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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

(SEX)AGENÁRIA - A NOSSA SENHORA DO ESTILO

Agosto 14, 2018

J.J. Faria Santos

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No princípio era a provocação religiosa. A dada altura, perguntaram-lhe: “Não é verdade que tendo tido uma educação católica, a sua condição como mulher só pode ser uma de duas: ou virgem ou puta?”. A resposta lapidar foi: “Sim, tenho consciência disso, mas não entendo porque é que não posso ser ambas.” (Expresso, A Revista, 3/06/1989). O ataque ao tabu manifestou-se quer através de declarações semelhantes (como aquela em que explicou que o seu interesse de menina pelas freiras se dissolveu quando se apercebeu que elas não tinham vida sexual; ou  a que ligava o seu fascínio à representação de Cristo na cruz ao facto de nela constar um homem seminu), quer também pela apropriação de símbolos religiosos como acessórios de moda. Camille Paglia, controversa escritora e feminista, afirmou que “ela reuniu e curou as metades separadas das mulheres: Maria, A Virgem e santa mãe, e Maria Madalena, a prostituta”.

 

Este é o meu corpo, sempre disse ela. O seu instrumento, a sua arma, o seu manifesto. Muito antes das redes sociais, da febre da vida em directo, escancarada, ela geriu a visibilidade da pele, a exposição da sexualidade,  negociou a quebra dos interditos de forma persistente e permanente. Estratégia comercial, provocação gratuita, plagiadora de ícones, proclamaram os indignados. No contexto de uma entrevista à cantora para a Esquire (Setembro de 1994), Norman Mailer estabeleceu um paralelo com um desses ícones: Marilyn Monroe. Escreveu ele: “Os horrores de Marylin ela guardava-os dentro de si; choramo-la porque se deu a todos nós, até estar toda roída por dentro e morrer.” Já Madonna, contrapôs ele, “escolheu, talvez para sobreviver, expor as suas manias. É a mestra severa que nos mostra como tudo é difícil, especialmente o sexo. Mas dá-nos algo que Marilyn nunca nos pôde dar. Demonstra-nos que qualquer verdade humana é perigosa se ousarmos aprofundá-la; lembra-nos que as alegrias da vida se apoiam em vidro.”

 

Acerca da sua relevância artística, Lucy O’Brien escreveu em Madonna, Como um Ícone, biografia publicada em 2007: “Não tem a grandiosidade vocal de uma Billie Holiday ou de uma Ella Fitzgerald, e não marcou uma geração com rock´n´roll cru como Janis Joplin ou Patti Smith, mas é uma presença imponente na música popular graças à sua abrangência impressionante. Como uma gralha cultural, foi buscar as suas influências a milhares de fontes e canalizou-as para uma visão. Só isso é uma obra de arte.” A sua voracidade pela reinvenção e a sua incessante curiosidade pelas vanguardas, ao mesmo tempo que paga tributo ao classicismo, podem ser simbolizadas pelos versos de More, um dos temas que Stephen Sondheim escreveu para ela cantar no filme Dick Tracy: “Never settle for something less / Something’s better than nothing, yes! / But nothing’s better than more, more , more / Except all, all, all”. Eis um verdadeiro tributo à ambição e à exigência.

 

Aos sessenta, a provocação continua. Só pode ser por vocação. Podia adoptar a pose de grande dama da música, etérea e majestosa, mais recatada em sóbrios modelos de alta-costura. Mas não seria a mesma coisa. Norman Mailer, no início da entrevista à Esquire disparou: “Se não soubesse nada sobre si, diria: Bom, é uma senhora…” Instado a clarificar o que seria uma senhora, explicou que “é uma mulher que faz tudo o que as outras fazem, mas com um pouco mais de estilo.” Eis uma definição apropriada para Madonna: a Nossa Senhora do Estilo.

NOITES ESCALDANTES

Agosto 07, 2018

J.J. Faria Santos

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“Tentei dormir na banheira, quedar-me lá com água fria até ao pescoço”, explicou a rapariga a braços com um calor sufocante ao seu enlevado vizinho. Acontece que a torneira estava avariada e pingava perturbando-lhe o sono. Criatura engenhosa e de vastos e admiráveis recursos, logo tratou de enfiar o dedo grande do pé no gotejante orifício para suster o líquido. Seguiu-se um apreciável contratempo: o dedo ficou preso e teve que chamar o canalizador, que apesar de ser domingo foi muito compreensivo e apressou-se a comparecer no domicílio da dama em apuros. Confinada à banheira, esta ficou muito embaraçada porque um estranho ia vê-la sem as unhas pintadas. A rapariga é Marilyn Monroe no filme de 1955 O Pecado Mora ao Lado.

 

As noites escaldantes de Verão são propícias à desinibição. Os amores estivais, provavelmente, têm tanto de superficiais como de genuínos. Como canta Billy Idol em Hot in the City, nestas circunstâncias não há disfarces que ocultem a verdadeira natureza: “For all the dreams and schemes / People are as they seem / On a hot summer night”. Mas o excesso de calor pode constituir um problema.  Cole Porter descreve em Too Darn Hot os constrangimentos provocados pelas condições atmosféricas extremas na actividade amorosa, alegando que já o Relatório Kinsey tinha provado a preferência do homem comum por temperaturas mais baixas. Calor humano, sim, calor atmosférico, não exactamente.

 

Shakespeare escreveu numa das suas peças que com os sonhos de uma noite de Verão se levava a vida dormindo no Inverno. Mas fez questão de frisar que “o que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos”. As pessoas, que se querem para todas as estações, devem estar disponíveis para sonhar. É melhor correr o risco da ilusão, de uma vida no limiar do quase, que ser escravo de uma realidade supostamente imutável e tirânica.

 

Foto: Marilyn Monroe (Courtesy of Bert Christensen)

 

DA DEVASTAÇÃO À DEVASSIDÃO

Julho 31, 2018

J.J. Faria Santos

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Um professor de literatura monta um tripé com um pequeno telescópio, apaga a luz da sala e entretém-se a observar o quotidiano dos habitantes do prédio em frente. Interessa-se pelo que possam esconder, mas também pela medida em que as histórias deles possam mostrar-lhe a dimensão do seu próprio falhanço. É uma escolha, um caminho. Diz ele: “Andar perdido, perdermo-nos em jardins ou em lamaçais, tanto faz: é parte do percurso: mas não se perde quem não caminha.” E muitas vezes o caminho da perdição é a resposta a uma ausência. “Tornarei a minha vida mais devassa para não sentir tanto a tua falta”, promete o professor, escrevinhando no seu diário como se ele viesse a ser lido pela vizinha por quem se apaixona. A devassidão como produto da privação.

 

O Escuro Que Te Ilumina, de José Riço Direitinho (com edição da Quetzal), é um romance com uma amplitude de registos que vai do lirismo romântico à mais desbragada pornografia, numa linguagem que sem se perder em lugares-comuns ou recear quebrar tabus sabe encontrar a justeza em cada termo. Sem recuar perante a abjecção, sem questionar a lei do desejo, sem falsos moralismos. “Porque as almas gémeas não são as que se talham no Céu. Mas as que se esculpem uma à outra em alguma parte dos seus abismos.”

 

É na penumbra dos eclipses emocionais (como Bonnie Tyler canta em Total Eclipse of the Heart: “Once upon a time I was falling in love / But now I’m only falling apart”) que se questionam sentimentos e se refazem afectos. Nesse período de desabamento emocional, muitas vezes se alimenta o corpo para apaziguar a alma. Dizem que vale tudo no amor e na guerra, cenários em que a memória tende a ser difusa. Porque, como explica o professor de literatura a quem J. R. Direitinho atribui o estatuto de narrador: “Por vezes, há traços que não conseguimos já reconstruir: a vida perturba-nos o olhar.”

 

 Imagem: Foto de Helmut Newton (courtesy of Bert Christensen)

PORTUGAL.THE COUNTRY (CENAS DA VIDA LUSA)

Julho 24, 2018

J.J. Faria Santos

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Pode um erro numa chave do Euromilhões conduzir a uma espécie de patologia denominada “insuficiente vontade libidinosa”? Pode, diz o Tribunal da Relação de Lisboa. Em Outubro de 2016, César Augusto viu os números no rodapé do Jornal da Noite da SIC e achou que tinha ganho 156 milhões de euros. Acontece que a chave estava errada e passados 55 segundos a estação televisiva corrigiu o lapso. Mas o mal estava feito. Como explicou a jornalista Natália Faria no Público da passada quinta-feira, o apostador “entrou em depressão profunda”, e o “casamento de 20 anos começou a soçobrar” por causa do desaparecimento “da vida regular íntima” que mantinha com a sua mulher. É aqui que entra a “insuficiente vontade libidinosa”. Quem teria vontade de fornicar depois de ter “perdido” 156 milhões de euros em 55 segundos? A Relação condenou a SIC a pagar-lhe 7500 euros, a título de “lenitivo para a dor moral e desgosto sofrido”. Porque o abalo íntimo provocado pelo défice da libido, esse é impagável e insusceptível de compensação adequada.

 

Era previsível. Parece um remake duma fita clássica. Um filme-catástrofe que evolui para um libelo de denúncia de desonestidade e desvio de fundos. Primeiro, toda a gente (a começar pelo impulsivo e irrequieto Marcelo) exigia rapidez na reconstrução das habitações e apresentava queixa contra a burocracia. Zurzia-se nas entidades que faziam o apuramento das circunstâncias. O Estado falhara no socorro, não podia falhar no ressarcimento possível. Agora, que se suspeita que meio milhão de euros para reconstrução de moradias foram desviados para habitações não prioritárias, lá veio o intrépido Presidente da República exigir que se saiba o que correu mal. É que os “portugueses não podem ficar com dúvidas” em relação à aplicação dos donativos. Como, aliás, não ficaram em relação aos “malefícios” da “burocracia” e ao perigo de queimar etapas. Mas o povo, que é sábio, também compreende que depressa e bem, há pouco quem. Mas não nos martirizemos em demasia, nem tiremos conclusões apressadas acerca da nossa propensão para a vigarice. Veja-se o caso do povo germânico, celebrado pelo seu rigor e organização, que tenta desde 2012 inaugurar o aeroporto de Berlim-Brandenburgo. A dita obra, que começou por ter um orçamento de 2,5 mil milhões de euros e já vai em 6 mil milhões, debate-se com contratempos que vão desde 90 km de cabos com defeito até à escassez de balcões de check-in. No passado mês de Junho, soube-se que o espaço vai servir de parque de estacionamento para as viaturas da Volkswagen que não podem ser comercializadas por aguardarem o processo de certificação na sequência do escândalo da emissão de gases poluentes.

 

Manuel Pinho, ilustre cidadão do mundo, promotor de slogans espirituosos (Allgarve), amante de fotografia e frequentador de celebridades (Nick Knight, Michael Phelps) compareceu no Parlamento na condição de não se pronunciar sobre factos que estão a ser investigados pelo Ministério Público. “Teria o maior prazer em responder a isso. Era muito fácil e até era uma risota. Estou massacrado com esta situação. Mas não posso.”, disse ele. Acontece que a Justiça é lenta. Porquê continuar a submeter-se ao massacre? Porque não explicar já o motivo que justifica que tenha recebido cerca de 15000 euros mensais enquanto estava no Governo? Já nos rimos com os corninhos, mais valia continuarmos com a “risota”. Seria como assistir ao vivo a um episódio dos Donos Disto Tudo. Best of, claro.

Imagem: Wikimedia Commons

O PODER DO HUMOR CONTRA O PODER RISÍVEL

Julho 17, 2018

J.J. Faria Santos

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Sacha Baron Cohen, na pele de Ali G, Borat ou Brüno, sempre praticou um humor corrosivo e transgressor. A sátira aos costumes de uma nação ou a impiedosa desmontagem dos rituais do mundo da moda, por exemplo, parecem ter tido como único limite a sua imaginação para compor quadros hilariantes mas sobretudo ousados na sua concepção e concretização. De tal forma que alguns viram no seu estilo de fazer humor uma mera exploração infinita do efeito-choque.

O último projecto de Cohen, Who Is America?, mesmo antes da estreia provocou reacções adversas de entrevistados como Sarah Palin, quando percebeu ter sido vítima de uma partida do comediante britânico. Palin acusou-o de ter desrespeitado os veteranos de guerra americanos. Cohen respondeu na pele de uma tal Dr. Billy Wayne Ruddick, alguém que “só lutou pelo seu país uma vez quando disparou contra um mexicano que invadiu a sua propriedade”, acusando-a de ter sido atingida por “uma granada de falácias e estar a esvair-se em notícias falsas”.

 

A reacção do Dr. Ruddick apareceu no site Truthbrary (um neologismo destinado a ser o antónimo de um outro neologismo criado a partir de um jogo de palavras com lie e library). O Truthbrary assume a rejeição dos média tradicionais e pretende combater a falsa informação por eles propagada, e apresenta-se como uma selecção de estudos e inquéritos conduzidos “a favor do bem-estar do povo americano”. O site opta por um lettering carregado e/ou garrafal e tem um visual próximo dos da extrema-direita americana. À semelhança dos tweets de Trump, não faltam erros ortográficos. Eis uma amostra de alguns dos títulos das suas notícias: “Obama é queniano”, “Alemães sujeitos à sharia...Princípio do fim?”, “Sinais de que Hollywood é dirigida por uma elite satânica”, “As Forças Armadas implantaram um pó neural nas suas vítimas para as poder controlar remotamente”.

 

O que hoje pode ser entendido como chocante nesta encarnação de Sacha Baron Cohen é que ele nos confronta com uma realidade inequívoca. A sátira que supostamente carregaria em certos traços, ideias e situações para provocar o riso tem de se reinventar para não se limitar a ser uma retrato quase fiel de uma realidade, ela sim, delirante e tonitruante nas suas manifestações. Trump pode parecer um ditador de opereta, ignorante e inconstante, espalhando falsidades, inexactidões e puras mentiras, mas ocupa um lugar central no poder do mundo, acolitado por correligionários subservientes. Talvez o humor iconoclasta de Cohen contribua com a sua ferocidade para ajudar a demolir o muro de irrealidade que o trumpismo erigiu e que os argumentos racionais não têm sido capazes de combater eficazmente.

A ANTESTREIA DA SILLY SEASON

Julho 08, 2018

J.J. Faria Santos

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Porque não invadir a Venezuela? Eis a interrogação com que o intrépido Donald terá interpelado os seus conselheiros, em Agosto do ano transacto, numa reunião onde se discutiriam possíveis sanções. Alertado para os riscos de desestabilização da região (já para não falar da despicienda questão meramente burocrática da justificação de uma acção militar hostil), o magnata irascível não se deu por convencido. À margem da Assembleia-Geral das Nações Unidas, abordou vários líderes, entre os quais o presidente da Colômbia, certificando-se de que eles não estavam interessados em que ele pusesse em marcha os planos para a invasão. Os conselheiros e membros do seu gabinete revezaram-se nos argumentos, mas o que pode a sensatez contra a vontade de usufruto de um poder ilimitado? Poderiam ter arregimentado a capacidade de influência de Ivanka. Esta, por sua vez, até poderia procurar o aconselhamento da comunidade venezuelana radicada nos Estados Unidos. Sei lá, a Carolina Herrera, por exemplo.

 

Ao contrário da Venezuela, a Coreia do Norte possui armamento nuclear, pelo que nem o destravado Donald se atreve, seriamente, a ponderar invadir o país asiático. Em vez disso, escreve cartas a Kim Jong-un e oferece-lhe um CD do Elton John com o tema Rocket Man. Longe vai o tempo em que Trump era “mentalmente perturbado”,“gangster” e “velho”, e Kim “louco”, “baixo e gordo”. O certo é que esta espécie de Keeping Up With The Trumps continua a bater recordes de audiência. Infelizmente certos detalhes continuam envoltos na bruma do segredo de Estado, nomeadamente a magna questão de sabermos se Donald demora mais tempo a pentear-se que Melania.

 

E por falar em magna questão, Portugal debate com afinco e pundonor a cedência por parte da Câmara de Lisboa de um terreno para estacionamento da frota automóvel da Madonna e dos seus colaboradores. No Expresso, Daniel Oliveira pronuncia-se a favor da cedência; já Clara Ferreira Alves, em prosa de recorte queirosiano e ironia abundante, desanca no Medina e explica que “socialismo é generosidade e abertura” e que “uma pessoa muito rica tem direito a ser muito estimada”. O argumento do nosso provincianismo e deslumbramento com os famosos também abunda nas redes sociais e fora delas. Claro que repetir, cada vez que se pronuncia o nome de Cristiano Ronaldo, que ele é o melhor jogador do mundo não é provincianismo, é um facto indesmentível e um boost para o nosso orgulho. Da mesma forma, encarar um aperto de mão de Marcelo a Trump como um acto épico, ou uma sua réplica acerca da impossibilidade de CR7 ser eleito presidente em Portugal como o supra-sumo da verve não é provincianismo, embora se possa aproximar da idolatria. (E não será isto insultuoso para o melhor jogador do mundo? Não, porque foi dito pelo melhor presidente do mundo). Quanto a Trump, uma hora depois do encontro, deve ter magicado: Mar-celo, onde é que isso fica? Só conheço Mar-a-Lago em Palm Beach…

O RACISMO NUNCA EXISTIU

Julho 03, 2018

J.J. Faria Santos

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Vive em Portugal há 16 anos e há dois, quando se preparava para mudar de habitação, foi interpelada por um futuro vizinho: “Oh, preta, para onde estás a ir?”. Alguns dias depois, arremessou-lhe uma garrafa e deu-lhe um pontapé. Era preciso escorraçá-la. Há pouco mais de uma semana, numa paragem de autocarro, após ligeiras altercações, foi abordada pelo segurança que a agrediu violentamente com dois socos e a imobilizou no solo. Nas palavras da vítima, Nicol Quinayas, “depois de me bater veio para cima de mim com os joelhos, como se eu fosse um troféu”. O garboso atleta de um wrestling assustadoramente real garantira a Nicol: “Aqui não entras, preta de merda!”, a que se seguiu o tristemente clássico: “Vai apanhar o autocarro na tua terra!”.

 

No seu Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo escreveu: “O negro estava abaixo de tudo. Não tinha direitos. Teria os da caridade, e se a merecesse. Se fosse humilde. Se sorrisse, falasse baixo, com a coluna vertebral ligeiramente inclinada para a frente e as mãos fechadas uma na outra, como se rezasse.” Será possível que mais de quarenta anos depois do fim da guerra colonial persista no subconsciente de um povo uma noção absurda de superioridade de braço dado com uma assustadora falta de empatia pela condição humana? A celebrada amabilidade com que acolhemos os estrangeiros que nos visitam ou vivem entre nós não é generalizada. Aparentemente, há quem espere de alguns o low profile de uma cidadania diminuída, a subserviência agradecida, a gratidão temerosa, a subalternidade dos inferiorizados.

 

Acerca do nosso passado, Isabela Figueiredo escreveu “sobre o que muito se calou ou escondeu”. “Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.” O nosso presente tem a vantagem de não autorizar o esquecimento. As indignações tantas vezes fúteis das redes sociais também servem para afirmar e amplificar os valores civilizacionais que prezamos. O silêncio não é opção quando pode ser confundido com anuência ou tolerância. Ou ainda quando pode servir de suporte à noção estafada do país de brandos costumes onde o racismo nunca existiu.

ADYTAMENTO

Junho 26, 2018

J.J. Faria Santos

 

Para simplificar, imaginem uma versão masculina de Amy Winehouse. Letras pessoais, francas e por vezes brutais, sem inibições de recorrer ao calão, suportadas por um edifício sonoro assente no neo-soul, no smooth jazz, no funk e nas inúmeras variações do rhythm and blues. Acrescentem-lhe, nas palavras de um crítico do Guardian que o viu em concerto, “uma voz fluida, uma apetência pelo drama e um ouvido para refrãos orelhudos” e têm uma noção minimamente aproximada do trabalho de Ady Suleiman.

 

Natural de Nottingham, Suleiman é um músico socialmente comprometido com as questões da saúde mental, lamentando o estigma que recai sobre os doentes e fazendo notar que muitas vezes uma versão distorcida da masculinidade impede que os homens falem sobre a doença e procurem ajuda, como se a demonstração de vulnerabilidade fosse uma fraqueza inconfessável. Em entrevista ao New Musical Express no ano passado, explicou que podemos nunca ter a noção de como determinada pessoa se sente, dando o exemplo recorrente de como um sorriso no rosto de alguém pode disfarçar uma depressão.

 

Embora esta temática esteja presente nas suas letras, o assunto recorrente das suas canções são as relações amorosas, o que está bem patente no seu álbum Memories. Evoca-se a conquista mas também a perda, concretizada ou receada. O lamento pelo amor passado é abordado num tom depreciativo, combinado com a ironia, de quem não soube valorizar o que tinha (canta ele em I Remember: “I remember when we were fucking / Now I’m writing love songs about how we were once”. Já o receio pela consistência do amor presente é abordada no soberbo Longing for Your Love: “And if you leave you are just a memory / A faded shadow that haunts my dreams”. Regateia tempo, alicia a amada com palavras que ainda não disse, reafirma o amor todos os dias. É que as memórias são preciosas mas insuficientes. E no amor para preservar é preciso perseverar. 

O DITADOR DA TERRA DOS CORAJOSOS E DOS LIVRES

Junho 19, 2018

J.J. Faria Santos

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Donald Trump no fundo apreciava ser um ditador. A tese é da editora do Huffington Post Amanda Terkel, num artigo onde alinhava um conjunto de argumentos que a suportam. E que vão desde a confessada admiração dele por ditadores (Putin, Rodrigo Duterte) ao seu lamento pelo facto de não poder usar as instituições do Estado para perseguir os seus adversários políticos (“lock her up” incitava ele, ainda na campanha, referindo-se a Hillary Clinton), passando pela sua indignação pelo facto de muitos membros da bancada da oposição no Congresso não terem aplaudido o seu discurso do estado da nação. “Não lhe podemos chamar traição?”, questionou ele na ocasião, recorda Terkel.

 

A editora do Huffington Post cita ainda afirmações em que o Presidente americano elogia os líderes norte-coreano e chinês, mesmo nos casos em que ele tenha alegado tratar-se de uma piada, porque considera que elas têm um fundo de verdade. De Kim Jong-un disse Trump: “ Ele fala e as pessoas sentam-se e ouvem-no com atenção. Quero que o meu povo faça o mesmo comigo.” Se é possível detectar um traço autoritário nesta afirmação, a ideia é risível em si mesma, dada a pobreza argumentativa, a manifesta falsidade de muitas das suas afirmações e a as inconsequências e contradições dos seus discursos e acções. Como se pode ouvir atentamente um presidente de cartoon, com uma retórica e um comportamento de jardim-de-infância?

 

Se muitos analistas se entretiveram a estabelecer paralelos entre os perfis psicológicos de Trump e Kim, Tom Sancton, na Vanity Fair e no contexto de uma entrevista a Emmanuel Macron, comparou o Presidente francês ao americano: o primeiro definido como “um culto e sofisticado esteta que cita Hegel nos seus discursos”, dorme quatro horas por dia (trabalhará nas restantes vinte) e casou com uma professora 24 anos mais velha, por oposição ao segundo que prefere os reality shows, vê televisão quatro horas por dia e casou com uma modelo 24 anos mais nova.

 

Podemos divertir-nos com a exibição da ignorância e da incompetência do magnata do imobiliário, mas não devemos menosprezar os sinais de prepotência do populista manipulador. Michiko Kakutani, ex-crítica literária do New York Times que acabou de escrever um livro acerca da falsidade e da mentira na era Trump, declarou à Vanity Fair que ele não apareceu do nada, notando “o quão prescientes foram escritores como Alexis de Tocqueville, George Orwell e Hannah Arendt em relação à forma como os que detêm o poder conseguem definir o que é a verdade.” Esta é a principal razão porque não nos é legítimo optar pelo remédio prescrito por Gore Vidal para certa maleita. Dizia ele. “O sono pesado é a minha defesa natural contra o intolerável.” Temos de estar despertos. Para não acordarmos sob o jugo da tirania, qualquer que seja a forma que ela assuma.

 

OS FAMOSOS

Junho 12, 2018

J.J. Faria Santos

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Já foram a beautiful people, agora basta-lhes ser apenas o people que frequenta lugares onde ocorrem eventos. Pairam acima de nós numa galáxia à parte. Uns pertencem à confraria dos artistas, outros pertencem a uma elite sui generis a quem o reconhecimento da sua notoriedade parece bastar. Abrem as portas de casa às revistas, apresentam os amores eternos de curto prazo e revelam segredos de beleza, ou a beleza dos segredos mal guardados. Partilham “pensamentos” no Facebook (ideias são conceitos demasiado abstractos e complexos para a assimilação dos fâs) e fotografias no Instagram. Mas, sobretudo, elevam o comércio ao estatuto de arte. A arte de vender uma imagem.

 

E o que seria de nós sem as redes sociais e o jornalismo cor-de-rosa? Órfãos da partilha de existências sublimes, privados dos role models de vidas com significado, impedidos de partilhar o pathos das celebridades por altura das grandes tragédias e das pequenas contrariedades. E ignorantes dos seus planos e das suas indignações.

De que outra forma saberíamos que o Malato atacou “violentamente” o PCP por causa da eutanásia (já se terá reunido o comité central para reagir?). Ou poderíamos ver as fotos do Carlos Costa (a “celebridade”, não o governador do Banco de Portugal…) antes “das operações plásticas que o ‘transformaram’ em mulher”? Ou avaliar a afirmação da mulher (não transformada) de um guarda-redes convocado para a Selecção que entende que os jogadores devem continuar a ter uma vida sexualmente activa mesmo em estágio? E quem não quer conhecer a nova “bomba” (que “custa mais de 250 000 €) de Luís Figo? Ou a história de redenção de Dolores Aveiro, que teve um “passado de abandono, fome e pobreza”?

 

Com a mesma acutilância e sede de informar com que nos narra o dia-a-dia dos plebeus, a comunicação social cor-de-rosa move montanhas para nos fazer a crónica das rotinas das casas reais. É por isso que soubemos que a princesa Charlotte amuou nas celebrações do 92º aniversário da bisavó Isabel II. De resto, podemos supor que a rainha encarou a cerimónia com o seu escrupuloso sentido de dever e respeito pela tradição, mas que bem lá no fundo até nem liga grande coisa aos seus aniversários. Como Mrs. Ewing, a protagonista de um conto de Dorothy Parker, pensará que “quando uma pessoa já acumulou várias dúzias da mesma coisa, esta perde aquele raridade que entusiasma os coleccionadores.” Interpretação abusiva e infundamentada? Não faz mal. É que parte do encanto de seguir a vida dos famosos é a sensação de proximidade e mesmo exclusividade. É como se eles actuassem para nós, numa peça em vários actos, em perpétuo improviso e acessível em várias plataformas, com a energia e o glamour de uma produção de Laféria. Grande evento! Grande evento! Esta vida é um grande evento!

 

Foto de Tosin (OfficialPSDs)

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