “muito diferente do primeiro”, que “o teatro da afectividade (…) não é tão genuíno como se diz” e que “Marcelo é muito mais autoritário do que se pensa”, fazendo notar que ele “fez toda a carreira de cínico lúdico, inócuo e pouco importante nas ‘gentes’ dos jornais e nos comentários”. De facto, é difícil não ver sinais deste perfil em gestos como o de telefonar às 3h30 da manhã para dar os parabéns a Carlos Moedas pela vitória, ao mesmo tempo que faz constar que este feito muda a dinâmica do PSD, estragando as conjecturas do mestre dos factos políticos que já via a passadeira vermelha estendida para Paulo Rangel. Portanto, enquanto defende a estabilidade governativa e uma oposição forte, o Chefe do Estado vai, simultaneamente, desgastando o Governo e semeando a instabilidade no PSD. Deixo para os ingénuos a convicção de que tudo isto se passa em nome do interesse nacional.

A NARRATIVA DO SOBREVIVENTE

Setembro 27, 2021

J.J. Faria Santos

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Paira no ar um aroma a “factos alternativos”. Há uma vibrante tendência para torcer os factos ao sabor das opiniões. Pundits e comentadores de toda a sorte tentam impor como cânone a sua percepção da realidade, apontando o fim de um ciclo, a vitória (?) inequívoca de um líder da oposição mal-amado e a frustração ambivalente de quem se preparava para lhe espetar a faca no dorso. E sobretudo a derrota (?) avassaladora do PS.

 

Mas…O PS não conquistou cerca de centena e meia de câmaras (menos 12 que nas anteriores eleições)? Sim, mas perdeu. E não conquistou o maior número de freguesias? Sim, mas perdeu. E não arrebanhou mais mandatos? Sim, mas perdeu. E, com excepção de Guarda e Leiria, não foi o mais votado em todos os distritos de Portugal continental? Sim, mas perdeu. E, no total nacional, não teve uma vantagem a rondar a dezena de pontos percentuais em relação ao segundo mais votado? Sim, mas perdeu, porque está desgastado e foi penalizado pelo eleitorado. Penalizado? Com este registo? Ainda me lembro do tempo em que a palavra derrota indicava menos votos e menos autarquias (enfim, uma excentricidade da era da aritmética). Ah, mas o PSD cresceu, em votos e autarquias! Então, questiono eu, perante o desgaste de seis anos de governação, é só isto que o líder da oposição tem para apresentar? Lisboa é uma conquista fulcral e infligiu um trauma irrecuperável na psique socialista! Lisboa é o Joker que vai transformar o Rio num oceano, impulsionado pela boa moeda. O resto é a paisagem bucólica de um país em doce remanso, a célebre província.

 

A história da noite eleitoral (tirando a excelente e inesperada vitória de Carlos Moedas contra um incumbente digno e com obra), do ponto de vista mediático e imediato (mesmo quando tinha a pretensão de adivinhar o futuro lendo o presságio), é a da consagração da narrativa do sobrevivente. O acossado foi erigido em fautor de um novo ciclo, mesmo que as oscilações do voto urbano não tenham sido muito relevantes, e uma derrota factual foi obliterada pelas vitórias parciais a gosto. A resistência foi elevada a máxima virtude política. E o facto político chegou a vias de facto com o sufrágio. Dizem que o mais votado não ganhou e chamam-lhe análise política. Numa noite de celebração e consternação, não houve choro e ranger de dentes; houve júbilo e Rangel de dentes retraídos a saudar o Carlos e a ignorar o Rui via Twitter, enquanto aguarda a melhor oportunidade para cravar os caninos na carótida do portuense com ADN alemão.  

FESTA É FESTA (COM CALDO-VERDE E CHOURIÇO)

Setembro 25, 2021

J.J. Faria Santos

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Amanhã, é dia de festa. É a festa da democracia, do exercício de um direito, da concretização de um poder soberano e livre de escolher e dar corpo com uma cruz à expressão da vontade popular. Para que esta se manifeste de forma informada e consciente, são necessárias a clareza e a simplicidade. Daí a bipolarização: o eleitor apenas terá de escolher entre a Lista A - Constituição da República Portuguesa" e a "Lista B - Ditadura Parlamentar". Acorramos, pois, todos ao Marquês de Pombal, de rosto descoberto com confiança no futuro (não acreditem na balela dos eventos de supertransmissão). E como eu não reconheço legitimidade a esta democracia de fantochada, pejada de corruptos e pedófilos (não toquem nas crianças!), recorro à desobediência civil para não respeitar o ditatorial dia de reflexão e apelar ao voto em massa na Lista A. E como nós não somos como os pedófilos e seus cúmplices que se barricam em restaurantes, escolhemos refeiçoar al fresco um português caldo-verde (uma nota ecológica e vegetariana com a pequena provocaçãozinha do chouriço).

 

Lamentavelmente, alguém que se apresentou como um dos organizadores (claramente um infiltrado, um degenerado sem vergonha nem capacidade de regeneração) disse ao Expresso que se trata de uma “eleição satírica”.  Este verme, que merecia ser esquartejado ou cravejado de balas encostado a uma parede, claramente não percebeu o conceito de “eleições paralelas”. É verdade que não foi o único. Houve uma criatura efeminada (e provavelmente pedófila…) que me perguntou se íamos exibir o último filme do Almodóvar. Tive de explicar à abantesma que o filme desse tarado se chamava “Mães Paralelas”. Os sacrifícios que temos de fazer pela defesa da Constituição… Até o nome artístico da grande líder Anabela Seabra – Ana Desirat – tem sido pretexto para insinuações e atoardas. Correu nas redes sociais que Desirat é um anagrama de Ditares (forma do verbo ditar – impor, prescrever, ditar em voz alta para alguém escrever), numa tentativa canhestra de a associar a uma postura estridente e autocrática. Só porque a querida líder tem uma queda para o megafone. (Aliás, a contagem dos votos a efectuar no Terreiro do Paço será, provavelmente, anunciada por este meio.) É impressionante como as teorias da conspiração se espalham de forma irracional  e incontrolável…

 

Imagem: Expresso.pt

FAHRENHEIT 451 CANADÁ

Setembro 19, 2021

J.J. Faria Santos

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Numa cerimónia chamada de “purificação”, que decorreu numa escola de Ontário, no Canadá, cerca de 30 livros foram queimados por serem considerados de duvidoso conteúdo educativo. Não sei se “os livros saltaram e dançaram como aves queimadas, as asas ardendo como penas vermelhas e amarelas”, como no livro de Ray Bradbury (Fahrenheit 451) que François Truffaut adaptou ao cinema, mas, para além da sensibilidade pessoal que me faz equivaler este acto a um herético atentado cultural, parece-me evidente que se trata de um gesto totalitário impróprio de uma sociedade democrática.

 

O auto-de-fé ocorreu em 2019, mas só agora foi divulgado e enquadrou-se numa acção de remoção de milhares de livros de trinta escolas, a generalidade deles destruídos ou reciclados, por alegadamente apresentarem estereótipos negativos dos povos indígenas. Livros de banda desenhada, romances e enciclopédias foram incinerados nesta onda moralista que reclama ser “um gesto de reconciliação” (?) para com os ditos povos. A cerimónia ter-se-á completado com a utilização das cinzas como adubo na plantação de uma árvore, confessadamente para “transformar o negativo em positivo”. Não há gesto ecológico que redima o fanatismo. Nem boa vontade que tolere a descontextualização e a opção por rasurar e obliterar em vez de contestar e debater.

 

Este detalhe da árvore remete-me para uma passagem da obra de Bradbury em que Granger evocava, em conversa com Montag, um conselho do seu avô: “Todos devemos deixar qualquer coisa atrás de nós, ao morrermos (…) Um filho, um livro, um quadro, uma casa, uma parede ou um par de sapatos. Ou ainda um jardim plantado de flores. Qualquer coisa que a mão tocou e para onde irá a alma no instante da morte. E quando as pessoas olharem essa árvore ou essa flor que plantámos nós, estamos lá, sob os seus olhos.” Os promotores do auto-de-fé fertilizaram com as cinzas do radicalismo a árvore do extremismo. Lamentável, mas nada original. Não se trata apenas de reescrever a História; o zelo dos donos da verdade estende-se às histórias de ficção.

 

(Fahrenheit 451 – Mil Folhas/Público – tradução de Mário Henrique Leiria)

O GENTLEMAN E O HOOLIGAN

Setembro 12, 2021

J.J. Faria Santos

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Circunstâncias do ciclo noticioso e das inexoráveis leis que regem a vida humana contribuíram para que as figuras de Jorge Sampaio e Jair Bolsonaro ocupassem em simultâneo espaço nos meios de comunicação social, tornando inevitável a percepção de uma dissonância evidente entre o comportamento e o carácter de um e do outro. De tal forma que se tornou irresistível atribuir ao primeiro o epíteto de gentleman e ao segundo o de hooligan.

 

Em Jorge Sampaio reconhecemos uma educação esmerada, um exemplar sentido cívico, um comportamento guiado por princípios e valores, um inultrapassável sentido de Estado com respeito escrupuloso pela separação de poderes e uma empatia pelos deserdados da vida, em suma, na síntese de José Manuel dos Santos, “um homem tão elegantemente educado e tão humanamente solícito”.

 

Já em Jair Bolsonaro tudo nos remete para a boçalidade, para a ausência de escrúpulos, para o desprezo pela democracia, para o desrespeito pela separação de poderes e para a incapacidade de aceitar o contraditório, revelando não reunir qualidades para exercer o cargo de relevo que ocupa. Como escreveu Francisco Assis em Março de 2020 no Público: “Jair Bolsonaro não é um canalha acidental. A ausência dos mais leves vestígios de integridade moral constitui a essência da sua personalidade (…) Tudo no Presidente brasileiro é do domínio da fraude, da fancaria, da pura indigência mental.”

 

No momento em que Portugal se despede de um homem bom, que indigitado para cargos de poder exerceu-os de forma a conciliar vontades para fazer o bem, no Brasil, um indivíduo desqualificado compraz-se em incitar à desordem, atacar as instituições democráticas e até insinuar a iminência de um golpe militar. A única sublevação admissível é a do povo brasileiro, que utilizando o poder do voto e os mecanismos do Estado de direito se deve urgentemente ver livre deste hooligan.

 

Fotos: Jorge Brilhante/Museu da Presidência (J.Sampaio) e Alan Santos/PR (J.Bolsonaro)

O ESCORPIÃO (MARCELO A.C.)

Setembro 05, 2021

J.J. Faria Santos

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Traição, golpe baixo, veneno, escorpião: palavras nos últimos dias associadas a Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito das memórias de uma figura pública. Não são as memórias de Adriano, trata-se das memórias de Balsemão; não são histórias de mil e uma noites, são episódios de uma vida em mil páginas. Subitamente, vimo-nos transportados para uma época aparentemente longínqua, algures num tempo impreciso de Marcelo a.c. (antes da canonização).

 

O Marcelo d.c. (depois da canonização – período que pode ser grosseiramente datado como tendo início coincidente com o primeiro mandato como Presidente da República), corresponde à projecção de uma imagem de pai espiritual da nação, num misto de mestre de sapiência, confessor e guru de auto-ajuda. Popular e afectivo, acessível e jocoso, presente até ao limite da intrusão, inscreveu-se no quotidiano de todos nós. 

 

O Marcelo a.c. era descrito como um génio mefistofélico hiperactivo, instável e propenso a tropelias, destilando sarcasmo e veneno em doses equivalentes, com um talento desmesurado para a elaboração de cenários políticos e uma vocação incontrolável para ser fonte de manchetes jornalísticas, aos quais sacrificaria a lealdade e a discrição.

 

Não se pode dizer que o retrato do actual Presidente da República que emerge do livro de Pinto Balsemão seja surpreendente ou original. E também não nos devemos prender em demasia a um retrato-robô, sobretudo tratando-se de uma figura com tantas nuances. Como escreveu Hugo Gonçalves no seu romance Deus Pátria Família: “Os limites da memória humana existem por um motivo, não são uma falha evolutiva, antes um sistema de protecção existencial. É preciso esquecer para seguir adiante.” Como o próprio Balsemão reconhece, os dois têm hoje uma “relação cordial”.

 

Claro que há sinais de permanência, indícios de um “como sempre, como dantes”. Aí estão as gordas do Expresso para o provar. O mestre da culinária jornalística, por interposto gabinete, a “marcar a agenda”, a soprar para o semanário a sua “análise” de comentador encartado, Presidente da República em part-time. No fundo, aquilo que em artigo no Público Pacheco Pereira denomina de “jornalismo dos cenários”, que “teve um efeito de superficialização da actividade política e introduziu um estilo especulativo em que, como não é escrutinado, o público não percebe como muito pouco acerta na realidade e como muitos dos ‘cenários’ nunca se realizam.” Ao permitir mais visibilidade ao Expresso e se garantir maior circulação paga, agradará ao patrão da Impresa? Ou ficará desgostoso com este padrão de jornalismo?

IRRITAÇÕES

Agosto 29, 2021

J.J. Faria Santos

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Cristiano Ronaldo regressa ao Manchester United e o frenesim mediático instala-se. Tirando o talento invulgar, o profissionalismo inexcedível e as conquistas individuais e colectivas, dispenso tudo o resto que envolve o personagem. A começar pelas manifestações do seu desmesurado ego e a terminar nas aventuras empresariais e artísticas da família, passando pelo exacerbado papel de Mãe Coragem da D. Dolores, como se não existissem milhares de mulheres que com sacrifício pessoal e abnegação lograram ultrapassar dificuldades e contrariedades em busca de melhores condições de vida.

 

Apesar de todo o progresso científico, permanecia uma evidência a impossibilidade de prever o dia e o local em que ocorreria um sismo. Até agora. A azougada Suzana Garcia promete pôr muita gente a tremer das pernas no dia 26 de Setembro, num movimento tectónico com epicentro na Amadora. Os traficantes, a direita fofinha, a esquerda caviar, os tachistas, os burocratas, todos vão tremer. Até os populistas, diz ela, o que torna inevitável que também tremelique quem pretende fazer desabar os adversários à força de demagogia, olhos arregalados, língua destravada e rosto à beira da apoplexia. É o chamado efeito de ricochete.

 

Henrique Monteiro assinala no Expresso a saída do livro de memórias de Pinto Balsemão. Do “príncipe” da Lapa, de quem Monteiro diz nortear o seu comportamento por um estrito código de honra, ficámos a saber que chegou a viajar “pendurado num trolley do eléctrico para poupar dinheiro para ir ao cinema” (lá está, a caução cultural que desculpa a transgressão). Mas o mais relevante, com direito a chamada de primeira página, é o facto de ele se referir à mulher como “Queen Mother”. Monteiro diz que tal se deve à “influência emocional e apaziguadora” que Mercedes (aka Tita) exerce sobre Francisco. Mercedes, majestosa e benevolente, reinará sobre esta aristocracia por afinidade com a sabedoria de quem tendo lidado com sumidades de petit nom é capaz de limar arestas e evitar choques de titãs (ou Titas…)

 

De quem se diz ser um “príncipe” da política, no trato e na acção, é Jorge Sampaio. Republicano impenitente, recusaria este título, mas seguramente não levará a mal que o consideremos um gentleman. Numa altura em que se debate com problemas de saúde, questão de foro privado e a ser tratada com discrição e elegância, seria de esperar que o actual Presidente resistisse a ocupar o palco, qual repórter com fontes privilegiadas, protagonista de um lancinante Última Hora. Poderia deixar o boletim clínico para o hospital ou para o gabinete de Sampaio, mas seria pedir demais. Em plena Feira do Livro do Porto, logo tratou de relatar à comunicação social o que o médico da Presidência da República lhe transmitira acerca do estado de saúde do ex-chefe do Estado. Ninguém escapa à sua natureza, nem a coberto do verniz institucional.

 

Imagem: "Grand Shore" de Richard Ahnert (courtesy of Bert Christensen)

O TIO DE CASCAIS E O TIOZÃO DO CHURRASCO

Agosto 22, 2021

J.J. Faria Santos

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Parece que a boçalidade e a grosseria são a kryptonite de Marcelo. Na recente visita ao Brasil, Marcelo terá ficado incomodado e mal impressionado com o reportório de “piadas de cunho sexual” e “referências jocosas ao povo português” desfiado pelo oficial e cafajeste Jair Bolsonaro. Nem a sua prodigiosa inteligência, nem décadas de análise política e de frequência dos salões do poder, nem sequer a aclamada capacidade de se sentir à-vontade com o príncipe e com o pobre lhe forneceram ferramentas para lidar com a vulgaridade do Messias do Planalto.

 

Provavelmente, a sua educação religiosa católica (a tal que em matéria de sexo prefere a elipse ou a sublimação espiritual ao reconhecimento da relevância do conhecimento carnal), e a sua frequência dos selectos ambientes onde se movem as classes afluentes (locais em que a lascívia é sussurrada e envolvida em referências literárias ou cinematográficas, e em que qualquer ousadia, cuidadosamente calibrada, é assinalada com um benevolente arquear de sobrancelha) não lhe forneceram ferramentas adequadas para lidar com a baixeza moral e a ausência de sentido das conveniências.

 

Surpresa, não é argumento que possa ser invocado. O cadastro de declarações e comportamentos do Presidente brasileiro já é sobejamente indiciador do que esperar da criatura. Marcelo terá preferido, diplomaticamente, preservar o relacionamento luso-brasileiro. Deixou, pois, o tiozão do churrasco chafurdar na incivilidade e na descortesia, enquanto acumulava um rol de dados para mais tarde narrar, apimentados pela sua proverbial malícia, nas festas com os restantes tios de Cascais ou ao telefone, a ouvidos amigos, nos longos serões de Verão.

 

Imagem: 24.sapo.pt/Lusa

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