SOB O ESPECTRO DO RACISMO
Fevereiro 22, 2026
J.J. Faria Santos

41% dos portugueses acham que “a convivência entre diferentes raças ou etnias quase sempre causa problemas”. 23% defendem que há “raças ou etnias por natureza mais inteligentes do que outras”. Estima-se que 15% se sintam “incomodados” perante a visão de pessoas negras em “posições de poder e influência”. 17% sustentam que a “mistura de raças ou etnias pode enfraquecer a evolução biológica da espécie humana”. Estes são dados de uma sondagem ICS/ISCTE para a SIC e para o Expresso, cujos trabalhos de campo ocorreram em Setembro de 2020. É caso para perguntar em que espécie de seres humanos nos estamos a tornar. E meditar nas palavras de Teresa Violante (Expresso – 26/12/2025), não apenas sobre os limites da tolerância (“a tolerância ilimitada do intolerante conduz à destruição da tolerância.”), como também acerca dos deveres da democracia (“a democracia pode – e deve – defender-se de quem instrumentaliza as suas liberdades para minar a igual dignidade de todos.”)
Esta foi a semana em que o espectro do racismo pairou sobre um campo de futebol. Esta foi a semana em que o repúdio epidérmico e a afirmação de um princípio basilar da convivência humana foram preteridos em favor de fervores clubísticos, teses sobre coreografias aceitáveis para a celebração de um golo, discussões semânticas e denúncias de liberdade de expressão amordaçada pelo wokismo. Esta foi também a semana em que ficámos a saber que as contribuições dos imigrantes para a Segurança Social ascenderam, em 2025, a 4162 milhões de euros. Como os benefícios que usufruíram totalizaram, no mesmo período, 827 milhões de euros, a Segurança Social registou, neste contexto, um saldo positivo de 3335 milhões. A secretária de Estado da Segurança Social, Susana Filipa Lima, apressou-se a concluir que os estrangeiros representam “um contributo positivo para a nossa economia”. Não basta, evidentemente, a racionalização de dados económico-financeiros. O combate ao racismo e à xenofobia tem de ser um adquirido civilizacional e representar um compromisso de eliminar uma violação dos direitos humanos.
Este foi também o mês em que o presidente dos Estados Unidos partilhou na sua rede social um vídeo onde o ex-presidente Obama e a sua mulher eram apresentados como macacos, recorrendo a uma representação que teve origem no chamado racismo científico e foi sucessivamente usada com intuitos de subalternização e desumanização. A América que resiste, a Humanidade que resiste, está também na capa de uma revista glamorosa, com Teyana Taylor a segurar a tocha da liberdade e da democracia, ao mesmo tempo iluminando o caminho e incendiando a esperança. E em jeito de epígrafe, no canto inferior esquerdo, versos do poderoso poema de Langston Hughes, I, Too, onde o “darker brother” antecipa um amanhã em que reclamará que, também ele, é América.
NOTA:
Esta é a última publicação neste blog. 823 posts depois, disponibilizados entre Fevereiro de 2011 e Fevereiro de 2026, é tempo de encerrar aqui esta etapa, tendo em conta a descontinuação desta plataforma. Agradeço ao SAPO Blogs, aos subscritores e a todos os leitores que regular ou esporadicamente por aqui pararam. O destino dos conteúdos deste blog ainda vai ser alvo de ponderação, não estando posta de parte a hipótese de deixar que desapareçam com o big bang de Novembro, porque, afinal, tudo é efémero. Quem tiver a gentileza ou a curiosidade de me continuar a acompanhar pode encontrar-me em https://novagardapenumbraredux.blogspot.com, um blog exclusivamente com novos conteúdos. Um “começar de novo”, com a esperança de que “vai valer a pena”.







