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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

A VISITA DO BRUTAMONTES

Maio 22, 2018

J.J. Faria Santos

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“Aprendi que o silêncio é de ouro”, tinha declarado ele ao Expresso. Mas isto foi antes de irromper pelos nossos ecrãs, qual visita inesperada, e encetar um longo, pausado e tenso monólogo em que distribuiu culpas. Aos jogadores que, inconscientes, desafiaram as claques (a clique presidencial); aos accionistas de reputação duvidosa que não reconhecem o seu génio; aos políticos que não mostraram solidariedade; à imprensa que promove campanhas terroristas contra ele; aos adeptos que já não são o seu “exército” (já tinha explicado que nunca tinham comido do “mesmo prato” e já lhes tinha recomendado que chamassem “nomes à família” e não a ele. Mas não é ele próprio, Bruno de Carvalho, que diz que o Sporting é a sua família?).

 

O discurso caótico do (ainda) presidente sportinguista dispersa-se por incontáveis derivações. Vai do acontecimento “chato” e quase trivial (que entretanto sofreu um upgrade para “acto criminoso e hediondo”) para o drama familiar no fôlego de uma frase. Vai da denúncia da manipulação da comunicação social à constatação de que Portugal (nada menos que um país inteiro faz jus à sua grandeza) quer “destruir o seu ‘enfant terrible’”. Como se fosse necessário. É que ele parece programado para a autodestruição.

 

Ele diz que é diferente, “realmente diferente”, que “não tem negócios nem negociatas” e que só quer ser presidente do Sporting. E conclui: “Sou uma ilha deserta linda de morrer no meio do oceano num planeta de um só continente onde toda a gente se conhece.” Ocorre-me que uma ilha deserta pode ser um desterro cruel para um populista demagogo, mas a tecnologia moderna permite a propagação e amplificação das mensagens a partir de variadas plataformas insusceptíveis de serem amordaçadas. Na verdade, o que ele é cada vez mais é um incontinente à deriva, enredado na verborreia inconsequente, esbracejando furiosamente para se manter à tona do mar encapelado.

D. MARCELO I, O AFECTUOSO, E A MEGERA FEMINISTA

Maio 15, 2018

J.J. Faria Santos

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“Ele entrou-me no chuveiro, literalmente”, explicou João Sousa ao Expresso, referindo-se a D. Marcelo I, o afectuoso. “Eu nem no balneário estava, estava dentro do chuveiro. Dei-lhe um abraço e deixei o homem completamente molhado”, penitenciou-se o vencedor do Estoril Open. Empolgado com mais um vitória de Portugal, antevendo o impacto de ter um novo embaixador mais “qualificado e eficiente do que a generalidade da nossa diplomacia”, arrebatado pela performance no court do tenista luso, o Presidente não podia esperar que João Sousa terminasse o banho retemperador. A acção presidencial é assim: com ritmo, presteza, sem barreiras formais. Este não é apenas um Presidente que acha o Tribunal Constitucional muito “imprevisível”, e que prossegue a sua carreira de comentador político by proxy nas páginas do Expresso, utilizando fontes privilegiadas para os seus já célebres avisos e para projectar cenários. Este é o Presidente que pode irromper no quotidiano de qualquer português para o aspergir de afectos a qualquer instante. Inopinadamente, a qualquer hora e em qualquer lugar, perto de si. Mesmo que você não queira. Marcelo Nuno vela por nós.

 

Os afectos são eternos como os diamantes? A menos que sejam quase do domínio do espiritual, como é o caso de D. Marcelo I (primeiro mandato, entenda-se), é evidente que a resposta tem de ser negativa. Fernanda Câncio, em artigo no Diário de Notícias, fez “um juízo ético e político” sobre a conduta de José Sócrates. Nele, acusou o ex-primeiro-ministro de ter instrumentalizado “os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas” e de ter feito da “mentira forma de vida”.

 

A jornalista foi de imediato censurada, a começar pelos seus colegas de profissão. Henrique Monteiro diz que ela fez uma “autodevassa”, que não se pode “gostar de quem bate em quem está no chão” e que é preferível “ficar em silêncio e deixar os outros pensar que somos estúpidos, a falar e confirmar que o somos.” Já Miguel Sousa Tavares carregou na adjectivação: “indecência”, “má educação”, “mau gosto”, “cobardia e falta de carácter absolutos”, “reles comportamento” foram os qualificativos com que brindou Câncio. O argumento de Sousa Tavares resume-se assim: “Se ela (…) não se importava de beneficiar de um estilo de vida luxuoso pago pelo namorado, porque a choca tanto descobrir que também ele era pago pelo amigo?” A questão parece-me simplista e redutora. O artigo de Câncio é assertivo e demolidor para o carácter de Sócrates, mas equilibrado e rigoroso nas imputações que faz. Sousa Tavares, que lhe chama depreciativamente “campeã do feminismo”, parece ignorar que não está aqui em causa a revelação de pormenores íntimos de um relacionamento, mas apenas e só a constatação de uma evidência: Sócrates iludiu todos aqueles que acreditaram na explicação que deu para o estilo de vida que mantinha.

 

Onde Sousa Tavares viu uma feminista deslumbrada pelo luxo descolando do ex-namorado, João Miguel Tavares viu uma feminista subjugada pelos encantos do “mais básico e caricatural macho alfa”. Diz que ela “não sabia que ele era corrupto” (mais um com sentença transitada em julgado…), mas, coitadinha, foi manipulada. Confessado o pecado, o laico colunista prescreve a penitência: explicar como e por que razão se deixou enganar.

 

O mais extraordinário em João Miguel Tavares, cuja coluna no Público tem o título de “O Respeitinho não é bonito”, é que ele escreveu que se houvesse “algum indício forte” contra Câncio “o Ministério Público não teria hesitado em acusá-la”. Porque ela merecia. Porque foi “arrogante nos interrogatórios” e tem a “mania de calar o essencial e vociferar sobre o acessório”. O respeitinho não é bonito? Tem dias…O cancioneiro da Fernanda não agrada ao João Miguel quando ela “é arrogante nos interrogatórios”.

 

O problema é que a mulher vocifera! Até é capaz de ser esganiçada… Podia dar uma entrevista em tom suavemente consternado à Caras ou à Cristina no seu papel de inteligente mulher enganada, ou explicar no Alta Definição o que diziam os olhos dela, oportunamente nublados pela emoção. Mas não… A mulher é saliente, protuberante, vociferante. Levem-na para a praça pública e condenem-na à lapidação. Metaforicamente, claro, que não somos selvagens e a coitadinha foi enganada. Mas não deixa de ser uma megera feminista.

O TRIUNFO DO IMACULADO CONCEIÇÃO

Maio 06, 2018

J.J. Faria Santos

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O tetra não foi treta mas o penta ficou-se pelo tenta. A cavalgada encarnada rumo à hegemonia foi interrompida. A estratégia de Vitória não resistiu à desqualificação do plantel, e a eficácia de Jonas que fará 35 anos no ano 2019 não foi suficiente para alavancar mais um triunfo. A culpa foi do deslumbramento, dizem alguns, quais Brutus preparados para cravar um punhal em César. Não o Júlio César, claro, que esse já não mora aqui. Na verdade, o contestado é o poderoso e absolutista Luís Filipe I. Rui Vitória diz que “não é rato de porão para fugir”, mas a questão é se lhe estarão a preparar uma ordem de despejo. E já que estamos em terreno náutico, tendo em conta os sucessos do passado recente, é manifestamente exagerado tocar a rebate como se o Titanic fosse naufragar, mas talvez seja avisado que a banda não continue a tocar. Pelo menos a mesma música.

 

As ambições sportinguistas sobreviveram à revolta na academia porque os amotinados encontraram amparo em Jesus. Contra o desconcertante destempero emocional do escatológico presidente, foi necessária a resiliência psicológica do treinador, com a flexibilidade táctica de mestre necessária para ser solidário com os jogadores sem se incompatibilizar com Bruno de Carvalho. Os títulos regressaram nesta nova era, mas o mais desejado continua a escapar-se por entre os dedos. Também continua a ser difícil ser profeta na própria terra. Mais ainda quando a fé presidencial (no profeta e/ou nos discípulos) vacila sempre que a sua gula pelo título de campeão sai frustrada. E não é despiciendo que Jesus seja considerado um activo caro e com predilecção por contratações caras. Podemos dar como adquirida a sua competência à la Paula Rego para magistrais pinceladas tácticas na tela do relvado, mas ninguém nos tira a convicção de que parte do segredo está na “pasta”.

 

Não sei se terá sido este (a pasta) o motivo porque não terá rumado a norte. Dizem que foi desejado, talvez depois do fracasso espanhol, talvez depois da vinda do Espírito Santo. O certo é que descartado Jesus e rescindido Espírito Santo, chegou a vez do imaculado Conceição. O dragão estava entorpecido, a sua chama um fogo-fátuo (nas duas acepções da palavra: de labareda mortiça e de glória pouco consistente). “Pasta” não havia, a descrença alastrava, o espírito de grupo soçobrava. No cemitério das ideias ilusórias jazia a convicção de que a organização do departamento de futebol era a essência do triunfo, que qualquer treinador que chegasse percorreria inexoravelmente a rota da vitória. Sérgio Conceição soube integrar e reinventar: jogadores, procedimentos, tácticas. Acima de tudo o mister recuperou a mística.

 

O GOLPE E OS DANOS COLATERAIS

Maio 01, 2018

J.J. Faria Santos

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Não precisamos de uma sentença transitada em julgado para reconhecer o grande golpe perpetrado por José Sócrates contra a democracia portuguesa. Teremos de aguardar o veredicto de um tribunal para apurar da consistência das provas que sustentam uma gravíssima acusação, mas as circunstâncias peculiares que rodeiam a forma como o ex-primeiro-ministro geriu a sua vida pessoal, assente em empréstimos de um amigo para fazer face a gastos comprovadamente exorbitantes, tornaram-no vulnerável a suspeitas e insinuações, contribuindo desgraçadamente para a definitiva percepção populista de uma classe política que não honra as funções que lhe são confiadas e que se apresenta permeável ao aliciamento e à desqualificação do interesse público. Que nas actuais circunstâncias, ele alimente (alegadamente) ambições políticas é do domínio da inconsciência ou do delírio.

 

 

Parece que o senhor Presidente da República fez um discurso enigmático. E que o senhor primeiro-ministro o comparou à arte moderna, inicialmente, para de seguida lhe atribuir sapiência. Ora, Marcelo, que parece não ter sentido de humor (ou revelar pouco poder de encaixe), logo tratou de narrar um oportuno encontro no meio das ondas do oceano com um jovem inteligente e politicamente arguto. Alguém que parece comungar do seu receio pelos “fenómenos de lassidão” e pelas “tentações perigosas”. Mas o que deve ter verdadeiramente irritado o Presidente era o risco de ser comparado ao seu antecessor, um mestre especializado em discursos importantíssimos cujo alcance só era discernido após a descodificação dos cavacólogos. Seja como for, temos de admitir que a sua preocupação com o populismo é actual e pertinente. Basta atentar nestas palavras de um dos directores-adjuntos de um semanário de referência: “(…) quando falamos de partidos políticos estamos, na maioria dos casos, longe de estar a falar de gente séria.” (João Vieira Pereira in Expresso)

 

 

Ricardo Costa, na qualidade de director de informação da SIC, tratou de justificar a exibição de vídeos de interrogatórios de arguidos no âmbito da Operação Marquês. Defendeu com contundência (e bem) que “não dedicar tempo e recursos a este caso é uma omissão jornalística que (…) não tem perdão nem justificação”. Escreveu sobre a missão principal do jornalismo, informar, e sobre o entendimento que tem de que, neste caso, está em causa “a defesa da democracia”. A grande lacuna da sua argumentação reside, afinal e não por acaso, precisamente na exibição dos interrogatórios. É que o tratamento jornalístico dos dados, a sua investigação, sistematização, enquadramento e divulgação dispensariam a ilegalidade. O impacto mediático não seria o mesmo, nem as audiências, mas não lhe chamemos interesse público. A propósito deste assunto, António Barreto explicou que “Não se trata de liberdade de expressão nem de justiça democrática. Nem uma nem outra devem recorrer à indecência.” Já Vicente Jorge Silva chamou-lhe “exemplo acabado de promiscuidade entre o poder judicial e o jornalismo populista, de sarjeta, embora servido com aparências sofisticadas e imaginativas de mise-en-scène.”

 

 

Nem sempre os operadores judiciários pautam as suas declarações públicas pela concisão, justeza e rigor que os seus cargos deviam exigir. Basta evocar as declarações de finais de 2015 do presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas, a propósito da Operação Marquês, afirmando que se José Sócrates “não tivesse praticado actos ilícitos, o processo não teria acontecido". Na altura, instou ainda os portugueses a “decidir se querem perseguir políticos corruptos, se querem acreditar nos polícias ou nos ladrões". Como se vê, numa fase embrionária do processo, ainda sem acusação, muito menos julgamento, o valente Ventinhas já tinha lavrado a sentença.

Felizmente, nos momentos essenciais, há quem se apresente em defesa do due process e do primado da lei. Manuel Soares, presidente da direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, assinou no Público um artigo lapidar (“Julgamentos virtuais nas televisões”). Considerando que a exibição dos interrogatórios na TV “é totalmente irrelevante para a prova da culpa ou da inocência de quem quer que seja”, e que “a encenação audiovisual feita à volta de interrogatórios de arguidos e testemunhas distorce a percepção da opinião pública sobre o valor probatório das suas declarações”, Manuel Soares relembra o que deve estar sempre presente na mente de todos, do jornalista em missão de informar ao magistrado na função de julgar: “o apuramento dos factos não se faz com pedaços de prova. Faz-se com base numa ponderação global e conjugada, sujeita a um contraditório pleno entre a acusação e a defesa.”

PELA HORA DA MORTE

Abril 24, 2018

J.J. Faria Santos

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O ofício de agente funerário está cada vez mais próximo do de um organizador de eventos. É o que diz a canadiana Sherri Tovell, cujos funerais mais recentes de que se encarregou incluíram margaritas, karaoke e entrega de pizas. Celebrar a vida do ente querido mais do que mergulhar na dor da partida. (Consigo compreender as vantagens do álcool numa altura de grande desamparo emocional, embora desconfie do seu efeito no desempenho no karaoke…) Aparentemente, também as pessoas que escolhem a cremação não se contentam com um espalhar das cinzas tradicional; já há quem queira disparar as cinzas para o céu com a ajuda de fogo-de-artifício. Certo é que a tendência a longo prazo é para o incremento das cremações, embora o funeral tradicional com o enterro do corpo prevaleça nos países fortemente religiosos (82% na Irlanda e 77% na Itália).

 

As preocupações ambientais já chegaram à indústria funerária. Até porque um estudo de 2015 concluiu que 60% dos americanos na faixa etária dos 40 anos estariam disponíveis para um enterro verde: sem embalsamação e com uma urna biodegradável. E apesar da sua popularidade crescente, a cremação implica gastos energéticos. Um crematório tradicional atira para a atmosfera 320 kg de carbono, por cada corpo incinerado, o que equivale a uma viagem de carro de cerca de 20 horas. A alternativa é a hidrólise alcalina, que implica dissolver o corpo numa solução alcalina e esmagar os ossos até os reduzir a pó, e produz um sétimo do carbono da cremação tradicional.

 

Estes e outros dados constam dum interessante artigo da Economist, Os Funerais do Futuro, que é um título particularmente apropriado, não só porque aborda as tendências do amanhã numa actividade de baixo risco económico e elevada rendibilidade, mas também porque o futuro de cada um de nós termina (de preferência o mais tarde possível…) com um funeral. O funeral do nosso futuro, que ocorrerá quando já formos passado.

 

O artigo oferece-nos outros vislumbres do futuro já disponíveis no presente. Há ofertas de cremação para animais de estimação, ou verdejantes locais onde estes animais e os seus donos podem coexistir na última morada. Uma startup inglesa, apropriadamente intitulada Ascension, oferece a possibilidade das cinzas serem lançadas nos limites do espaço astral, após uma subida de 30 km a bordo de um balão. Já a SecuriGene, uma empresa canadiana, por 500 dólares utiliza uma amostra de sangue do falecido para produzir uma pequena cápsula com uma amostra de ADN.

 

Claro que na era da vida publicitada nas redes sociais, a morte não poderia escapar ao livestreaming. Cada vez mais funerais são transmitidos em directo na Internet, permitindo a presença virtual de familiares e amigos. Também os vídeos dos funerais e os tributos são cada vez mais populares, explica a Economist. Se o objectivo de Mark Zuckerberg é tornar o mundo mais “aberto e conectado”, se a sua “prioridade tem sido sempre a missão social de conectar as pessoas”, então esta evolução nas práticas funerárias parece indicar que a vida social online não termina com a morte. Até que a morte nos separe? Nunca nas redes sociais. Quem (não) quer viver para sempre?

 

Imagem: "O Funeral" de Jack Butler Yeats (courtesy of Bert Christensen)

RISOS, SORRISOS, CONFUSÕES, EGOS

Abril 17, 2018

J.J. Faria Santos

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António Costa recebeu-o na residência oficial com um sorriso aberto; Mário Centeno riu-se ao fazer-lhe notar que “os chamados neoliberais” agora consideram Keynes o seu deus. Parece que a passagem por Portugal do colunista da revista The Economist conhecido como Charlemagne decorreu sob o signo do bom humor.

O articulista da bíblia do consenso liberal começa por explicar como, após ter perdido as eleições para o PSD (Charlemagne acha confusa a associação de um partido de centro-direita à social-democracia), Costa recusou uma grande coligação ao centro e apostou numa governação à esquerda, perante a incredulidade e a hostilidade gerais. O resultado foi que o céu não desabou, as finanças públicas estão “robustas e saudáveis” e o país caiu nas boas graças dos mercados ao mesmo tempo que reclama o estatuto de “vanguarda da batalha contra a austeridade”. O primeiro-ministro português considerou que as grandes coligações podem ter como resultado o reforço dos populistas por poderem induzir a ideia de inexistência de alternativas reais. E um assessor tratou de acrescentar que o “conflito civilizado” confere vivacidade aos partidos e aos políticos.

Charlemagne nota as qualidades de Costa (que mesmo os oponentes reconhecem), mas frisa a importância da conjuntura externa, das medidas tomadas pelo Governo que o antecedeu e do papel do Banco Central Europeu no mercado da dívida para o sucesso do socialista. E conclui atribuindo em parte o sucesso do Governo apoiado à esquerda ao facto de “não ser especialmente de esquerda”. E porquê? Por estar mais preocupado com “o défice e a dívida pública do que com o investimento e os serviços públicos”.

Talvez a política à portuguesa tenha subtilezas que escapem a Charlemagne. A verdade é que se ele se detivesse a analisar o Governo de Passos Coelho ficaria ainda mais confuso: como definir, nesse contexto, o PSD, o principal partido da coligação? Um partido de centro-direita, dito social-democrático, a conduzir uma política extremada à direita, que colocava o parceiro de coligação, CDS-PP, à sua esquerda, partido que, por sua vez, é de direita mas tem centro na sua designação?

 

A tensão entre liberdade e igualdade está no cerne das distinções ideológicas e da acção dos agentes políticos. Glenda Jackson, actriz com 35 anos de carreira (e dois Óscares) e membro do Parlamento britânico durante 23, regressou agora ao teatro, aos 81 anos de idade. Desafiada pela Time a encontrar similaridades entre a representação e o desempenho de cargos políticos, declarou que “todo o drama tenta essencialmente contar a verdade acerca do que somos” e a “política no seu melhor tenta encontrar a melhor maneira de criar um sociedade na qual haja um igualdade genuína que reconheça que somos todos diferentes”. Inquirida sobre o movimento de denúncia de assédio sexual na indústria do espectáculo, mostra-se céptica em relação ao seu impacto na transformação da vida das mulheres. Interrogada acerca das dádivas do amadurecimento, recusa que a idade traga sagacidade, reconhecendo, pelo contrário, que compreendeu a extensão da sua ignorância. Mas é quando lhe perguntam acerca do tamanho dos egos dos actores e dos políticos que a resposta sai taxativa: “Os egos que eu encontrei no Parlamento não seriam tolerados no teatro nem por 30 segundos”.

O CHAMPANHE DELA DE CADA DIA

Abril 10, 2018

J.J. Faria Santos

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“O meu estado de normalidade é escrever. Para além disso, é uma adaptação às normas.” As normas que ditam o seu presente e o seu futuro foram estabelecidas em Setembro de 2006, após um AVC a ter remetido ao silêncio. Escrever, explicou ela, “é uma espécie de danação em que às vezes se tem um encontro com Deus.” Agora, enquanto negoceia com ele, com esse Deus de quem ela é um filha maior, bebe uma taça de champanhe ao almoço e ao jantar.

 

Em 2009 disse não temer a morte, por ser “profundamente crente num outro tempo, em que seremos puro espírito”. E, três anos depois, em entrevista a Fernando Dacosta, citou Madame de Maintenom que “dizia que o medo de morrer era-lhe superado pela curiosidade em relação àquilo que pudesse encontrar depois da morte”, para admitir partilhar dessa curiosidade. A escritora, aliás, considera que “a curiosidade leva-nos longe, é o princípio de todas a renovações”.

 

Agustina Bessa-Luís marcou gerações e acicatou ódios e paixões com o seu humor cortante, as suas opiniões desassombradas e os seus aforismos desconcertantes. Declarou não existir qualquer relação entre a atribuição de um prémio literário e o valor do escritor, mas confessou que houvera uma altura em que ambicionara ganhar o Nobel para, como Pearl S. Buck, dançar com o Rei. Afirmou ter recusado entrar na política por não o poder fazer pela “porta nobre”, que consistiria em “ser um primeiro-ministro, ser um tirano…uma Catarina da Rússia”. Admitiu não ser uma “escritora de uma longa meditação. Não faço um plano, não tenho notas”. Convivia bem com as suas próprias contradições. Talvez seja adequado citar Oscar Wilde: “As pessoas bem-educadas contradizem os outros. Os sábios contradizem-se a si mesmos.”

 

Quando lhe perguntaram se era a escrever que se sentia feliz, logo clarificou que o ofício do escritor não tinha nada a ver com a felicidade. “A felicidade é a consciência profunda de que se escapou de um perigo enorme”, proclamou. Será abusivo supor que no seu enigmático e intenso silêncio o seu champanhe de cada dia seja uma forma de celebrar ter escapado ao ano de todos os perigos? Ou, quem sabe, uma forma de aguardar serenamente a iminência indeterminada de um outro tempo, o tal em que será puro espírito.

 

Fontes: “Agustina íntima”, Expresso, 2018; Entrevista de Fernando Dacosta, Visão, 2002; Entrevista de Alexandra Lucas Coelho, Público, 1999.

MONICA E O DESEJO

Abril 03, 2018

J.J. Faria Santos

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Mais de vinte anos passados desde os episódios que o jornal Folha de S. Paulo definiu, de uma forma prosaicamente poética, como “Sexo oral no salão oval”, Monica Lewinsky reflecte na Vanity Fair acerca das circunstâncias que rodearam a infame soap opera político-judicial. Revelando ter-lhe sido diagnosticado stress pós-traumático, confessa que na era do Time’s up já não se sente sozinha.

 

Monica continua a frisar que se tratou de um relacionamento consensual e não descarta as suas responsabilidades, mas ao 44 anos diz estar a interiorizar o “vasto diferencial de poder” que existia entre um presidente e uma estagiária, entre ela e o seu chefe, “mais velho 27 anos, com uma experiência de vida” que deveria ter ditado outro comportamento.

 

Num artigo em que começa por citar Salman Rushdie – “Aqueles que não têm poder sobre a história que domina as suas vidas, poder para a recontar, repensar, desconstruir, fazer humor acerca dela e mudá-la à medida que os tempos mudam, sentem-se verdadeiramente impotentes, porque não podem pensar novos pensamentos” –, explica que tem tentado alcançar esse poder, mas que se trata de uma tarefa comparável à de Sísifo. Num testemunho da sua capacidade de resistência face à adversidade, termina a peça citando um provérbio mexicano: “Eles tentaram enterrar-nos; não sabiam que éramos sementes”.

 

E por falar em sementes, ficou na memória de todos o facto dela ter guardado por um período de cerca de ano e meio um vestido azul com uma mancha do sémen presidencial. Talvez o facto de se ter deixado fotografar agora novamente com um vestido dessa cor seja uma forma de reclamar o poder de recontar a história, de transferir a vergonha para quem abusou desse poder. Independentemente do desejo.

JOGO DUPLO - A NOVELA DA POLÍTICA REAL

Março 27, 2018

J.J. Faria Santos

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“Marcelo sempre achou Rio rígido, autoritário e inflexível, e Rio sempre achou Marcelo disperso, a falar demais e pouco confiável”, informou-nos o Expresso em finais de Fevereiro. Não sei se é o jornal que vai à fonte, se é a fonte que vai ao jornal. Sei que o Presidente disse que a única fonte oficial de Belém é ele próprio. Está tudo dito. O título da notícia era: “Marcelo e Rio: da velha zanga à meta comum”. E qual é essa meta? “Evitar a maioria absoluta do PS”, diz o Expresso. Nesta altura, o Presidente ainda se congratulava com a “entrada em cena de Rui Rio”. E preconizava entendimentos entre Rio e Costa? Sim…e não. É que, explica o Expresso, o Presidente acha que Costa tem “habilidade para gerir os outros em proveito próprio”. Portanto, entendimentos sim, mas nada de duradouro. Titulava o jornal que “o PR não patrocina nem confia na dança PSD/PS”. Ele aprecia mais a marrabenta.

 

Passados quinze dias a meta comum parecia mais afastada. O jornal noticiava que o PR dava “um prazo a Rio”. Uma nova variante do líder a prazo sob a tutela do Presidente da República. Marcelo não aprecia o “tempo lento” de Rio, tão antagónico do seu proverbial frenesim. E se até ao Verão o PSD não se afirmar nas sondagens e Costa puder sonhar com a maioria absoluta, o PR, sustenta o semanário, “admite ter de entrar mais em cena [ainda mais?] e voltar a chamar a si momentos de alerta para o que corre pior no país [que pena… logo ele que gosta tanto de dizer que somos os melhores…] acentuando a demarcação do Governo”. A ideia seria fazer uma espécie de Presidências Abertas para “expor fragilidades sectoriais”. Mas Presidências Abertas não será o que Marcelo faz todas as semanas com as notícias colocadas no Expresso? E como na mesma notícia em que uma fonte faz questão de dizer, referindo-se ao Presidente, que “se Rio não for suficientemente a jogo preenchendo os vazios de oposição, terá de ir ele”, se releva que o “PR não se vai meter em domínios que não são os seus”, nós, comuns mortais, não podemos deixar de nos interrogar se do alto da sua lendária inteligência o professor não estará a tentar fazer passar-nos por parvos.

 

Agora, Marcelo teme o atraso das medidas de combate aos fogos. E também as “medidas provisórias”. Dito assim, é o testemunho inequívoco do grau de exigência do PR. Se se planeiam medidas a longo prazo, não se acautela o futuro imediato; se se introduzem alterações rapidamente, ou são mal pensadas ou provisórias. Compreende-se. Rápido e bem, só o genial Marcelo. No meio do fluxo torrencial de declarações, de análises sui generis às entrevistas do primeiro-ministro (o Presidente achará que a entrevista de Costa à revista Cristina significará que o PM estará a apostar num perfil popular para tentar chegar à maioria absoluta), e das cogitações políticas sobre as consequências das tragédias (dirigentes partidários que tiveram audiências em Belém disseram que se houver uma nova tragédia com fogos o Presidente entenderia que não podia segurar o Governo), é difícil perceber o grau de importância que ele atribui ao sacrossanto interesse nacional. A menos, claro, que a sua visão dinâmica da conjuntura política coincida ao milímetro com o interesse nacional, de forma objectiva, geral e abstracta.

 

Em finais de Janeiro, José Pacheco Pereira notou no Público que “o Presidente faz um contínuo metadiscurso sobre tudo o que acontece (…) e esse mesmo metadiscurso aparece agora como um conjunto de prevenções, de sinais, de avisos que, não sendo novo no discurso dos anteriores presidentes, no caso de Marcelo ganha outra amplitude, porque vem mais em continuidade do que foi o seu discurso de comentador de décadas conhecido pelo seu cinismo, a propensão para a intriga e mesmo ajustes de contas nas antipatias próprias”. E concluía afirmando que em tempos de proliferação de populismos, “temos um presidente que não se coíbe de usar as armas dos políticos populistas modernos”.

 

E temos também um Presidente que contrasta com o seu antecessor pelo sentido de humor. Desta vez, em pleno Jerónimos, ele decidiu exercitar o seu humor negro teorizando sobre o impacto de uma tragédia que ali ocorresse em plena cimeira de autarcas. Não, não se tratava de um incêndio. Uma piada desse teor implicaria a sua imediata exclusão do grupo de amigos de Nádia Piazza e a impossibilidade de um convite em plena quadra natalícia. Marcelo, em registo stand-up comedy, atirou: “Já pensaram? Uma bomba aqui era uma crise nas áreas metropolitanas. A única vantagem é que libertavam o Presidente. Já viram o funeral que era? De urnas em fila. Os Jerónimos não tinham capacidade. Havia um problema de mobilidade… Como é que era possível a saída?”

 

Se há coisa que nós sabemos é que ele não pretende sair, nem ser libertado. E que tem um capital político que reuniu graças à habilidade com que utiliza em proveito próprio o afecto que espalha. Um imperativo de consciência empurra-o para um segundo mandato. O interesse nacional unge-o. O desafio é irrecusável. Nem que Cristo desça à Terra.

 

Imagem: caras.sapo.pt

O AMIGO DE ALEX OU O PROCURADOR INGÉNUO

Março 20, 2018

J.J. Faria Santos

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É certo e sabido que Carlos Manuel Lopes Alexandre, “bilhete de identidade 5582428, cartão mecanográfico do Conselho Superior da Magistratura 1208”, celebrado juiz, não tem “amigos pródigos”, daqueles capazes de subsidiar estilos de vida sumptuosos com empréstimos avultados. A menos, claro, que se trate de Orlando Figueira, e a quantia em causa se cifre nuns modestos dez mil euros, E após muita insistência, aceitara porque constatara que o amigo subira na vida, renovara o guarda-roupa, comprara um carro e pusera o filho a estudar nos Estados Unidos.

 

Orlando Figueira, segundo o perspicaz juiz, é “muito crédulo com pessoas que não conhece, ele até tinha o petit nom de ‘ingénuo’”. De tal forma que teve de ser Carlos Alexandre a alertá-lo, quando soube do convite dos angolanos para o amigo trabalhar no departamento de compliance de um banco ou até numa empresa (as hipóteses variaram…), para a necessidade de sair dos processos que envolviam Angola. Mais: quando o descontraído procurador lhe disse que tinha assinado contrato com uma empresa, a Primagest, e iria receber dinheiro antecipadamente, teve de ser o juiz que não se verga ao dinheiro a explicar-lhe: “Não podes receber nada enquanto estiveres no público, isso é um absurdo.”

 

Nada que abale as convicções de Carlos Alexandre. Tirando o facto de Orlando Figueira receber os ordenados pagos pelos angolanos numa conta offshore em Andorra, manobra que permitiu a evasão fiscal. Figueira nunca lhe contara das viagens a Andorra para recolher os adiantamentos. Ingénuo, mas nem tanto. “Fiquei estupefacto”, confessou o juiz quando confrontado com estes factos. A tese do Ministério Público é a de que os empregos que justificam os rendimentos auferidos pelo ex-procurador eram um estratagema para ocultar as luvas pagas em troca do arquivamento da investigação a Manuel Vicente. Orlando Figueira contrapõe que quem lhe ofereceu emprego não foi Manuel Vicente mas sim o banqueiro angolano Carlos Silva. Os indícios podem ser significativos, mas como é evidente Figueira tem direito à presunção de inocência.

 

Não que precise de a invocar. “Testemunho do juiz Carlos Alexandre iliba arguido da Operação Fizz”, titulou o jornal Público em artigo sobre o caso na quarta-feira passada. Apetece perguntar quando é que o caso vai ser arquivado… “Esta pessoa que conheço há 27 anos não é compatível com o recebimento de contrapartidas”, declarou taxativamente o juiz, acrescentando que a corrupção “não está na matriz” de Orlando Figueira.

 

Miguel Sousa Tavares notou no seu artigo no Expresso que o juiz que deu provimento à tese do Ministério Público de que o ordenado que José Sócrates recebia da Octapharma era um esquema para ocultar rendimentos ilícitos é o mesmo que não estranha o adiantamento de um ano de salários atribuído ao seu amigo procurador. Carlos Alexandre testemunhou nunca ter encontrado um “traço na personalidade” de Orlando Figueira que pusesse em causa “a sua honradez e a sua confiabilidade”. Pode ser que Carlos Alexandre, além de arguto juiz, seja um perspicaz profiler, com vista privilegiada para os insondáveis desígnios da mente humana, capaz de destrinçar a verdade e a mentira sem se deixar condicionar pela amizade ou pela animosidade. Ou pode ser que nesta narrativa, afinal, o ingénuo seja outro.

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