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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

UM OBSERVATÓRIO PARA O OBSERVADOR

Maio 02, 2021

J.J. Faria Santos

Obs_opin.jpgÀ semelhança do Super-homem (É um pássaro? É um avião?), o Observador suscita interrogações: será um projecto jornalístico, “um braço armado de um lóbi empresarial” (Pacheco Pereira) ou uma agremiação de almas privilegiadas que pensam da mesma maneira e embarcaram na missão de evangelizar o povo acerca das virtudes da sua visão do que a direita deve ser? No seu estatuto editorial, o Observador diz que “procura a verdade e subordina-se aos factos”. Como diria o outro, o Observador tem o direito de lutar por “aquilo que acredita ser a sua verdade”. Pena é que, pelo menos no que diz respeito à secção de Opinião, o proselitismo pareça ser muitíssimo mais importante que o pluralismo de ideias. Dificilmente a verdade resistirá a uma perspectiva militantemente unidimensional.

 

Do reaccionarismo bafiento do P. Gonçalo Portocarrero de Almada ao relato íntimo dos bastidores do poder de Maria João Avillez (ela esmera-se em mostrar que frequenta os salões onde se fazem e desfazem carreiras políticas e reputações), passando pela acidez boçal de Alberto Gonçalves, grande parte da opinião é premium, o que confere aquela aura de exclusividade e preciosidade que os grandes tesouros reclamam. No dia 25 de Abril, porém, tivemos direito a um artigo aberto de Suzana Garcia, a rising star do firmamento populista. Anunciando que chegou para “agitar as águas paradas e fétidas da rotina, do conformismo e da indiferença”, Garcia desfere ataques aos “cortesãos da gamela do poder” e desafia José Miguel Júdice, que, segundo ela, “nestes últimos 14 anos tem sido uma das vozes autorizadas do PS” (?) para visitar a Amadora. Diz que tem sido “flagelada” por ele, mas não lhe “guarda ressentimento”. Uma generosidade não extensível à “escumalha”. Em Portugal (e na Europa), defende ela, vivemos um “macarthismo de sinal contrário” e “o problema principal da nossa democracia é o da resistência da elite à mudança”. A elite do Observador abriu-se ao povo e Suzana Garcia foi uma médium ao serviço dos media, canalizando os anseios e as preocupações da gente modesta e verbalizando a sua indignação.

 

Creio que o jornal não tem provedor do leitor. Julgo que seria ainda mais útil a criação de um Observatório do Observador. Com uma orientação editorial tão vincada, nada como um organismo independente que reflectisse acerca dos novos modelos de negócio na comunicação social e dos perigos de enquistamento e alienação da realidade causados pelo encarniçamento ideológico, e que produzisse estudos e análises acerca dos conteúdos da publicação.  O Observador diz que “não perfilha qualquer programa político mas tem um olhar sobre o país e sobre o mundo”. Recriando a epígrafe do Ensaio sobre a Cegueira, será que esse é um olhar que vê? E se vê, repara?

A LIBERDADE É LIBERAL

Abril 24, 2021

J.J. Faria Santos

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Houve uma altura em que a direita era de confiança e mesmo quando não hostilizava o 25 de Abril mantinha uma distância profiláctica. É certo que alguns bravos ainda resistem, como Alberto Gonçalves, colunista “premium” do Observador: “Quero que eles peguem no cortejo, que além de ideologicamente repulsivo é uma foleirada estética, e o levem para longe, onde eu não tenha de ver os cravos nas lapelas ou ouvir as Grândolas da praxe.”  Para o facto de celebrar o advento da democracia e da liberdade lhe parecer repulsivo, não tenho remédio, mas quanto à “foleirada estética”, proponho que pondere a elevação à categoria de kitsch e talvez não lhe pareça tão intragável. Este intróito em tom irónico serve para realçar que, lamentavelmente para o compungido articulista “premium”, há uma direita que diz que o 25 de Abril “é o dia em que foi derrubada uma longa ditadura” e que “nenhuma das liberdades pelas quais os liberais ainda hoje lutam existia antes” dessa data. Por isso, explica Cotrim de Figueiredo, a Iniciativa Liberal “sempre participou, com alegria e convicção, em todos os desfiles que tiveram lugar na Avenida da Liberdade” (in Expresso).

 

A “alegria” da IL ficou toldada com a recusa inicial da Comissão Promotora das comemorações em incluir este partido, o que levou a acusações de sectarismo, por um lado, e de provocação gratuita, por outro. Posteriormente, a polémica amainou e o bom senso prevaleceu, embora o partido liderado por Cotrim de Figueiredo não tenha prescindido do seu próprio desfile. Claramente, não sente que ele seja uma agressão estética, “uma foleirada”, e tendo em conta o seu acervo de cartazes bem-humorados, eu diria que a IL se move bem nos domínios do agitprop. Além do mais, deve sentir que está a quebrar o monopólio da esquerda no mercado das comemorações, o que constitui um estímulo extra. Quezílias à parte, celebremos, pois, a liberdade em toda a sua inteireza e diversidade. Porque a liberdade é liberal: é generosa e tem largueza de espírito, abomina exclusões e só convoca o radical como símbolo do que é essencial e profundo, nunca como fautor da intransigência.

 

Imagem: cd25a.uc.pt

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE UMA CAPA

Abril 18, 2021

J.J. Faria Santos

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Não há nada como um testemunho “explosivo” retirado dos “ficheiros secretos” do BES. Daqueles que ameaçam detonar o regime ou, pelo menos, contribuem para a amálgama de conluio e putrefacção, que constitui, no fundo, aquela coisa de que o grupo Cofina gosta. Embalada pela actualidade do acto de mercadejar o cargo, eis que a Sábado titulou peremptoriamente, servindo-se das palavras de Pedro Queiroz Pereira, que “Salgado usou mulher de Marcelo para o comprar”.

 

Vai-se a ler a coisa (a “investigação”) e o arranque é feito ao estilo de crónica social. Os casais Ricardo/Maria João Salgado e Marcelo/Rita Amaral Cabral foram, durante anos, muito próximos, “passaram férias juntos, no Brasil, e “alugavam barcos na Turquia”. Depois, explica-se que Marcelo fez um ataque aos grupos económicos em 1998 que desagradou ao banqueiro e esfriou o relacionamento. Para “recuperar a relação”, Salgado decidiu “entregar trabalho de cobranças” ao escritório de Rita Amaral Cabral, o que, para Pedro Queiroz Pereira, “era uma forma de comprar o professor Marcelo Rebelo de Sousa”. De seguida, inventariam-se os cargos ocupados pela advogada no BES (primeiro na comissão de vencimentos e depois como administradora não executiva) e apontam-se incongruências e incompatibilidades. Pelo meio, faz-se referência a anotações de Salgado (cuja caligrafia foi “certificada” pelo Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária) entre Fevereiro de 2010 e Julho de 2013, mencionando jantares com “Marcelo” (em Angola e no Brasil) ou “Marcelo-Rita”. Procuram-se indícios do que Marcelo teria “vendido” (influência? Informação privilegiada?) e sinais do comércio e o resultado é zero. Eis uma capa assertiva assente num feeling de Queiroz Pereira, citado na investigação a dizer em depoimento ao Ministério Público: “Isto foi exactamente como lhe estou a dizer, embora não o possa provar.” Faltava a prova, esse maçador imperativo que arruína qualquer brilhante conjectura.

 

“Os títulos jornalísticos não podem ser infiéis aos textos a que correspondem nem sugerir, pelas suas dimensões e localização nas páginas, uma ideia de importância desproporcionada em relação ao real valor das informações que transmitem”, escreveu Daniel Ricardo no seu Manual do Jornalista. Por maioria de razão, aplica-se esta recomendação aos títulos de capa. A revista lá apresenta, no seu frontispício, em letra mais pequena, a reacção do visado, afirmando ser “incomprável”.  Só que o jornalismo do século XXI, tal como entendido pelo grupo editorial que publica a Sábado, é um primeiro esboço da História impregnado pelo ímpeto da revolta e da denúncia, da intuição e do sentimento. E se sentimos, é porque deve ser verdade. A prova é uma excrescência.

DELÍRIO, FANTASIA E DESORDEM

Abril 11, 2021

J.J. Faria Santos

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Que alguém que exibiu um estilo de vida faustoso, com gastos exorbitantes infinitamente superiores aos rendimentos auferidos (para os quais deu explicações que evoluíram da fortuna da família e de um recheado cofre materno até estabilizarem nos empréstimos de um fidelíssimo amigo), que acabou de escutar um juiz de instrução catalogar esses fornecimentos em dinheiro vivo (solicitados em tom imperioso e em código pouco imaginativo) como prefigurando “um crime de corrupção passiva de titular de cargo público sem demonstração de acto concreto”, que acabou pronunciado por três crimes de branqueamento de capitais e três de falsificação de documentos, saia do tribunal e declare que “difamaram durante sete anos um inocente” só pode ser produto de um delírio ou de uma tosca manobra de ilusionismo.

 

Que Ivo Rosa se tenha referido aos diversos argumentos do Ministério Público como “baseados na especulação”, “mera fantasia”, “total incoerência”, ou “total falta de prova”, não surpreende. Não exactamente pelo perfil do juiz, mas sobretudo pela ambição desmedida da equipa chefiada por Rosário Teixeira em compor uma acusação que fosse uma espécie de libelo épico, um fresco da teia de corrupção que envolveria o regime. Tratando-se, por natureza, de um crime de difícil comprovação (em que a prova directa é, regra geral, inexistente), seria aconselhável menos dispersão e amplitude no objecto da investigação. Convencido da ilicitude da origem dos fundos que garantiam a Sócrates um estilo de vida caracterizado pela incontinência de gastos, o Ministério Público achou que bastaria elencar um vasto conjunto de fluxos financeiros, conjugá-los com determinadas datas e relacioná-los com decisões políticas para estabelecer um incontestável nexo de causalidade. Pode ser que o megaprocesso não resulte, como pode parecer agora, numa miniacusação, mas o sentimento de frustração pode prevalecer.

 

A comoção, o pesar e o quase alarme social podem ser manifestamente exagerados. O Tribunal da Relação de Lisboa terá a última palavra acerca de quem irá a julgamento responder por que crimes. Veremos se será contraditado, por exemplo, o entendimento do juiz de instrução no que concerne à inexistência de fraude fiscal. E não esqueçamos que, para o bem e para o mal, citando Francisco Teixeira da Mota, “a procissão está para durar – talvez mais dez ou 15 anos “, sendo que nada pode ser dado como adquirido “quanto ao destino final de redenção ou de cadafalso de cada um dos penitentes”. Aconselha-se ponderação e alguma racionalidade a figuras públicas com responsabilidade cívica. Não se justifica o “coração pesado” da ex-candidata presidencial, nem o apelo do director-adjunto de informação de um canal televisivo para que Ivo Rosa seja posto na ordem (“em seu devido lugar, que é o que ele precisa”). O justiceiro quer a “justiça” a qualquer preço. O justo sabe que o único preço que a justiça deve pagar é o que se associa ao preceito de ser preferível absolver um culpado (quando a prova se mostre insuficiente ou a dúvida irresolúvel) a culpar um inocente. Subverter o processo penal, perante uma avassaladora convicção pessoal de culpabilidade, poderá ser tentador, mas seria abrir caminho à mais abjecta arbitrariedade.

A CULPA É DA VONTADE

Abril 03, 2021

J.J. Faria Santos

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A culpa é da vontade. Da volúpia da política, do gosto pela afirmação do seu poder (que a dessacralização disfarça), da insaciabilidade do ímpeto de cenarização em que a glosada inteligência é viciada. A tal ponto que torpedeia o constitucionalista, que se vê forçado a contorcionismos do género “o direito é que serve a política e não é a política que serve o direito”. A suprema ironia é que entretido a esticar os limites do semipresidencialismo, invadindo disfarçada ou ostensivamente as competências governamentais, Marcelo vê-se agora, a propósito da promulgação das leis que violarão a norma-travão da Constituição, na posição de ser ultrapassado pelo primeiro-ministro na tarefa irrevogável de “cumprir e fazer cumprir” a dita Constituição.

 

Marcelo apostou na popularidade da decisão (no sítio da Presidência a nota sobre o assunto tem o título: “O Presidente da República promulga medidas de apoio social urgentes”), justificando-a com um conjunto de argumentos dignos de um equilibrista em matrimónio com o relativismo à medida do seu superior entendimento. Teve como resultado a suave ironia do primeiro-ministro (mensagem “rica”, “inovadora”, “muito criativa”), acompanhada de uma forte opção pelo recurso à fiscalização sucessiva para evitar um precedente, bem como a condenação de um rol de reputados constitucionalistas (do tom mais suave de Jorge Miranda, que tem as “maiores dúvidas” sobre a promulgação, até à assertiva afirmação de  Vital Moreira de que “ num Estado-de-direito constitucional vale o primado da Constituição, pelo que não pode haver decisão política à margem da mesma, por mais meritória que se apresente, sobretudo se provinda do órgão que tem por missão a defesa da Constituição”.

 

Mas nada há a temer. O controlo de danos já começou. O jornal do regime já publicitou o entendimento do Presidente de que a “recuperação do país implica viabilizar os dois próximos orçamentos” (depois de uma afronta ao Governo, um afago), um conselheiro do Estado já fez a interpretação autêntica das suas palavras e o próprio, a pretexto da passagem dos 45º aniversário da Constituição da República Portuguesa, recordou a “honra de ter participado nessa votação” e na sua “elaboração”. Podemos estar descansados. Até é possível estabelecer um paralelo com a celebração da Páscoa. Grosso modo, ao terceiro dia o constitucionalista “ressuscitou”. Esteve brevemente ausente numa espécie de faroeste constitucional, mas a culpa foi da vontade. É caso para dizer que quando o Presidente não tem juízo (ou o sacrifica às suas inclinações pessoais, ao prazer lúdico de tentar condicionar Costa), a Constituição é que paga.

 

Imagem: jornaleconomico.sapo.pt

O TEATRO DO MUNDO

Março 28, 2021

J.J. Faria Santos

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“A Europa não é mais do que um enorme leilão, é isso que é, com todos aqueles lugares antiquados. É um grande armazém de saldos ao desbarato (…) Mas um homem não consegue comprar a vida com dinheiro, não consegue comprar uma nova vida quando a sua está no fim.” Vieram-me à memórias estas falas do Papá Pollitt no clássico de Tennessee Williams Gata em Telhado de Zinco Quente enquanto meditava nas vicissitudes do processo de vacinação na União Europeia. Depois do regateio dos preços e da ligeireza na negociação do cumprimento dos prazos de entrega, só faltava falhar na missão de salvar vidas, as tais que o dinheiro não compra, mas que a solidariedade europeia pode ajudar a preservar.

 

A dada altura, a Winnie da peça de Samuel Beckett Dias Felizes diz: “As palavras abandonam-nos, há alturas em que as palavras nos abandonam. Até elas…(…) E o que havemos nós de fazer, então…até que elas voltem? Pentearmo-nos se ainda não o fizemos, ou se não temos a certeza…cortar as unhas, se elas precisarem de ser cortadas…É assim que se vence o tempo.” É capaz de ser um bom conselho. Emudecidos pelo desgosto, pelo espanto, pela ira ou pelo desplante dos outros, provavelmente nada mais avisado que recorrer às tarefas comezinhas do quotidiano, enquanto fazemos um intervalo profiláctico das inquietações do mundo e relativizamos as grandes proclamações de quem toma o desejo por realidade. Foi o que me ocorreu quando li que o comissário europeu para o Mercado Interno, Thierry Breton, afirmara que “no dia 14 de Julho temos possibilidade de conseguir imunidade [contra a covid-19] a nível do continente.” Chamou-lhe, é certo, uma “data simbólica”, mas nem isso lhe retira o carácter de proclamação ao estilo da taróloga Maria Helena.

 

É uma questão de princípio, de reputação, de honra. Se nos indignamos com a tibieza com que o Estado português terá actuado  no caso da venda das barragens pela EDP à Engie (nomeadamente no que diz respeito à tributação do imposto de selo), e com os expedientes de “capitalista sem capital” que permitiram a Alfredo Casimiro controlar a Groundforce, não devemos desvalorizar o episódio que envolveu a estilista americana Tory Burch e a camisola poveira (apresentada como Baja inspired Sweater) e também a semelhança óbvia de um serviço de loiça com a cerâmica da Bordallo Pinheiro. Ainda para mais num país, a América, conhecida pela forma aguerrida como denuncia fenómenos percepcionados como “apropriação cultural”. Citando as palavras que Shakespeare pôs na boca de Hamlet: “Ser verdadeiramente grande não consiste em comovermo-nos apenas por uma grande causa, mas em encontrarmos grandeza no objecto do valor de uma palheira quando a honra nisso está empenhada”.

 

Imagem: www.cm-pvarzim.pt

UMA VACINA CONTRA A IRRACIONALIDADE

Março 21, 2021

J.J. Faria Santos

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Pandemia. Epidemia de medo. Risco de ruptura na confiança. Irracionalidade. O princípio da precaução é louvável, mas implica uma acção subsequente empenhada e credível, doutra forma a sombra da suspeita inquinará o ambiente. Reafirmada a segurança da aplicação da vacina da AstraZeneca, urge sossegar as inquietações da população de forma inequívoca e com clareza, sendo certo que nenhuma terapêutica é imune a efeitos secundários e a própria vida não é uma actividade de risco zero.

 

De resto, esta espécie de estigmatização da vacina da AstraZeneca não tem suporte em dados ou evidência científica. Segundo informação recente da reguladora britânica dos medicamentos, de um total de 9,7 milhões de doses desta vacina foram registados 30 casos de formação de coágulos, ao passo que de 11,4 milhões de doses da vacina da Pfizer foram detectados 38 casos.

 

Em entrevista ao Expresso, o virologista Pedro Simas explicou que “Há uma estimativa no Reino Unido de que uma pessoa em cada mil sofre um acidente tromboembólico por ano. O que, à escala, indica que são esperados anualmente em Portugal 10 mil episódios deste género e nos grupos de risco a frequência é ainda maior. Portanto, é sempre provável e intuitivo que surjam casos destes coincidentes com a vacinação.”

 

É evidente que a decisão de suspender a inoculação tomada por inúmeros países teve sobretudo um cariz político, impulsionado pelo efeito dominó. Mesma na ausência de provas científicas a estabelecer um nexo de causalidade entre a toma da vacina e os efeitos de formação de coágulos ou hemorragias, tornou-se imperioso um compasso de espera para reavaliar os efeitos adversos e, sobretudo, responder ao clamor social.  É provável que a precaução possa redundar agora num cepticismo alimentado pelo receio ou pelas teorias da conspiração. Compete aos políticos e às entidades responsáveis pela Saúde restaurar a confiança, inclusive pelo exemplo, optando e/ou publicitando a toma da vacina da AstraZeneca (Merkel anunciou que a vai tomar, Macron idem e Costa diz aguardar ansiosamente a segunda dose).

 

A partir do momento em que os organismos e as instituições competentes nos garantem a segurança e as vantagens da vacinação,  se comprometeram a estudar e a monitorizar os efeitos adversos graves e, como prevenção e alerta, elencaram um conjunto de sintomas que implicam ajuda médica imediata, seria irracional e infinitamente mais perigoso recusar a inoculação. Uma espécie de vacina contra a irracionalidade poderão ser as palavras do epidemiologista alemão Dirk Brockmann, no sentido de que “é 100 mil vezes mais provável morrer de Covid-19 do que por causa da vacina da AstraZeneca”.  Há uma diferença essencial entre o medo, a prudência e a tolice. Neste caso, a tolice pode matar.

LULA E A DERROTA DA JUSTIÇA (MORO)SA

Março 14, 2021

J.J. Faria Santos

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Por decisão de um juiz do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Lula da Silva viu anuladas duas condenações e readquiridos os seus direitos políticos. Aqueles que não confiaram na justeza do julgamento político e se socorreram da subversão da Justiça para o afastar das eleições presidenciais, viram agora reforçadamente exposta a sua estratégia justicialista e os seus atropelos ao Estado de direito. A subsequente carreira política de Sergio Moro já tinha tornado evidente a motivação por detrás da sanha persecutória, mas a divulgação pelo The Intercept Brasil de comunicações telefónicas em que este se permitia fazer sugestões e dar instruções aos procuradores desvendou um clima de promiscuidade, falta de senso e manifesta parcialidade. Citando Francisco Teixeira da Mota, em artigo no jornal Público, Moro “conduziu os processos exorbitando dos seus poderes como juiz e estabelecendo um verdadeiro conluio com o Ministério Público, inaceitável num Estado de direito”.

 

É habitual associar o legado mais negativo dos mandatos de Lula ao eclodir do esquema de corrupção associado à Petrobras. Não pretendendo minimizar a gravidade do caso, seria oportuno meditar se não será ainda mais relevante a brutal desigualdade social que caracteriza a sociedade brasileira e, sobretudo, a latente ou explícita aversão de uma certa classe média à promoção da igualdade de oportunidades. Na opinião do sociólogo Adalberto Cardoso, para uma dada classe média alta “as classes baixas interessam como servidoras das classes médias. São garçons, atendentes, serviçais domésticos etc. Gente que deveria estar ali para servi-las, não para ocupar o mesmo banco que elas no avião, tomar o mesmo vinho, comer a mesma comida.” Esta visão utilitarista e despersonalizadora da condição humana, esta desconsideração em nome da preservação dos privilégios e do status quo, é verdadeiramente ignominiosa e inaceitável numa sociedade democrática que deve incentivar a mobilidade social.

 

Imagem: 24.sapo.pt

PSD - DUPLO IMPACTO

Março 07, 2021

J.J. Faria Santos

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O emocionante reality show que tem deixado o PSD ao rubro atingiu um pico de frisson com a candidatura do Carlos à Câmara de Lisboa. Antes de decidir, auscultou a opinião de Marcelo S. e de Paulo, o epidemiologista honoris causa que estava ocupado a preparar quadros e gráficos para a sua exposição no Infarmed, perdão, na TVI. Desconhece-se o que terá dito o seráfico Paulo, mas Marcelo S. não se mostrou entusiasmado, fazendo notar ao candidato que perderia o seu lugar na Gulbenkian (então e que tal fazer realçar a nobreza do serviço público?) e que poderia entrar em choque com o Pedro (em quem Marcelo S. deposita dickensianas grandes esperanças de fazer ressuscitar a direita).

 

Pedro e Carlos foram, em tempos, muito próximos. Acontece, porém, que ao primeiro desagradou que o segundo desatasse a elogiar António C. e a geringonça enquanto era comissário europeu. Quer dizer, postura institucional, sim, mas nada de exageros. O que é de mais, diz o povo (e diria, por exemplo, Jerónimo) é moléstia. Ao Carlos, por seu turno, soou a desplante que Pedro o tivesse convidado para apresentar um livro e fizesse questão de esclarecer que se pudesse prescindir de Maria Luís no Governo tê-la-ia nomeado comissária europeia. Uma afronta que, sei lá, se fosse comigo me levaria a abandonar a casa, enfim, o edifício onde decorria o lançamento da obra. Por conseguinte, em vez de telefonar antes, telefonou-lhe depois. Assim como quem diz: só telefono para dizer que me vou candidatar.

 

Entretanto, Rui, de temperamento germânico e irascibilidade nortenha (ainda esta semana avisou que os que “começam a portar-se menos bem podem ser rapidamente postos para o lado”), que estava empenhado em gerir a seu modo este trunfo, viu-se na contingência de ter de efectuar uma manobra de recurso. Como ele explicou às distritais do partido, era preciso antecipar o anúncio porque Marcelo S. (uma inesgotável fonte, a bem da nação) dera com a língua nos dentes e a notícia do candidato a Lisboa já estava nos jornais (esse sector de actividade comparável às fábricas de sapatos ou de móveis).

 

Pouco tempo depois de Rui ter anunciado a candidatura de Carlos, o Pedro cancelou a sua participação numa iniciativa da INSEAD. A aparição não ocorreria no cimo de uma azinheira, nem sobre as ondas do mar revolto, mas sim num evento online (onde, dizem fontes pouco fidedignas, se preparava para discorrer acerca da inconveniência da aceitação de bonsais por parte de detentores de altos cargos públicos). Mas como, dizem, a política tem horror ao vazio, eis que do seu bunker de alta segurança (impermeável ao bom senso, ao sentido das proporções e ao rigor) reapareceu Cavaco S. a alertar para uma “democracia amordaçada”. Resultado: agora é o vazio que tem horror a Cavaco S.

 

(A fonte principal deste post é o artigo do Big Brother Expresso( "Moedas não ligou a Passos, só a Marcelo"), redigido pelas Big Sisters Ângela Silva e Rita Dinis.)

 

Imagem: Manuel Almeida/Lusa (observador.pt)

A PERSPECTIVA FECHADA DE UMA CARTA ABERTA

Fevereiro 28, 2021

J.J. Faria Santos

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Um grupo de signatários (entre eles, Diana Andringa, Jorge Silva Melo, Maria Teresa Horta, Mário de Carvalho, Tiago Rodrigues e Vasco Lourenço) dirigiu através do jornal Público uma carta aberta às televisões generalistas nacionais, exigindo “uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção” e condenando uma “agenda política, legítima – mas nunca assumida – nos canais privados, mas, em absoluto, inaceitável na televisão pública.”

 

O teor desta missiva, nos seus equívocos, faz-me lembrar a falácia recorrentemente propalada de que a esquerda domina a comunicação social, nas redacções e nos espaços de opinião. O que aqui se propala é a tese de sentido contrário, exemplificada pelo “tom agressivo” dos entrevistadores, pelo “estilo acusatório” dos jornalistas e pelos “libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS”. É pena que um texto que propõe reflexões pertinentes tenha aberto o flanco a acusações de intuitos censórios ao condenar de forma enfática o tom e o estilo do escrutínio jornalístico ao poder político.

 

Nota-se uma “excessiva duração dos telejornais?”. Claramente. Os entrevistadores usam, por vezes, um tom “quase inquisitorial”, a roçar a má-criação? Seguramente. Verifica-se uma “omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessadas em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia”? Provavelmente. Já é mais duvidoso que se consigam reunir dados suficientemente objectivos que indiciem uma “agenda política” dos canais privados ou da televisão pública. Mesmo que jornalistas daqueles e desta possam permitir que o rigor e a isenção sejam condicionados pelas emoções, pelas percepções imediatas ou pela sua sensibilidade política. Afinal, somos todos humanos. Ou que critérios editoriais legítimos (mas discutíveis) ditem que espaços de opinião alargados e em horário nobre sejam protagonizados por “ex-políticos” ungidos de um pretenso agnosticismo ideológico. O essencial aqui é confiar no discernimento dos espectadores que, através da multiplicidade de fontes de informação, terão ferramentas para perceber se estão perante um trabalho incisivo, minucioso e competente ou perante uma manipulação sob a forma de um qualquer “encarniçamento” interrogativo ou informativo.

 

Mais importante ainda: é preferível que o escrutínio dos poderes públicos seja feito de forma maximalista (mesmo correndo o risco da injustiça e da insolência gratuita) do que alimentar a suspeita da insuficiência e da conivência em nome de propósitos inconfessáveis e da lesão do código deontológico. É por isso que tendo a concordar com o que Francisco Mendes da Silva escreveu ontem no Público: “A democracia é sempre mais ou menos caótica, cacofónica e inorgânica, e só subsiste enquanto estivermos mais preparados para suportar os riscos do exagero do que os riscos da contenção.” Nada disto inibe a crítica aberta aos meios de comunicação social, desde que se evitem as proclamações definitivas assentes em percepções subjectivas.

 

Imagem: media.rtp.pt

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