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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

EDUARDO LOURENÇO (1923-2020) EM DISCURSO DIRECTO

Dezembro 01, 2020

J.J. Faria Santos

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“Devemos falar de nós como se estivéssemos mortos. Para ter a sorte de algum dia parecermos vivos. Ao menos por comparação com essa morte que nunca contemplaremos. Se a contemplássemos saberíamos então o que é mesmo estar morto. Mas mesmo então não saberíamos o que é ser morto.” (2000)

 

“A mais alta forma de caridade é aceitar a nossa morte porque os outros que nós amamos também morreram.” (2003)

 

“Mesmo entregas de prémios, homenagens, cenas assim, criam-me um enorme stress. Depois de uma delas, das primeiras, estive seis meses sem escrever uma linha. Foi como se tivesse assistido ao meu próprio enterro.” (2003)

 

“Tudo quanto toquei me formou e deformou. Como um búzio desejei guardar o mar dentro de mim.” (1953)

 

“Reveladoras são as nossas atitudes face ao imprevisto permanente que é o mundo e os outros para nós. São os outros quem nos conhece. Ou, pelo menos, são a ponte de passagem para o nosso conhecimento: a ocasião de uma revelação.” (1952)

 

“É fácil escrever sobre o Diabo. É sempre um texto autobiográfico.” (2001)

 

“Entramos na idade da Internet. Próxima etapa: falar directamente com Deus. O que nós fazemos desde que falamos.” (2003)

 

“Nós temos alguns momentos shakespearianos na nossa história, mas alguém tapou esses buracos todos. Não há conflito. Há passividade.” (2010)

 

“De regresso de um passeio breve abro a cancela do jardim e deparo comigo absorto diante do cipreste que projecta a magra sombra no branco da casa. Assim, distraído de mim, no intervalo de nada, descobri num segundo que são as coisas que nos amam e não o contrário. Em silêncio amparam-nos por existir sem ter existência e esta calada vida é um olhar pousado sobre nós. Um aceno sem olhos, um abraço sem mãos. De quem?” (1991)

 

Fontes: Público, edições de 21/04/1996, 11/11/2000, 26/05/2001 e 26/05/2003; Visão de 22/05/2003; Expresso de 30/12/2010.

Imagem: Pormenor de fotografia de Rui Gaudêncio

FALTA DE VISOM

Novembro 29, 2020

J.J. Faria Santos

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A Dinamarca deu ordem para abater 17 milhões de visons. A primeira-ministra prestou declarações de voz embargada e lágrimas nos olhos, e pediu perdão. Ainda que a decisão, apesar de ter sido tomada com uma base legal aparentemente inexistente, tenha uma motivação perfeitamente racional: uma mutação do vírus SARS-CoV-2 encontrada em visons foi também encontrada em cerca de 200 pessoas, pondo em risco a eficácia que uma vacina poderá vir a proporcionar. A primeira-ministra acabara de visitar uma quinta de criadores de visons, os quais revelaram as emoções despertadas por esta razia. Embora para alguém distante destas actividades possa escapar a subtileza da diferença entre mandar abater animais por razões sanitárias ou para esfolá-los para a produção de bens que confortam e embelezam a nossa pele.

 

António Guerreiro escreveu no Público (Ípsilon) que este episódio “faz da Dinamarca uma espécie de Treblinka dos animais”, acrescentando que “com toda a seriedade e sem qualquer ironia, o humanismo é isto: pôr todas as espécies, vivas ou esfoladas, ao serviço do homem.” Como acontece com muitas das medidas que pretendem controlar a pandemia, o impacto económico é significativo: as 1139 quintas de criadores existentes no país empregam cerca de seis milhares de trabalhadores, representando 40% da produção global de pele de visom. A emoção também está aqui, na perda de rendimentos, no golpe sofrido por um modo de vida, mesmo que transitório.

 

Num desenvolvimento inesperado, mas cientificamente explicável, alguns visons, enterrados empilhados a uma altura de dois metros, emergiram das valas comuns. As suas carcaças, quais zombies assintomáticos, graças à libertação de gases proporcionada pelo processo de decomposição, fizeram a sua aparição, como se quisessem evocar uma espécie de monumento ao visom desconhecido, caído na retaguarda da batalha contra a pandemia. À falta de visom na quinta do criador contrapõe-se um cenário em que ele se reergue no cemitério das decisões dilacerantes.

 

Imagem: lifestyle.sapo.pt

O PODER E O ESCRÚPULO

Novembro 22, 2020

J.J. Faria Santos

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Das várias acepções em que a palavra “escrúpulo” pode ser utilizada, destaco duas: “forte sentido moral” e “inquietação de consciência depois de cometer uma falta” (Infopédia). Ao dar a sua concordância ao acordo do PSD com o Chega nos Açores, Rui Rio desvalorizou o primeiro, ao passo que a leveza e o pouco rigor com que o justificou demonstram a ausência da segunda.

 

Em Janeiro de 2018, antecipando o seu mandato enquanto líder do PSD, Manuel Carvalho traçou no Público o perfil de Rio, escrevendo que “há nele uma mistura de convicção genuína na bondade das suas certezas e a crença numa predestinação para grandes feitos”. E acrescentou: “No homem comum que diz gostar de ser coexiste uma ambição que, em conjunto, o tornam ao mesmo tempo temível e frágil, inspirador e banal, visionário e provinciano, solidário e autocrata, austero e demagogo, afável e feroz”. Carvalho via o potencial PSD de Rio como “um partido que vai do centro-direita ao centro-esquerda”, porventura “um saco de gatos onde cabe tudo”, “uma amálgama da qual a personalidade de Rui Rio vai emergir”. Quase três anos depois sabemos que o “saco de gatos” não desdenha confundir-se com a extrema-direita e que o líder demagogo está a eclipsar o austero.

 

E a “amálgama” tornou-se problemática. Como argumentou um conjunto de personalidades (entre elas, Adolfo Mesquita Nunes, Francisco José Viegas, Miguel Esteves Cardoso, Miguel Poiares Maduro e Pedro Mexia) num manifesto intitulado A clareza que defendemos, não é admissível que a direita se deixe confundir com “políticos e políticas que menosprezam as regras democráticas, estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam instituições. A aceitação desta amálgama ideológica por parte das direitas democráticas constitui uma afronta à sua história e o prenúncio de um colapso moral.”

 

Um dos traços característicos das atitudes populistas é o menor grau de confiança nos media, frequentemente encarados como parciais e acusados de propagarem notícias falsas. Eis um aspecto que talvez una os líderes do Chega e do PSD. Thomas Jefferson pode ter afirmado que preferiria “jornais sem governo a governo sem jornais”, mas Rio não se coibiu de considerar, em 2013,  que a comunicação social tem “sido também uma das responsáveis da degradação do regime democrático em Portugal”. No ano anterior, considerando que tudo era permitido aos media, declarava que não era possível “continuar num regime democrático com a comunicação social sem ter balizas para a sua actuação”.

 

E o que balizará a acção de Rio face ao Chega? A entrevista concedida à TVI foi reveladora. “O Chega hoje é uma federação de descontentes, não é bem um partido cimentado”, explicou ele. “O tempo vai obrigar o Chega a ser um partido pela positiva”, prognosticou. O mais provável mesmo é que o ensaio de colaboração com o Chega tenha contribuído para a convicção de Rui Rio de estar mais próximo de ser primeiro-ministro. “Sim, isso acho que sim”, admitiu. É o perfume do poder a tentar abafar o odor a degenerescência moral. A busca legítima da alternância democrática não pode ser feita à custa da degradação do próprio regime.

 

Imagem: sapo.24

 

CONFINADAMENTE DESALENTADO

Novembro 15, 2020

J.J. Faria Santos

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Confrontado com a omnipresença mediática de figuras sem nenhum talento especial ou arte que as enobreçam, com a trivialidade e a encenação bacoca que alastram pelas redes sociais e com a relevância noticiosa atribuída a um partido unipessoal, cujo representante máximo se celebrizou por invocar a toda a hora um sentimento que manifestamente lhe falta, as palavras de Bernardo Soares (in Livro do Desassossego) parecem-me mais actuais que nunca: “Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação”.

 

Há algo de sinistro na expressão “seguidores”, que faz lembrar os stalkers (e a sua fixação patológica nos seus objectos de desejo); é preferível a designação fãs ou admiradores. Idealmente, seria de esperar que os admiradores procurassem notícias acerca da obra e dos projectos dos seus ídolos, porém, nesta época de simulação de proximidade e de encenação da vida privada e da vida íntima, o que desperta a atenção são publicações do género: “fulano revela que está apaixonado”, “sicrano surpreende mulher com viagem de sonho”, “it girl sensual exibe rabo incrivelmente tonificado” ou “modelo seminu mostra as suas tatuagens”. É a vida em directo, as temporadas sucessivas da série da vida irreal, o dia de cada um de nós no star system das nossas existências.

 

Enfadonho, seguramente, mas talvez não particularmente grave, se não nos distrair do essencial. Que é manter a decência e a humanidade em tempos de covid, desalento e já algum desespero, circunstâncias em que um verdadeiro artista (de que não sou seguidor, nem perseguidor, apesar da retórica abjecta que necessita ser combatida) se exibe em toda a sua miséria. O líder do Chega, que Francisco Assis definiu como um “charlatão” que elevou a “patamares quase demenciais” a “tarefa de afirmar tudo e o seu contrário”, concedeu uma entrevista à Lusa onde criticou Salazar porque “atrasou-nos muitíssimo em várias aspectos”. Antes, porém, foram retirados de uma estante no gabinete onde concedeu a entrevista vários livros acerca do ditador. Encenação, palavra volátil. O gesto é tudo para este artista português com um guião inspirado no populismo universal.

 

IMAGEM: "Family Walking Day" de Alena Shymcnenok (courtesy of Bert Christensen)

TRUMP DESINSTALADO

Novembro 08, 2020

J.J. Faria Santos

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Os eleitores, já se sabe, comandam o painel de controlo da democracia. Convencionou-se que o procedimento comummente designado por sufrágio (que inclui a votação por correspondência) termina com a contagem dos votos e a proclamação dos resultados. Num Estado de direito democrático não passa pela cabeça de qualquer candidato com carácter ou noção do ridículo exigir a interrupção da contagem ou a continuação desta ao sabor dos seus interesses ou do seu desgovernado arbítrio. Os americanos escolheram o programa e a figura de Joe Biden e preparam-se para desinstalar Donald Trump.

 

O derrotado estrebucha. Ao seu estilo: grandiloquente, inane e infundamentado. Os seus correligionários dividem-se entre os que defendem a legalidade e os que não resistem ao servilismo e à partidarite aguda. O Conselho Editorial do Washington Post opinou de forma cortante que “A História recordará quem, em tempos perigosos, ajudou a democracia americana – e quem ajudou o Sr. Trump a debilitar a democracia americana”, e que “não há compromisso possível entre a verdade a as mentiras do Sr. Trump”. Já Maureen Dowd, colunista do New York Times, diverte-se a ridicularizar a reacção e a argumentação do candidato derrotado, notando que para quem era encarado como “o génio maligno da manipulação dos media”, berrar que se está perante uma “eleição roubada” porque está “a perder” é manifestamente patético. Seria de esperar, escreve ela, que ele congeminasse algo de “épico”, “uma conspiração grandiosa”.

 

Agora que ele foi eleito Presidente, Maureen Dowd vê na carreira política de Joe Biden a prova de que o escritor F. Scott Fitzgerald estava enganado e que, de facto, existem segundos actos na vida americana. Na política existem momentos que requerem um visionário, um audacioso, um portador do archote da esperança e do dinamismo, mas, noutras alturas, o mais importante é restaurar a normalidade, a dignidade e a compostura. É preciso remover o MAGA (Make America Great Again) e anunciar o MADA (Make America Decent Again). E a decência indispensável conviverá com a grandiosidade possível.

 

Imagem: www.reddit.com

O PÚBLICO, O PRIVADO E A VILÃ

Novembro 01, 2020

J.J. Faria Santos

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O ministro da Saúde belga anunciou que o seu país se encontra no limiar de uma situação em que “já não há controlo sobre o que se passa”. Angela Merkel fala do risco de uma “emergência sanitária” como pretexto para o encerramento parcial de restaurantes, bares e teatros. Em França, responsáveis médicos dizem que o país “perdeu o controlo da epidemia” e falam em “situação crítica”, ao mesmo tempo que Emmanuel Macron decretou um novo confinamento. Boris Jonhson prepara-se para decisão idêntica no Reino Unido. Será caso para dizer, como o director do Expresso, que cada um dos Governos destes países “foi incapaz de se preparar para o dia de hoje”? Ou que “não se percebe tanta incompetência”?

 

Na verdade, e para ser rigoroso, devo clarificar que João Vieira Pereira se referia aos governantes portugueses, mais especificamente à ministra da Saúde, suspeita, aos olhos dele, de sofrer de enviesamento ideológico e de, por conseguinte, embirrar com os privados. Curiosamente, em Agosto, na sua página na Internet, o Expresso citava o Jornal de Negócios, que fazia referência a dados do INE, para titular que o “Estado gasta 41% do dinheiro destinado à saúde com privados”, concluindo que “os privados dependem em larga medida do dinheiro público, seja directamente do SNS, ADSE, Segurança Social ou por deduções fiscais”.

 

Significa isto que não é legítimo criticar as opções ministeriais ou as deliberações da DGS? Nada disso. O dever de solidariedade e de colaboração em tempos de grave crise não pode excluir o escrutínio e a censura. O que não se recomenda são as diatribes simplistas ou destemperadas na linguagem, nem que se caia na ingenuidade de ignorar, citando Pedro Adão e Silva, que “o privado não só não está vocacionado para responder à covid (praticamente não tem vagas UCI) como tem resistido a tratar doentes da pandemia”. Adão e Silva terminou o seu artigo no Expresso de 24/10/2020 com uma espécie de sugestão: “Se o privado quiser contribuir, liberte recursos humanos para trabalharem mais horas no SNS – que está, de facto, melhor equipado e tem mais capacidade para responder à pandemia.” Defendendo uma colaboração activa dos sectores público, privado e social no combate à pandemia, parece-me legítima a opção pelo princípio de que o sector privado é complementar do SNS, competindo a este recorrer aos serviços daquele quando os seus recursos se tornarem insuficientes. Sem esquecer que a eficácia do combate à covid-19 depende muito do comportamento individual de cada um de nós.

 

O que é lamentável é que um desejável espírito crítico coexista, porventura devido à fadiga pandémica, com um relaxamento na linguagem. E que em cada canto se descubra um especialista em epidemiologia ou um ás em gestão de crises económico-financeiras. Só assim se explica que um opinion maker tenha usado “linguagem de carroceiro” (citando Miguel Sousa Tavares) para se referir a Marta Temido, ou que o “coleccionador compulsivo de roseiras antigas e modernas” e pianista das horas vagas que dirige o Governo Regional da Madeira tenha classificado como “quase suicidário” as equipas madeirenses  deslocarem-se ao território continental para a prática desportiva.

 

Imagem: 24.sapo.pt

CORPUS MARCELLUS

Outubro 25, 2020

J.J. Faria Santos

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O Corpo de Deus celebra-se à quinta-feira. O corpo de Marcelo exibe-se à segunda e carrega com o opróbrio durante o resto da semana. Não sei como é que ainda não apareceu nenhuma petição pública, promovida por uma influencer, a exigir um Presidente fit. E que tal a Men’s Health desenvolver um programa de treino que esculpisse o torso presidencial e o exibisse na capa de uma das futuras edições da revista?

 

O Presidente do povo pôs-se à-vontadinha e a elite mediática carregou na prosa, alegando um atentado à dignidade da função, enquanto nas redes sociais se sucediam os memes impiedosos. O episódio deu mesmo origem a um editorial num jornal de referência (Público), no qual Manuel Carvalho defendeu que “a função presidencial se desgasta com estes gestos” e que “a exposição do seu corpo nu é um excesso que atenta ao bom gosto”. Clara Ferreira Alves concorda, usando o plural majestático na sua crónica no Expresso para declarar: “Preferimos os torsos clássicos dos museus”. E acrescenta, sentenciosa, que “um Presidente da República irreverente é diferente de um Presidente da República ridículo”.

 

Durante um certo período da Revolução Francesa foram variando as representações da Marianne, a efígie da República, entre a versão austera e bem-comportada e uma outra irreverente de barrete frígio e peito à mostra. Marcelo Rebelo de Sousa, o mais alto magistrado da nação portuguesa, é a personificação da irreverência. Por osmose, o provedor do povo é o povo. E o povo, desinibido e prático, não se esquiva ao olhar do outro.

 

Podia o Presidente ter evitado o striptease parcial? Podia (e devia), mas a inoculação não teria sido a mesma coisa. Em todo o caso, nada disto justifica tanto alarido. A agenda mediática e o bruaá das redes sociais tornam-se, muitas vezes, extremamente cansativos na sua futilidade. Apetece fazer um intervalo. Apetece declarar, como a jornalista do romance de Ana Margarida de Carvalho  Que Importa a Fúria do Mar, “A vida. Desejo que embrulhe, não é para viver já.”

AINDA NÃO CHEGÁMOS À AMÉRICA

Outubro 18, 2020

J.J. Faria Santos

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“O regime está podre – e Marcelo é cúmplice”, bradou João Miguel Tavares. Um dia antes, no Observador, já José Manuel Fernandes se antecipara, proclamando que “Marcelo é cúmplice de Costa”. Este jornal digital é, aliás, uma fonte inesgotável de opiniões que nos querem escancarar os olhos para o apocalipse que aí vem. “O país caminha, passo a passo, para um buraco”, escreve Sebastião Bogalho. Já Alberto Gonçalves, não só actualiza a demonização - “o dr. Costa foi o pior que podia ter acontecido a Portugal” – (em tempos este ceptro pertencia ao eng. Sócrates…) como faz questão de alardear, retrospectivamente, a sua condição de profeta: “Há exactamente cinco anos (…) previ, porque era fácil prever, que o dr. Costa arrastaria o país para uma ditadura”. Infelizmente, são artigos premium, pelo que se quisermos abarcar a totalidade do pensamento do colunista teremos de despender algum capital, o que se me afigura pouco estimulante em relação a um órgão de comunicação caracterizado por uma unicidade de pensamento que torna a leitura monótona.

 

A receita é a do costume: juntam-se um conjunto de factos que aparentemente traduzem uma tendência, faz-se com eles um amálgama que aparente degenerescência, adiciona-se uma retórica apelativa ou incendiária e está pronto a degustar (desgostar) o prato da indignação do dia. Que importa que não seja suportada pelos factos a noção de que os fundos europeus foram pasto para fraudes em grande escala? Que importa que a percepção de um elevado grau de corrupção não seja depois comprovada com dados reais e objectivos? O que parece relevante são os “factos alternativos” e, sobretudo, as teorias da conspiração.

 

O grande argumento, implícito ou explícito, é o de que o sistema de freios e contrapesos não funciona em Portugal. A grande ironia é que nos EUA, a terra do checks and balances, o Presidente usa a Casa Branca para comícios de reeleição, recorre a organismos do Estado para perseguir adversários políticos, manipula o ministro da Justiça a seu bel-prazer, não hesita em utilizar as forças de segurança em acções de pura propaganda, nomeia juízes para o Supremo numa base puramente ideológica, mente compulsivamente e aparenta ter uma atracção inexplicável por tiranos e inimigos do Estado americano. Já em Portugal, temos “um filme de terror” (João Miguel Tavares). Costa e Marcelo afastaram Joana Marques Vidal! Costa e Marcelo afastaram o presidente do Tribunal de Contas (que o próprio primeiro-ministro nomeara)! O PS, argumenta Tavares, quer controlar tudo, e o “apodrecimento do regime democrático português” tem a cumplicidade de Marcelo. A troco de quê? Do apoio à recandidatura?

 

Certa direita parece acreditar que só sairá de crise se se aproximar do argumentário do Chega, e se acenar a cada instante com o espectro do socratismo. E desespera com o tacticismo presidencial, empenhado em tornar evidente o génio com que tenta conciliar o sentido de Estado e o papel congregador e unificador da sua magistratura, o desejo íntimo de criar condições para a alternância de regime que favoreça a sua família política, e ainda as exigências de uma reeleição com um score significativamente superior ao da primeira eleição. Certa direita, até aquela que tem relutância em rotular de fascista ou ditatorial o regime de Salazar, vê agora a ditadura em cada esquina. Não é porque António Costa decidiu, a propósito de uma app, sugerir uma fórmula legislativa disparatada, inaplicável e prepotente que se transformou num ditador em potência. Ainda não chegámos à América, onde o (perigoso) delírio chega ao ponto de um elevado número de apoiantes de Trump acreditarem que membros do Partido Democrata, actores de Hollywood, o Papa Francisco e Angela Merkel (que seria neta de Hitler…), entre outros, fazem parte de uma rede pedófila. E vampiresca, dado que também bebem o sangue das vítimas.

 

Foto: Clara Azevedo (Expresso.pt / Gabinete PM)

 

O CANSAÇO DO NOVO NORMAL

Outubro 11, 2020

J.J. Faria Santos

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Cansaço. Cansaço do novo normal que nos conduziria ao Vamos ficar todos bem (irrealista, claro, mas pronunciado com o seu quê de fé, voluntarismo e superstição). Sabíamos e sabemos que não vamos ficar todos bem, mas ao espalhar a palavra de ordem era como se remetêssemos a fatalidade para o reino dos números, uma contagem estatística que merece o nosso lamento e a nossa comiseração, ao mesmo tempo que nos providencia a ilusão de que os nossos estão a salvo. Como escreveu Albert Camus (A Peste): “O flagelo não está à medida do Homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa, e de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções.”

 

Com os números em modo alpinista, com a implosão do achatamento da curva, irrompe em cada um de nós o epidemiologista, o especialista em saúde pública, o expert em planeamento e prevenção. O espectro de uma ameaça crescente alimenta a descrença na acção das autoridades e a impaciência pelo ritmo do progresso científico, que tarda em materializar-se sob a forma da miraculosa vacina. O que não impede os mais afoitos de se interrogarem se os malefícios e a letalidade do vírus justificam a vida em suspenso. E o cansaço. Oscilamos, pois, como um pêndulo bipolar, entre a disciplina que o receio inculca e a rebeldia que o nosso desejo de liberdade instiga. Não custa reconhecer como é difícil gerir o equilíbrio entre a acção responsável e o eventual comportamento de risco (por desejo ou necessidade), que se quer calculado.

 

O cansaço acabará derrotado pelo instinto de sobrevivência, pela capacidade de resistência à adversidade, simbolizada por aquilo que Camus descreveu como “uma parada de homens e mulheres novos em que pode ver-se essa paixão de viver que cresce no seio das grandes catástrofes”. É necessário que esse cansaço seja transitório e gerível, de forma a mantermos um comportamento responsável, que não ceda ao pânico, mas também não dê crédito a proclamações fantasiosas ou grotescas à la Trump, e que, sobretudo, faça justiça à lição que o escritor francês inscreveu nos derradeiros parágrafos de A Peste – “(…) o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar.”

 

(A Peste de Albert Camus tem edição Livros do Brasil/Porto Editora e tradução de Ersílio Cardoso)

Ilustração:Cartoon de Cristina Sampaio para o jornal Público

 

O RETRATO DE MELANIA TRUMP

Outubro 04, 2020

J.J. Faria Santos

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Consta que Melania não suporta Ivanka. E vice-versa. Referir-se-á à enteada com o epíteto desdenhoso de “a princesa”, a qual retribuirá na mesma moeda, apelidando a madrasta de “o retrato”. Retrato, porquê? Porque ela raramente fala. Bom, o silêncio pode ser eloquente. Mesmo que revele somente frivolidade, desinteresse ou um exacerbado sentido de autopreservação. Podemos sempre adicionar o factor decorativo (correndo o risco de engrossar as fileiras do patriarcado repressor e condescendente), mas a verdade é que a senhora Trump nunca mostrou na defesa das causas típicas de uma primeira-dama o empenho que devota à preservação da sua beleza ou à divulgação dos seus fashion statements. A sua figura pública (algures entre a coreografia do poder e o reality show televisivo) semeia, ocasionalmente, sinais de desobediência e rebeldia (um esgar irritado aqui, uma mão recusada ali…), mas tudo pode não passar de um pouco subtil esquema de negociação de privilégios matrimoniais num casamento atípico. Não seria surpreendente que, a destoar da sua beleza exótica, e tal como Dorian Gray, Melania mantivesse escondido num quarto desabitado um quadro que espelhasse a sua mesquinhez interior, onde, para citar Oscar Wilde, “a lepra do pecado devorava lentamente o rosto”.

 

E que comportamentos ou afirmações censuráveis podem ser atribuídos a Melania? Kali Holloway, num artigo para o Daily Beast em meados de Setembro, defendeu que a maneira como ela mente profusamente é a prova da sua semelhança de carácter com Donald, definindo ambos como “centrados nos seus interesses, fabulistas com a mania das grandezas, espalhando falsidades de cada vez que abrem a boca”. Segundo ela, Melania mentiu sobre uma miríade de assuntos, desde as suas habilitações literárias (não se licenciou, ficando-se pela frequência do 1º ano) à quantidade de línguas que fala (supostamente 6, mas ninguém a terá ouvido exprimir-se além do esloveno e do inglês), passando pela sua idade e pelas cirurgias plásticas. Holloway acusa-a de cumplicidade com o marido, ao desvalorizar ou ignorar em Donald o “mulherengo em série, mas também o predador sexual, a mentira patológica e o racismo virulento”.

 

Se Donald tem uma visão transaccional da actividade política, onde o que prevalece é a afirmação do poder e a capacidade de negociação, pode-se dizer o mesmo da primeira-dama, ou não tivesse ela aproveitado o início do mandato presidencial para renegociar o acordo pré-nupcial. E quando em 2015 lhe perguntaram se teria casado com ele se ele não fosse rico, a resposta surgiu sob a forma de outra pergunta: “Se eu não fosse bonita, acha que ele ficaria comigo?” É caso para dizer, parodiando de forma não particularmente original um standard do cancioneiro americano, The Lady is a Trump. Como também nota Kali Holloway, num momento de “transparência acidental”, Melania revelou encarar a sua condição de primeira-dama como uma oportunidade única de lançar “uma marca comercial de base ampla numa múltipla categoria de produtos”. Do mesmo modo que os concorrentes de um reality show amealham reconhecimento e popularidade que depois capitalizam em “presenças” em eventos e outros proventos comerciais, Melania Trump (à semelhança do resto da família, diga-se) viu no mandato do marido sobretudo um gigantesco golpe publicitário. Resta-nos admitir que para presenças em eventos, nada melhor do que um retrato.  

 

Imagem: Wikimedia Commons

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