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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UMA QUESTÃO DE HONRA

Outubro 16, 2018

J.J. Faria Santos

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É como se um canhestro argumentista de um filme do Steven Seagal quisesse fazer uma adaptação de um romance de John le Carré. O resultado seria uma intriga política manhosa, envolvendo o desaparecimento de material militar, mais tarde devolvido na sequência de uma conspiração que envolveu, pelo menos, a Polícia Judiciária Militar (PJM) e a GNR de Loulé. O conluio implicou ocultação e simulação, para além do atropelo de competências e normas legais.

 

Aparentemente, um conjunto de militares atreveu-se a negociar com um criminoso, atribuindo-lhe imunidade, em nome do interesse nacional, tal como eles o entendem. Como bónus, obtinham também a satisfação pessoal de ver a PJM retirar à sua homónima civil os louros da recuperação do material furtado. O espírito de corpo foi, assim, perversamente transformado em corporativismo. Tendo em conta que o princípio da autoridade formal é inerente à condição militar, interrogo-me até que nível da hierarquia terá a informação ascendido e, sobretudo, até que ponto o preceito da obediência obnubilou a análise fria e racional de uma acção inadmissível. E o próprio chefe de gabinete do ex-ministro, ter-se-á sentido dividido entre a sua condição de militar e a lealdade para com quem o nomeou?

 

Na verdade (e na mentira), este episódio (burlesco, rocambolesco) mancha toda uma instituição que, por vezes, permite que alguns dos seus membros utilizem a nobreza da sua missão para resvalar para a arrogância, para a superioridade moral. Esta displicente presunção pode levar uma instituição com algum capital de queixa a destratar os civis, incluindo o ex-ministro da tutela, que, por sua vez, se foi fragilizando pela fatal mistura de alguma inércia, excessiva parcimónia no uso dos seus poderes e uma perceptível ou real acumulação de manobras de autodesresponsabilização.

 

No filme Uma Questão de Honra (1992), a dada altura, pressionado em tribunal, Jack Nicholson, na pele do coronel Jessep e no seu habitual estilo incisivo, explica que há quem não consiga lidar com a verdade. O que é preocupante em todo o episódio de Tancos é a predisposição que revela uma instituição, que a toda a hora invoca, e na maior parte das vezes muito justamente, o seu código de honra, para manejar a mentira e o ludíbrio.

 

CR7 NO EPICENTRO DO FURACÃO KATHRYN

Outubro 09, 2018

J.J. Faria Santos

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A versão simplificada e simplista pode ser esta: uma oportunista de moral fluida, habituada a atrair clientes para que estes consumam nos bares, aproveitou a circunstância para se vitimizar com o fito do lucro. Ou, em alternativa, uma estrela em ascensão, jovem, rico, famoso e egocêntrico, julgou inimaginável e irrelevante  a possibilidade de alguém querer frustrar os seus apetites sexuais.

 

A versão dos acontecimentos narrada à Der Spiegel por Kathryn Mayorga teve já repercussões na cotação em bolsa da Juventus (queda de 9,92% na passada sexta-feira), e também na marca Ronaldo, com patrocinadores a exprimirem preocupação. A pior reacção, porém, foi a do próprio jogador, via Instagram, num lamentável vídeo. Mesmo que se prove que a razão está do seu lado, a displicência da pose e a alusão a fake news (uma expressão associada a quem manobra com deleite mentiras e falsidades) não credibiliza a sua posição.

 

O que é que julgamos saber com razoável certeza? De acordo com o relato da Der Spiegel, os dois encontraram-se num clube nocturno em Las Vegas em 12 de Junho de 2009. Depois de lhe ter pedido o número de telefone, Ronaldo acabaria por lhe enviar um SMS convidando-a para uma festa no seu hotel, para onde ela se dirigiu na companhia de uma amiga. Relutante em saltar para o jacuzzi, por não querer estragar o vestido, Kathryn acabaria por aceitar a camisola e os calções que ele lhe providenciou. Foi enquanto trocava de roupa que tudo se precipitou, culminando na prática de sexo anal. Às 14h16m do dia seguinte, Kathryn telefonou para a polícia e pouco antes das quatro começou a ser examinada no hospital. As lesões foram fotografadas.

 

A advogada dela sugeriu-lhe um acordo extra-judicial. A identidade da vítima seria protegida, o procedimento mais rápido, uma compensação seria obtida.  Num e-mail trocado entre os advogados de Ronaldo, constam declarações deste afirmando que Kathryn lhe dissera “não e pára varias vezes”. E ainda “não faças isso” e “não sou como as outras”. No final, pediu-lhe desculpa. Depois de a equipa legal do jogador nos Estados Unidos ter contratado detectives privados para vasculharem a vida dela, aparentemente sem resultados úteis, foi acordada uma compensação de 375 000 dólares que contemplava um rigoroso acordo de confidencialidade. Que agora foi quebrado, porque o novo advogado dela o considera legalmente inválido.

 

Subjacente a todo este episódio, pode estar implícita a noção caricatural da necessidade de uma espécie de regulamentação do exercício dos afectos. Como se, no limite, quase se tornasse necessário estabelecer um contrato com cláusulas que definam explicitamente as condições em que os dois outorgantes se podem envolver em práticas sexuais, bem como as variantes que estas podem assumir. Por outro lado, seria grosseiro e estulto imaginar que uma mulher num primeiro encontro não pudesse aceitar um convite para uma festa na casa de um homem, frequentar o seu jacuzzi e beijá-lo sem correr o risco de ser violentada.

 

As acusações têm de ser provadas. Só conhecemos, com algum detalhe, a versão de uma das partes. Que apesar de  suficientemente danosa ainda não passou pelo teste do contraditório. Kathryn Mayorga refere que Ronaldo lhe disse que em “99% das vezes é um bom rapaz”. A ser assim, esperemos que o 1% que corresponde à manifestação do mal (a que nenhum de nós, independentemente do sexo ou da condição social, é imune. Quem de nós nunca se confrontou com o arrependimento?), a ter sucedido aqui, não acabe por ter implicações criminais. É que nem sempre o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas.

 

SEXO, CENSURA E VIOLAÇÃO SEM VIOLÊNCIA

Outubro 02, 2018

J.J. Faria Santos

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Sinal dos tempos. Em vez de manifestações indignadas dos guardiães da moral e dos bons costumes, a exposição de Robert Mapplethorpe motiva acesas discussões acerca da evidência da censura. E se as motivações dos protagonistas introduzem alguma complexidade que impede que se tirem conclusões inequívocas (censura, “violação da autonomia técnica e artística”, autocondicionamento, interferência disfarçada de voluntarismo?), o que é notável é que milhares de pessoas já tenham acorrido a Serralves para testemunhar aquilo que Miguel Sousa Tavares apelidou no Expresso de “taras exibicionistas e sado-maso de um homossexual doentio”. Claro que se pode admitir, como Holland Cotter referiu num artigo de 2016 no New York Times, que “um artista em tempos insultado como um pária e acolhido como um mártir tenha sido completamente absorvido pelo mainstream” e incensado como um clássico. No entanto, no mesmo artigo, citavam-se exemplos de recusa na exibição da sua arte, bem como daquilo que o autor apelidou de “exercício de discrição” com alertas para o carácter explícito de certas fotografias. Para Cotter, isto reforçava o seu “estatuto de radical”. O que pode repelir a massificação mas não o interesse das massas, que sempre se mostraram fascinadas pelas propostas dos radicais.

 

Mixed feelings. Eis uma expressão apropriada para definir o meu estado de espírito em relação ao processo de nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Há sobretudo o puritanismo americano (que me parece sempre acolitado pela repelente apetência pelo olhar pelo buraco da fechadura do aposento conjugal), mas também as réplicas do movimento #MeToo onde a coberto da denúncia legítima e da afirmação da condição feminina se podem traçar agendas menos nobres. Mas o facto é que Kavanaugh não se pode queixar muito: o seu conservadorismo extremo exige um comportamento imaculado, e tem contra si o espectro da hipocrisia. Afinal, este é o homem que há vinte anos, no âmbito da investigação ao caso que envolveu Bill Clinton e Monica Lewinsky, sugeriu que se colocassem questões sexualmente explícitas ao então Presidente. Um exemplo: “Se Monica Lewinsky dissesse que o senhor introduziu um charuto na vagina dela nas imediações da Sala Oval, estaria a mentir?”

 

A violência é um abuso da força, uma opressão, uma coacção. A violação é uma transgressão, a invasão de uma área privada, e, se essa área for o corpo humano, “um crime cometido por quem constranger ou obrigar outra pessoa a sofrer ou praticar relações sexuais, por meio de violência, ameaças ou após a ter posto na impossibilidade de resistir” (Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa). E se, peguemos num exemplo, um homem se apropriar e invadir o corpo de uma mulher sem necessitar de exercer violência ou condicionar a sua resistência? Juridicamente não é uma violação, ficamos todos a saber graças a mais um acórdão sui generis do Tribunal da Relação do Porto. Respaldados na letra da lei, os signatários do acórdão espraiaram-se (e espalharam-se) em considerações que desvalorizaram a gravidade do acto e a culpabilidade dos perpetradores. Que a “ilicitude não é elevada”, que não houve danos físicos (e os psicológicos não são relevantes?) ou foram “diminutos”, que não houve violência. E que tudo se passou ao “fim de uma noite” num “ambiente de mútua sedução”. Só faltou dizer que o código informal da masculinidade exige que não se perca uma oportunidade de gratificação sexual, nem sequer quando ela se apresenta sob a forma de uma mulher inanimada.

 

Imagem: "Susana e os Velhos" de Artemisia Gentileschi (Wikimedia Commons)

DO GANGAGATE À NOMEAÇÃO DE LADY GAGO

Setembro 23, 2018

J.J. Faria Santos

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Estava Portugal ainda mal refeito das confissões de Assunção Cristas (tomou “banho em pelota” no Japão, considera Lourenço Ortigão o “homem mais canhão em Portugal” mas em “termos estéticos” prefere Ricardo Robles a João Galamba”), quando nos cai em cima o Gangagate. Não é que o primeiro-ministro aterra em Luanda desgravatado (ou seria desgravitado?), de calças de ganga e mocassins. Parece que a dignidade do Estado nunca tinha sofrido tamanha afronta. Se mais ninguém houvera, a Becas (como Cristas é tratada em casa) poderia explicar-lhe que calças de ganga é indumentária apropriada para “estar nos bairros sociais”, a socializar com os pobrezinhos, nunca para visitar PALOP ricos em recursos naturais / cleptocracias em recuperação / democracias em evolução (riscar o que não interessa). Felizmente, temos o discernimento suficiente para perceber o essencial: mais importante que debater a sustentabilidade do SNS ou a redução da dívida pública é não transigir com o dress code em visitas de Estado. Senão, qualquer dia, como diria o Diácono Remédios, o homem atreve-se a cumprimentar dignitários estrangeiros com jeans rotos e esfiapados. Que o homem tenha rasgo, ainda vá lá, mas que não se atreva no rasganço!

 

20 de Setembro de 2018, o dia da infâmia! Sim, foi nessa funesta quinta-feira que um “passarinho” disse a Joana Marques Vidal que o seu mandato como procuradora-geral da República não seria renovado. Foi assim que Lady Bird soube que iria ser substituída no cargo por Lady Gago. As ondas de choque, comparáveis ao grau IX (destruidor) da Escala de Mercalli, motivaram mesmo o regresso à ribalta mediática do espoliado da democracia Passos Coelho. Os pontas de lança da ofensiva liberal, que fizeram os possíveis e os impossíveis para politizar a decisão, de João Miguel Tavares a Henrique Raposo, espumam de indignação – que o PS manda no país, que Marcelo foi conivente. José Manuel Fernandes, comandando o navio de assalto Observador, deplora a partida da mulher que “arrombava a porta dos poderosos” e manifesta-se cansado de “políticos e poderosos que se protegem uns aos outros”. A limitação dos mandatos perdeu todo o encanto na hora da despedida, e as tiradas com ressonância de populismo e justicialismo substituem a reflexão serena. Como se a eficácia de todo o edifício da Justiça estivesse dependente da acção de Joana Marques Vidal, a insubstituível. Como notou Pedro Adão e Silva no Expresso: “Costa e Marcelo revelaram coragem e tiveram como preocupação primordial a protecção da autonomia do Ministério Público”. Quanto a Joana Marques Vidal, sai justamente aclamada pelo desempenho do cargo (ainda que não isento de falhas e equívocos), ao mesmo tempo que se vê livre do risco de ser encarada como a procuradora-geral de uma facção. A sua sucessora, Lucília Gago, foi definida pelo ex-ministro e deputado do CDS Pedro Mota Soares como “uma pessoa muito serena, muito ponderada, muito competente e com grande capacidade de liderança”. Temos o dever de desconfiar, diz José Manuel Fernandes, porque agora tudo passou a ser político (a política, que horror!). Portanto, Lady Gago, Big Brother José Manuel Fernandes is watching you!

 

 

A FÚRIA DA HEROÍNA SERENA

Setembro 18, 2018

J.J. Faria Santos

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A exibição da frustração raramente se reveste de beleza. E inúmeras vezes adquire o rosto da agressividade e conduz à nomeação de um bode expiatório. Não nos deve surpreender que os ídolos exibam a sua humanidade, mas isso não nos deve levar a tolerar comportamentos incorrectos e mesmo acintosos em nome da superlatividade dos feitos por eles alcançados ou da sua relevância social.

 

Não precisamos de ser especialistas em arbitragem ou peritos nas subtilezas do ténis para reconhecer comportamentos antidesportivos ou insultos intoleráveis. Em qualquer desporto, apodar um árbitro de “mentiroso” e “ladrão” é um livre-trânsito para a sanção. Que Serena Williams tenha jogado a cartada do sexismo é um clamoroso faux pas, que não serve nem a causa do feminismo nem a do desportivismo. Quem seguramente teve de arcar com desprezíveis comportamentos discriminatórios para ascender ao topo da sua profissão, não deveria usar o seu estatuto para sublimar a frustração com recurso à vitimização.

 

Carlos Ramos, o alvo da sua fúria, um reputado árbitro apreciador de José Saramago e de fado, curiosamente partilha o nome com um fadista cujo reportório incluía o clássico da “masculinidade tóxica” Não Venhas Tarde, onde se narrava a subserviência de uma mulher sofredora sempre disponível para tolerar o comportamento adúltero do marido. Num episódio onde é difícil escapar à ironia, sereno foi ele: a falar pausadamente, inclinando-se na direcção dela, com a mão no peito. Para ela, restou a caricatura da vociferação do feminismo abrasivo. Exagerada como todas as caricaturas, mas certeira na forma como capturou um momento, mesmo que este, como é o caso, possa não definir a protagonista.

 

OS INSUBORDINADOS

Setembro 11, 2018

J.J. Faria Santos

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O anonimato é uma forma de cobardia? O editorial do New York Times é mais “propaganda que resistência”, como dizem os detractores e os institucionalistas? Prefiro ver a questão de outro ângulo. Se o escrutínio mitigado do Congresso falhar, se a oposição democrata se mostrar ineficiente, se o poder judicial for manietado, se a sociedade civil se declarar impotente, não será relevante que no interior da fortaleza onde o “impetuoso, conflituoso, mesquinho e ineficaz” Trump se compraz em emitir fatwas via Twitter alguém se preocupe com os seus “impulsos antidemocracia”?

 

Mesmo que a esta resistência republicana falte a grandeza moral e a coragem cívica de um John McCain, não deixa de ser reconfortante que, a dar crédito ao que foi proclamado, um grupo de funcionários com uma certa noção de serviço público e decência se empenhe em minar os piores instintos de um Presidente impreparado e prepotente. Com um bónus: a do prazer com que vemos um indivíduo manipulador, habituado a fazer prevalecer todas as suas vontades, ser mais ou menos subtilmente sabotado pelos seus subordinados (ou talvez seja melhor dizer gloriosamente insubordinados).

 

Gabriel Sherman escreveu na Vanity Fair que Trump já pensa na reeleição e até já tem lema de campanha (Keep America Great), notando que “o paradoxo da campanha de Trump é que o seu melhor trunfo, Trump, é também o mais complicado – uma bomba que ameaça, a qualquer momento, explodir na sua face”. Quanto ao candidato, refere o articulista, “não confia em absolutamente ninguém” e queixa-se de não ser bem assessorado na Casa Branca. O que o editorial anónimo do New York Times e os livros de Michael Wolff e Bob Woodward vêm confirmar é que, no que se refere à confiança, o sentimento é mútuo.

 

O que parece estar a deixar irritado parte do establishment político americano, que adoptou a expressão “golpe de estado administrativo”, é aquilo que Susan B. Glasser chama na New Yorker de “facadas nas costas e traições privadas” num ambiente de “secretismo e desconforto”. Longe, portanto, da luta política leal e frontal. Só que situações extraordinárias exigem medidas extremas. Que os próprios correligionários de Trump o reconheçam é sinal de que, apesar de tudo, a defesa da democracia e do primado da lei prevalece sobre as fidelidades partidárias.

 

Imagem: Wikimedia commons

EM BUSCA DAS PALAVRAS PERDIDAS

Setembro 04, 2018

J.J. Faria Santos

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Há momentos em que ficamos sem palavras. Por espanto, susto, choque, arrebatamento. Sobrinho Simões, celebrado patologista, por causa de um AVC ficou com o ABC toldado. Quando quis dizer garrafas saiu-lhe gravatas; pronunciou esferográfica mas frustrou-se por não lhe ocorrer caneta; pediu um elevador quando pretendia que lhe trouxessem o jornal. Acordava a meio da noite obcecado por não se conseguir lembrar do apelido de Oscar Wilde ou do nome do mordomo do anúncio do Ferrero Rocher. Agora, regressado à sua rotina diária no IPATIMUP, explicou ao Expresso (Revista, 25/08/2018), que o entrevistou, que anda sempre com um caderno atrás. Certas palavras, como “sussurrar” ou “helicóptero”, só as consegue dizer se as escrever primeiro. Afirma, convicto, que “nós não temos nenhuma razão para acabar”. Antecipa as quatro viagens que vai fazer este mês a angustia-se: “Capacidade posso ter mais ou menos, mas… E se deixasse de me apetecer?”

 

Há algo nos lares de terceira idade que os transforma numa espécie de depósitos de seniores. Podem ser irrepreensíveis, com directores empenhados e cuidadores exemplares, com um corpo clínico atento e um plano de actividades variado (viagens, fisioterapia, promoção de convívio intergeracional), e, porém, quando a vista alcança uma sala de convívio de um desses estabelecimentos o que dela emana é uma atordoante apatia. Resultante de debilidades físicas ou mentais ou de um progressivo esvaziamento da vontade – “E se deixasse de me apetecer?” – o cenário é incompatível com um glorioso envelhecimento activo. Pode ser uma questão de perspectiva, de traço grosso propiciado pelo instante, pelo local ou pela altura do dia. (Se observássemos o grupo noutro contexto, por exemplo numa caminhada ou numa viagem, talvez a impressão se diluísse um pouco.) A sala de espera parece-se demasiado com a antecâmara do fim, onde as palavras escasseiam, perdidas na memória, que nenhum caderno consegue resgatar.

 

Em Leite Materno (Sextante Editora, tradução de Daniel Jonas), Edward St Aubyn descreve assim o ambiente no lar onde Patrick Melrose vai visitar a mãe: “Passaram pela porta aberta de uma sala comum, onde o rugido de um televisor disfarçava outro tipo de silêncio. Os residentes, brancos e amachucados como papel, estavam sentados em filas. O que teria detido a morte que nunca mais vinha?” Pouco depois, em reacção à chegada da família, ela “compôs um sorriso, mas os seus olhos continuavam deslocados, paralisados na desorientação e na dor”. A infelicidade da matriarca por não conseguir exprimir-se fluentemente por palavras é magistralmente apresentada por St Aubyn: “Um pensamento cuidadosamente aparafusado soltou-se e caiu, espalhando-se pelo chão. Ela não conseguia recuperá-lo.” Podemos não ter “nenhuma razão para acabar”, mas o nosso destino é inexorável. E quando os pensamentos se desconchavam e as palavras batem em retirada, começamos a pensar no nosso prazo de validade. Existimos de preferência enquanto estivermos na plena posse de determinadas faculdades, mas como certos alimentos somos perecíveis.

 

Imagem: "Old Tiger" de Andy Warhol (Courtesy of Bert Christensen)

A CELEBRIDADE INSTANTÂNEA QUE ARISTIDES SALVOU

Agosto 28, 2018

J.J. Faria Santos

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A mulher chegou a Paris em 1928, virtualmente desconhecida, apresentando-se como uma vedeta do cinema. Matisse, Chagall, Cocteau e mais 48 artistas acederam a retratá-la em menos de dois anos (quadros a óleo mas também esculturas em bronze ou barro). Os retratos destinavam-se a ser usados na rodagem do filme A Mulher das Cem Caras, a ser protagonizado por ela com argumento e produção do seu empresário. Décadas antes das celebridades instantâneas das redes sociais da era da Internet, Maria Lani tornou-se viral. A colecção de arte assim gerada circulou por galerias nos Estados Unidos e na Europa, a musa brilhava nas colunas sociais, foi apresentada a Coco Chanel e até os premiados Louis Bromfield (prémio Pulitzer) e Thomas Mann (prémio Nobel) colaboraram no argumento do filme.

 

Brian Moynahan conta a história na Vanity Fair de Setembro, num artigo intitulado Musa sem Rasto. O que começa por ser notável, estando em causa uma arrivista com pretensões a figurar no star system cinematográfico, é que Lani não era particularmente bonita. Em compensação, a fazer fé no relato de Moynahan, era dona de um carisma pouco usual e de uma incrível capacidade de transfiguração, qualidades recomendáveis numa actriz. Jean Cocteau queixava-se da dificuldade em captá-la na tela, visto que de cada vez que desviava o olhar da sua modelo os traços alteravam-se. O autor do artigo escreve que um jornal britânico chegou a recorrer à Scotland Yard, tendo um perito em disfarces afirmado que “nenhum ser humano sem a ajuda de um cirurgião conseguiria distorcer os traços fisionómicos representados nos quadros”. E no entanto, relembra Moynahan, todos retratavam Maria Lani.

 

A arte da dissimulação, afinal, estava no âmago da sua existência. Não era quem proclamava ser. Criada num bairro judeu de uma cidade polaca, filha de um operário fabril, a ter trabalhado como actriz com Max Reinhardt em Berlim, não se encontraram registos que o comprovem. Muito menos vestígios da sua presença em palcos ou ecrãs de cinema em Paris. O homem que apresentava como seu empresário era, de facto, seu marido. Porventura receosa da eficácia dos seus disfarces, com os alemães às portas de Paris, em Maio de 1940 Lani mandou uma telegrama para Lisboa pedindo um visto. Não obteve resposta. A salvação tomou a forma do cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, que lhe providenciou o que ela tanto necessitava. Juntamente com o marido/empresário atravessou a fronteira francesa para Espanha e viajou para Lisboa. Mais tarde, em Março de 1941, embarcou para Nova Iorque.

 

Apesar de em 1947 as colunas sociais apontarem como potenciais protagonistas Greta Garbo ou Hedy Lamarr, o filme A Mulher de Cem Caras nunca chegou a ser produzido. Entre períodos de exaltação mediática e hiatos de anonimato ou discrição, Maria Lani acabaria por falecer em Paris, em Março de 1954, vítima de um tumor cerebral. Tinha 58 anos quando a última máscara se cristalizou no seu rosto.

 

 Imagem: "Retrato de Maria Lani" de Robert Delaunay (Wikimedia Commons)

O EVANGELHO SEGUNDO ARETHA FRANKLIN

Agosto 21, 2018

J.J. Faria Santos

 

“Prece, amor, desejo, prazer, desespero, arrebatamento, feminismo, Black Power – é difícil pensar numa artista que nos tenha apresentado um retrato mais aprofundado do seu tempo”, escreveu David Remnick na New Yorker online, celebrando o legado de Aretha Franklin, cuja voz, no entender dele, era a “expressão pura, dorida e inesquecível da história e do sentir americanos, da experiência colectiva dos negros americanos e da sua própria vida.”

 

Filha de um pastor de Detroit, cedo conviveu com intérpretes do calibre de Nat King Cole e Mahalia Jackson. Firmemente ancorada nas raízes do gospel e da música soul, bem depressa transcendeu géneros com o poder supremo da sua voz, capaz de colocar o virtuosismo ao serviço da emoção e da inovação, suscitando a admiração reverente do público e dos seus pares. Remnick cita Etta James para recordar um episódio eloquente relacionado com a forma como Aretha ao interpretar o tema Skylark subiu uma oitava na interpretação do segundo verso. Etta, que ficou estarrecida com tamanha proeza, narrou um encontro com a soberba Sarah Vaughan, que por sua vez, impressionada pela forma como Aretha pegou no tema, logo confidenciou que jamais o voltaria a cantar.

 

O evangelho segundo Aretha Franklin misturou o sagrado com o profano. A celebração do divino com a reivindicação de direitos na vida terrena. Combinou a generosidade e a solidariedade com toda a sorte de misfits com a exigência de respeito pela sua condição de mulher, artista, diva. Celebrou o amor e o prazer, exorcizou o desgosto e o infortúnio. Na formulação de Remnick, como “Ray Charles e Sam Cooke, Franklin combinou os assuntos do espírito com os do corpo.”

 

Parecia inevitável, embora dispensável, que também Donald Trump contribuísse com as suas pinceladas toscas e egocêntricas para o quadro da vida de um mito. Aludiu a um “legado extraordinário” da cantora que afirmou conhecer bem, mas só depois de referir: “Trabalhou para mim em inúmeras ocasiões.” Consta que a cantora também o conhecia bem, desprezaria aquilo que considerava que ele representava e terá recusado actuar na inauguração da sua presidência. O que só evidencia a sua coerência e a sua integridade. Algo que todos os que trabalharam com ela ou para ela sempre estiveram conscientes. E isto é parte relevante de um legado que nunca deixará de nos inspirar quando numa manhã de chuva um cansaço existencial nos deixar sem forças para enfrentar um novo dia.

 

(SEX)AGENÁRIA - A NOSSA SENHORA DO ESTILO

Agosto 14, 2018

J.J. Faria Santos

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No princípio era a provocação religiosa. A dada altura, perguntaram-lhe: “Não é verdade que tendo tido uma educação católica, a sua condição como mulher só pode ser uma de duas: ou virgem ou puta?”. A resposta lapidar foi: “Sim, tenho consciência disso, mas não entendo porque é que não posso ser ambas.” (Expresso, A Revista, 3/06/1989). O ataque ao tabu manifestou-se quer através de declarações semelhantes (como aquela em que explicou que o seu interesse de menina pelas freiras se dissolveu quando se apercebeu que elas não tinham vida sexual; ou  a que ligava o seu fascínio à representação de Cristo na cruz ao facto de nela constar um homem seminu), quer também pela apropriação de símbolos religiosos como acessórios de moda. Camille Paglia, controversa escritora e feminista, afirmou que “ela reuniu e curou as metades separadas das mulheres: Maria, A Virgem e santa mãe, e Maria Madalena, a prostituta”.

 

Este é o meu corpo, sempre disse ela. O seu instrumento, a sua arma, o seu manifesto. Muito antes das redes sociais, da febre da vida em directo, escancarada, ela geriu a visibilidade da pele, a exposição da sexualidade,  negociou a quebra dos interditos de forma persistente e permanente. Estratégia comercial, provocação gratuita, plagiadora de ícones, proclamaram os indignados. No contexto de uma entrevista à cantora para a Esquire (Setembro de 1994), Norman Mailer estabeleceu um paralelo com um desses ícones: Marilyn Monroe. Escreveu ele: “Os horrores de Marylin ela guardava-os dentro de si; choramo-la porque se deu a todos nós, até estar toda roída por dentro e morrer.” Já Madonna, contrapôs ele, “escolheu, talvez para sobreviver, expor as suas manias. É a mestra severa que nos mostra como tudo é difícil, especialmente o sexo. Mas dá-nos algo que Marilyn nunca nos pôde dar. Demonstra-nos que qualquer verdade humana é perigosa se ousarmos aprofundá-la; lembra-nos que as alegrias da vida se apoiam em vidro.”

 

Acerca da sua relevância artística, Lucy O’Brien escreveu em Madonna, Como um Ícone, biografia publicada em 2007: “Não tem a grandiosidade vocal de uma Billie Holiday ou de uma Ella Fitzgerald, e não marcou uma geração com rock´n´roll cru como Janis Joplin ou Patti Smith, mas é uma presença imponente na música popular graças à sua abrangência impressionante. Como uma gralha cultural, foi buscar as suas influências a milhares de fontes e canalizou-as para uma visão. Só isso é uma obra de arte.” A sua voracidade pela reinvenção e a sua incessante curiosidade pelas vanguardas, ao mesmo tempo que paga tributo ao classicismo, podem ser simbolizadas pelos versos de More, um dos temas que Stephen Sondheim escreveu para ela cantar no filme Dick Tracy: “Never settle for something less / Something’s better than nothing, yes! / But nothing’s better than more, more , more / Except all, all, all”. Eis um verdadeiro tributo à ambição e à exigência.

 

Aos sessenta, a provocação continua. Só pode ser por vocação. Podia adoptar a pose de grande dama da música, etérea e majestosa, mais recatada em sóbrios modelos de alta-costura. Mas não seria a mesma coisa. Norman Mailer, no início da entrevista à Esquire disparou: “Se não soubesse nada sobre si, diria: Bom, é uma senhora…” Instado a clarificar o que seria uma senhora, explicou que “é uma mulher que faz tudo o que as outras fazem, mas com um pouco mais de estilo.” Eis uma definição apropriada para Madonna: a Nossa Senhora do Estilo.

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