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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

IMPATRIOTAS E FRASES QUE COLIDEM

Fevereiro 21, 2021

J.J. Faria Santos

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A infame petição pública para “expulsar Mamadou Ba de Portugal” é uma variante menos tosca (mas não muito) da vulgaridade asquerosa do “preto, vai para a tua terra”. Com a agravante do visado ser luso-senegalês e da impossibilidade óbvia de deportar um cidadão português. À semelhança da que pretendia impedir a tomada de posse da “impatriota” Joacine Katar Moreira, nesta petição o racismo mais escabroso tem rédea solta, acusando o activista de “fomentar o ódio e o mau estar entre as raças”. E termina com uma admoestação (“Que esta expulsão sirva de exemplo!”), como quem deixa bem claro o código de comportamento exigível das “raças” inferiores e as consequências punitivas de qualquer acto de desobediência.

 

Os peticionários acusam Mamadou Ba de proferir “afirmações que colidem com os valores do cidadão comum”. É indispensável tornar claro que no trânsito da linguagem da vivência democrática não há sentidos proibidos. Não há sanções para delitos de opinião. Há a responsabilidade individual e os estritos limites da lei. Quanto aos “valores do cidadão comum”, se são os expressos nesta petição, repudio-os com veemência. Trata-se, neste caso, de fazer equiparar o comum a algo de ordinário. E de se considerar como ordinário o que é vil, medíocre, reles.

 

Não surpreende que, cavalgando a fúria das redes sociais, tenham surgido os aproveitamentos políticos e as tentativas de ajuste de contas com a História. Seria avisado meditar nas palavras de José Mattoso, que em entrevista ao Expresso lembrou a necessidade de “respeitar os factos sem pretender julgá-los. Também não podemos pôr os factos (ou seja, a sua narrativa) ao serviço de uma causa, por melhor que ela seja.” E acrescentou: “Se falamos em neutralidade, falamos em interpretações opostas dos mesmos factos. Neste caso, exige-se a demonstração. Mas a demonstração estabelece hipóteses, não alcança verdades.” E, às vezes, a verdade é como um palácio na bruma, distinto e majestoso, mas com uma aura de inalcançável. Nada que se possa resolver com uma petição pública irada e auto-suficiente.

 

Ilustração: André Carrilho (Twitter.com)

 

O MEDO

Fevereiro 14, 2021

J.J. Faria Santos

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“Quem dorme à noite comigo? (…) / O medo mora comigo, / Mas só o medo, mas só o medo!” O poema de Reinaldo Ferreira, que Amália soberbamente interpretou, adquire especial ressonância nos tempos que correm. Se na generalidade da população se vai conciliando o legítimo receio com a audácia possível de um cauteloso viver quotidiano, nota-se na paisagem mediática (políticos, líderes de opinião e figuras públicas em geral) um desassossego acrescido, uma sensação de impotência, a descrença agressiva de quem luta pela preservação. Seria de esperar, talvez, um pouco mais de sangue-frio, de análise racional, de noção das nossa fragilidades e inconsistências enquanto nação e enquanto povo, da complexa teia de interesses e necessidades que condicionam a nível europeu e mundial a luta contra a pandemia e a disponibilização de vacinas. Mas, lá está, somos humanos. E por detrás de proclamações desassombradas e implacavelmente furibundas espreita o medo. O medo que nos protege, mas que também nos tolhe e, um pouco paradoxalmente, nos desumaniza.   

 

Amanda Gorman, poeta americana, celebrizada pela sua participação na tomada de posse de Joe Biden, em conversa com Michelle Obama para a revista Time, defendeu que o “optimismo não deve ser encarado em oposição ao pessimismo, mas antes em diálogo com ele. (…) A maneira como nos podemos manter esperançosos não consiste em negar os sentimentos de medo ou de dúvida, mas sim perguntar: O que nos conduziu a esta escuridão? E o que nos pode conduzir para longe destas trevas?” Esqueçamos as patetices new age do “vamos ficar todos bem”, mas não nos deixemos cair na tentação do édito do descalabro, do diagnóstico a transbordar de uma pretensa feroz lucidez que anuncia que os factos prenunciam a loucura e o desastre sem remissão. Numa altura em que tantos se empenham em pregar a moderação contra toda a espécie de radicalismo (excepto o do próprio…), seria avisado não ceder ao medo, nem permitir que o descontentamento com as opções, erros e omissões de quem está à frente do país se confundam com uma inquietação a roçar o nihilismo.

 

Imagem: Amanda Gorman fotografada por Awol Erizku para a Time (pormenor)

O EPIDEMIOLOGISTA HONORIS CAUSA PELA UNIVERSIDADE TVI

Fevereiro 07, 2021

J.J. Faria Santos

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Inicialmente, a rubrica Global parecia destinada aos grandes temas da política internacional. Paulo Portas prescindia de mergulhar na mesquinhez das tricas internas, mantendo-se convenientemente afastado das convulsões da sua família política, ao mesmo tempo que compunha uma aura suprapartidária com verniz presidencial. As subtilezas da diplomacia e a riqueza da geoestratégia alimentavam o seu lendário sentido de Estado e a sua irrevogável pose hirta e solene. Mas eis que desabou sobre o mundo uma pandemia e o global pareceu demasiado amplo para os seus cirúrgicos objectivos a nível nacional. Foi quando Portas se transformou numa espécie de explicador do fenómeno pandémico luso, armado de dados, quadros, gráficos, curvas e opiniões definitivas sublinhadas por uma cara fechada, um dedinho em riste e o ocasional sorriso no canto dos lábios quando dá uma ferroada no desempenho governamental. O analista de política internacional evoluiu para uma espécie de epidemiologista honoris causa pela Universidade TVI.

 

Como sublinhou Constança Cunha e Sá (que conhece bem quer a TVI quer Portas, e é insuspeita de deriva esquerdista) no Twitter: “Quando é que a TVI percebe que o Paulo Portas não é médico, nem infecciologista e não tem preparação para ter um comentário semanal sobre vírus e vacinas. Uma coisa é todos nós termos umas coisinhas a dizer sobre a coisa, outra é esta fantochada semanal.” Na passada semana, o ilustre comentador fez num aparte “uma reflexão melancólica de quem saiu da política há 5 anos”. Imaginem que nas actuais circunstâncias, propôs ele, Portugal vivia sob “a égide de um Governo de centro-direita”. O que não se diria, as demissões que não se teriam pedido, os insultos que não se teriam proferido. E terminou, em jeito de desabafo, afirmando que “as pessoas também têm que ganhar um bocadinho de equidade nestas coisas.” O cerne da questão está precisamente na questão da “equidade”. Portas pode proclamar que saiu da política (o que me parece altamente duvidoso), mas a verdade é que a política jamais “sairá” dele. É uma segunda pele, um reflexo condicionado. Mesmo enquanto director de jornal, a sua objectividade foi sacrificada a uma agenda política.

 

O exercício de análise crítica da actividade governativa é não só altamente recomendável como essencial para a saúde da democracia. Mas também me parece indispensável que não se pretenda transformar uma rubrica de opinião num oráculo ideologicamente puro, aludindo a uma duvidosa abstinência de cinco anos. Sobretudo vindo de quem é apontado como futuro candidato presidencial. Vamos ter um remake para o centro-direita (protagonizado por um cinéfilo), com Portas a caprichar nos afectos? De resto, ele não deve ter razões de queixa em relação ao que se tem dito sobre o actual Governo. Pedidos de demissões? Check. Insultos? Check. E ainda, como bónus, líderes de opinião à beira de um ataque de nervos, clamando por governos de iniciativa presidencial e passando certidões de óbito ao Governo de Costa. Não há falta de massa crítica, os opinion makers estão atentos e de língua afiada. O epidemiologista honoris causa pode dedicar-se à nobre arte da política. Sem dissimulação.

 

Imagem: Tviplayer.iol.pt

UM GOVERNO DE INICIATIVA PRESIDENCIAL?!

Janeiro 31, 2021

J.J. Faria Santos

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O salvador da pátria não nasceu em Belém, mas reside em Belém. E o seu profeta, Miguel Sousa Tavares, sugere que ele reflicta seriamente na possibilidade de patrocinar um governo de iniciativa presidencial. Se isto lhe traz um aroma a instabilidade e PREC, não se preocupe. Sousa Tavares não quer um PREC, quer um PRIC (Processo de Remoção Iminente do Costa). E porquê? Explica ele, em artigo no Expresso, que o primeiro-ministro “governou o país durante a primeira fase da pandemia com lucidez e capacidade de liderança”, mas desde Setembro vem acumulando “sinais de cansaço (…) de desnorte e, ultimamente, até de descrença.” Teremos, portanto, uma brusca alteração de perfil psicológico do PM, de “optimista irritante” para “descrente fatigado”, vítima da fadiga pandémica. Portanto, ao afirmar que “não está tudo bem, está tudo péssimo”, Costa não está a ser lúcido ou rigoroso, estará a sucumbir ao desânimo.

 

Em termos gerais, o colunista do Expresso propõe que um iluminado-mor (o Presidente) forme um governo de iluminados, escolhidos pela sua “competência e determinação para enfrentar a crise”. Não é necessário, clarifica ele, nem dissolver o Parlamento nem “despedir todo o elenco do actual Governo”. Marcelo, com a legitimidade política reforçada por uma reeleição em sufrágio universal com mais de dois milhões e meio de votos, disporia da discricionariedade de compor um elenco governativo com a missão de guiar Portugal durante o período de emergência, tomando como indiscutível que este comité de sumidades geriria o país com infalíveis presciência e competência.

 

Era inevitável. Mais tarde ou mais cedo, alguém sugeriria a Marcelo que usasse o seu capital político reforçado numa iniciativa política em estilo bulldozer. Foi cedíssimo. O que não era previsível era que o apelo, em vez de vir de uma direita destroçada em reconfiguração, proviesse de uma massa inorgânica de defensores da moderação centrista (ou será do centrismo extremista?), sempre pronta a ver radicalismo em cada esquina. Para Sousa Tavares, por exemplo, Ana Gomes é de “extrema-esquerda” e António Costa “governa com e para a esquerda do PS, mais o BE, o PCP e o PAN – e contra a vontade de uma larga maioria dos portugueses”. O Presidente deveria patrocinar, assim, o afastamento de um Governo liderado por um partido que apresenta 39,9% de intenções de voto na última sondagem da Aximage, cujo trabalho decorreu entre 9 e 15 de Janeiro, em plena preparação do confinamento, treze pontos percentuais acima do PSD. Numa outra sondagem, realizada pelo CESOP, em que o PS recolheu 39% das intenções de voto e o PSD 28%, 87% dos inquiridos consideraram provável que o Governo cumprisse o mandato até ao fim, embora 61% se mostrassem favoráveis a uma remodelação no elenco ministerial. Um governo de iniciativa presidencial parece-me ser uma interpretação, digamos, demasiado radical do conceito de remodelação…

 

Jorge Miranda, insigne constitucionalista, afirmou em tempos que “um governo de iniciativa presidencial é, por natureza, um governo muito precário”. A ideia de que num momento crítico da pandemia, com mais de dois milhões de mortos em todo o mundo (12 482 em Portugal, mais de cinco mil só no presente mês), com o país envolvido na presidência do Conselho da União Europeia, Marcelo promoveria a instabilidade e a precariedade políticas é da ordem do insano. Pior do que isto. Tal iniciativa significava, também, passar um atestado de incompetência à Assembleia da República, nomeadamente quanto à sua função de controlo e fiscalização dos actos do Governo e da Administração. Seria, ainda, como se o próprio Presidente confirmasse a sua impotência para usar o seu poder de influência (o tal que ele gosta de usar generosamente, no limite da ingerência, em nome do interesse nacional, do seu próprio interesse ou da sua intuição). Seria, por fim, retirar ao povo a possibilidade de, mediante o exercício do direito de sufrágio, julgar a acção governativa de Costa e dos seus ministros. Afinal, é esta a base do funcionamento da democracia.

 

O opinion maker, apetece-me especular, não estará também cansado e descrente? É que estamos todos. Felizmente, não lhe deu para escrever que estaria em causa o “regular funcionamento das instituições democráticas”. É que, tendo em conta as afirmações proferidas por Marcelo (“Mais complicado do que ser Presidente é ser governo nesta pandemia. Por isso é que eu, correndo o risco de, sobretudo à direita, ser acusado de dar uma cobertura excessiva, eu não tive a mínima dúvida em dar cobertura total.”), ficaríamos a braços com um Presidente conivente com a “desregulação”.

 

Imagem: António Cotrim/Lusa

O CERCO E A ESPERANÇA

Janeiro 24, 2021

J.J. Faria Santos

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Cercados pelo espectro da morte por todos os lados, confinados, sujeitos a uma vida em modo de intervalo interminável, queremos resistir e inventar um novo quotidiano. Em nome do bloqueio do vírus e da sanidade mental. Mas a persistência dos desfechos funestos em números alarmantes ameaça erodir as muralhas da nossa fortaleza emocional. Não é sequer indispensável que sejam familiares e amigos a constar da lista de óbitos. O nosso pesar abarca os habitantes da nossa paisagem emocional, os pontos de referência da nossa vivência diária: os desconhecidos com quem nos cruzávamos, os vizinhos, os familiares dos vizinhos, os parentes dos nossos colegas de trabalho, os familiares das figuras públicas da TV, a escritora que lamentavelmente nunca lemos, o jornalista discreto e competente. Sabíamos que a #vamostodosficarbem não passava de uma hashtag piedosa e irrealista, mas não adivinhámos o descalabro que o Natal traria sob a forma de presente malsão para 2021.

 

Agora temos um número impensável de famílias enlutadas, estruturas hospitalares à beira do colapso, profissionais em sofrimento ético, dirigentes tentando harmonizar o planeamento com o improviso, epidemiologistas e matemáticos denunciando insuficiências, erros e atrasos e profetizando a escalada do horror. E o medo regressou, embora nunca tivesse estado verdadeiramente ausente. Esteve camuflado pela alegria dos reencontros e pela presença simbólica da vacina. Agora que o temor regressou com uma intensidade sensata, e que se desvaneceu uma certa inconsciência que raiou o criminoso, é necessário também falar de esperança. Porque ninguém suporta as narrativas da vida real, carregadas de metáforas bélicas, sem a expectativa de um desenlace mais ou menos favorável. Não se trata de escamotear a realidade, ou de a falsear, trata-se de não esquecer que graças aos profissionais da saúde mais de 450 000 portugueses já recuperaram da covid-19. Não, não vamos ficar todos bem. Sim, a morte espreita, mas a vida resiste e não desiste.

 

Imagem: Estela Silva/Lusa (lifestyle.sapo.pt)

EPÍSTOLA DE ANDRÉ VENTURA AOS PORTUGUESES DE BEM

Janeiro 17, 2021

J.J. Faria Santos

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Portugueses de bem,

Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal. São muitos os chamados e poucos os escolhidos. A 13 de Maio de 1917 Portugal mudou para sempre. Fomos escolhidos! Também eu senti esta mudança profunda num 13 de Maio da minha vida. Hoje sinto, sei, que de alguma forma a minha missão política está profundamente ligada a Fátima. É este, talvez, o meu grande Segredo. (Reparem que escrevi “Segredo” com letra maiúscula, seguindo as melhores práticas do grande Donald Trump.) E se porventura os Tomés desta vida, os incréus, acham que estou a invocar o nome de Deus em vão, eis que a iluminar o caminho surgiu a confirmação das instâncias internacionais. A grande Marine Le Pen, essa mulher corajosa e íntegra, não hesitou em comparar-me a um “sinal do céu”.

 

Ser primeiro-ministro. Eu sei que vai acontecer, só não sei é quando. E enquanto espero, candidato-me a Presidente da República. Na verdade, não importa o cargo, o que importa é levar a cabo a minha missão de livrar Portugal dos malandros, dos ladrões, dos pedófilos e dos ciganos que se passeiam de Mercedes e sacam subsídios ao Estado. O que eu defendo é a ditadura das pessoas de bem, o que transforma numa impossibilidade que eu seja o Presidente de todos os portugueses. Não vou ser o Presidente de José Sócrates, dos pedófilos e dos traficantes de droga. Nem da Ana Gomes. Com frontalidade, digo-lhe: “Ana Gomes, não és bem-vinda em Portugal e nunca serás eleita presidente da República Portuguesa.” Aos que não gostam do que eu digo, paciência, tenho direito à liberdade de expressão garantida pela Constituição. É certo que estou-me nas tintas para a  Constituição, mas nem  sempre nem  nunca. E  quando for eleito, jurarei cumprir e fazer cumprir a dita cuja. Quando estiver para aí virado, sempre depois de auscultar os portugueses de bem. Aos que me querem impedir de reformar Portugal, desafio-os com galhardia, coragem e o apoio inexcedível dos meus guarda-costas. Porque é que não me prendem? É mais fácil. Resolve-se o problema todo. O homem vai preso. Despacha-se o assunto.

 

Portugueses, concidadãos ditadores de bem,

Uma última nota para abordar a questão absolutamente essencial das mulheres que não estão bem em termos de imagem, notabilizadas pelos lábios muito vermelhos. Caiu o Carmo e a Trindade neste opressivo regime esquerdista em que estamos atolados. Já não se pode apelar à compostura, ao bom gosto, à discrição, à modéstia e à singeleza. Atiraram-me com os chavões do costume, do machismo à misoginia, porque eu, demonstrando o largo espectro dos meus interesses, me limitei a exibir o meu talento enquanto fashionista e consultor de imagem, aconselhando pro bono a candidata da esquerda caviar. Não perceberam a bondade do meu alerta? Paciência. Não recebo lições de moral dos amigos do charro. Só faltava confundirem o escritor com o narrador e implicarem comigo só porque, no meu romance de estreia, Montenegro, existe uma passagem na página 31 que alude à “natureza primitiva das mulheres” e à sua “mecânica cerebral simples”. Pode-se esperar tudo de gente que em vez de estudar e fundamentar bem as suas opiniões prefere o populismo das tiradas fáceis e dos soundbites… Valha-nos Deus, meu ídolo e mentor. Com a inspiração dele e a nossa determinação ergueremos um novo Portugal!

 

Este é um exercício de ficção, porém, as palavras assinaladas a cheio correspondem a afirmações proferidas por André Ventura.

Imagem: Cherry Red Lips, quadro de Giovannie Licea (saatchiart.com)

 

PRESIDENTES E PRESIDENCIÁVEIS

Janeiro 10, 2021

J.J. Faria Santos

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O Presidente da lei e da ordem liderou o incitamento ao assalto à democracia americana. Parecia querer tornar literal a afirmação proferida no discurso de inauguração do seu mandato: “O dia 20 de janeiro de 2017 será recordado como o dia em que as pessoas se tornaram novamente nos governantes desta nação”. E o seu povo, alimentado a desencanto, mentiras e ilusões, galgou as escadarias do poder para continuar a “drenar o pântano” e execrar as elites, sem se preocupar com o facto de a sua acção de desrespeito do Estado de direito transformar a América num simulacro de um qualquer “shithole country”. A surpreendente facilidade com que o Capitólio foi invadido, e a não tão espantosa benevolência com que alguns polícias trataram os desordeiros (selfies incluídas), dão a exacta medida do prejuízo incalculável que a administração Trump causou ao país. Já não há forma de ajudar este Presidente a terminar o mandato com dignidade. A dignidade que ele, atolado no narcisismo, na ignorância e na sociopatia, nunca teve.

 

O consenso mediático parece estar estabelecido. Marcelo reina com o seu ar beatífico e ecuménico, servindo sorrisos condescendentes aos adversários e atirando ao povo pérolas pedagógicas, ao mesmo tempo que justifica as decisões tomadas durante o seu mandato com a força da lógica pura, sem sombra de ideologia ou subjectividade. Marisa Matias, dizem, está mais apagada e João Ferreira mostra-se bem preparado, mas está refém da cartilha. E se Ana Gomes se apresenta acutilante, mas contida, em modo diplomático (e presidenciável), já André Ventura não desilude no seu registo incisivo-arruaceiro de mestre dos decibéis que sabe enfeitar qualquer debate com apartes acintosos. Ele não quer discutir argumentos, ele almeja demolir o adversário. Parece que a grande revelação é Tiago Mayan Gonçalves, o portador do facho do liberalismo. Verdade seja dita, o candidato da Iniciativa Liberal não hesitou em demarcar-se de políticas que discriminam minorias, estigmatizam emigrantes e promovem o divisionismo. É sempre de assinalar quando alguém reafirma que é inaceitável trocar o inominável por um punhado de votos.

 

O grupo parlamentar do PPE solicitou a intervenção de Ursula von der Leyen no caso da nomeação do magistrado José Guerra para a Procuradoria Europeia. Na carta, o PPE considera que este assunto “mina a integridade da Procuradoria Europeia” e que Portugal, ao fornecer “informações falsas”, está a “ameaçar o Estado de direito”. O objectivo do grupo parlamentar é a abertura de um “inquérito imediato”. Tirando algumas trapalhadas processuais e políticas, é difícil perceber uma centelha de governamentalização num processo em que os candidatos foram seleccionados e ordenados pelo Conselho Superior do Ministério Público (composto por uma vasta maioria de magistrados), tendo o júri europeu feito uma reordenação da classificação, não rejeitando qualquer nome. O primeiro-ministro e Presidente do Conselho da União Europeia em exercício, António Costa, acusou Paulo Rangel (vice-presidente do grupo parlamentar do PPE), Miguel Poiares Maduro e Ricardo Batista Leite de liderarem uma “campanha internacional contra Portugal”. Independentemente do mérito ou da razoabilidade das alegações, e do seu grau de virulência, não é legítimo fazer equivaler uma crítica política a um crime de lesa-pátria. De igual modo, pior que aventar uma “ameaça ao Estado de direito” só mesmo a ideia bizarra do PSD de apresentar uma queixa-crime contra o primeiro-ministro. Tão bizarra que os três ofendidos trataram de a descartar.

 

Imagem: Wikimedia Commons

E A SAUDADE ACONTECEU

Janeiro 03, 2021

J.J. Faria Santos

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O perito do fraseado e do tempo, o mestre da voz precisa e do arrebatamento contido, o artista que logrou incorporar a inovação na tradição, o gentleman que se excedia em cortesia e delicadeza, o cidadão interventivo que sabia o preço e o valor da dignidade deixou-nos às primeiras horas do novo ano. Tinha Sinatra nas mãos e no coração, e o fado e a poesia na alma. Amava a  noite e a boémia tanto quanto amava a sua arte, a família e os amigos, o seu país e as ruas do seu bairro. Em tempo de luto, tempo de diurnos lamentos de dor e “nocturnos silêncios” de respeito, não resistimos a evocar a sua voz prodigiosa, acompanhada pelos trinados da guitarra ou por sumptuosos arranjos orquestrais. Como todos os visionários está destinado à perenidade da memória. Com ele e por ele, continuará a existir “um verso em branco à espera do futuro” no poema do nosso quotidiano.

 

Imagem: Pormenor de retrato de Carlos do Carmo porJúlio Pomar

2021 - DANÇA DO DESEJO E DA PAIXÃO

Dezembro 29, 2020

J.J. Faria Santos

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Basta o desejo. O simples e irreprimível desejo. Como explicou Martha Graham, pioneira e revolucionária da dança moderna, “cada dança é uma espécie de diagrama da febre, um gráfico do coração. O desejo é algo de adorável, e é daí que a dança provém, do desejo”. Pode sempre adicionar uma bolha de espelhos a girar no tecto e uma indumentária à maneira (peça conselho ao amigo(a) hipster ou ao seu personal shopper). E carregue no play soltando a música esfusiante para receber 2021.

 

O género é à sua escolha. Pessoalmente, recomendo a corrente mais revivalista da música de dança, revitalizada por uma infusão vigorosa da estética disco. O ano de 2020 (do qual nos despedimos com o alívio com que tratamos os parentes incómodos e os amigos inconvenientes) ofereceu-nos quatro belos exemplares desta tendência, todos incluídos na lista dos melhores álbuns de dança do ano pela revista Billboard. Do adequadamente intitulado Disco de Kylie Minogue (com influências dos Chic, de Giorgio Moroder e Donna Summer) a Future Nostalgia de Dua Lipa, passando pelo bom gosto e savoir-faire de Róisín Machine da irlandesa Róisín Murphy e pelo soberbo What’s Your Pleasure? de Jessie Ware (na definição da Billboard, “um álbum glamoroso e sensual, contido e, porém, ousado, uma sequência de sonho cinematográfico executada entre o rosado e o vermelho-sangue”, eis um quarteto à altura da banda sonora da passagem de ano.

 

E, acima de tudo, dance. Como se estivesse num ritual xamanístico a exorcizar os maus espíritos e a expandir a consciência. E não se iniba com a interiorização das suas limitações. Afinal, e citando novamente Martha Graham, “os grandes bailarinos não são grandes por causa da sua técnica, eles são grandes por causa da sua paixão”. Portanto, impulsionados pelo desejo e pela paixão, fechados nas nossas bolhas domésticas (cortesia de um coronavírus que queremos ver destronado), dancemos em nome da esperança e do futuro.

 

Imagem: Gifer.com

BONIFÁCIO E A BELEZA DE SALVAR FASCISTAS

Dezembro 22, 2020

J.J. Faria Santos

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Atente. Engatilhe a sua indignação. Prepare-se para usar a arma da petição. Sabia que está em cena uma peça que faz uma “chocante [e] implícita apologia da violência”, onde “o acto de matar ergue-se até ao elevado e sublime patamar do belo”? Felizmente, temos a historiadora M. Fátima Bonifácio para nos chamar a atenção para o “desaforo do título”, para “o sentimento de impunidade da esquerda” e, sobretudo, para a alarmante evidência de que “a ideia de violência revolucionária não morreu, apenas aguarda um momento oportuno para de novo matar fascistas” (Público, edição de 21/12/2020, artigo Matar fascistas).

 

A peça em questão intitula-se Catarina e a beleza de matar fascistas e tem texto e encenação de Tiago Rodrigues. A acção situa-se em 2028, num Portugal governado por uma extrema-direita em maioria absoluta apostada em ilegalizar sindicatos, instituir cercas sanitárias para os ciganos e desmantelar o SNS. Aquando da estreia em Guimarães, o encenador, citado pela Visão, fez notar que se trata de “uma peça que nos coloca num contexto imaginário, ficcionado, para pensarmos sobre as nossas vidas e sobre o que poderá ser o futuro se não tivermos cuidado e não refletirmos e agirmos no presente.” E acrescentou estar em causa uma “abordagem muito clara à ameaça da ascensão de populismos de extrema-direita, de tendência fascista” e à forma como a democracia se pode defender dessa “ameaça”. 22 representações da peça previstas para os primeiros meses de 2021 já se encontram esgotadas, facto certamente explicável pela adesão entusiástica da turbamulta de furibundos intelectuais de esquerda e de proletários sedentos de sangue, armados de alfaias agrícolas, prontos para esquartejar fascistas.

 

Bonifácio esclarece-nos, com uma clareza ofuscante, que a vida tem “corrido bem” a Tiago Rodrigues porque ser de esquerda “rende muito”, ilustrando esta premissa com a renovação do seu mandato como director artístico do Teatro Nacional e com a atribuição do Prémio Pessoa em 2019. É, aliás, do conhecimento público que o júri do Prémio Pessoa é uma corja de esquerdistas radicais. O mesmo pode ser dito de quem o galardoou com o Prémio Europa de Teatro em 2018 e da República Francesa que lhe atribuiu o grau de Chevalier des Arts et Lettres. E se não fosse a covid-19 (nem tudo é mau numa pandemia…), ele estrearia uma peça pela Royal Shakespeare Company baseada em dois livros do notório comunista José Saramago. Os indícios amontoam-se. É certo que foi nomeado para director do teatro em 2014 por Jorge Barreto Xavier, membro do Governo de Pedro Passos Coelho, mas quem nos garante que o secretário de Estado da Cultura não era um esquerdista aparentemente assintomático?

 

Mas a historiadora vai mais longe e mais rápido, iluminando com a sua clarividência as inúmeras e terríveis implicações de tolerarmos ou desvalorizarmos a noção da “beleza de matar”. É que, explica ela com uma linearidade assombrosa, “os assassinos do ucraniano, segundo a tese de Tiago Rodrigues, podem muito bem ter actuado impelidos por uma irreprimível sede de beleza”. Estaríamos assim, se não desvirtuo o pensamento de Bonifácio, muito perto de legitimar o assassinato de Ihor Homeniuk como uma espécie de arte performática.

 

Já dizia Oscar Wilde que “toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo. Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas próprias expensas. Os que lêem o símbolo fazem-no a suas próprias expensas.” Felizmente ainda existem pessoas corajosas como a historiadora, que não se deixam intimidar pela opacidade do símbolo, nem hesitam perante a sua aplicação empírica. Devemos estar todos gratos à professora doutora M. Fátima Bonifácio pela sua luta persistente e corajosa contra a barbárie esquerdista, a bem da nação e da preservação da fauna fascista. Principalmente aquela que na região demarcada do Chega pode ajudar a “terraplanar um território em que uma direita liberal e conservadora poderia assentar arraiais”, como ela escreveu num outro artigo, intitulado Desnorte. A minha única objecção é em relação ao termo “terraplanar”. Aterro e escavação parece-me um pouco sinistro, propício a evocações de violência e desordem, algo tão longe da tradição de uma conservadora de boa cepa.

 

Imagem: Inimigo Público/Marco Neves Ferreira

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