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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

DA GERINGONÇA À SANTA(NA) ALIANÇA

Fevereiro 19, 2019

J.J. Faria Santos

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O tempo político acelera. Multiplicam-se as perplexidades. Desafiam-se ideias feitas, reconstroem-se perfis, deslocam-se as peças no tabuleiro de xadrez. 112 pré-avisos de greve foram entregues desde 1 de Janeiro, uma enormidade face aos 260 do ano transacto e às 85 greves sectoriais registadas em 2015. Mas, afinal, não foi este Governo que reverteu diversos direitos perdidos durante o consulado de Passos, e não tem ele o respaldo dos partidos de esquerda, o que supostamente corresponderia a um apaziguamento da conflitualidade social? O problema, explica Assunção Cristas ao Expresso, é que “isto está pior do que no tempo da troika”, designadamente na Saúde. E, no entanto, em 2018, o SNS contou com mais 601 médicos e 1252 enfermeiros, e o número de consultas aumentou, quer nos centros de saúde quer nas urgências hospitalares, apenas se registando um ligeiro decréscimo nas cirurgias.

 

A política é também a arte de gerir as expectativas, influenciar as perspectivas e alimentar as percepções. Os efeitos positivos de indicadores como o do défice ou da taxa de desemprego (um indicador de bem-estar social por excelência) não têm equivalência no comportamento do investimento público, aspecto que é estrategicamente relevado pela oposição (mesma a de direita, que tem tendência a desvalorizá-lo). A mera suspeita de que o travão no investimento possa ter reflexo na qualidade dos serviços públicos, contribuindo para a sua degradação, deve merecer a melhor atenção do primeiro-ministro, visto que podem estar em causa as funções sociais do Estado, que devem ser tão vitais para um Governo de esquerda quanto o são as funções de soberania.

 

A fazer fé nos estudos de opinião, os portugueses não se mostram particularmente solidários com as greves nas áreas da saúde, dos transportes, da justiça ou das finanças (68,7% não se identificavam com elas na sondagem de Janeiro da Eurosondagem para o Expresso), nem se mostram adeptos de movimentos inorgânicos do género “coletes amarelos” (na mesma sondagem, cerca de 75% dos inquiridos não encaram essas manifestações como “uma boa maneira de pressionar o poder político”). Tudo isto não significa que os portugueses se sintam plenamente representados pelo leque partidário existente e pelos restantes organismos agregadores de causas e interesses comuns. 

 

Em ano eleitoral, os partidos agitam-se. No mercado da representação política, a oferta aumenta mesmo que a procura soçobre face à descrença ou ao cinismo. O populismo cresce, viçoso ou disfarçado sob a capa da indignação. À esquerda, registam-se deserções em nome do purismo revolucionário abastardado; à direita, novos arautos do liberalismo pretendem aproveitar a alegada “esquerdização” do PSD, enquanto Assunção Cristas ocupa o palco repetindo pressurosa e persistentemente que é a líder da oposição. E até para o “menino guerreiro” a luta continua. A esperança em Santana Lopes, e na Santa(na) Aliança que ele propõe – a geringonça da direita, o bloco de direita – é tal que, imaginem, até a advogada da Madonna é vice-presidente do partido. Melhor do que isto, só a própria Madonna, embora eu não creia que o eleitorado conservador a aprecie assim tanto. Tirando, talvez, aquela facção que se rege pela máxima da virtude pública e do vício privado, para quem a hipocrisia é um sinal de inteligência e de competência social.

 

Há quem ache, porém, que convém não exagerar numa visão ideológica demasiado extremada da disputa eleitoral. Paulo Rangel asseverou em entrevista ao Expresso “que nunca disse que era de direita, mas do centro ou centro-direita”. E em algumas matérias, até chega ao “centro-esquerda”. Mas, para ele, esta discussão “não interessa aos cidadãos”, concluindo: “(…) as pessoas estão em casa a ver se o PSD está dois milímetros mais para a esquerda ou dois milímetros mais para a direita? Os cidadãos querem é respostas para os seus problemas.”

 

O que parece estar aqui em causa é, no mínimo, a explicitação do celebrado pragmatismo do PSD e, no máximo, a desvalorização da política enquanto instrumento ideológico de mediação dos interesses e aspirações dos cidadãos. Parece que a ideologia só é útil para servir de arma de arremesso contra o poder do dia (quando este não é o que Rangel apoia), quando de um púlpito se fazem acalorados discursos contra abstracções como a “asfixia democrática” ou a “claustrofobia democrática”.

 

Imagem: inimigo.publico.pt

O QUE IMPORTA É O INTERIOR

Fevereiro 14, 2019

J.J. Faria Santos

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O que importa é o interior, dizem elas, voluptuosas em vestidos coleantes que esculpem a figura e descobrem a pele, idealmente na exacta medida em que a ousadia se furta à vulgaridade. O que importa é o interior, dizem eles, reluzentes no cabelo com gel, enquadráveis algures entre o protótipo do craque de futebol e o casual chic dos actores de telenovela. O cenário é o de um programa de televisão, sob a forma de um restaurante, onde se pratica a velha arte da promoção da compatibilidade amorosa, o jogo da sedução.

 

Os mais jovens gostam de arvorar maturidade; os mais velhos de anunciar a sua predisposição para a aventura. É compreensível que ambos exaltem o blind date como uma experiência nova a não perder. No século XXI ninguém quer perder experiências novas. Nem sequer os mais velhos. Em poucos minutos descobrem afinidades insuspeitas e reticências disfarçadas. Quase todos desabafam que o homem ou a mulher que lhes calhou não é o tipo de pessoa que idealizaram. O que importa é o interior, claro, mas a carne é fraca e neste repasto com pratos com nomes sugestivos os olhos também comem.

 

O jogo da sedução conta com diversos estímulos que vão desde inquéritos com perguntas sugestivas de escassa subtileza (do género, o tamanho conta?) até  danças sensuais (que não resultam em descalabro porque são redimidas pelo riso), passando por pudicas massagens que facilitam a aproximação física. Mas o que importa é o interior. E de que é que nós ouvimos falar quando se evoca o interior? Exactamente, das assimetrias regionais e da desertificação. Acham deveras que não se aplica a este contexto? Imaginem quantas pessoas não trarão dentro de si um deserto afectivo. Ou quantos e quantas sucumbem aos apetites propiciados pelo centro do seu corpo, perdendo o norte. Ou quantos quererão perder o norte e se recusam a deitar fora a bússola do que é socialmente considerado adequado.

 

A verdade é que o conhecimento do interior é uma tarefa que exige tempo, ponderação, persistência. O exterior é mais imediato, sensorial, artificioso. E não há jogo sem artifício. No final de contas, Oscar Wilde era capaz de ter razão quando escreveu que “ é preciso ser muito superficial para recusar julgar pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível”.

 

Imagem: Courtesy of Bert Christensen

OS BRAVOS DO PELOTÃO CAVACO

Fevereiro 11, 2019

J.J. Faria Santos

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Cavaco diz que Costa nunca fez “voz grossa” contra os “poderosos que ganharam milhões”, nem em relação “aos milhões que voaram da CGD e de outros bancos, nem à corrupção”. É com tiradas deste teor que Cavaco, Ana Rita Cavaco, defende os descamisados enfermeiros da fúria do primeiro-ministro contra as greves “selvagens”. E a bastonária não faz a coisa por menos: a atitude do Governo empurra os profissionais de enfermagem para “situações de abandono de serviço”. Resta-nos esperar que os membros da Ordem dos Enfermeiros continuem empenhados em “não praticar voluntariamente actos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano”, bem como em “manter elevados os ideais da profissão, obedecendo aos preceitos da ética e da moral”.

 

Num perfil publicado na Visão em Outubro de 2017, sob o título “Justiceira ou Incendiária?”, fontes não identificadas do seu próprio partido, o PSD, classificavam-na como “reivindicativa, mas muitas vezes ultrapassa a fronteira e torna-se quezilenta”. Outros ainda reconheciam que “é movida por boas intenções, mas chega a um ponto e perde o bom senso”. Talvez inebriada pelo sucesso do crowdfunding, imbuída de fervor corporativista ou entusiasmada pelo combate político, Cavaco desdobra-se em louvores aos “bravos da greve cirúrgica”. A luta continua! Em nome de um aumento salarial para os escalões mais baixos da ordem dos 421 € e da reforma aos 57 anos com 35 anos de serviço. Que os danos colaterais atinjam os mais debilitados e os mais desfavorecidos não é circunstância que faça demover os bravos do pelotão Cavaco.

 

Imagem: Florence Nightingale

O IMPOSSÍVEL NEM SEMPRE É IMPROVÁVEL

Fevereiro 05, 2019

J.J. Faria Santos

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Porque é que nos prendemos tanto ao conceito de verosimilhança se a realidade desafia essa ilusão a toda a hora? Submetemos tudo a um critério que mede a aparência de verdade, mas essencialmente temos tendência a avaliar as probabilidades de algo ser, ou poder vir a ser, real, palpável, inscrito nas nossas emoções ou no nosso intelecto. Se considerarmos que a verdade é uma espécie de conformidade com a realidade, e que esta é mutável e surpreende a mais prodigiosa imaginação, talvez fosse prudente alterar a nossa propensão para sermos submissos perante a verosimilhança. Será mais gravosa a possibilidade de mergulharmos num lago de plácidas ilusões do que sermos submergidos por uma onda fétida de mentiras que a implausibilidade nos impediu de antecipar?

 

Em entrevista recente ao Expresso, instado a comentar uma afirmação anterior onde explicitara que a literatura por vezes renunciava à verosimilhança para chegar à verdade, Jonathan Littell respondeu à jornalista Luciana Leiderfarb nos seguintes termos: “A literatura não precisa da verosimilhança, a realidade sim. Conhece algo mais inverosímil do que Donald Trump? Era impossível imaginar que alguém como ele, que parece ter saído directamente de um reality show, seria hoje Presidente dos Estados Unidos da América. Era para lá do implausível, mas é a realidade, Por esta razão, a plausibilidade não me interessa muito. A verdade literária sim. É inteiramente de outra ordem.”

 

Se no acto de criação, se no universo da ficção, acolhemos de bom grado as pinceladas de fantasia e improbabilidade, porque não estender essa suspensão da descrença às cenas da vida real? Aprender a esperar o inesperado, mesmo com todo o seu potencial de disfuncionalidade, talvez nos ensinasse a questionar o que damos como adquirido e nos preparasse melhor para combater os que semeiam a discórdia e o conflito enquanto fingem ser os provedores dos nossos anseios.

 

Imagem: Courtesy of Bert Christensen

FAMA SHOW

Janeiro 29, 2019

J.J. Faria Santos

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E que tal transformar um potencial walk of shame num desfile na passadeira vermelha, exibindo luxo e carisma na companhia da it girl Georgina? Correram notícias que Cristiano Ronaldo solicitara uma entrada pela garagem? Deveras? Que crime seria desperdiçar tanto glamour, a menos que fosse para sublinhar o triunfo: uma entrada discreta para uma saída hollywoodesca.

 

Faltaria sempre o suspense. O spoiler era a anunciada sentença negociada: 23 meses de pena suspensa, uma subtracção de cerca de 19 milhões de euros ao seu património (peanuts!). CR7 confessou o crime mas no fundo não é responsável; confiou nos colaboradores (que fizeram planeamento fiscal e forjaram documentos a posteriori).

 

A coisa resolveu-se mais rapidamente que os 90 minutos de um jogo de futebol. Este árbitro ficou-se pelo cartão amarelo. Para cumprir as etapas do argumento cinematográfico standard, faltaria o caminho para a redenção. Mas como o castigo foi relativamente leve, e o crime não foi especialmente censurável aos olhos do português médio, em particular, e dos fãs universais, em geral, o circuito pedonal que o levou da limusina à barra do tribunal e vice-versa foi uma espécie de volta olímpica de consagração que dispensa qualquer penitência.

 

Restam as condecorações, que pressupõem um comportamento regido pelos “ditames da virtude e da honra”. Mas que podem estas excrescências éticas contra o rolo compressor da celebridade planetária? Dispensar-se-ia um exagero de humildade e contrição que o perfil desta celebridade não autorizaria. Mas um módico de discrição e sobriedade seria aconselhável, em vez de um clip directamente saído de um qualquer Fama Show.

 

Imagem: lifestyle.sapo.pt

O PODER DO PUDOR

Janeiro 26, 2019

J.J. Faria Santos

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Estamos mais familiarizados com a censura ao serviço do poder; agora tivemos a variante da censura ao serviço do pudor. Se não foi, pareceu. A Porto Editora omitiu três versos do poema “Ode Triunfal”, de Álvaro de Campos, num manual escolar, explicando a opção com o facto deles conterem “linguagem explícita” e se relacionarem com a prática da pedofilia”. Pediatras, professores, intelectuais e pedagogos de toda a sorte esgrimiram argumentos. Há quem defenda que jovens com 17 ou 18 anos não terão maturidade para compreender a referência à pedofilia, ou que a crueza da linguagem desviaria a atenção da “mensagem” do poema, situação agravada pela falta de tempo para o professor fazer a sua contextualização.

 

A ideia de que jovens com acesso quase irrestrito a plataformas como o Pornhub (para dar um exemplo extremo), com toda a sua oferta tão diversificada, devem ser poupados a versos que referem “automóveis apinhados de pândegos e de putas” é risível. Omitir versos de um poema a pretexto da sua “linguagem explícita” é uma opção hedionda, entre o puritano e o censório, e atentatória da integridade do poema e do poeta. Para citar um outro poema do autor, neste caso a “Saudação a Walt Whitman”: “Que nenhum filho da … se me atravesse no caminho / O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!”.

O MONTENEGRO É UM TIRO NO ESCURO

Janeiro 23, 2019

J.J. Faria Santos

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Não tem a consistência ideológica de Miguel Morgado, a verve e o domínio da linguagem de Paulo Rangel, a experiência governativa e o peso institucional de Carlos Moedas ou a preparação intelectual de Jorge Moreira da Silva. Não se lhe conhecem propostas de acção que o diferenciem do actual líder do partido, nem ideias inovadoras. É por isso que Luís Montenegro é um tiro no escuro. O que é que ele tem que o coloca na pole position dos candidatos a desalojar Rio? A bênção do aparelho partidário (a nomenklatura das concelhias e das distritais), um discurso de oposição incisivo e combativo (que entusiasma os espoliados de 2015) e a chancela de qualidade marcelista (o actual Presidente da República, em 2016, viu nele “qualidades invulgares” que auguravam “grandes sucessos futuros”). O futuro chegará a galope?

 

Só que agora, depois de certificar a qualidade do Montenegro, Marcelo derivou para uma avaliação negativa da sua acção, ou pelo menos, do seu timing. A fazer fé nas “fontes de Belém” que continuam a jorrar no Expresso bastante informação acerca do pensamento e das motivações presidenciais, seria uma “loucura” o PSD entrar numa disputa pela liderança tão perto das eleições. Na verdade, o pensamento marcelista é ambivalente – por um lado ambiciona o reforço da oposição no sentido de uma federação do centro-direita, mas por outro teme os efeitos da instabilidade no PSD, receando que beneficie António Costa.

 

Porém, para Marcelo, mais importante que o Montenegro e o PSD é a sua própria popularidade. É por isso que as suas participações em programas televisivos são justificadas com a necessidade de “manter incólume a ligação ao povo”. Primeiro o povo e só depois as elites. Cáustico como quase sempre, Vasco Pulido Valente escreveu no Público que o telefonema para Cristina Ferreira foi um exemplo de “cortesias de colegas”. E que “quando sair de Belém, o destino natural deste Presidente do Povo é um programa da manhã.” Já uma “fonte próxima” foi de uma candura assinalável em declarações ao semanário Expresso: “Ele pode ter levado pancada de 30 000 pessoas mas a audiência do programa foi de 500 mil. Não foi mau negócio.” Quero acreditar que o Presidente da República tem uma noção bastante mais sofisticada dos negócios do Estado, e um sentido elevado da nobreza do cargo que só perde com elucubrações deste teor. Mesmo que provenham de uma deslumbrada “fonte próxima”.

 

Ilustração: "A Shot in The Dark" de Mel McCuddin

(www.theartspiritgallery.com)

FRIVOLIDADES - DO NOVO SALAZAR AO VELHO MARCELO

Janeiro 08, 2019

J.J. Faria Santos

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Quando o entretenimento namora com a controvérsia e simula aspirar à seriedade analítica o que é que acontece? Nada como entrevistar um ex-condenado avesso ao arrependimento, à democracia e aos direitos humanos, para nos iluminar com o seu “pensamento” acerca da viabilidade e oportunidade de um novo Salazar. Descartados interlocutores de outro calibre (por exemplo, Jaime Nogueira Pinto), o perfil deste Machado (que cortou mais que a raiz ao pensamento…) exigia um estilo de entrevista mais confrontacional (para citar José Rodrigues dos Santos) de forma a evitar a sensação de conivência ou tolerância para com o intolerável. Mas como o Você na TV demonstrou cabalmente, o rating e o share lavam mais branco que a decência. A culpa será da Cristina Ferreira, a desertora, que espoletou esta guerra fratricida. E a defesa da liberdade de expressão o mais inatacável dos pretextos.

 

Uma aparição da Nossa Senhora do Estilo numa discoteca nova-iorquina causou estupefacção dada a proeminência do seu traseiro. Ou como o definiu a Fox News com uma elegância insuspeita, Madonna apresentou-se com um “curvy derrière”. Ao primeiro impacto, a confirmar-se a colocação de implantes nos glúteos, o resultado não parece particularmente lisonjeiro, mas, como a própria rapidamente tratou de esclarecer, não necessita da “aprovação de ninguém” e tem “direito a fazer o que quiser” com o seu corpo. Uma constatação irrefutável. E nem o facto dela ter feito da exposição do corpo e das suas metamorfoses um instrumento ao serviço da sua performance artística dá aos seus admiradores e aos seus detractores um droit de regard sobre as suas opções estéticas.

 

O juiz Carlos Alexandre declarou ter recusado um convite do Nós, Cidadãos! para ser cabeça de lista por este partido nas eleições para o Parlamento Europeu. Esclareceu não pretender qualquer “intervenção política”, mas sentir-se “honrado pelo apelo que vem da sociedade civil”. Sibilino, trata de partir do princípio de que não existe, neste convite, qualquer “aproveitamento” do seu “nome e imagem”, porém, de forma precavida, trata de “repudiar” tal eventualidade. É louvável que o juiz português se mantenha afastado da actividade política. Por todas as razões e mais uma – é que o Nós, Cidadãos! só teve 22 439 votos em 2015. Já o insigne juiz tem um grupo de apoio no Facebook que já congregará mais de 100 000 apoiantes. Curiosamente, é um grupo que inclui potenciais interessados em discutir na TVI a viabilidade de um novo ditador. Quanto ao Salazar original, pode ler-se na página do grupo, “até com as solas das Botas Rotas, era um SENHOR” (sic). Já outro admirador de Carlos Alexandre lamenta que os elementos da extrema-esquerda sejam tratados por “Vossas Excelências” e os de extrema-direita por “bandalhos”. Com toda a probabilidade, o juiz Carlos Alexandre deplorará o aproveitamento que este grupo estará a fazer do seu “nome e imagem”. Não me parece que seja gente com quem lhe apeteça sequer “refeiçoar”. 

 

O chefe do Estado interrompeu uma reunião para entrar em directo via telefone no programa de Cristina Ferreira. Consta que o objectivo foi “estabelecer alguma paridade com o concorrente”, na formulação do jornal Público, tendo como base uma “fonte de Belém”. Marcelo desta vez não fez “avisos” nem mandou “recados”, limitou-se a desejar felicidades à emocionada Cristina. O Presidente dos afectos, omnisciente e omnipresente, prossegue assim a sua carreira de estrela de TV. Quem sabe, talvez numa próxima oportunidade interrompa mesmo uma audiência (a um parceiro social ou a um alto dignitário estrangeiro) para “estabelecer a paridade” entre o público e o privado. Depois do monte do Manel e da casa da Cristina, chegará certamente a vez da Praça da Alegria. Ou não fosse Marcelo o Presidente de todos os canais.

12 PASSAS DE SABEDORIA PARA ENTRAR EM 2019

Dezembro 30, 2018

J.J. Faria Santos

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“Os homens têm sempre alguma coisa de patético, em qualquer idade. Uma insolência frágil, uma audácia temerosa. Hoje já nem sei se alguma vez despertaram em mim amor ou apenas uma afectuosa compreensão pelas suas fraquezas.”

                            Elena Ferrante

 

“As mulheres novas guardam a imagem da sua juventude desde pela manhã; as mais velhas têm de corrigir a impressão que lhes deixou o primeiro olhar do dia.”

                            Agustina Bessa-Luís

 

“Acredito certamente que todos sofremos danos, de uma ou outra maneira. Como podíamos não sofrer, se não existe um mundo de pais, irmãos, vizinhos e companheiros perfeitos? (...) Alguns admitem o dano e tentam suavizá-lo; outros passam a vida a tentar ajudar outros que sofreram danos; e há depois aqueles cuja maior preocupação é evitar mais danos para si próprios, a qualquer preço. Esses são os implacáveis, aqueles com quem devemos ter cuidado.”

                            Julian Barnes

 

“O ódio, tens ainda de aprender, é intelectualmente considerado como a Negação Eterna. Considerado do ponto de vista das emoções é uma forma de Atrofia. E tudo mata, menos a si próprio.”

                            Oscar Wilde

 

“Sei que o amor é um trabalho difícil; temos de sujar as mãos. Se não nos entregarmos, nada de interessante acontece. Ao mesmo tempo, é preciso encontrar a distância certa entre as pessoas. Demasiado perto, e elas dominam-nos; demasiado longe, e elas abandonam-nos. Como as poderemos manter na relação certa?”

                            Hanif Kureishi

 

“Não temos saída: aquilo que nos resta, que é muito pouco, é recomeçar sempre: recomeçar sempre é cansativo. Mas não nos rendemos: não nos rendamos.”

                            José Riço Direitinho

 

“Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou um crime que a alma lhe pede para fazer.”

                            Bernardo Soares

 

“O tempo humano não anda em círculo, mas avança em linha recta. Por isso o homem não pode ser feliz: a felicidade é desejo de repetição.”

                            Milan Kundera

 

“A memória é a nossa encenadora, aquela que organiza a nossa vida. É ela quem escolhe a sequência, o corte, a colagem, a ordem e que, de acordo com o seu talento, faz da mais banal vida um romance.”

                            Isabel Marie

 

“O silêncio é a melhor defesa contra as não-entidades – deixa-as tornarem-se insubstanciais, como um nevoeiro em retirada.”

                            Richard Ford

 

“Na masmorra do coração vivem palavras implacáveis. Nunca se compadecem, nunca perdoam. Estão aprisionadas.”

                            Norman Mailer

 

“O passado tem todo o tempo do mundo. É apenas o futuro que se esgota.”

                            Edward St Aubyn

 

 

Fontes: “Crónicas do Mal de Amor” de Elena Ferrante; “A Ronda da Noite” de Agustina Bessa-Luís; “O Sentido do Fim” de Julian Barnes; “De Profundis” de Oscar Wilde; “Intimidade” de Hanif Kureishi; “O Escuro Que Te Ilumina” de José Riço Direitinho; “Livro do Desassossego” de Bernardo Soares; “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera; “A Criada” de Isabel Marie; “Francamente Frank” de Richard Ford; “O Evangelho Segundo o Filho” de Norman Mailer; “Leite Materno” de Edward St Aubyn.

Imagem: Courtesy of Bert Christensen

OS NOVOS DÉSPOTAS E A LITERATURA COMO ANTÍDOTO

Dezembro 23, 2018

J.J. Faria Santos

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“O déspota da velha guarda”, explica Karl Vick na Time, “recorria à censura”. Já “o déspota moderno, considerando tal acção mais difícil, fomenta a desconfiança nos factos credíveis”. Nem que para tal tenha de recorrer à mais grosseira das mentiras. E como recorda o editor Edward Felsenthal na mesma revista, “a primeira jogada do manual do autoritarismo [é] controlar o fluxo da informação e do debate, que é o que alimenta a liberdade”. Erguer uma firewall que resista às tiradas dos populistas sem escrúpulos, numa altura em que os media tradicionais sucumbem perante a ditadura do clickbait, parece uma tarefa idêntica à de Sísifo, mas é uma premissa irrecusável para a prática de um jornalismo que assegure a divulgação objectiva dos factos. Como afirmou o sociólogo Daniel Patrick Moynihan, citado por Michiko Kakutani num seu ensaio recente, “todos têm direito à sua verdade, mas não aos seus próprios factos”.

 

Em A Morte da Verdade – A Falsidade na Era de Trump (Editorial Presença com tradução de Alberto Gomes), Michiko Kakutani considera que a ascensão do Presidente americano é o culminar de um conjunto de factores que contribuíram para “debilitar a verdade, desde a fusão de notícias com entretenimento, passando pela polarização tóxica que se apoderou da política norte-americana, até ao crescente desprezo populista pelo conhecimento especializado”. Kakutani recorda a comparação entre visões distópicas, feita por Neil Postman em 1985, onde este defendia que enquanto George Orwell em 1984 “temia aqueles que pudessem privar-nos de informação”, Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo receava “que nos brindassem com tantas coisas ao ponto de ficarmos reduzidos à passividade e ao egoísmo”. Parecendo evidente que a abundância de fontes e a febre de viver online nos aproxima do “modelo” de Huxley, a autora considera fundamental não sucumbir à “fadiga do ultraje” que poderá conduzir ao “cinismo” e à “lassidão”. É preciso resistir.

 

Primeiramente, os reality shows destronaram as telenovelas; agora, o fluxo de notícias dos canais por cabo aniquilou os reality shows. A tese é de Michael Hirschorne, explanada num artigo na Vanity Fair de Dezembro (The cable-news addiction epidemic). Graças à indignação ininterrupta com origem na Casa Branca, explica ele, os canais por cabo são o destino dos que anseiam por ver o que se está a passar, “neste caso, ver em tempo real a nossa democracia a implodir”. E todos participam numa ilusão colectiva: a de que se mantêm informados e participam (através do Twitter ou do Facebook) na discussão política. Na verdade, acabam todos arrastados, conclui Hirschorne, para “um miasma de efemeridade e desinformação que os suga para o vortex trumpiano do pós-significado”.

 

Podemos imaginar a literatura na linha da frente da resistência ao assalto à verdade. Michiko Kakutani, no já citado ensaio, argumenta que “se um romancista tivesse engendrado um vilão como Trump (…) provavelmente teria sido acusado de extremo artifício e implausibilidade”. É a realidade a ultrapassar a ficção. Jennifer Egan, a celebrada autora de A Praia de Manhattan, defende na Time que tanto a literatura quanto a democracia se desenvolvem a partir da “pluralidade de ideias”. “Ao lermos e escrevermos”, prossegue, “recordamos a nós próprios o valor da empatia, da subtileza e da contradição”.  E conclui considerando que “a literatura é o antídoto para as distorções cegas – bem contra o mal, nós contra eles – que são exploradas facilmente por aqueles que nos querem manipular”.

 

Imagem: La Verité sortant du puits armée de son martinet pour châtier l'humanité de Jean-Léon Gérôme

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