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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O DITADOR DA TERRA DOS CORAJOSOS E DOS LIVRES

Junho 19, 2018

J.J. Faria Santos

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Donald Trump no fundo apreciava ser um ditador. A tese é da editora do Huffington Post Amanda Terkel, num artigo onde alinhava um conjunto de argumentos que a suportam. E que vão desde a confessada admiração dele por ditadores (Putin, Rodrigo Duterte) ao seu lamento pelo facto de não poder usar as instituições do Estado para perseguir os seus adversários políticos (“lock her up” incitava ele, ainda na campanha, referindo-se a Hillary Clinton), passando pela sua indignação pelo facto de muitos membros da bancada da oposição no Congresso não terem aplaudido o seu discurso do estado da nação. “Não lhe podemos chamar traição?”, questionou ele na ocasião, recorda Terkel.

 

A editora do Huffington Post cita ainda afirmações em que o Presidente americano elogia os líderes norte-coreano e chinês, mesmo nos casos em que ele tenha alegado tratar-se de uma piada, porque considera que elas têm um fundo de verdade. De Kim Jong-un disse Trump: “ Ele fala e as pessoas sentam-se e ouvem-no com atenção. Quero que o meu povo faça o mesmo comigo.” Se é possível detectar um traço autoritário nesta afirmação, a ideia é risível em si mesma, dada a pobreza argumentativa, a manifesta falsidade de muitas das suas afirmações e a as inconsequências e contradições dos seus discursos e acções. Como se pode ouvir atentamente um presidente de cartoon, com uma retórica e um comportamento de jardim-de-infância?

 

Se muitos analistas se entretiveram a estabelecer paralelos entre os perfis psicológicos de Trump e Kim, Tom Sancton, na Vanity Fair e no contexto de uma entrevista a Emmanuel Macron, comparou o Presidente francês ao americano: o primeiro definido como “um culto e sofisticado esteta que cita Hegel nos seus discursos”, dorme quatro horas por dia (trabalhará nas restantes vinte) e casou com uma professora 24 anos mais velha, por oposição ao segundo que prefere os reality shows, vê televisão quatro horas por dia e casou com uma modelo 24 anos mais nova.

 

Podemos divertir-nos com a exibição da ignorância e da incompetência do magnata do imobiliário, mas não devemos menosprezar os sinais de prepotência do populista manipulador. Michiko Kakutani, ex-crítica literária do New York Times que acabou de escrever um livro acerca da falsidade e da mentira na era Trump, declarou à Vanity Fair que ele não apareceu do nada, notando “o quão prescientes foram escritores como Alexis de Tocqueville, George Orwell e Hannah Arendt em relação à forma como os que detêm o poder conseguem definir o que é a verdade.” Esta é a principal razão porque não nos é legítimo optar pelo remédio prescrito por Gore Vidal para certa maleita. Dizia ele. “O sono pesado é a minha defesa natural contra o intolerável.” Temos de estar despertos. Para não acordarmos sob o jugo da tirania, qualquer que seja a forma que ela assuma.

 

OS FAMOSOS

Junho 12, 2018

J.J. Faria Santos

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Já foram a beautiful people, agora basta-lhes ser apenas o people que frequenta lugares onde ocorrem eventos. Pairam acima de nós numa galáxia à parte. Uns pertencem à confraria dos artistas, outros pertencem a uma elite sui generis a quem o reconhecimento da sua notoriedade parece bastar. Abrem as portas de casa às revistas, apresentam os amores eternos de curto prazo e revelam segredos de beleza, ou a beleza dos segredos mal guardados. Partilham “pensamentos” no Facebook (ideias são conceitos demasiado abstractos e complexos para a assimilação dos fâs) e fotografias no Instagram. Mas, sobretudo, elevam o comércio ao estatuto de arte. A arte de vender uma imagem.

 

E o que seria de nós sem as redes sociais e o jornalismo cor-de-rosa? Órfãos da partilha de existências sublimes, privados dos role models de vidas com significado, impedidos de partilhar o pathos das celebridades por altura das grandes tragédias e das pequenas contrariedades. E ignorantes dos seus planos e das suas indignações.

De que outra forma saberíamos que o Malato atacou “violentamente” o PCP por causa da eutanásia (já se terá reunido o comité central para reagir?). Ou poderíamos ver as fotos do Carlos Costa (a “celebridade”, não o governador do Banco de Portugal…) antes “das operações plásticas que o ‘transformaram’ em mulher”? Ou avaliar a afirmação da mulher (não transformada) de um guarda-redes convocado para a Selecção que entende que os jogadores devem continuar a ter uma vida sexualmente activa mesmo em estágio? E quem não quer conhecer a nova “bomba” (que “custa mais de 250 000 €) de Luís Figo? Ou a história de redenção de Dolores Aveiro, que teve um “passado de abandono, fome e pobreza”?

 

Com a mesma acutilância e sede de informar com que nos narra o dia-a-dia dos plebeus, a comunicação social cor-de-rosa move montanhas para nos fazer a crónica das rotinas das casas reais. É por isso que soubemos que a princesa Charlotte amuou nas celebrações do 92º aniversário da bisavó Isabel II. De resto, podemos supor que a rainha encarou a cerimónia com o seu escrupuloso sentido de dever e respeito pela tradição, mas que bem lá no fundo até nem liga grande coisa aos seus aniversários. Como Mrs. Ewing, a protagonista de um conto de Dorothy Parker, pensará que “quando uma pessoa já acumulou várias dúzias da mesma coisa, esta perde aquele raridade que entusiasma os coleccionadores.” Interpretação abusiva e infundamentada? Não faz mal. É que parte do encanto de seguir a vida dos famosos é a sensação de proximidade e mesmo exclusividade. É como se eles actuassem para nós, numa peça em vários actos, em perpétuo improviso e acessível em várias plataformas, com a energia e o glamour de uma produção de Laféria. Grande evento! Grande evento! Esta vida é um grande evento!

 

Foto de Tosin (OfficialPSDs)

DOIS FUNERAIS FICTÍCIOS E UM CASAMENTO REAL

Junho 05, 2018

J.J. Faria Santos

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Funerais e casamentos são fundamentalmente acontecimentos sociais que terminam com despedidas. Para a última morada no mármore frio ou para a lua-de-mel numa exótica ilha tropical. Para os enlutados, as obrigações sociais podem constituir um acervo de afectos que minimizem a dor, mas podem também ser um conjunto de rituais mecânicos quase impessoais. Que conduzem ao desconforto e à exasperação. Yasmina Reza exemplifica bem este ponto ao colocar na boca de uma viúva, na sua obra Felizes os Felizes (Quetzal, tradução de Ana Cristina Leonardo), as seguintes palavras: “- Oh, meu Deus, a ideia de ter de cumprimentar todas as pessoas mata-me. Tudo isto me mata. Este mundanismo. Tudo para esta merda de crematização. De cremação, corrijo-a. – Oh, de não sei o quê, ele enerva-me, esse cangalheiro, com as suas palavras impossíveis!” O cair do pano do espectáculo da vida cria uma espécie de pânico social nesta mulher, que ela compara à própria morte, e a sua ira não poupa sequer o circunspecto mestre-de-cerimónias.

 

David Melrose, criatura saída da imaginação de Edward St Aubyn, tem do alto do seu snobismo e do seu desprezo pelas convenções da classe média, uma visão mais cínica dos funerais. Ao contrário de baronete Nicholas Pratt que os prefere aos casamentos porque “o público é melhor quando alguém realmente distinto morre”, David não aprecia a cerimónia, primeiro porque considera não haver “nada na vida da maioria dos homens que mereça ser celebrado”, e depois porque a duração das exéquias “longe de reacender o espírito do nosso amigo desaparecido, apenas serve para mostrar o quão facilmente se pode viver sem ele.” Fiel à brutalidade dos seus modos, a crueza das suas afirmações espelha a sensação de impunidade que o estatuto lhe confere, e os assomos de magnanimidade surgem como um mero apêndice da apologia da preservação dos da sua espécie. Como quando afirma: “Deveríamos ir apenas a homenagens em memória de inimigos. Além do prazer de lhes sobreviver, é uma oportunidade para tréguas. O perdão é tão importante, não acham?” (Deixa lá, de Edward St Aubyn, publicado por Sextante Editora, tem tradução de Daniel Jonas.)

 

O casamento foi real, em mais do que uma acepção da palavra. Mas foi também uma espécie de conto de fadas, tingido por laivos de ficção, em versão politicamente correcta e socialmente disruptora. A plebeia americana, divorciada e descendente de mãe negra Meghan Markle pode ter tido o efeito de, na síntese da revista Time a um artigo de Afua Hirsch, “finalmente estar à altura de uma Grã-Bretanha multicultural”. O que é que isto significa naquilo que Hirsch denomina de “sistema de classes antimeritocrático e socialmente imóvel na sua essência” é a grande incógnita. Num outro artigo da mesma publicação, Daisy Goodwin explica que “a ameaça real para a monarquia não reside nos seus novos membros pouco convencionais mas sim na indiferença dos súbditos.” Quanto a Markle, Goodwin adverte que não pode ser uma “princesa hashtag”, ou seja, terá de exercer o seu activismo de forma discreta. Um bom conselho, a fazer fé no ditame de Edward St Aubyn de que “nada põe os ingleses mais à beira de um ataque de nervos do que uma mulher com opiniões feitas, a não ser uma mulher que continue a defendê-las.”

PHILIP ROTH (1933-2018) DE VIVA VOZ

Maio 29, 2018

J.J. Faria Santos

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“O sexo não é apenas fricção e divertimento superficial. O sexo é também vingança contra a morte. Não esqueçam a morte. Não a esqueçam nunca. Sim, o sexo também é limitado no seu poder. Eu sei muito bem a que ponto é limitado. Mas, digam-me, há algum poder maior?”

                                                                          

“As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. E durante um ano e meio lutaste para o incorporar. Mas nunca serás inteiro enquanto não o expelires. Ou te livras dele ou o incorporas através da autodeformação. E foi isso que fizeste e te levou à loucura.”

 

“O ciúme infiltra-se. O afecto insinua-se. O eterno problema do afecto, Não, nem mesmo foder pode permanecer totalmente puro e protegido. E é nisso que eu falho. (…) Esta necessidade. Esta perturbação. Nunca passará? Ao fim de algum tempo, já nem sequer sei, pelo que desespero? Pelas suas mamas? Pela sua alma? Pela sua juventude? Pela sua mentalidade simples? Talvez seja pior do que isso, talvez agora que me aproximo da morte também eu anseie secretamente por não ser livre.”

 

“A história é feita de argumento e contra-argumento. Ou impomos as nossas ideias ou alguém no-las impõe. Goste-se ou não, é esse o problema. Há sempre forças contrárias e por isso, a não ser que gostemos imoderadamente da subordinação, estamos sempre em guerra.”

 

“De Sydney a Belém e a Times Square, a recirculação de clichés ocorre a velocidades supersónicas. Não explodem bombas, não é derramado sangue – o próximo bang que ouvirem será o boom da prosperidade e da explosão dos mercados. A mais ténue lucidez acerca da miséria tornada normal pela nossa era sedada pela grandiosa estimulação da maior das ilusões. Ao observar esta produção acelerada de pandemónio encenado, tenho uma sensação de que o mundo endinheirado está a entrar sofregamente nas prósperas idades das trevas. Uma noite de felicidade humana para introduzir barbarismo.com.”

 

(Citações extraídas de O Animal Moribundo, edição Publicações D. Quixote/Leya, com tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, páginas 63, 87, 91, 97 e 124, respectivamente.)

 

A VISITA DO BRUTAMONTES

Maio 22, 2018

J.J. Faria Santos

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“Aprendi que o silêncio é de ouro”, tinha declarado ele ao Expresso. Mas isto foi antes de irromper pelos nossos ecrãs, qual visita inesperada, e encetar um longo, pausado e tenso monólogo em que distribuiu culpas. Aos jogadores que, inconscientes, desafiaram as claques (a clique presidencial); aos accionistas de reputação duvidosa que não reconhecem o seu génio; aos políticos que não mostraram solidariedade; à imprensa que promove campanhas terroristas contra ele; aos adeptos que já não são o seu “exército” (já tinha explicado que nunca tinham comido do “mesmo prato” e já lhes tinha recomendado que chamassem “nomes à família” e não a ele. Mas não é ele próprio, Bruno de Carvalho, que diz que o Sporting é a sua família?).

 

O discurso caótico do (ainda) presidente sportinguista dispersa-se por incontáveis derivações. Vai do acontecimento “chato” e quase trivial (que entretanto sofreu um upgrade para “acto criminoso e hediondo”) para o drama familiar no fôlego de uma frase. Vai da denúncia da manipulação da comunicação social à constatação de que Portugal (nada menos que um país inteiro faz jus à sua grandeza) quer “destruir o seu ‘enfant terrible’”. Como se fosse necessário. É que ele parece programado para a autodestruição.

 

Ele diz que é diferente, “realmente diferente”, que “não tem negócios nem negociatas” e que só quer ser presidente do Sporting. E conclui: “Sou uma ilha deserta linda de morrer no meio do oceano num planeta de um só continente onde toda a gente se conhece.” Ocorre-me que uma ilha deserta pode ser um desterro cruel para um populista demagogo, mas a tecnologia moderna permite a propagação e amplificação das mensagens a partir de variadas plataformas insusceptíveis de serem amordaçadas. Na verdade, o que ele é cada vez mais é um incontinente à deriva, enredado na verborreia inconsequente, esbracejando furiosamente para se manter à tona do mar encapelado.

D. MARCELO I, O AFECTUOSO, E A MEGERA FEMINISTA

Maio 15, 2018

J.J. Faria Santos

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“Ele entrou-me no chuveiro, literalmente”, explicou João Sousa ao Expresso, referindo-se a D. Marcelo I, o afectuoso. “Eu nem no balneário estava, estava dentro do chuveiro. Dei-lhe um abraço e deixei o homem completamente molhado”, penitenciou-se o vencedor do Estoril Open. Empolgado com mais um vitória de Portugal, antevendo o impacto de ter um novo embaixador mais “qualificado e eficiente do que a generalidade da nossa diplomacia”, arrebatado pela performance no court do tenista luso, o Presidente não podia esperar que João Sousa terminasse o banho retemperador. A acção presidencial é assim: com ritmo, presteza, sem barreiras formais. Este não é apenas um Presidente que acha o Tribunal Constitucional muito “imprevisível”, e que prossegue a sua carreira de comentador político by proxy nas páginas do Expresso, utilizando fontes privilegiadas para os seus já célebres avisos e para projectar cenários. Este é o Presidente que pode irromper no quotidiano de qualquer português para o aspergir de afectos a qualquer instante. Inopinadamente, a qualquer hora e em qualquer lugar, perto de si. Mesmo que você não queira. Marcelo Nuno vela por nós.

 

Os afectos são eternos como os diamantes? A menos que sejam quase do domínio do espiritual, como é o caso de D. Marcelo I (primeiro mandato, entenda-se), é evidente que a resposta tem de ser negativa. Fernanda Câncio, em artigo no Diário de Notícias, fez “um juízo ético e político” sobre a conduta de José Sócrates. Nele, acusou o ex-primeiro-ministro de ter instrumentalizado “os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas” e de ter feito da “mentira forma de vida”.

 

A jornalista foi de imediato censurada, a começar pelos seus colegas de profissão. Henrique Monteiro diz que ela fez uma “autodevassa”, que não se pode “gostar de quem bate em quem está no chão” e que é preferível “ficar em silêncio e deixar os outros pensar que somos estúpidos, a falar e confirmar que o somos.” Já Miguel Sousa Tavares carregou na adjectivação: “indecência”, “má educação”, “mau gosto”, “cobardia e falta de carácter absolutos”, “reles comportamento” foram os qualificativos com que brindou Câncio. O argumento de Sousa Tavares resume-se assim: “Se ela (…) não se importava de beneficiar de um estilo de vida luxuoso pago pelo namorado, porque a choca tanto descobrir que também ele era pago pelo amigo?” A questão parece-me simplista e redutora. O artigo de Câncio é assertivo e demolidor para o carácter de Sócrates, mas equilibrado e rigoroso nas imputações que faz. Sousa Tavares, que lhe chama depreciativamente “campeã do feminismo”, parece ignorar que não está aqui em causa a revelação de pormenores íntimos de um relacionamento, mas apenas e só a constatação de uma evidência: Sócrates iludiu todos aqueles que acreditaram na explicação que deu para o estilo de vida que mantinha.

 

Onde Sousa Tavares viu uma feminista deslumbrada pelo luxo descolando do ex-namorado, João Miguel Tavares viu uma feminista subjugada pelos encantos do “mais básico e caricatural macho alfa”. Diz que ela “não sabia que ele era corrupto” (mais um com sentença transitada em julgado…), mas, coitadinha, foi manipulada. Confessado o pecado, o laico colunista prescreve a penitência: explicar como e por que razão se deixou enganar.

 

O mais extraordinário em João Miguel Tavares, cuja coluna no Público tem o título de “O Respeitinho não é bonito”, é que ele escreveu que se houvesse “algum indício forte” contra Câncio “o Ministério Público não teria hesitado em acusá-la”. Porque ela merecia. Porque foi “arrogante nos interrogatórios” e tem a “mania de calar o essencial e vociferar sobre o acessório”. O respeitinho não é bonito? Tem dias…O cancioneiro da Fernanda não agrada ao João Miguel quando ela “é arrogante nos interrogatórios”.

 

O problema é que a mulher vocifera! Até é capaz de ser esganiçada… Podia dar uma entrevista em tom suavemente consternado à Caras ou à Cristina no seu papel de inteligente mulher enganada, ou explicar no Alta Definição o que diziam os olhos dela, oportunamente nublados pela emoção. Mas não… A mulher é saliente, protuberante, vociferante. Levem-na para a praça pública e condenem-na à lapidação. Metaforicamente, claro, que não somos selvagens e a coitadinha foi enganada. Mas não deixa de ser uma megera feminista.

O TRIUNFO DO IMACULADO CONCEIÇÃO

Maio 06, 2018

J.J. Faria Santos

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O tetra não foi treta mas o penta ficou-se pelo tenta. A cavalgada encarnada rumo à hegemonia foi interrompida. A estratégia de Vitória não resistiu à desqualificação do plantel, e a eficácia de Jonas que fará 35 anos no ano 2019 não foi suficiente para alavancar mais um triunfo. A culpa foi do deslumbramento, dizem alguns, quais Brutus preparados para cravar um punhal em César. Não o Júlio César, claro, que esse já não mora aqui. Na verdade, o contestado é o poderoso e absolutista Luís Filipe I. Rui Vitória diz que “não é rato de porão para fugir”, mas a questão é se lhe estarão a preparar uma ordem de despejo. E já que estamos em terreno náutico, tendo em conta os sucessos do passado recente, é manifestamente exagerado tocar a rebate como se o Titanic fosse naufragar, mas talvez seja avisado que a banda não continue a tocar. Pelo menos a mesma música.

 

As ambições sportinguistas sobreviveram à revolta na academia porque os amotinados encontraram amparo em Jesus. Contra o desconcertante destempero emocional do escatológico presidente, foi necessária a resiliência psicológica do treinador, com a flexibilidade táctica de mestre necessária para ser solidário com os jogadores sem se incompatibilizar com Bruno de Carvalho. Os títulos regressaram nesta nova era, mas o mais desejado continua a escapar-se por entre os dedos. Também continua a ser difícil ser profeta na própria terra. Mais ainda quando a fé presidencial (no profeta e/ou nos discípulos) vacila sempre que a sua gula pelo título de campeão sai frustrada. E não é despiciendo que Jesus seja considerado um activo caro e com predilecção por contratações caras. Podemos dar como adquirida a sua competência à la Paula Rego para magistrais pinceladas tácticas na tela do relvado, mas ninguém nos tira a convicção de que parte do segredo está na “pasta”.

 

Não sei se terá sido este (a pasta) o motivo porque não terá rumado a norte. Dizem que foi desejado, talvez depois do fracasso espanhol, talvez depois da vinda do Espírito Santo. O certo é que descartado Jesus e rescindido Espírito Santo, chegou a vez do imaculado Conceição. O dragão estava entorpecido, a sua chama um fogo-fátuo (nas duas acepções da palavra: de labareda mortiça e de glória pouco consistente). “Pasta” não havia, a descrença alastrava, o espírito de grupo soçobrava. No cemitério das ideias ilusórias jazia a convicção de que a organização do departamento de futebol era a essência do triunfo, que qualquer treinador que chegasse percorreria inexoravelmente a rota da vitória. Sérgio Conceição soube integrar e reinventar: jogadores, procedimentos, tácticas. Acima de tudo o mister recuperou a mística.

 

O GOLPE E OS DANOS COLATERAIS

Maio 01, 2018

J.J. Faria Santos

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Não precisamos de uma sentença transitada em julgado para reconhecer o grande golpe perpetrado por José Sócrates contra a democracia portuguesa. Teremos de aguardar o veredicto de um tribunal para apurar da consistência das provas que sustentam uma gravíssima acusação, mas as circunstâncias peculiares que rodeiam a forma como o ex-primeiro-ministro geriu a sua vida pessoal, assente em empréstimos de um amigo para fazer face a gastos comprovadamente exorbitantes, tornaram-no vulnerável a suspeitas e insinuações, contribuindo desgraçadamente para a definitiva percepção populista de uma classe política que não honra as funções que lhe são confiadas e que se apresenta permeável ao aliciamento e à desqualificação do interesse público. Que nas actuais circunstâncias, ele alimente (alegadamente) ambições políticas é do domínio da inconsciência ou do delírio.

 

 

Parece que o senhor Presidente da República fez um discurso enigmático. E que o senhor primeiro-ministro o comparou à arte moderna, inicialmente, para de seguida lhe atribuir sapiência. Ora, Marcelo, que parece não ter sentido de humor (ou revelar pouco poder de encaixe), logo tratou de narrar um oportuno encontro no meio das ondas do oceano com um jovem inteligente e politicamente arguto. Alguém que parece comungar do seu receio pelos “fenómenos de lassidão” e pelas “tentações perigosas”. Mas o que deve ter verdadeiramente irritado o Presidente era o risco de ser comparado ao seu antecessor, um mestre especializado em discursos importantíssimos cujo alcance só era discernido após a descodificação dos cavacólogos. Seja como for, temos de admitir que a sua preocupação com o populismo é actual e pertinente. Basta atentar nestas palavras de um dos directores-adjuntos de um semanário de referência: “(…) quando falamos de partidos políticos estamos, na maioria dos casos, longe de estar a falar de gente séria.” (João Vieira Pereira in Expresso)

 

 

Ricardo Costa, na qualidade de director de informação da SIC, tratou de justificar a exibição de vídeos de interrogatórios de arguidos no âmbito da Operação Marquês. Defendeu com contundência (e bem) que “não dedicar tempo e recursos a este caso é uma omissão jornalística que (…) não tem perdão nem justificação”. Escreveu sobre a missão principal do jornalismo, informar, e sobre o entendimento que tem de que, neste caso, está em causa “a defesa da democracia”. A grande lacuna da sua argumentação reside, afinal e não por acaso, precisamente na exibição dos interrogatórios. É que o tratamento jornalístico dos dados, a sua investigação, sistematização, enquadramento e divulgação dispensariam a ilegalidade. O impacto mediático não seria o mesmo, nem as audiências, mas não lhe chamemos interesse público. A propósito deste assunto, António Barreto explicou que “Não se trata de liberdade de expressão nem de justiça democrática. Nem uma nem outra devem recorrer à indecência.” Já Vicente Jorge Silva chamou-lhe “exemplo acabado de promiscuidade entre o poder judicial e o jornalismo populista, de sarjeta, embora servido com aparências sofisticadas e imaginativas de mise-en-scène.”

 

 

Nem sempre os operadores judiciários pautam as suas declarações públicas pela concisão, justeza e rigor que os seus cargos deviam exigir. Basta evocar as declarações de finais de 2015 do presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas, a propósito da Operação Marquês, afirmando que se José Sócrates “não tivesse praticado actos ilícitos, o processo não teria acontecido". Na altura, instou ainda os portugueses a “decidir se querem perseguir políticos corruptos, se querem acreditar nos polícias ou nos ladrões". Como se vê, numa fase embrionária do processo, ainda sem acusação, muito menos julgamento, o valente Ventinhas já tinha lavrado a sentença.

Felizmente, nos momentos essenciais, há quem se apresente em defesa do due process e do primado da lei. Manuel Soares, presidente da direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, assinou no Público um artigo lapidar (“Julgamentos virtuais nas televisões”). Considerando que a exibição dos interrogatórios na TV “é totalmente irrelevante para a prova da culpa ou da inocência de quem quer que seja”, e que “a encenação audiovisual feita à volta de interrogatórios de arguidos e testemunhas distorce a percepção da opinião pública sobre o valor probatório das suas declarações”, Manuel Soares relembra o que deve estar sempre presente na mente de todos, do jornalista em missão de informar ao magistrado na função de julgar: “o apuramento dos factos não se faz com pedaços de prova. Faz-se com base numa ponderação global e conjugada, sujeita a um contraditório pleno entre a acusação e a defesa.”

PELA HORA DA MORTE

Abril 24, 2018

J.J. Faria Santos

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O ofício de agente funerário está cada vez mais próximo do de um organizador de eventos. É o que diz a canadiana Sherri Tovell, cujos funerais mais recentes de que se encarregou incluíram margaritas, karaoke e entrega de pizas. Celebrar a vida do ente querido mais do que mergulhar na dor da partida. (Consigo compreender as vantagens do álcool numa altura de grande desamparo emocional, embora desconfie do seu efeito no desempenho no karaoke…) Aparentemente, também as pessoas que escolhem a cremação não se contentam com um espalhar das cinzas tradicional; já há quem queira disparar as cinzas para o céu com a ajuda de fogo-de-artifício. Certo é que a tendência a longo prazo é para o incremento das cremações, embora o funeral tradicional com o enterro do corpo prevaleça nos países fortemente religiosos (82% na Irlanda e 77% na Itália).

 

As preocupações ambientais já chegaram à indústria funerária. Até porque um estudo de 2015 concluiu que 60% dos americanos na faixa etária dos 40 anos estariam disponíveis para um enterro verde: sem embalsamação e com uma urna biodegradável. E apesar da sua popularidade crescente, a cremação implica gastos energéticos. Um crematório tradicional atira para a atmosfera 320 kg de carbono, por cada corpo incinerado, o que equivale a uma viagem de carro de cerca de 20 horas. A alternativa é a hidrólise alcalina, que implica dissolver o corpo numa solução alcalina e esmagar os ossos até os reduzir a pó, e produz um sétimo do carbono da cremação tradicional.

 

Estes e outros dados constam dum interessante artigo da Economist, Os Funerais do Futuro, que é um título particularmente apropriado, não só porque aborda as tendências do amanhã numa actividade de baixo risco económico e elevada rendibilidade, mas também porque o futuro de cada um de nós termina (de preferência o mais tarde possível…) com um funeral. O funeral do nosso futuro, que ocorrerá quando já formos passado.

 

O artigo oferece-nos outros vislumbres do futuro já disponíveis no presente. Há ofertas de cremação para animais de estimação, ou verdejantes locais onde estes animais e os seus donos podem coexistir na última morada. Uma startup inglesa, apropriadamente intitulada Ascension, oferece a possibilidade das cinzas serem lançadas nos limites do espaço astral, após uma subida de 30 km a bordo de um balão. Já a SecuriGene, uma empresa canadiana, por 500 dólares utiliza uma amostra de sangue do falecido para produzir uma pequena cápsula com uma amostra de ADN.

 

Claro que na era da vida publicitada nas redes sociais, a morte não poderia escapar ao livestreaming. Cada vez mais funerais são transmitidos em directo na Internet, permitindo a presença virtual de familiares e amigos. Também os vídeos dos funerais e os tributos são cada vez mais populares, explica a Economist. Se o objectivo de Mark Zuckerberg é tornar o mundo mais “aberto e conectado”, se a sua “prioridade tem sido sempre a missão social de conectar as pessoas”, então esta evolução nas práticas funerárias parece indicar que a vida social online não termina com a morte. Até que a morte nos separe? Nunca nas redes sociais. Quem (não) quer viver para sempre?

 

Imagem: "O Funeral" de Jack Butler Yeats (courtesy of Bert Christensen)

RISOS, SORRISOS, CONFUSÕES, EGOS

Abril 17, 2018

J.J. Faria Santos

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António Costa recebeu-o na residência oficial com um sorriso aberto; Mário Centeno riu-se ao fazer-lhe notar que “os chamados neoliberais” agora consideram Keynes o seu deus. Parece que a passagem por Portugal do colunista da revista The Economist conhecido como Charlemagne decorreu sob o signo do bom humor.

O articulista da bíblia do consenso liberal começa por explicar como, após ter perdido as eleições para o PSD (Charlemagne acha confusa a associação de um partido de centro-direita à social-democracia), Costa recusou uma grande coligação ao centro e apostou numa governação à esquerda, perante a incredulidade e a hostilidade gerais. O resultado foi que o céu não desabou, as finanças públicas estão “robustas e saudáveis” e o país caiu nas boas graças dos mercados ao mesmo tempo que reclama o estatuto de “vanguarda da batalha contra a austeridade”. O primeiro-ministro português considerou que as grandes coligações podem ter como resultado o reforço dos populistas por poderem induzir a ideia de inexistência de alternativas reais. E um assessor tratou de acrescentar que o “conflito civilizado” confere vivacidade aos partidos e aos políticos.

Charlemagne nota as qualidades de Costa (que mesmo os oponentes reconhecem), mas frisa a importância da conjuntura externa, das medidas tomadas pelo Governo que o antecedeu e do papel do Banco Central Europeu no mercado da dívida para o sucesso do socialista. E conclui atribuindo em parte o sucesso do Governo apoiado à esquerda ao facto de “não ser especialmente de esquerda”. E porquê? Por estar mais preocupado com “o défice e a dívida pública do que com o investimento e os serviços públicos”.

Talvez a política à portuguesa tenha subtilezas que escapem a Charlemagne. A verdade é que se ele se detivesse a analisar o Governo de Passos Coelho ficaria ainda mais confuso: como definir, nesse contexto, o PSD, o principal partido da coligação? Um partido de centro-direita, dito social-democrático, a conduzir uma política extremada à direita, que colocava o parceiro de coligação, CDS-PP, à sua esquerda, partido que, por sua vez, é de direita mas tem centro na sua designação?

 

A tensão entre liberdade e igualdade está no cerne das distinções ideológicas e da acção dos agentes políticos. Glenda Jackson, actriz com 35 anos de carreira (e dois Óscares) e membro do Parlamento britânico durante 23, regressou agora ao teatro, aos 81 anos de idade. Desafiada pela Time a encontrar similaridades entre a representação e o desempenho de cargos políticos, declarou que “todo o drama tenta essencialmente contar a verdade acerca do que somos” e a “política no seu melhor tenta encontrar a melhor maneira de criar um sociedade na qual haja um igualdade genuína que reconheça que somos todos diferentes”. Inquirida sobre o movimento de denúncia de assédio sexual na indústria do espectáculo, mostra-se céptica em relação ao seu impacto na transformação da vida das mulheres. Interrogada acerca das dádivas do amadurecimento, recusa que a idade traga sagacidade, reconhecendo, pelo contrário, que compreendeu a extensão da sua ignorância. Mas é quando lhe perguntam acerca do tamanho dos egos dos actores e dos políticos que a resposta sai taxativa: “Os egos que eu encontrei no Parlamento não seriam tolerados no teatro nem por 30 segundos”.

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