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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O PÓS-GERINGONÇA, A TRISTEZA E O CATETERISMO

Outubro 15, 2019

J.J. Faria Santos

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A governação de geometria variável com prioridade à esquerda sucede às “posições conjuntas” e aos acordos escritos. Nem mesmo o talento negocial de António Costa seria capaz de erigir uma Geringonça 2.0 com parceiros que perderam dezenas de milhares de votos sem a ameaça do passismo-portismo. Também as convergências com o PSD para as sempre incensadas e algo obscuras e indeterminadas “reformas estruturais” parecem severamente ameaçadas, quer pelo resvalar de Rio para a insinuação ofensiva na recta final da campanha, quer ainda pelo assalto ao poder em curso no partido fundado por Sá Carneiro.

 

É um exagero dizer que ele é, como disse José Miguel Júdice, “um homem mesquinho e vingativo”. Ou, na formulação de Vasco Pulido Valente, considerar que “se alguém ainda pensa que este homem pode ser primeiro-ministro, é porque perdeu a cabeça”. Na noite das eleições, Rui Rio limitou-se a ser genuíno, sem filtros, como tantos apreciam, condição nada propícia, na maioria das vezes, a manifestações de elegância e grandeza.

 

Assunção Cristas foi elogiada pela presteza com que desapareceu de cena. Vítima da sua própria megalomania, conduziu uma campanha que, a medida que as perspectivas se tornavam cada vez mais negras, não hesitou em recorrer às proclamações trogloditas que costumavam ser marca registada de Nuno Melo e acabou próxima do estado de choque. A simpatia que parecia recolher dos contactos pessoais foi dinamitada pela postura ideológica do combate às “esquerdas unida”, que, paradoxalmente, parte do seu eleitorado deve ter achado demasiado branda, de tal forma que se transferiu para a Iniciativa Liberal.

 

O tribuno da CMTV chegou ao Parlamento enquanto frontispício do Chega! Esta apresentação do partido, com a exclamação acoplada, é todo um programa. É como se toda a indignação acumulada e todo o ressabiamento das caixas de comentários e das mesas dos cafés e das colectividades estivessem representados numa espécie de emoji carregado de exasperação e veemência. Agora que chegou ao hemiciclo, o populista extremista pondera abandonar a universidade mas não a televisão. É que a televisão “não é uma profissão mas é algo que é importante para nos darmos a conhecer ao público”. O académico prescinde do convívio com as elites privilegiando as epístolas televisivas ao povo como complemento da sua acção parlamentar.

 

O taciturno acordou entristecido e decidiu informar Portugal desse estado. Os portugueses, sobressaltados, acotovelaram-se para se inteirarem do estado de alma de Cavaco Silva e perceberam que o professor interrompera a hibernação para colaborar activamente na acção de despejo de Rio. E que aproveitara para defender a importância da “pluralidade de opiniões”. Se há legado de que Cavaco Silva se pode orgulhar é precisamente a forma como sempre estimulou o livre debate e tolerou magnanimamente a dissensão…

 

Impusera a si próprio o silêncio. O tempo era dos partidos. Mal cessou o sufrágio, impaciente, regressou o Presidente para ocupar espaço político e liderar a agenda mediática. Abordou pela enésima vez a questão da sua reeleição e adicionou a questão da sua saúde, aparentemente de forma (como diria António Costa) inopinada. De tal forma que teve de vir esclarecer que não estava em causa nada de grave. Tenho pena que a entrevista ao Alta Definição não tivesse ocorrido depois do cateterismo. Se assim fosse, Daniel Oliveira poderia inovar e terminar o programa perguntando a Marcelo: “O que dizem as suas artérias?”

 

Imagem: Inimigo.publico.pt

A RAINHA SENTADA NO TRONO DA SUA VOZ

Outubro 06, 2019

J.J. Faria Santos

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A Variety chamou-lhe “uma das quatro melhores vozes do mundo” e a New Yorker achou-a “uma coisa muito especial”. Actuou nos melhores palcos, incluindo locais míticos como o Mocambo, o Lincoln Center ou o Hollywood Bowl, e cantou ao lado de nomes como Nat King Cole, Eartha Kitt ou Lena Horne. Conheceu vedetas de cinema como Jane Powell, Danny Kaye ou Anthony Quinn e estrelas do mundo da música como Édith Piaf, Charles Trenet, Gilbert Bécaud ou Plácido Domingo. (Orson Welles considerou que era “excepcional assistir a um espectáculo dela”.) Privou com figuras das letras como Ernest Hemingway, Marguerite Yourcenar e Pablo Neruda, que lhe dedicou um poema cuja segunda estrofe reza assim: “Te quiero sólo porque a ti te quiero, / Te odio sin fin y odiandote te ruego, / Y la medida de mi amor viajero, / Es no verte y amarte, / Como un ciego”.

 

Amália Rodrigues, ícone de Portugal e vedeta do mundo, esteve sempre no ponto de intersecção onde a portugalidade se unia ao cosmopolitismo e a tradição se encontrava com o vanguardismo. Lucidamente dizia: “Talvez eu não seja criadora, mas quando canto estou a inventar”. E foi este movimento de apropriação criativa, aliado a uma voz superlativa e a uma capacidade interpretativa notável, que lhe permitiu releituras únicas e intransmissíveis de temas como La Vie en Rose, The Nearness of You ou Summertime. Claro que o fado era a origem, a matriz, algo que lhe moldava a estranha forma de vida entre o funesto e a predestinação. Também aí inovou, com subtis técnicas de corte, recorte e reconversão. Como escreveu António Guerreiro: “Impregnado de consciência trágica, o seu fado tem a substância da tristeza e da perda”(Expresso - Actual 3/10/2009).

 

Vinte anos passados desde a sua morte continuamos com Amália na voz. Como com todos os grandes ídolos, que reverenciámos à distância, vivemos na ilusão de a ter conhecido e acolhemos com entusiasmo mesmo os mais breves vislumbres do seu quotidiano. José Manuel dos Santos, no catálogo da exposição Amália – Coração Independente, descreveu assim um pedaço do mundo dela: “Os serões em casa de Amália eram uma mistura de salão aristocrático, casa de fados, cenáculo cultural, acampamento de ciganos, templo de adoração, gabinete de curiosidades, camarim de intrigas, palco de teatro. (…) E vivia rodeada de gente, cercada de sentimentos, atravessada por vozes, percorrida por ditos, esperada por anseios. (…) Aquilo era uma corte e ele era a sua rainha sentada no trono da sua voz”. Escusado será dizer que, hoje, Amália continua sentada no seu trono e nós permanecemos súbditos leais de uma monarca imortal.

 

IMAGEM: Pormenor de fotografia de José Tudela

O REGRESSO DO INTRIGUISTA-MOR (TANCOS REDUX)

Setembro 29, 2019

J.J. Faria Santos

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“Vais ver que o papagaio-mor não vai falar sobre Tancos tão cedo. O papagaio (…) do Reino não vai falar sobre Tancos tão cedo. Pois, porque eles sabem, aliás o Sá Fernandes já fez chegar à Presidência que eu tenho um email que os compromete. Portanto, eles não vão falar sobre Tancos tão cedo”. Este é um extracto de uma conversa telefónica de Vasco Brazão com a irmã, ocorrida no dia 5 de Abril do corrente ano, que o jornal Sol divulgou. Ricardo Sá Fernandes, advogado do major, negou que o visado nesta escuta seja o PR. O próprio Vasco Brazão terá dito ao Ministério Público que o papagaio-mor “não era necessariamente o Presidente da República”, uma formulação equívoca. E alargou a designação a comentadores como José Miguel Júdice, Marques Mendes e Miguel Sousa Tavares.

Vasco Brazão é uma figura que se apresenta com um certo garbo militar e uma aura de quem se prontifica a sacrificar-se pela nação, mas, ao mesmo tempo, está contaminado por uma certa duplicidade de carácter que se manifesta na forma como tentou manipular, enquanto fonte, um jornalista ou como elaborou em co-autoria um memorando sem data, sem timbre e sem assinatura. Não inspira confiança.

 

O Presidente da República declarou solenemente e sem margem para dúvidas que “não é criminoso”. Não há como pôr em causa a sua palavra, nem provas nem indícios seguros de que pudesse ter conhecimento do que se passou em Tancos. Só porque é chefe supremo das Forças Armadas não é exigível que esteja a par de todas as circunstâncias e acontecimentos dos três ramos, muito menos interpretar o que lhe escapa como sinal de incompetência ou desatenção.

Na forma tonitruante como decidiu vincar a sua magistratura impoluta, o analista político tomou de assalto o Presidente e fez jus à sua pretérita (?) fama de intriguista-mor da nação. Ao contrário de Rio, Marcelo não se poderia indignar contra o Ministério Público (separação de poderes oblige), e ao mesmo tempo deve-lhe ter parecido conveniente pôr as fontes de Belém a insinuar uma manobra de diversão governamental. E nem faltou a ameaça da retaliação, pois as “fontes de Belém” apressaram-se a aludir a “uma estupidez política” que poderia ter custos para o primeiro-ministro. Para defender a honra pessoal não é necessário construir uma teoria de conspiração. Os mal-intencionados até poderão ver nesta manobra um expediente para disfarçar uma intervenção pouco subtil na campanha eleitoral. Rui Rio já insinuou que concorda com a alusão de David Justino de que as notícias que envolvem o PR no caso de Tancos terão tido origem no Governo. Ou seja, o PSD já glosa a narrativa de Marcelo. Perdão, sejamos rigorosos, a narrativa das “fontes de Belém”. O Expresso noticiou, inclusivamente, que o Presidente não “atendeu telefonema de António Costa”, porque na quarta-feira estava “furioso com o silêncio do primeiro-ministro”. Portanto, é imprescindível afagar periodicamente o ego presidencial e terçar armas por ele como um vassalo agradecido, doutro modo a retaliação começa sobre a forma do amuo.

 

Que o PS tenha alinhado em teorias de conspiração não é uma opção particularmente brilhante, mesmo se, ao mesmo tempo que fontes do processo afirmam ao Expresso que os investigadores têm a firme convicção de que António Costa não teve conhecimento das ilegalidades de Tancos, no despacho de acusação o Ministério Público se compraz em fazer leituras políticas das motivações dos envolvidos. Já em Belém, as leituras políticas são o pão nosso de cada dia. A coberto do anonimato, há algum entusiasmo (porventura mesmo euforia) quando um dos homens do Presidente declara ao Expresso: “O impacto político deste caso já aconteceu. A maioria absoluta do PS já era. Agora, judicialmente, isto fica para as calendas.”

 

Com a veemência e a incisividade de quem se indigna ou luta pela sobrevivência, Assunção Cristas, referindo-se ao caso de Tancos, intimou os portugueses a reflectirem “se querem ter um governo que encobre crimes, que iliba criminosos, que impede a justiça de funcionar” (é caso para perguntar que espera o Presidente da República para demitir o Governo de forma a assegurar o regular funcionamento das instituições). E rematou, numa alusão a mensagens trocadas entre Azeredo Lopes e um deputado socialista, como quem dá a estocada final: “É legítimo perguntar: então um deputado do PS sabia e o primeiro-ministro não sabia?” Com todo o seu afã em demolir um adversário político, a azougada Assunção não parou para ponderar que esta linha de argumentação (simplista, no mínimo, na procura de um nexo de causalidade) pode ser usada para atacar Marcelo, que ela sempre procurou preservar. Facilmente poderia questionar: “Então o chefe da casa militar da Presidência da República sabia e o Presidente não sabia?”

 

Escassos dias depois de ter lamentado o “julgamento nas tabacarias e nos ecrãs de televisão” (“Dá-se cabo das pessoas”, argumentou ele numa intervenção pungente, vista como símbolo da sua genuinidade), Rui Rio aproveitou a acusação do processo de Tancos para comunicar ao país que é pouco provável que o primeiro-ministro não tivesse sido informado do encobrimento pelo seu ministro da Defesa. Quando se referiu ao PR, no contexto da divulgação das escutas a Vasco Brazão que poderiam indiciar que Marcelo estava ao corrente da novela de Tancos, Rio defendeu que “as notícias carecem de ser comprovadas” e que Portugal precisava “de uma protecção evidente ao órgão que é a Presidência da República”. Se o facto do líder do PSD não se preocupar em “proteger” o primeiro-ministro é compreensivel, já se entende menos a forma frívola e meramente proclamatório com que presume o grau de conhecimento de outrem sobre determinada matéria sem se preocupar com a fundamentação. E ainda afirmou: “(…) eu nunca poderei dizer mesmo se ele sabia ou não”. Desde quando uma insinuação equivale a um questionamento político?

 

A direcção de informação da TVI emitiu uma nota a repudiar a forma como vários dirigentes do PSD (incluindo o seu líder) insinuaram que a notícia em que o Ministério Público envolvia o PR no caso de Tancos se trataria de uma cortina de fumo gerada pelo PS. Ora, tendo a TVI sido a primeira a noticiar o facto, considera esta imputação “insultuosa”. A nota lembra que esta informação “acabou confirmada pela acusação pública do processo”. E numa frase particularmente relevante, “a TVI assegura que a imputação que o PSD e outros responsáveis políticos [sublinhado meu] estão a atribuir à origem desta notícia é falsa, infundada e difamatória”.

 

Uma mistura de desleixo, informalidade, espírito de corpo perverso, rivalidades patéticas e falta de sensibilidade política tornaram o episódio caricato do desaparecimento e do posterior “achamento” das armas em Tancos numa espécie de comédia manhosa de Hollywood. A dignidade do Estado e a honra da instituição militar exigiam outro zelo dos protagonistas institucionais.

 

Imagem: "Natureza-morta com Gato e Papagaio" de Yuri Gorbachev (Courtesy of Bert Christensen)

 

GENTE QUE NÃO SABE ESTAR NO SEXTA ÀS 9

Setembro 24, 2019

J.J. Faria Santos

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O programa da RTP 1 Sexta às 9 regressa aos ecrãs apenas a 11 de Outubro. A direcção de informação fala de ajustes na programação em função do período eleitoral, mas o crítico Eduardo Cintra Torres diz que existe uma “servidão voluntária” perante o Governo e uma “fonte do canal público” disse ao Sol que “é notório o desinvestimento no programa”, sugerindo que não é apreciado por pôr “em causa o poder”. A revista Sábado, no seu sítio na Internet, é de uma subtileza tal que coloca a ilustrar uma notícia acerca desta matéria uma fotografia onde Maria Flor Pedroso (directora de informação da RTP) se prepara para cumprimentar com dois beijinhos (oh! O afecto, a proximidade) o primo António Costa (sim, são familiares, que infâmia!). Não importa que o programa tenha exibido ao longo da sua existência reportagens incómodas para o poder socialista (na formulação da Sábado, “repleto de casos envolvendo o Governo”). Não se supõe admissível que duas pessoas ligadas por laços familiares possam manter a sua integridade pessoal e profissional e a sua liberdade de pensamento. (Dever-se-á considerar que Fátima Campos Ferreira conduziu tendenciosamente o Prós e Contras porque tem um irmão até há bem pouco tempo deputado do PSD?) Até parece inconcebível que familiares (por exemplo: Jaime Gama e João Taborda da Gama, Adriano Moreira e Isabel Moreira) possam ter posições políticas diversas. A Flor está mancomunada com o Costa! Essa é que é essa!

 

Rui Rio foi, na passada quarta-feira, o convidado do programa Gente Que Não Sabe Estar. A entrevista conduzida por Ricardo Araújo Pereira era para ter a duração de 10 minutos, mas acabou reduzida a cerca de sete minutos. A conversa em tom descontraído estava a correr bem ao líder do PSD, que brilhou com uma tirada bem-humorada em que revelou ser fã do programa “até porque a alternativa era estar a ver o Marques Mendes”. O abrupto final terá sido motivado por necessidades imperiosas de programação, ou mais exactamente de contraprogramação. Como explicou o próprio apresentador na altura, “vem ai uma novela ou o que é”. No frenesim da luta pelas audiências era imprescindível que o episódio de Na Corda Bamba começasse a ser exibido primeiro que a Nazaré da SIC. Esta é a versão mais ou menos estabelecida. Claro que a mim ninguém me tira da cabeça que isto foi uma forma canhestra de sabotar o Rio. É que o Sérgio Figueiredo, director de informação da TVI, é amigo de Mário Centeno (com ele viveu “momentos inesquecíveis nas lutas estudantis”), o ponta de lança da ofensiva socialista. O Figueiredo está mancomunado com o Centeno! Essa é que é essa!

 

Imagem: mag.sapo.pt

 

O FUTURO QUE NÃO QUEREMOS

Setembro 17, 2019

J.J. Faria Santos

Num período de quinze anos, um governo militar apoiado pela Rússia toma o poder na Ucrânia, Donald Trump envia um míssil nuclear na direcção de uma ilha artificial chinesa provocando dezenas de milhares de mortes, uma crise bancária conduz a uma nova recessão, a Grécia sai da União Europeia, a Hungria entra em bancarrota e no Reino Unido a populista Vivienne Rook, que no ano anterior defendera a retirada do direito de voto a quem tivesse um Q.I. inferior a 70, alcança o poder em 2027. Em breve aplica-se na perseguição aos seus oponentes e, em resposta a catástrofes naturais, pressões migratórias e actos de sabotagem que resultam em pessoas deslocadas a necessitar de acolhimento e apoio material, contratualiza com empresas privadas “campos de concentração” para receber os pobres e os doentes.

 

A primeira-ministra Rook (Emma Thompson em grande forma) trata de explicar a uma audiência de potenciais candidatos à gestão destes campos que eles foram inventados pelos ingleses na Guerra dos Bóeres. Eram locais com excesso de lotação, pestilência e proliferação de doenças. E acrescenta com candura: “Por um lado era lamentável. Por outro lado, apropriado. Porque ocorreu uma selecção natural, e a população dos campos controlou-se a si mesma. Podem chamar-lhe negligência ou podem chamar-lhe eficiência”.

 

Em Years and Years a envolvência político-económica serve de enquadramento às desventuras da família Lyons, abordando as circunstâncias da monoparentalidade, da infidelidade, da deficiência, do activismo político, do desemprego ou dos conflitos geracionais. A questão migratória é particularmente desenvolvida, com contornos dramáticos, e o tom de distopia futurista é assinalado pela adolescente que se assume como trans, sendo que aqui o trans é de transumana (planeia fazer o upload da consciência para a Cloud) e não de transgénero. A ascensão de Rook segue o guião habitual dos populistas, explorando os receios do homem comum, debitando proclamações indignas sob a capa da coragem, apresentando o insuportável como incontornável e apontando o isolacionismo como solução, o cordão sanitário que nos salvará.

 

Years and Years é uma das mais estimulantes séries do ano, com a habitual competência técnica da BBC (em parceria com a HBO) e interpretações inexcedíveis. A vertiginosa sucessão dos anos e dos acontecimentos mundiais é contrabalançada pela atenção aos dramas íntimos, sempre pontuados por sensibilidade e sentido de humor, apelando aos valores comuns contra o isolamento. E sublinhando que as irredutíveis escolhas pessoais têm sempre consequências, porque a liberdade tem um preço.

 

Years and Years está disponível em hboportugal.com

 

SIMPLISMO E SIMPLICIDADE

Setembro 10, 2019

J.J. Faria Santos

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Quando era mais nova, Miuccia Prada sentia-se envergonhada. Parecia-lhe incongruente que nela coexistissem a esquerdista (membro do partido comunista italiano) e a feminista com a criadora de moda. Por outro lado, confessou em entrevista à Vanity Fair de Setembro, na cabeça dela estava tudo ligado, “a moda, a arte, a cultura, a política”. Esta doutorada em ciência política, que faz a apologia da diversidade em tempos de nacionalismos emergentes, explica que as suas novas colecções abraçam o propósito de “explicar a complexidade de uma forma simples, porque as pessoas não têm tempo, têm demasiado informação – mas há algo de negativo nisso. Até onde se pode simplificar sem se cair no risco de dizer nada?”. Eis, colocado de forma cristalina, o grande dilema dos tempos modernos – o risco de saber tudo e nada perceber. Sobrevalorizar a simplicidade até ao simplismo. Confiar na síntese, no lide da notícia, na manchete. Sucumbir ao clickbait, Associar a complexidade a uma conspiração das elites para nos manter sob o seu domínio.

 

Peter Lindbergh, o fotógrafo de moda recentemente falecido que no princípio da década de sessenta do século passado, enquanto frequentava a Academia de Belas-Artes de Berlim, preferia materializar a inspiração que Van Gogh lhe despertava em vez de “pintar os retratos obrigatórios e as paisagens ensinadas nas escolas de arte”, tornou-se conhecido, na formulação da BBC, “pelo retrato a preto e branco simples e dramático”. Adversário confesso do Photoshop e de maquilhagens exuberantes, Lindbergh defendia que a ausência da cor aproximava as suas imagens da realidade porque não apagava as imperfeições, o que estava de acordo com o que ele considerava “a grande responsabilidade dos fotógrafos do presente, libertar as mulheres, e em última análise toda a gente, do terror da juventude e da perfeição”. Numa entrevista à revista Art Forum, em Maio de 2016, explicou que retocar uma fotografia era “retocar a verdade pessoal de cada rosto”. Como se pode verificar pela fotografia de Meghan Markle para a capa da Vanity Fair de Outubro de 2017, a preto-e-branco ou a cores, Peter Lindbergh procurou estar sempre no ponto de intersecção da simplicidade com a verdade, numa indústria em que o artifício é frequentemente confundido com o sublime e com o vanguardista

A BELEZA DO CONSUMO QUE NOS CONSOME

Setembro 03, 2019

J.J. Faria Santos

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Não deveríamos já ter aceitado que a imperfeição é inerente à nossa condição humana? Porque escolhemos ser escravos de modelos de Beleza que assentam num totalitarismo da representação do corpo (tonificado, jovem, bem proporcionado), e utilizamos procedimentos que agridem esse mesmo corpo? Contentamo-nos com o efémero, imortalizámos os momentos em que teremos sido irremediavelmente belos, como se isso nos conferisse um estatuto de vedetas de cinema num filme inesquecível? Já para não falar nos que se entregam a operações plásticas em série, ou sucessivos procedimentos estéticos não invasivos, com o intuito de preservar uma juventude que fatalmente se esvairá. Muitas vezes este tratamento do corpo como um work in progress produz resultados tão disformes que é caso para nos interrogarmos se aquela determinada pessoa se reconhece naquilo em que se transformou. Onde começa a nossa compreensível e saudável necessidade de auto-estima e bem-estar e começa a obsessão patológica?

 

Em História da Beleza, Umberto Eco refere-se “à luta dramática entre a Beleza da provocação e a Beleza do consumo” que terá sido travada no século XX, com esta última a prevalecer nas últimas décadas, descrevendo-a como “os ideais de Beleza propostos pelo mundo do consumo comercial”, ou seja, os mass media. Eco escreveu que os meios de comunicação não apresentavam “nenhum ideal único de Beleza” e dava exemplos dessa diversidade: “a Beleza negra de Naomi Campbell e a nórdica de Claudia Schiffer”, “a mulher fatal de muitas transmissões televisivas ou de tanta publicidade e a rapariga água-e-sabão à Julia Roberts ou à Cameron Díaz” ou ainda a “Beleza máscula e refinada de Richard Gere” por comparação com “o encanto frágil de Al Pacino e a simpatia proletária de Robert de Niro”. O que é certo é que aquilo que o autor designou de “politeísmo da Beleza” pode ainda prevalecer, mas é indesmentível que um certo arquétipo de corpo magro e modelado permanece como ideal inatingível. Talvez fosse avisado meditarmos no facto do verbo consumir poder significar usar ou comprar, mas também corroer ou destruir.

 

Pode este desejo de supressão de defeitos existentes (ou a sua percepção enquanto tal) com vista a atingir um determinado padrão estético aproximar-nos da condição de “máquina”? Podemos imaginar um futuro não muito distante em que gozemos de uma maior longevidade, e em que a nossa mente seja actualizada como um software e a substituição de peças de hardware seja tão comum como um reboot? Ian McEwan, em Máquinas Como Eu e Pessoas Como Vocês, imaginou não uma aproximação do homem ao modelo máquina mas precisamente o inverso, e ficcionou um triângulo amoroso entre Miranda, Charlie e Adam, o “modelo altamente avançado de ser humano artificial” que o segundo adquiriu por 86 mil libras. Eram necessárias dezasseis horas para ficar completamente carregado e fazer download de actualizações de preferências pessoais. Este engenhoso e talentoso protótipo, bem como os restantes 24 exemplares, acabaram por ser confrontados com limitações inesperadas e angústias quase humanas. É que, como explica Alan Turing (resgatado à morte por cortesia da ficção) a Charlie, os humanos artificiais “não estavam devidamente equipados para compreender o processo de decisão dos seres humanos, a forma como os nossos princípios são pervertidos pelo campo de forças das nossas emoções, as nossas inclinações peculiares, como nos enganamos a nós próprios (…) Não conseguiam compreender-nos, porque nós próprios não nos compreendemos.”

 

Quando recebera Adam, e o retirara da embalagem envolvido em cartão e esferovite, Charlie ficara agastado com o conjunto de procedimentos necessários para o pôr em funcionamento. Confessa que “pensava que ele ia chegar já completamente ajustado. Definições de fábrica – um sinónimo contemporâneo de destino”. Já nós, humanos impenitentes, tendemos para a insatisfação com as “definições de fábrica”. Queremos ter as melhores competências para o jogo social. Pela mais banal das razões – queremos ser amados e admirados.

 

História da Beleza, direcção de Umberto Eco, tradução de António Maia da Rocha, edição Círculo de Leitores

Máquinas Como Eu e Pessoas Como Vocês de Ian McEwan, tradução de Maria do Carmo Figueira, edição Gradiva

SILLY SEASON: DA RAQUEL RADICAL À ASSUNÇÃO DESBOCADA

Agosto 27, 2019

J.J. Faria Santos

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O SIS estará de prevenção, atento a actos que possam “alterar ou destruir o Estado de Direito”. A Brigada de Minas e Armadilhas está a postos. E tudo graças à coragem e ao desassombro de Raquel Abecasis, que acaba de denunciar no jornal Público que foi apresentado ao país um “cocktail explosive”. Afiança ela que “o que está prontinho a explodir é a nossa sociedade”, que a ideia subjacente ao despacho governamental 7247/2019 (que pretende assegurar a correcta integração e a privacidade de jovens transgénero em ambiente escolar) “é mesmo acabar com todas as bases da nossa sociedade”. Pouco importa que o despacho determine princípios gerais e dê liberdade de acção às escolas, ou que os directores destas e as associações de pais não demonstrem qualquer apreensão. O arsenal argumentativo de Raquel Abecasis provém da convicção arreigada (que parece desdenhar factos e alimentar-se de dogmas), com origem nos mesmos quadrantes ideológicos que viam na liberalização do aborto ao mesmo tempo uma chacina de inocentes e um livre-trânsito para a licenciosidade, e na introdução de conteúdos de educação sexual na escola o princípio da transformação dos estabelecimentos educativos em cenários de filmes para adultos. No fundo aquilo que o líder da Juventude Popular, Francisco Rodrigues do Santos, chama de “hipersexualização dos jovens” promovida por uma “ideologia de género”. Quando o combate político dispensa a racionalidade, perde o sentido das proporções e aposta no alarmismo o resultado é penoso para os seus promotores.

 

Num artigo de Vítor Matos no Observador em Março de 2018, onde se comparava o estilo de liderança de Paulo Portas com o de Assunção Cristas, concluía-se que esta última, no Parlamento, “em vez da oratória, recorr[ia] a outro trunfo: a agressividade”. E de facto, a líder do CDS foi acusando sucessivamente o primeiro-ministro de mentir e ser incompetente, de não ter honestidade política nem frontalidade. Até que vieram as eleições europeias. Aturdida pelo resultado, suavizou o discurso e solicitou conselhos de coiffure. Só que, como Freud explicou, as emoções não expressas nunca morrem e evoluem mais tarde para formas mais radicais ou menos polidas. Que se manifestam mesmo no interior da própria família política. Acossada num conselho nacional do CDS por Luís Gagliardini Graça, opositor interno membro da Tendência Esperança em Movimento, a líder do partido tê-lo-á mandado “lamber sabão”. Que é como quem diz: “não me chateies”, “vai pentear macacos”, “desampara-me a loja” ou “vai ver se eu estou na esquina”. Resta saber se Assunção Cristas, que deve ter visto a sua íntima esperança em movimento (fugindo a sete pés dela), terá assumido nesta invectivação uma formulação próxima da linguagem dos bairros sociais que ela visita de botas e calças de ganga (“Oh Luís, estás a ouvir? Vai mas é lamber sabão!”), ou se manteve um estilo mais próximo do vestido frutado e do stiletto (“Ouça, não seja caturra. Sabe que mais? Vá lamber sabão. Vegetal, antibacteriano, hidratante, antisséptico ou neutro. Sólido ou líquido, em pó ou em creme, escolha o menino!”)

PLÁCIDO MAS NÃO FLÁCIDO

Agosto 20, 2019

J.J. Faria Santos

 

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“Tens mesmo de ir para casa esta noite?”, repetia ao fim de cada dia de trabalho com a meio-soprano Patricia Wulf o charmoso e fogoso Plácido Domingo (sim, até as vítimas reconhecem o seu encanto), mais uma figura pública a ser acusada de assédio sexual no seguimento da onda #MeToo. É caso para dizer “Também tu, Plácido?” (#YouToo?). Na esteira de um libertino como Don Giovanni, protagonista de uma conhecida ópera de Mozart, o tenor forçava beijos em camarins, segurava afectuosamente as mãos das comensais em almoços de trabalho, acariciava-lhes os joelhos e até se aventurava em regiões demarcadas da intimidade, supostamente protegidas pela saia e pelo imperativo do consentimento.

 

Os testemunhos a que a Associated Press teve acesso, e que jornais portugueses como o Público e o I deram eco, traçam um cenário de contactos persistentes no período nocturno, no decurso dos quais Plácido Domingo se esmerava em demonstrar interesse pela carreira das suas interlocutoras e se apressava a propor encontros privados nos aposentos dele para aconselhamento profissional. Das nove mulheres que alegaram abuso sexual, apenas uma, Wulf, aceitou ser identificada. Convidado pela Associated Press a reagir às acusações, que segundo ele se reportam a situações ocorridas há mais de trinta anos, Domingo considera-as “graves” mas “imprecisas”. Disse-se convencido de que tudo se passara de forma consensual, mas reconheceu “que as regras e os standards pelos quais nos regemos – e devemos reger – hoje em dia são muito diferentes dos do passado.”

 

Nas denúncias, narram-se pormenores picarescos, um deles particularmente ofensivo para a mulher que acabou por ceder aos avanços do tenor por recear que a sua carreira fosse prejudicada. Conforme descrição do jornalista Diogo Vaz Pinto no jornal I, Domingo presenteou a mulher com uma nota de dez dólares, proclamando: “Não quero que te sintas como uma prostituta, mas também não quero que tenhas de pagar pelo estacionamento”. Como quem diz, isto não é uma remuneração-base; trata-se apenas de ajudas de custo.

 

O movimento MeToo, com todas as suas declinações, pode ter introduzido dificuldades acrescidas nas coreografias dos jogos de sedução, diminuindo a espontaneidade e aumentando a necessidade de garantias de consentimento. Como em muitas outras circunstâncias, presta-se a radicalismos e abusos. Porém, é impossível não reconhecer o seu papel de denúncia e libertação, bem como na criação de redes de solidariedade. Há 30 anos (ou há 20, ou há 10), Plácido Domingo não era, apenas e só, um homem viril e impetuoso em busca da satisfação dos seus legítimos apetites; mercê do seu prestígio pessoal e/ou dos cargos que ocupava, detinha o poder de destruir ou potenciar carreiras. E parecia fazer questão de o lembrar às mulheres que cobiçava. A confirmarem-se as denúncias, o tenor pode não acabar como Don Giovanni (consumido pelas chamas do Inferno) mas não escapará a uma censura severa por ter cruzado o assédio sexual com o abuso de poder.

 

Imagem: Wikimedia Commons

 

PREC (PARDAL REVOLUCIONÁRIO EM CURSO)

Agosto 11, 2019

J.J. Faria Santos

 

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O homem fundou a International Lawyers Associated (também identificada como Sociedade PPH) e promete aos clientes o “mais avançado suporte jurídico”. No YouTube, explica que a empresa tem uma abrangência nacional e internacional” (125 advogados distribuídos por 24 países), e oferece-nos uma visita guiada às instalações com o mapa-múndi em relevo na parede e uma fotografia com Marcelo (quem não tem?), ao som de um instrumental intitulado “Creepy”, que pode ser traduzido como arrepiante, sinistro ou bizarro.


Se estranha que Pedro Pardal Henriques se tenha transformado numa estrela em ascensão, apesar de só há dois anos se ter inscrito na Ordem dos Advogados, lembre-se que, para além de assessor jurídico, ele é acima de tudo um influencer e um consultor multimédia. Não se trata de desvalorizar as suas competências no ramo do Direito. É que, a fazer fé nas declarações do bastonário Guilherme Figueiredo ao jornal I, “Criar um sindicato é muito simples: faz-se uma escritura pública de cerca de três pessoas e está criado o sindicato. Aquilo vai para publicação no Boletim do Trabalho e do Emprego e já começa a funcionar.”


É certo que Pardal Henriques tem um historial profissional algo conturbado (“cometi erros, assumi a responsabilidade moral”, explicou ao Público), mas o passado é um país estrangeiro e hoje ele aparece refulgente a ser disputado por cerca de quinze sindicatos, atraídos pelo seu estilo “oleoso e bem-falante” (na definição de Vasco Pulido Valente). O seu profissionalismo é de tal ordem que não hesita em recorrer ao jargão sindicalista mais radical, sem faltar a clássica alusão à ditadura. Talvez por isso a sua carreira política tenha ficado em stand-by. E ele tenha estado em contacto com “entidades importantes nas conquistas pós-25 de Abril”. Isto é mesmo um PREC (Pardal Revolucionário em Curso).


Com os sindicatos em ebulição, o Governo em modo preventivo a recorrer aos instrumentos de que dispõe e a população a precaver-se contra a escassez de bens, o que ocupa a mente brilhante do nosso Presidente? A necessidade de garantir o abastecimento de bens e serviços com a menor perturbação possível? A salvaguarda do direito constitucional à greve? Protagonizar uma qualquer tentativa de mediação? Nada disto. Segundo o Público, “Marcelo teme que crise faça disparar voto no PS em Outubro”. Deve ser uma questão de prioridades. O analista político tem precedência sobre o Presidente. Como habitualmente, a mensagem foi transmitida por fontes não identificadas. Para poder ser desmentida ou ignorada. É a chamada estratégia vichyssoise. Serve-se fria, claro. Como a vingança e os cálculos políticos.

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