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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

O QUE FAZEMOS COM A LIBERDADE

Abril 22, 2019

J.J. Faria Santos


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Na era dos influencers, das notícias virais que muitas vezes rimam com banais  (contra as quais ninguém está inoculado), das fake news (que requerem a nossa vigilância e o nosso activismo) e do mérito medido pelo número de seguidores (há algo de sinistro nesta designação, que tanto pode nomear a admiração mais ou menos acéfala como a perseguição maníaca), que fazemos com a liberdade? Entregamo-nos à volúpia da disrupção, esgotamos todas as possibilidades de testar os limites do que podemos fazer (só porque sim), ou calibramos esse desejo (e esse direito) com uma dose de bom senso e civismo?

 

Proliferam no espaço público formas das pessoas se organizarem e se exprimirem. Reduziram-se os mecanismos de censura, mas também se enfraqueceram os meios de intermediação e validação. Padrões de probidade, decência, competência e eficácia que sempre preferimos discernir nos líderes que escolhemos, foram agora trocados, em algumas nações, por uma linguagem radical, muitas vezes estranha à verdade e ofensiva da nossa dignidade humana.

 

Sim, às vezes é preciso dizer não, desobedecer, questionar a ordem estabelecida, instalar a desordem criativa, mas é imperioso resistir às sereias do poder. O que é tremendamente difícil, sobretudo para quem, por exemplo, partindo de reivindicações de alcance incerto se alcandora aos píncaros de conseguir paralisar um país. O povo é quem mais ordena, mas a auto-regulação é crucial. E as elites não são dispensáveis.

 

Mesmo quando nos falham. Como foi o caso da família de banqueiros, austera e tradicional (com o gosto de “brincar aos pobrezinhos”), mas disfuncional e permeável a “liberalidades” de construtores civis e vulnerável ao charme do off-shore. Os militares da foto, que fizeram parte do contingente que ocupou a Baixa de Lisboa nos dias da revolução, parecem proteger o então denominado BESCL. Quem nos protegeu do BES? A liberdade não nos defendeu das liberalidades.

 

Mas convém que não nos deixemos iludir. Nem que aceitemos o condicionamento da liberdade em favor de uma inexpugnável segurança (inalcançável) ou de uma branda repressão mascarada de mirífica ordem. Robert Fishman, sociólogo e cientista político norte-americano, declarou, em entrevista ao Público, que “Em Portugal, a democracia nasceu de uma fusão rara de revolução social, mudança cultural activa e democratização convencional.” As preocupações sociais e a redução da desigualdade devem continuar a ser um desígnio central da nossa democracia consolidada, e demonstrar capacidade de resistência face a teorias económicas radicais que toleram a sua fragilização como dano colateral do crescimento económico. “Brincar aos pobrezinhos” é de um mau gosto assinalável; brincar com os pobres é um atentado à dignidade humana. E à liberdade.

 

MARCELO ÜBER ALLES

Abril 16, 2019

J.J. Faria Santos

 


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Ele é um eminente constitucionalista. Para quê recorrer ao Tribunal Constitucional? Ele acha imperioso regular as nomeações familiares para a Presidência da República. O Presidente não tem iniciativa legislativa? Perdão! Iniciativa (e energia) é coisa que não lhe falta. E ele lá é político para se inibir com as limitações constitucionais. Que ele própria interpreta (Tome lá, senhor primeiro-ministro, um anteprojecto de lei que eu redigi! E que eu garanto, desde já, promulgar!). Ele estará apenas a redefinir as fronteiras do semipresidencialismo. É a híper-magistratura de influência, que pode ir dos discursos em que ensaia demissões de ministros até às declarações em que aponta que partidos devem aprovar as leis de bases, passando pelas pressões (benignas, claro) sobre a Justiça (Tancos está a demorar uma eternidade!).

 

Parece que, inicialmente, o Presidente propunha a proibição de nomeações até ao sexto grau (situação que Ana Sá Lopes no Público sugeria poder obrigar “à contratação pública de especialistas em genealogia”), mas, segundo o Expresso, a “conversa com o primeiro-ministro levou Marcelo a recuar” para o quarto grau (primos). Terá faltado ponderação à formulação inicial ou a cooperação institucional com o “optimista irritante” resultou num módico de bom senso? (O próprio Marcelo já terá analisado esta questão, do ponto de vista dos dois intervenientes.)

 

O Presidente inscreveu-se na vida dos portugueses muito para além da sua função institucional. Ele é o provedor dos afectos, o pronto-socorro emocional. Parece omnipresente, presumem-no omnipotente. Uma presunção que ele alimenta, mesmo por omissão. Desdobra-se em missões de proximidade (uma inesperada expedição a um velório para “dar os sentimentos”, uma inopinada audiência concedida a uma mulher que não quer morrer sem o conhecer) e em confidências de pé de orelha (acerca dos “ricos” que conheceu). Está todos os dias num ecrã perto de si, preparado para o imortalizar numa selfie e para se imiscuir na sua iconografia pessoal. Há quem lhe chame populismo benigno. Ele só quer ser amado. Ele não é totalitário, tem é a vertigem do totalista. No jogo da política quer recolher todos os pontos. É como um maestro célebre que presume saber tocar todos os instrumentos da orquestra e não nutre particular apreço pelos solistas.

 

FAMILYGATE - CONTRIBUTOS PARA A CAVACOLOGIA

Abril 08, 2019

J.J. Faria Santos

 

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O supra-sumo da gestão dos silêncios regressou à arena mediática com estrondo. Inadvertidamente, acabou por confirmar a sugestão do actual primeiro-ministro de que ele tem uma relação problemática ou selectiva com a memória. “Fui verificar a composição dos meus três governos durante os dez anos em que fui primeiro-ministro e não detectei lá – espero não me ter enganado – nenhuma ligação familiar.”, disse Cavaco Silva. Não obstante a surpreendente modéstia (a simples admissão da possibilidade de ter laborado num equívoco é assombrosa), o teor da proclamação é devastadoramente errónea. Sobretudo para alguém que sempre reclamou para si as qualidades inerentes ao estudo minucioso dos assuntos e ao rigor das afirmações.

 

Uma outra declaração, também na linha da neomodéstia, ajudará a explicar o faux pas. Disse ele: “Nos últimos dias aprendi bastante sobre as relações familiares entre membros do Governo e confesso que era bastante ignorante em relação a quase tudo daquilo que foi revelado (…)”. O que se pode deduzir é que a autoproclamada ignorância é extensiva aos seus próprios executivos. Uma pequena nota na secção Gente do Expresso adicionou um picante extra: a nomeação de familiares chegou ao seu inner circle, na pessoa da sua cunhada, Margarida Mealha, que foi assessora de Maria Cavaco Silva.

 

O que é certo é que, contrariando a mitologia, o professor tem consultado, talvez compulsivamente, a comunicação social. O próprio fez questão de o anunciar: “(…) por aquilo que li, não há comparação possível em relação ao Governo a que dei posse em 2015. E, segundo li também na comunicação social, parece que não há comparação em nenhum outro país democrático desenvolvido”. Como não sabemos que órgãos de comunicação social é que o distinto professor consultou, e através de que plataformas (em formato papel? Online?), ficaremos sempre na dúvida se essas leituras iluminaram o seu desconhecimento ou reforçaram o enviesamento ideológico de que parece padecer.

 

Para sermos justos, no meio das mensagens políticas que fez questão de passar, Cavaco Silva até teceu considerações pertinentes, nomeadamente acerca do escasso crescimento económico. E quanto à nomeação de Margarida Mealha, ocorre-me a oportunidade de citar Vasco Pulido Valente (Público, 6 de Abril): “Em 1980, também nomeei uma ex-cunhada para o meu gabinete, na maior paz de espírito. Gostava dela e ela conhecia a ‘casa’. Não me ocorreu que estivesse a cometer um tenebroso acto de nepotismo.” A questão fundamental aqui é que, socorrendo-se da amálgama de situações elencadas no espaço público, o ex-Presidente aproveitou para cavalgar a onda antigovernamental, sacrificando o rigor ao objectivo político. Perdendo a oportunidade de ser pedagógico, preferiu ser panfletário. À apologia das boas práticas e da ética republicana preferiu o enquistamento ideológico. E pelo caminho deu um calamitoso tiro no pé. Citando-o: “Só se deixa enganar quem quer ser enganado”.

 

A FÚRIA ÉTICA EM TEMPO DE ELEIÇÕES

Abril 02, 2019

J.J. Faria Santos

 

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Qual a consequência da existência de relações familiares em lugares no Governo ou na administração pública?
“Termos políticos que olham para o país que olham para o país a partir do seu lugar de classe ou das suas circunstâncias familiares traduz-se num défice de representatividade. E é mais um contributo para a crise de legitimidade do regime.”
Pedro Adão e Silva (Expresso)


Há uma excessiva preponderância de militantes do PS no Governo? E os mesmos nomes vão-se perpetuando?
De acordo com números citados pelo primeiro-ministro, dos “62 membros” do Governo, “36 são militantes do PS e 26 são independentes”. 49 deles nunca tinham pertencido a qualquer Governo e 32 “exercem cargos políticos pela primeira vez”.


É inédita a concentração familiar no Governo socialista em comparação com alguns países europeus?
De acordo com um artigo do Expresso, intitulado “Em nepotismo, estamos em média com a Europa”, “Portugal não é um caso isolado”. São citados os exemplos de irmãos no Governo de Rajoy (Espanha), dos irmãos David e Ed Milliband (ambos ministros em Inglaterra entre 2007 e 2010) e também em Inglaterra do casal Ed Balls / Yvette Cooper. Na Bélgica, “a companheira do primeiro-ministro é conselheira da ministra do Orçamento”. Ao nível das assembleias, por exemplo, na Assembleia Nacional francesa, “no início deste ano, filhos, cônjuges e primos ainda tinham contratos (…) como assistentes de mais de 100 deputados, num total de 672”. Já no Parlamento britânico “122 deputados continuam a dar emprego a familiares”, apesar das alterações legislativas no sentido de restringir estas situações.

 

Esta concentração familiar atingiu proporções nunca vistas em Portugal?
“Não sei se existe uma exce[p]cionalidade socialista nesta endogamia. Do que conheço dos partidos, tenho muitas dúvidas. Tivemos, em governos passados, casos semelhantes. Como no de Cavaco, em que além de quase toda a família Beleza havia Diamantino Durão e Durão Barroso. Quanto à nomeação de parentes de políticos para gabinetes de ministros, sempre foi tão generalizada que não consigo levar a sério a indignação de tantas falsas virgens.(…) Também não sei se as coisas pioraram agora. Os critérios que estão a ser usados são tão difusos e alargados que se torna impossível fazer comparações.”
Daniel Oliveira (Expresso)

 

 

 

 

 

 

DE TRUMP AO MORGADO AINDA VAI UM BOM BOCADO

Março 26, 2019

J.J. Faria Santos

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Os estudos de opinião podem contrariar a possibilidade de Donald Trump ganhar um segundo mandato na Casa Branca, mas uma mistura certeira que inclui uma economia resistente, a prevalência de notícias falsas e uma “mensagem política inteligente” pode valer um novo triunfo ao magnata do imobiliário. Esta é a tese expendida por Ian Bremmer na Time. E em que consistirá a tal “mensagem política inteligente”? Basicamente em explorar o populismo nacionalista e colar aos adversários a etiqueta de “socialista”. Estratégia demasiado tosca e simplista para resultar? Bremmer trata de explicar que os americanos não rejeitam as ideias progressistas do Partido Democrata (70% apoiam o aumento dos impostos para os super-ricos e 68% consideram que o dinheiro e a riqueza deveriam estar mais bem distribuídos), mas apenas 25% apoiariam um “socialista” para presidente. Nestas circunstâncias, prossegue o articulista, Trump tratará de utilizar as redes sociais para amplificar a mensagem, sendo estas o meio adequado para um discurso político “dominado por rótulos ideológicos em vez da explicação política detalhada”.

 

Miguel Morgado quer “apontar um caminho intelectual para refundar a direita” (Público, edição de 21 de Março). Aposto que também deve ter uma “mensagem política inteligente”. Com uma pitada de nacionalismo (“queremos pensar a partir de raízes portuguesas e não estar a ficar dependentes de importações ideológicas e da moda”) e populismo quanto baste (“este regime está podre. Ninguém faz nada sem agradar ao PS”). Para completar o ramalhete, nada melhor que a demonização do socialismo (“o estatismo (…) é um ramo do esquerdismo, do socialismo que queremos combater” / “Revejo-me no PSD como um partido fundamentalmente não-socialista” / “(…) excluindo os processos de corrupção (…) o que temos sobretudo é um projecto de governação em que há uma perfeita continuidade entre António Costa e José Sócrates”). Suspeito que por detrás desta ofensiva ideológica com o seu quê de bravata, esconde-se o despeito perante a aparente neutralidade de Marcelo e o recentramento do PSD operado por Rio. Os viúvos do passismo  e os liberais da velha guarda não se revêem na docilidade do líder do PSD ( contra o “radical e extremista” Costa exigia-se combatividade), nem na liberalidade nos costumes que Cristas vai apregoando entre o Cinco para a Meia-Noite e o Cabaret da Coxa. Daí que o Morgado tenha saltado para a liça, acompanhado dos suspeitos do costume: da jornalista ao historiador, passando por um leque de militantes partidários, todos em movimento para refundar a direita e aniquilar o socialismo que amordaça Portugal.

NA CAMA QUE FARÁS, NELA TE DEITARÁS

Março 19, 2019

J.J. Faria Santos

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Pode um homem adulto de 34 anos dormir na mesma cama com um rapaz de 13 anos mais de trinta noites consecutivas, ainda que o faça na casa da mãe do rapaz? E por que razão o faria? Uma desesperada e patética tentativa de recuperar uma infância perdida ou nunca vivida? E esta lacuna emocional justificaria colocar-se numa posição dúbia que poderia dar azo (como deu) a suspeitas de comportamento imoral e ilegal? Esta partilha do mesmo leito entre Michael Jackson e Jordie Chandler acabaria por dar origem, na sequência de um processo judicial, a um pagamento de 18 milhões de dólares ao rapaz e 2,5 milhões a cada um dos pais.

 

Até ao momento, são já cinco os rapazes que partilharam a cama com Jackson que o acusaram de abuso sexual. Os mais recentes depoimentos foram divulgados por dois (agora) adultos no documentário Leaving Neverland. Ironicamente, ao tentar resgatar a sua infância, Jackson destruiu a dos seus alvos de afeição. Os indícios são suficientemente graves, alguns pormenores reforçam a credibilidade das acusações, mesmo quando a ausência ou a impossibilidade do contraditório é significativa. A Terra do Nunca adquire neste contexto um significado sombrio – a concretização de certas fantasias está interdita aos que se recusam a crescer.

O ALEXANDRE LUTA PELOS POBRES (E COMBATE A DITADURA)

Março 12, 2019

J.J. Faria Santos

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“Os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média e depois subirem se possível. É para isso que a gente luta”, declarou Alexandre Soares dos Santos ao Observador. Nunca é excessivo sublinhar este esforço de guerreiro, ainda para mais vindo de quem defende que “estamos numa ditadura do Estado. Nós vivemos em ditadura. Porque somos obrigados, para tudo, a ir ao Governo pedir uma licença”. Já na Polónia, rejubila Alexandre, é “toca para a frente”, “cumprindo a lei tudo anda”.

 

Pormenores de somenos serão certamente o condicionamento dos meios de comunicação e a interferência descarada no poder judicial perpetrados pelo governo polaco. Ou o facto do último relatório da organização Freedom House continuar a denunciar o pujante compadrio reinante nas instituições governamentais, e o patente desprezo pelos peritos e organizações da sociedade civil no processo de elaboração de leis, a que se soma uma escassa disponibilidade para acomodar alterações ou fomentar o debate. Talvez a maior vantagem que o sempre incisivo Alexandre encontre na ladina Polónia em relação à “ditadura estatal” portuguesa resida no facto de, para citar a Freedom House, apesar de ter “um movimento sindical robusto (…) procedimentos legais complexos dificultam o recurso à greve”. E, claro, parece óbvio que para a “transformação” dos pobres é indispensável que trabalhem.

 

Alexandre é “cristão” mas “discorda profundamente da Igreja Católica” na forma como ela trata os pobres. Tratar alguém com insuficiência de meios como um “coitadinho” que “tem que ser ajudado (…) é ajudá-lo a ser pobre”. Claramente, ele não acredita que a Igreja os “transforme” em classe média; essa é uma prerrogativa dos empresários visionários. Se esta noção parece paternalista, arrogante e até ofensiva é porque, como explicou António Guerreiro no Público (Ípsilon) da passada sexta-feira, referindo-se ao líder histórico do grupo Jerónimo Martins, “ele faz questão de afirmar que tem nas suas mãos os comandos do ascensor social (ou diz-se antes elevador?), deixa bem claro que essa deslocação vertical é por ele controlada e tutelada”.

 

Mas como Guerreiro fez questão de notar, os pobres não aspiram à classe média (podem ser pobres, mas não são tacanhos, calculo); desejam ardentemente ser ricos. É que nesse patamar intermédio, diz o articulista, “ora são considerados ricos porque estão além do limiar dos pobres; ora são considerados pobres porque estão abaixo dos ricos”. Acontece que a frase do Alexandre tem a subtileza que a generalidade do seu discurso dispensa. Ele não cerceia a ambição do pobre. Ele pode “subir se possível”. E o que é que pode impedir essa ascensão? Com grande probabilidade, a resposta que os lábios do empresário não articularam só pode ser uma: a meritocracia. Se não for possível, fica em lista de espera. Mas não desespera, porque o Alexandre luta por ele. É uma missão de vida. Seguramente mais relevante que a doutrina social da Igreja.

CONAN, O BÁRBARO

Março 05, 2019

J.J. Faria Santos

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O Império Romano apreciava a destreza militar dos bárbaros que serviam no seu exército. De resto, tratava-os com condescendência e desprezo. Quando eles assomaram às fortalezas, conquistadores não servos, viu-se como a sobranceria e o complexo de superioridade podem derrubar colossos. Também o império da música mainstream aprecia a rebeldia e a originalidade, desde que devidamente enquadradas pelos seus códigos e instituições. Quando essa originalidade instala uma estranheza disruptiva, e se mostra difícil de enquadrar nos modelos existentes, a reacção é imediatamente negativa.

 

A seu modo, Salvador Sobral introduziu a ruptura ao recusar os “fireworks”, apostando no despojamento, no classicismo dos arranjos e na sobriedade da interpretação, para dar corpo ao seu lema de que “música é sentimento”. O mesmo sentimento está presente na interpretação de Conan Osiris, facto que o aparato cénico (a máscara facial, os apetrechos digitais, a performance heterodoxa do bailarino) não oculta nem desvaloriza. Quando ele canta “Eu parti o telemóvel / A tentar ligar para o céu / P[ar]a saber se eu mato a saudade / Ou quem morre sou eu”, é irresistível imaginar se a espécie de dança xamânica que vemos no palco não será uma forma de exorcizar essa saudade. Quem decretou que ela tem de ser vivida no recolhimento e na passividade?

 

A imperfeita comparação que alguns têm estabelecido entre Conan e Variações não tem origem apenas nos maneirismos vocais ou no arrojo do guarda-roupa e da apresentação em palco. Há na ilusória simplicidade das suas letras e na aparente banalidade dos temas escolhidos uma intencionalidade que vai para além da função utilitária da linguagem. É por isso que em trechos como “Se a vida ligar / Se a vida mandar mensagem / Se ela não parar / E tu não tiveres coragem de atender / tu já sabes o que é que vai acontecer”, o que está em causa não é apenas um texto anódino a servir de base àquilo que Judy Cantor-Navas na Billboard apelidou de “mistura de estilos e sons que incluem fado, hip hop, techno, rock, kuduro e influências da musica árabe e de Bollywood”. Nestas breves linhas da letra de uma canção de três minutos pode vislumbrar-se o aviso e o incentivo, a necessidade de escutar e a disponibilidade para agir. No fundo circunstâncias de que a vida é feita, matérias sobre as quais um artista edifica a sua obra.

 

Imagem: foto de Pedro Pina (24.sapo.pt)

O ÚLTIMO DESFILE DE KARL

Fevereiro 26, 2019

J.J. Faria Santos

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A sua propensão para criar aforismos rivalizava com a sua prolífica produção enquanto designer de moda, podia ler-se no obituário do New York Times assinado por Vanessa Friedman, onde a autora considerava que o grande mérito de Karl Lagerfeld não consistira exactamente na “criação de uma nova silhueta”, mas sim no exercício da identificação da essência e consequente reinvenção de marcas tradicionais, sem receio de rupturas. Friedman recordou no artigo as palavras de Anna Wintour, em 2015, quando entregou a Lagerfeld um prémio atribuído pela indústria de moda britânica: “Mais do qualquer pessoa que eu conheça, ele representa a alma da moda: inquieta, visionária e vorazmente atenta à nossa cultura em mudança”.

 

Também José Cutileiro no Expresso destacou, para além da “vida profissional intensa”, a sua qualidade de “autor percutante de aforismos”, seleccionando alguns exemplos, como aquele em que Lagerfeld professa a sua paixão avassaladora pela leitura (“Tenho este prazer culposo de ler todo o tempo. A gente do Norte tem esta ideia estúpida, puritana, do dever e do trabalho”), que se materializou numa biblioteca de cerca de 300 000 volumes; ou aqueloutro em que expressa a sua sede de conhecimento desprovida de pretensiosismo (“Gosto de saber, saber tudo. Estar informado. Sou uma espécie de concierge universal, não um intelectual”). Não faltam mesmo tiradas com ressonâncias proustianas (“Porquê viajar, fazer milhares de quilómetros, quando da nossa janela podemos apreciar tudo”), ou proclamações que evocam Oscar Wilde (“Detesto ricos que vivem abaixo das suas posses”).

 

Como refere Vanessa Friedman no artigo citado, o livro de 2013 O Mundo Segundo Karl reúne os seus considerandos e boutades, incluindo afirmações como: “Eu sou muito terra-a-terra. Mas não desta terra”. Se conjugarmos esta afirmação com uma outra feita no documentário de 2008 Lagerfeld Confidential (“Eu não quero estar em carne e osso na vida das outras pessoas. Eu quero ser uma aparição”), construímos o retrato de uma criatura do outro mundo pronta para, qual espectro, permanecer na nossa memória como um ícone de elegância e sageza. Naquele exacto ponto em que uma aparente superficialidade convive com uma insuspeita densidade.

DA GERINGONÇA À SANTA(NA) ALIANÇA

Fevereiro 19, 2019

J.J. Faria Santos

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O tempo político acelera. Multiplicam-se as perplexidades. Desafiam-se ideias feitas, reconstroem-se perfis, deslocam-se as peças no tabuleiro de xadrez. 112 pré-avisos de greve foram entregues desde 1 de Janeiro, uma enormidade face aos 260 do ano transacto e às 85 greves sectoriais registadas em 2015. Mas, afinal, não foi este Governo que reverteu diversos direitos perdidos durante o consulado de Passos, e não tem ele o respaldo dos partidos de esquerda, o que supostamente corresponderia a um apaziguamento da conflitualidade social? O problema, explica Assunção Cristas ao Expresso, é que “isto está pior do que no tempo da troika”, designadamente na Saúde. E, no entanto, em 2018, o SNS contou com mais 601 médicos e 1252 enfermeiros, e o número de consultas aumentou, quer nos centros de saúde quer nas urgências hospitalares, apenas se registando um ligeiro decréscimo nas cirurgias.

 

A política é também a arte de gerir as expectativas, influenciar as perspectivas e alimentar as percepções. Os efeitos positivos de indicadores como o do défice ou da taxa de desemprego (um indicador de bem-estar social por excelência) não têm equivalência no comportamento do investimento público, aspecto que é estrategicamente relevado pela oposição (mesma a de direita, que tem tendência a desvalorizá-lo). A mera suspeita de que o travão no investimento possa ter reflexo na qualidade dos serviços públicos, contribuindo para a sua degradação, deve merecer a melhor atenção do primeiro-ministro, visto que podem estar em causa as funções sociais do Estado, que devem ser tão vitais para um Governo de esquerda quanto o são as funções de soberania.

 

A fazer fé nos estudos de opinião, os portugueses não se mostram particularmente solidários com as greves nas áreas da saúde, dos transportes, da justiça ou das finanças (68,7% não se identificavam com elas na sondagem de Janeiro da Eurosondagem para o Expresso), nem se mostram adeptos de movimentos inorgânicos do género “coletes amarelos” (na mesma sondagem, cerca de 75% dos inquiridos não encaram essas manifestações como “uma boa maneira de pressionar o poder político”). Tudo isto não significa que os portugueses se sintam plenamente representados pelo leque partidário existente e pelos restantes organismos agregadores de causas e interesses comuns. 

 

Em ano eleitoral, os partidos agitam-se. No mercado da representação política, a oferta aumenta mesmo que a procura soçobre face à descrença ou ao cinismo. O populismo cresce, viçoso ou disfarçado sob a capa da indignação. À esquerda, registam-se deserções em nome do purismo revolucionário abastardado; à direita, novos arautos do liberalismo pretendem aproveitar a alegada “esquerdização” do PSD, enquanto Assunção Cristas ocupa o palco repetindo pressurosa e persistentemente que é a líder da oposição. E até para o “menino guerreiro” a luta continua. A esperança em Santana Lopes, e na Santa(na) Aliança que ele propõe – a geringonça da direita, o bloco de direita – é tal que, imaginem, até a advogada da Madonna é vice-presidente do partido. Melhor do que isto, só a própria Madonna, embora eu não creia que o eleitorado conservador a aprecie assim tanto. Tirando, talvez, aquela facção que se rege pela máxima da virtude pública e do vício privado, para quem a hipocrisia é um sinal de inteligência e de competência social.

 

Há quem ache, porém, que convém não exagerar numa visão ideológica demasiado extremada da disputa eleitoral. Paulo Rangel asseverou em entrevista ao Expresso “que nunca disse que era de direita, mas do centro ou centro-direita”. E em algumas matérias, até chega ao “centro-esquerda”. Mas, para ele, esta discussão “não interessa aos cidadãos”, concluindo: “(…) as pessoas estão em casa a ver se o PSD está dois milímetros mais para a esquerda ou dois milímetros mais para a direita? Os cidadãos querem é respostas para os seus problemas.”

 

O que parece estar aqui em causa é, no mínimo, a explicitação do celebrado pragmatismo do PSD e, no máximo, a desvalorização da política enquanto instrumento ideológico de mediação dos interesses e aspirações dos cidadãos. Parece que a ideologia só é útil para servir de arma de arremesso contra o poder do dia (quando este não é o que Rangel apoia), quando de um púlpito se fazem acalorados discursos contra abstracções como a “asfixia democrática” ou a “claustrofobia democrática”.

 

Imagem: inimigo.publico.pt

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