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NO VAGAR DA PENUMBRA

NO VAGAR DA PENUMBRA

NOTÍCIAS DE UMA REALIDADE INVEROSÍMIL

Setembro 13, 2020

J.J. Faria Santos

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O sempre estrepitoso Nuno Melo, com aquele seu ar de latifundiário das horas vagas e aquela sua atitude aguerrida de exterminador implacável do marxismo cultural, com pouca preocupação com o rigor dos conceitos e com a veracidade dos factos, denunciou no Twitter o facto de, numa misteriosa escola, uma aula de Educação Física ter sido “interrompida” para que os alunos assistissem a uma “palestra sobre 67 tipos de sexualidade”, ministrada por uma ignota “associação”. O deputado europeu do CDS deu o exemplo da atracção sexual por objectos inanimados. O que me leva a especular acerca desta escolha. Será que preferiu um exemplo comparativamente menos chocante para o eleitorado conservador do que, sei lá, a necrofilia ou o bestialismo? De resto, está-se mesmo a adivinhar o raciocínio de Nuno Melo: uma palestra sobre sexualidade no meio de uma aula de Educação Física? Que género de ginástica se seguiria? Alongamentos e coisa e tal.

 

O Papa Francisco, citado num livro de entrevistas, declarou que “os prazeres de comer e do sexo vêm de Deus” e que o “prazer sexual existe para que o amor seja mais bonito e para garantir a perpetuação das espécies”. Fontes não identificadas (na verdade, um amigo meu com tendência para a efabulação…) informaram-me que, confrontados com estas afirmações (e apesar da referência à função reprodutiva), cerca de 90% dos subscritores do manifesto contra a obrigatoriedade da disciplina de Cidadania estariam a ponderar o suicídio colectivo. Não acreditei, claro, porque seria pecado.

 

Num daqueles episódios característicos da silly season, a capa falsa do New York Times onde se anunciava que Portugal iria ter “uma festa de suicídio coletivo chamada ‘Avante!’ com 33000 visitantes” chegou ao Jornal da Noite da SIC. A culpa é, certamente, da pressão do directo. Acreditar que um jornal de referência utilizaria uma formulação tão falsa e propagandística para se referir ao evento em causa é do domínio do delírio. Se Donald Trump tivesse visto esta capa, berraria, por instinto, “fake news!” E, por uma vez, teria acertado.

 

Debaixo do verniz de intelectual, da consistência argumentativa ou da sofisticação do raciocínio, espreita a crueza do extremismo, da ausência de flexibilidade política e da fidelidade ideológica. É por isso que, em entrevista à Visão, Jaime Nogueira Pinto confirma a sua simpatia pelo Chega, desvalorizando o simplismo do discurso do partido, e confessa que, se votasse nos EUA, teria votado Trump (“contra Hillary Clinton”) e agora votaria Trump contra Kamala Harris (“que assusta muita gente”) e Joe Biden (que está “chalado”). O grande defeito do incumbente, diz Nogueira Pinto, é que “não tem contenção. Fala e twitta de mais…” De resto, deve agradar-lhe o perfil autocrático do magnata, a prosápia de homem forte. O admirador de Salazar admira Trump, cujo grande defeito é falar demais…

 

O homem forte do Benfica, Luís Filipe Vieira, deverá recandidatar-se à presidência, e já tem uma comissão de honra com mais de 500 individualidades. António Costa faz parte da lista. Não é o primeiro-ministro, nem o secretário-geral do PS; trata-se, evidentemente, do sócio nº 15509 do clube. Que, por força das circunstâncias, acumula esta condição com aqueles dois cargos. Esta compartimentação pode ser operativa em termos de retórica política, mas apenas aí. Se outra razão não pudesse ser aduzida, atendendo a que nos últimos tempos o Benfica e Vieira se viram envolvidos em vários casos de justiça, era preferível que o nome do sócio António Costa não constasse da comissão de honra. Vieira tem direito à presunção da inocência, mas era preferível que Costa esperasse para ver o resultado da luta que o presidente do Benfica certamente encetará por aquilo que “acredita ser a sua verdade”.

 

Qual é a verdade? Salazar tombou de uma “cadeira de lona” ou caiu na banheira? A tese do arquitecto José António Saraiva (sim, esse mesmo, o articulista de pendor conservador com laivos de bizarria e tendência para a megalomania) aponta para a banheira e está explanada no seu livro Salazar – A Queda de Uma Cadeira Que Não Existia. Confrontado com uma recensão negativa do historiador António Araújo no Público, o arquitecto não fez a coisa por menos: os seus críticos “defendem a tese oficial” porque se recusam a aceitar que “foram enganados”. A resposta de Araújo é frontal, brutal, contundente. O historiador considera, em artigo no Público, que o arquitecto “tem revelado uma tendência crescente para o registo demencial em chave dupla patético-pateta”. Acusando-o de ser “um empenhado cultor da ignorância profunda”, classifica o livro como uma “obra de pacotilha, prenhe de imprecisões clamorosas, de calinadas grosseiras e de ‘teses’ que a investigação séria tem desmentido há muito.” Indignado por José António Saraiva considerar que uma testemunha não é anónima, porque deu a cara mas pediu o “anonimato público”, Araújo utiliza um recurso retórico para desancar violentamente em Saraiva: “Ainda ontem, por exemplo, várias pessoas aqui no Bairro da Graça me garantiram a pés juntos que o senhor arquitecto Saraiva é um idiota chapado e um vulgar aldrabão, mas, como quiseram todas guardar anonimato público, eu não posso escrever nestas páginas que o senhor arquitecto Saraiva é uma idiota chapado e um vulgar aldrabão – e, por isso, não escrevo.” António Araújo termina a sua réplica aconselhando, “a bem da nação”, que Saraiva “vá à pesca”. Há alguma dúvida de que o mar está encapelado?

 

Imagem: sapo.pt

QUEM TEM MEDO DOS JOVENS INSTRUÍDOS?

Setembro 06, 2020

J.J. Faria Santos

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Estará Passos Coelho contra a “educação para o empreendedorismo”? Que objecções terá Cavaco Silva ao ensino da “literacia financeira e da educação para o consumo”? Não vislumbrará Isabel Jonet mérito na “promoção do voluntariado”? E D. Manuel Clemente não verá reflectido o seu espírito ecuménico na educação intercultural onde se visa “desenvolver a capacidade de comunicar e incentivar a interacção social, criadora de identidades e de sentido de pertença comum à humanidade”? Todas estas matérias e outras (direitos humanos, igualdade de género, educação ambiental…) integram o currículo da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, envolta numa guerra de manifestos, espoletada pela circunstância de dois irmãos, por opção dos pais, terem faltado a todas as aulas.

 

As personalidades acima mencionadas juntaram-se em nome da “defesa das liberdades de educação” e do respeito pela “objecção de consciência de mães e pais” quanto à frequência da dita disciplina. As motivações dos signatários e dos que se pronunciaram no sentido da concordância com o conteúdo deste manifesto variam. José Miguel Júdice não diz se “o conteúdo é correcto ou errado”, discorda é que não haja “alternativa”. Acha que a objecção de consciência deve ser protegida e estabelece um paralelo com o serviço militar (?). Henrique Monteiro acha que que “o caso é sobre a igualdade de género” e que o “programa está cheio de ideologia”. Já para Sérgio Sousa Pinto, “podem ocorrer casos de proselitismo e endoutrinação, mas na maior parte dos casos, é a nulidade da coisa que nos deve interpelar.”

 

Ignoremos, por momentos, a duvidosa invocação da objecção de consciência por procuração e o aroma inconfundível a guerra cultural. Relevemos a forma distorcida como a posição assumida pelo Ministério da Educação foi veiculada, bem como a extravagante pretensão dos pais a uma espécie de droit de regard (como explicou José Ribeiro e Castro em artigo no Público, “estes pais nem recusaram por inteiro a frequência da disciplina; exigiram ser informados previamente da matéria das aulas, a fim de decidirem em concreto”), que obrigaria a uma absurda negociação à la carte acerca dos conteúdos passíveis de serem ensinados. Estando em causa um encarregado de educação, cristão católico, “talvez conservador”, nas suas próprias palavras, casado com uma cientista que, segundo o jornal Público, “renunciou à investigação para se dedicar à educação dos filhos”, não posso deixar de me interrogar se a animosidade perante a disciplina em causa não se deverá ao facto dela incluir matérias como a igualdade de género (“promoção da igualdade de direitos e deveres das alunas e dos alunos, através de uma educação livre de preconceitos e de estereótipos de género”) e a educação para a saúde e a sexualidade (“A escola deve providenciar informações rigorosas relacionadas com a proteção da saúde e a prevenção do risco, nomeadamente na área da sexualidade, da violência, do comportamento alimentar, do consumo de substâncias, do sedentarismo e dos acidentes em contexto escolar e doméstico” – in Educação para a Cidadania – linhas orientadoras).

 

Desconfio que o que está aqui fundamentalmente em causa é a educação para a sexualidade. Uma espécie de síndrome Diácono Remédios. Artur Mesquita Guimarães, o pai das crianças, declarou ao Público: “Entendo que a educação sexual é uma competência dos pais e ainda que seja uma disciplina curricular tem de ser considerada a objecção de consciência para aqueles pais que entendam que os filhos não devem participar.” Não é difícil perceber que para indivíduos com um perfil “talvez conservador”, qualquer abordagem à sexualidade que escape ao seu controlo, mesmo sob o prisma da saúde reprodutiva e da prevenção do risco, pode ser um passaporte para a libertinagem. Nos seus piores pesadelos, até pode ser que imaginem um filho a chegar um dia a casa da escola e a proclamar impante que quando for maior que ser transsexual… O que verdadeiramente me espanta é o receio que estes pais têm de que a escola produza um curto-circuito na relação deles com os filhos, de forma que se sentem na obrigação de bloquear a informação da aula. Como se a educação que entendem providenciar aos seus descendentes não tolere o confronto, fortuito ou sistemático, com outros entendimentos ou perspectivas. Sentir-se-ão desprovidos de capacidade de esclarecimento e persuasão, ou contentar-se-ão com a imposição do seu ponto de vista guiados pela omnipotência dos seus papéis de progenitores (“é assim porque sim, porque eu digo”)?

 

Eduardo Marçal Grilo e Guilherme d’Oliveira Martins (dois perigosos discípulos do marxismo cultural e praticantes do proselitismo e de métodos inquisitoriais, evidentemente…) escreveram no Expresso que “admitir explicitamente que se possa invocar a objecção de consciência numa disciplina de currículo é abrir a porta a que se invoque o mesmo direito em qualquer outra disciplina como a Biologia, a Geografia ou mesmo a História ou a Sociologia”. Outras figuras deram exemplos das consequências deste precedente: pais com uma visão religiosamente dogmática poderiam recusar o ensino do evolucionismo; negacionistas do Holocausto poderiam impedir que os seus filhos assistissem a uma aula de História.

 

Richard Zimler, um dos subscritores do manifesto a favor da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento (juntamente com figuras como Teresa Pizarro Beleza, Ana Gomes, Marina Costa Lobo e Daniel Oliveira) afirmou: "Tenho muito medo de jovens incultos, mas não tenho medo de jovens instruídos". É caso para dizer: quem terá medo da disciplina que, conforme consta das suas linhas orientadoras, “visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo”? Há quem escolha os dogmas e a auto-suficiência e viva enclausurado no seu casulo de superioridade moral. Quem tem medo dos jovens instruídos?

 

Ilustração: cidadania.dge.mec.pt

PROUST - AFORISMOS

Agosto 30, 2020

J.J. Faria Santos

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Do preço da leviandade - “É sempre e só por causa de um estado de espírito sem futuro duradouro que tomamos resoluções definitivas.” (Volume 2, página 157)

 

Da maleabilidade do tempo - “O tempo de que dispomos em cada dia é elástico; as paixões que sentimos dilatam-no, as que inspiramos encolhem-no, e o hábito enche-o.” (Volume 2, página 191)

 

Do prazer como revelação - “Há prazeres como fotografias. O que se tem na presença do ser amado não passa de um negativo, revelamo-lo mais tarde, chegados a casa, quando reencontramos à nossa disposição aquela câmara escura interior cuja estrada está ‘interdita’ enquanto há gente à vista.” (Volume 2, página 456)

 

Do outro como abrigo - “(…) há momentos em que precisamos de sair de nós mesmos, de aceitar a hospitalidade da alma dos outros (…)” (Volume 3, página 144)

 

Do desejo enganador - “Nada há como um desejo para impedir as coisas que se dizem de ter qualquer semelhança com o que temos no pensamento.” (Volume 3, página 358)

 

Do snobismo como enfermidade - “O snobismo é uma doença grave da alma, mas localizada, e que não a deteriora totalmente.” (Volume 5, página 10)

 

Do amor tirano - “Muitas vezes o ciúme não passa de uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor.” (Volume 5, página 85)

 

Do medo como acicate do amor - “A maioria das vezes o amor só tem por objecto um corpo se uma emoção, o medo de o perder, a incerteza de o recuperar nele estiverem fundidos.” (Volume 5, página 86)

 

Do amor como funambulismo - “(,,,) por muito tranquilos que nos julguemos quando amamos, sempre temos no nosso coração o amor em equilíbrio instável.” (Volume 5, página 217)

 

Da fé derradeira - “Quando nos vemos à beira do abismo e parece que Deus nos abandonou, já não hesitamos em esperar dele um milagre.” (Volume 6, página 21)

 

Da virtude da mentira - “A mentira é essencial à humanidade. Nela desempenha porventura um papel tão importante como a procura do prazer, e de resto é comandada por essa mesma procura. Mentimos para proteger o nosso prazer, ou a nossa honra se a divulgação do prazer for contrária à honra.” (Volume 6, página 199)

 

Estas citações, apresentadas sob a forma de aforismos, foram retiradas da obra-prima de Marcel Proust (1871-1922) Em busca do Tempo Perdido, editada pelo Círculo de Leitores, com tradução de Pedro Tamen. Os setes volumes foram, entre Setembro de 2003 e Julho de 2005 (à medida que foram editados e por mim adquiridos) os protagonistas dos meus hábitos de leitura desse período. Como habitualmente, sublinhei determinados excertos, os quais serviram de base para a selecção transcrita nesta publicação. O leitor que sou revê-se no leitor que fui, mas não pode deixar de reconhecer e sublinhar que estas escolhas são um produto de um tempo e de uma circunstância. Uma (re)leitura da obra em 2020 produziria, seguramente, alterações no elenco de citações, num eterno e mutável efeito de apropriação. O próprio Proust, aliás, escreveu no sétimo volume (O Tempo Reencontrado – página 223) que “…cada leitor é, quando lê, leitor de si próprio. A obra do escritor não passa de uma espécie de instrumento óptico que ele oferece ao leitor a fim de lhe permitir discernir aquilo que, se não fosse aquele livro, ele porventura nunca veria dentro de si mesmo.”

 

Imagem: Marcel Proust fotografado por Otto Wegener circa 1895 (Wikimedia Commons)

FRASES DO VERÃO (ANOTADAS)

Agosto 23, 2020

J.J. Faria Santos

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“Fala-se muito no cansaço e houve muitos heróis entre os trabalhadores da saúde (…), mas eu poderia dizer que aí 75% ou 80% dos trabalhadores da saúde teve um grande período de férias nestes últimos 3 ou 4 meses.” (Jornal da Tarde, RTP, 22/07/2020) A frase iconoclasta do cardiologista Manuel Antunes, contra a corrente laudatória dos profissionais da saúde, não pretende, obviamente, desvalorizar quem esteve na chamada linha da frente do combate à epidemia, propondo antes uma leitura matizada, atendendo às circunstâncias do desempenho clínico de cada um deles. Claro que uma frase destes, se fosse proferida por um governante ou por um dirigente partidário, teria dado origem a uma quase sentença de morte política ou a um auto-de-fé nas redes sociais…

 

“Uma pessoa que é portadora do vírus [da covid-19] pode ser comparada a um bombista, porque, neste caso sem querer ou saber, pode infectar 100, 200 ou 300 pessoas. (…) Discutir a constitucionalidade é, neste caso, um absurdo.” (in Público de 8/08/2020) Para Miguel Albuquerque, portanto, uma matéria que põe em conflito valores fundamentais como a liberdade e a segurança não tem dignidade constitucional. Como ele próprio confessou, “sou uma pessoa afectiva, mas sou muito pragmático”, pelo que só faltou admitir que perante um bombista acidental ao serviço involuntário do coronavírus, nada como a eficácia do waterboarding. Assim como assim, as gotículas epidémicas acabavam dissolvidas no caudal da água. Dois propósitos eram alcançados: reprimir o bombista e conter a disseminação do vírus.

 

 

“Não nego nenhuma das divergências que tive com ele [Pedro Passos Coelho], em muitas áreas, mas acho francamente que o país lhe deve alguma coisa.”  (in Público de 26/07/2020) A frase de Francisco Assis parece mais um reconhecimento institucional a quem exerceu um cargo público do que um elogio, que de rasgado nada tem. Na verdade, até parece bastante avarento. “Alguma coisa” é uma medida que, com toda a probabilidade, só terá entusiasmado a entrevistadora (Maria João Avillez) e o responsável pela manchete do dia. Se se acrescentar que o próprio Assis afirmou que tinha “expectativas muito baixas” acerca do desempenho dele como primeiro-ministro, percebe-se que o “exercício intelectual interessante” (como ele caracterizou o olhar sobre a governação de Passos) tenha resultado numa síntese ao mesmo tempo titilante e inócua.

 

“Depois do manifesto inquisitório, os pezinhos de lã do Governo disfarçam as botifarras da censura. (…) Estes senhores não querem apenas combater o que entendem ser o fascismo, o racismo e o populismo. Querem também destruir a democracia plural, a liberdade de expressão e o livre pensamento.” (in Público de 19/07/2020) Os pretextos para o tonitruante artigo de António Barreto foram um manifesto subscrito por académicos condenando o que designavam como o “branqueamento” do Chega efectuado por Riccardo Marchi e a intenção de Governo de monitorizar o discurso do ódio na Internet. A politóloga Marina Costa Lobo leu o trabalho de Marchi e concluiu que “não se trata de um estudo de ciência política nem de história (…), não cumpre critérios mínimos de distanciamento do objecto de estudo, (…) não tem um enquadramento analítico, nem teórico”, notando a escassez de fontes de investigação e reduzindo a obra a um “panfleto partidário” (artigo no Público em 11 de Agosto). No mínimo, devemos considerar que os autores do manifesto (mesmo que se tenham cingido a declarações de Marchi, sem terem lido a sua obra) tiveram pelo menos o discernimento de apontar falhas na metodologia e enviesamento nas conclusões. Por outro lado, mesmo sem sabermos como se tem materializado a intenção governamental de acompanhar o discurso de ódio online, tendo em conta a visibilidade das acções do Chega ( e a sua performance nas sondagens), bem como a acção de organizações que não se eximem à emissão de ultimatos e ameaças, parece-me que faltaria firmeza às “botifarras”. Em suma, sendo sempre de saudar o discurso vigilante da liberdade, talvez fosse de introduzir algum gradualismo na retórica e ponderação na análise. Doutra forma, corre-se o risco de perpetuar a história de Pedro e o Lobo, com o seu histórico de falsos alarmes e o risco da descrença quando a ameaça real aparecer.

 

“Se o Chega evoluir de uma tal maneira que – embora seja um partido marcadamente de direita, em muitos casos de extrema-direita, muito longe de nós que estamos ao centro -, se o Chega evoluir para uma posição mais moderada, eu penso que as coisas se podem entender.” (in RTP3, 29 de Julho) O homem que recentrou o PSD estende os braços ao extremismo apelando à sua moderação? Ingenuidade, inconsciência ou puro pragmatismo eleitoral? O que motiva Rui Rio só pode ser a intenção de voto que o Chega obtém nas sondagens. E talvez a natureza antissistema do partido de Ventura o fascine um pouco… Como escreveu Pedro Adão e Silva no Expresso, “no fim, não será o Chega que se vai moderar, é a direita moderada portuguesa que acabará por se radicalizar”. Nessa altura, presumo, os cultores do espírito do bloco central e os apologistas das virtualidades da moderação rasgarão as vestes perante uma geringonça de sinal contrário.

 

“A minha preocupação não tem sido apurar as responsabilidades dos surtos [nos lares]. (…) Tem sido criar instrumentos de reforço para apoio às instituições e acompanhá-las.” (In Expresso de 15/08/2020) As duas frases da ministra Ana Mendes Godinho constam da mesma resposta, mas só a primeira deu direito a manchete. Podem ser interpretadas como uma forma de priorizar o apoio às instituições e só depois averiguar as circunstâncias que rodearam o surgimento e a evolução dos surtos, ou como uma manobra de desresponsabilização, ou ainda como sintoma de incapacidade de avaliação política. Na verdade, porém, em meados de Julho, a ministra já tinha pedido à Segurança Social uma avaliação ao lar de Reguengos e remetido as conclusões ao Ministério Público. A ministra foi também acusada de insensibilidade por ter dito que só foram atingidos “3% do total dos lares e 0,5% dos utentes”. A ideia feita é que em S. Bento mora a insensibilidade e em Belém reside a compaixão. Mas o grande pecado de Ana Mendes Godinho, creio, foi ter dito que não leu “pessoalmente” o relatório da Ordem dos Médicos, embora tenha esclarecido que tinha pedido que o “analisassem”. O crime de lesa-majestade foi não ter lido sofregamente e de imediato o documento oriundo de uma ordem cujo bastonário tem uma presença tão abundante nos ecrãs das televisões. As más-línguas diriam até que mais que a própria ministra da Saúde. As mesmas más-línguas que até são capazes de sugerir que se delegue os poderes da Inspecção-Geral do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social na Ordem dos Médicos…

 

Imagem: "The Coming Storm" de Michele Del Campo

COMO SE ATREVEM?

Agosto 16, 2020

J.J. Faria Santos

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Um grupo de cobardes, a coberto do anonimato que a pertença a um gangue que denominaram Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional lhes confere, convenceram-se de que seria admissível espezinhar o Estado de direito e os direitos humanos, exigindo a dez pessoas que abandonassem “o território português” e o desempenho de “funções políticas”. Ao melhor (pior) estilo mafioso, na onda das “ofertas irrecusáveis”, o email enviado de um serviço de correio electrónico insusceptível de registo e com duração limitada (ao estilo do filme Missão Impossível, a mensagem acaba por autodestruir-se em 60 minutos…) incluía a promessa de represálias em caso de não acatamento do édito de desterro, sob a forma de “medidas” que seriam tomadas contra os “dirigentes e os seus familiares”. Tudo de forma a garantir “a segurança do povo português”.

 

Este ultimato com prazo de 48 horas configura um acto criminoso que tem de ser investigado, reprimido e severamente punido. Não pode haver complacência com a agressão grotesca dos valores do humanismo e do respeito pela lei, para já não falar da usurpação dos poderes do Estado. Há momentos em que é imprescindível afirmar princípios inalienáveis com firmeza e intransigência, sem que nos deixemos tolher pelo espectro da radicalização ou pelo tacticismo sonso. Contra energúmenos que se arrogam a prerrogativa de pretender expulsar do país activistas e representantes eleitos da nação, e que se pavoneiam com tochas e máscaras brancas em frente da sede do SOS Racismo, não pode haver contemplações. Já não estamos no domínio de proclamações e acções que, por mais absurdas e ofensivas que fossem, se poderiam abrigar na capa da liberdade de expressão; entramos, com estrondo, na fase da intimidação e da ameaça.

 

Num primeiro email, enviado no início de Agosto, ao SOS Racismo e à Frente Unitária Antifascista, a Nova Ordem de Avis escreveu: “A partir de hoje o medo irá mudar de lado. Para cada nacionalista preso, um antifa será enterrado. Para cada cidadão morto, dez estrangeiros serão eliminados”. Seria fácil, demasiado fácil, encarar estes propósitos como o delírio demencial de criaturas mentalmente perturbadas. Ou desvalorizá-los como desabafos em que a miséria moral e/ou económica se reúne com a fanfarronice e a delinquência grupal. Seria fácil, mas profundamente errado e perigoso. Porque queremos que a liberdade de expressão e acção convivam, nos estritos limites da lei, com o debate vigoroso, não podemos ser cúmplices pelo silêncio ou pelo apaziguamento. Porque acreditamos na liberdade e no Estado de direito, não podemos permitir que o “medo mude de lado”. Na verdade, o que nos pode e deve motivar é a erradicação do medo.

UM DRINK DEPOIS DA ENTREVISTA

Agosto 09, 2020

J.J. Faria Santos

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Ocasionalmente, seguramente a bem da nação, um pivot incisivo interpela sem piedade, no noticiário televisivo, um governante ou um político em geral. Ungido de missão nobre, guiado pelo mantra do contrapoder, aplica-se na inquirição indignada ou mesmo no ralhete, enquanto o seu interlocutor, subjugado pela humildade democrática e pelo dever de aceitação do escrutínio da sua acção se esmera na bonomia com que apara os golpes e desenvolve o contraditório. Se assim não for, o entrevistado é imediatamente catalogado como sendo arrogante, prepotente e incapaz de aceitar o julgamento dos cidadãos.

Desta vez o protagonista foi Bento Rodrigues, de semblante carregado e estribilho em riste (a fome), perante a mal-amada ministra da Cultura, criatura cuja acção (inacção?) tem sido contestada e cujas punchlines nos exercícios de ironia tendem a ser vistos como execráveis, quer se trate  do quão “óptimo” é estar no México e não ler jornais portugueses ou da sua predilecção pelos drinks ao fim da tarde. Ainda por cima, a tirada do drink foi dirigida a uma jornalista da SIC (pecado capital, claro). E foi encarada como um desrespeito, um incómodo sacudido com sobranceria.

De todo o episódio, e independentemente dos méritos ou deméritos dos argumentos aduzidos, retive a serenidade e a firmeza com que a ministra foi respondendo ao jornalista. Bento Rodrigues, cujo estilo contido e sóbrio aprecio, apesar de ter conduzido uma entrevista que, por vezes, pareceu ser mais um veículo para um julgamento moral do que para obter respostas as questões prementes, conseguiu, ainda assim, manter-se afastado do ar e do tom gratuitamente insolente e displicente que Rodrigo Guedes de Carvalho utilizou com a ministra da Saúde.

Ainda bem que temos uma comunicação social livre e que se sente interpelada pelas condições de sobrevivência de artistas e criadores. Mesmo quando parece aturdida pelo espectro da fome dos outros, como se, temporariamente fora da sua bolha profissional restrita de ordenados de milhares e transferências de milhões, aterrasse na “irrealidade” de apoios de 219 euros. Este país até pode não ser para artistas, mas ainda preza a liberdade dos órgãos de informação e reconhece o seu papel imprescindível para a democracia. Pode haver quem ache que “as empresas de comunicação social são iguais às que fabricam móveis, sapatos, têxteis”, mas ainda ninguém se atreveu a apelidá-las de “inimigas do povo” como na demencial autocracia americana. A sede de liberdade não pode ser beliscada por um conjunto de perguntas impiedosas ou assertivas, ou por um naipe de respostas espirituosas ou despeitadas. Para desanuviar o ambiente, em nome do bem comum, nada como um drink depois da entrevista.

 

Imagem: mag.sapo.pt

NOVO BANCO, VELHOS HÁBITOS

Agosto 02, 2020

J.J. Faria Santos

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Primeiro foi o ring fencing para conter o risco sistémico. No fundo, uma espécie de cerca sanitária para tentar preservar o BES dos efeitos patogénicos do GES. Depois veio a resolução e a concomitante criação do Novo Banco, nascendo assim a ficção do banco mau e do banco bom. Na verdade, o banco péssimo e o banco mau. Não deixa de ser irónico que a palavra resolução tanto possa significar “solução de um caso ou de um problema” como “mudança de estado sem alteração da natureza”. Está na natureza das instituições financeiras que a solenidade conviva com uma certa impunidade que o poder confere, que a auto-suficiência e o sigilo conflituem com o escrutínio dos auditores e dos reguladores e que a expertise dos banqueiros tenda a olhar com sobranceria as objecções do comum dos mortais. Porque no fundo, nós, contribuintes, perdidos no nevoeiro da ignorância, ofuscados pelo brilho do jargão que nos arremessa palavrões como “imparidades” ou “alavancagem”, jamais seremos capazes de reconhecer que tudo se desenrola segundo as melhores práticas do mercado.

 

E assim se vão multiplicando os efeitos da epidemia malsã cujo paciente zero foi o BES (o banco péssimo), sem que o seu sucessor, o Novo Banco (o banco mau), se mostre capaz de travar ou minimizar os seus efeitos hemorrágicos, directos ou indirectos, sobre o erário público. E agora, sob o efeito-choque da divulgação, feita pelo jornal Público, do “maior negócio imobiliário em Portugal nos últimos anos”, em que um “fundo das Caimão comprou casas do Novo Banco com o crédito deste” (na verdade casas e terrenos, com um valor bruto de 631 milhões de euros, alienados por 364 milhões), um clamor atravessou a sociedade portuguesa. Um brado fatalmente condenado a esmorecer na tibieza da indignação moral, porque terá sido tudo perfeitamente legal e com a bênção do Fundo de Resolução, que assegura que avaliou a credibilidade do comprador (que não se sabe quem é, mas isto é um pormenor de reduzida importância, o que é relevante é que terá feito a melhor proposta). Money talks e as melhores práticas acomodam-se.

 

Na síntese desassombrada de João Miguel Tavares, no Público de 30 de Julho, “O golpe de génio da alta finança predatória (…) está em transformar aquilo que antes se chamava ‘roubo’ num conjunto de operações financeiras extremamente opacas e complexas, pejadas de conflitos de interesse e… perfeitamente legais.” Tão “opacas e complexas”, atrevo-me eu a dizer, que o próprio Ricardo Salgado necessitaria certamente da assessoria do seu talentoso commissaire aux comptes para as compreender em toda a sua amplitude. Seria motivo para vociferar que “isto é uma vergonha!”, não se desse o caso desta expressão se ter desvalorizado pelo seu uso desregrado.

 

Imagem: 24.sapo.pt

VOX AMÁLIA (PALAVRAS DITAS)

Julho 26, 2020

J.J. Faria Santos

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“A minha vida não foi vivida por mim. Viveu-me. Foi Deus Nosso Senhor que andou por aqui como um anjo-da-guarda… Sou tudo aquilo que o fado quer. Não sou eu que canto o fado. É o fado que me canta a mim.”

 

“Canto folclore, canto marchas, canto espanhol, inglês, francês, italiano, não sou propriamente uma fadista que só canta fado.”

 

“Eu gostaria mais de ser cantora de ópera do que cantora de fado. A Maria Callas cantava e arrepiava. (…) Houve um musicólogo que disse uma vez que na música havia três pessoas neste século: a Callas, o Karajan e eu.”

 

“Gosto de Mahler, que é uma música parecida com a minha, e de Bach. É de chorar, por isso é que gosto. E aprecio muito a música popular do Brasil, do México, das Américas Latinas… Sabe, gosto também muito da música árabe.”

 

“Uma vez, num banquete, fiquei sentada ao lado do Mitterrand e do outro lado estava o Álvaro Cunhal. Eu estava sempre a olhar para ele, porque nunca o tinha visto. Mas quando eu olhava, ele olhava também, parecia que estávamos combinados. Então, eu disse-lhe: ‘Desculpe estar sempre a olhar para si, mas nunca tinha visto o bicho de perto…’ (…) Depois conversámos uma meia hora numa festa qualquer e ele disse-me: ‘Apesar das nossas divergências, sou um grande admirador seu.’”

 

“Salazar nunca deu nada nem ao fado nem ao futebol e Fátima não precisava dele. Se você dá um jantar em sua casa a convidados de cerimónia, põe a melhor toalha. Eles pensavam que eu era a melhor toalha do regime.”

 

“Fala-se tanto de felicidade, mas a felicidade o que é? Não se pode meter uma vida toda numa palavra.”

 

“Sou sentimental, não sou romântica. Sou mais dramática. Trágica não, porque nós portugueses não chegamos à tragédia. É trágico, mas é assim.”

 

“Gostava de morrer de repente. Acho que as pessoas deviam ser como as maçãs, cair da árvore.”

 

 

Fontes das citações de Amália Rodrigues: Diário de Notícias de 7/10/1999; Público de 9/02/1997 e de 7/10/1999; Expresso de 1/07/1995 e 25/10/1997. Imagem: pormenor de fotografia de Augusto Cabrita.

 

JESUS, CRISTINA E O ESPÍRITO SANTO

Julho 19, 2020

J.J. Faria Santos

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A crença na segunda vinda de Jesus Cristo à Terra tem a designação de parusia, muitas vezes associada ao cumprimento do Juízo Final. O regresso de Jorge Jesus ao Benfica será equivalente a um recomeço (uma espécie de regresso à Terra Prometida). De Juízo Final terá, quando muito, o obliterar da herança da dupla Rui Vitória/Bruno Lage, não deixando pedra sobre pedra, ao mesmo tempo que ameaça remeter para a estratosfera a estratégia de aproveitamento da formação. Em 2016, Luís Filipe Vieira bradava que Jesus tinha uma “maneira de trabalhar” que não servia “os interesses do Benfica”. O mundo mudou, o presidente benfiquista acenou com 3 milhões e os dirigentes do Flamengo receberam com incredulidade a notícia da perda do idolatrado técnico.

 

Têm em comum o Jorge, nome próprio num caso, apelido no outro. Só que a vedeta televisiva que agora regressa à TVI é sobejamente conhecida como Cristina (que significa cristã ou ungida por Deus) Ferreira. A SIC, se não ficou incrédula, considerou pelo menos, a decisão “abrupta e surpreendente”. Já a apresentadora (em vias de se tornar accionista e administradora na Media Capital) estaria aparentemente insatisfeita por não ter mais influência na área de entretenimento da SIC. Acenaram-lhe com um “projecto ambicioso”, triplicaram-lhe o ordenado (um valor que rondará os 3 milhões) e eis que Cristina regressa à casa-mãe. Nada é irremediável e nada é definitivo. Como ela própria escreveu: “(…) “o meu para sempre é muito estranho. É que nele está incluído o sair para continuar a crescer.” É crime ter ambição, desejo de alargar o raio de acção profissional, aceitar propostas de trabalho irrecusáveis?

 

Crimes, disse ele (o Ministério Público). 65 na totalidade atribuídos ao Espírito Santo. Ricardo Salgado na versão abreviada do nome com pedigree, ao qual não falta, porém, um quase plebeu Silva. O homem que geria influências e exercia o poder quase somente com um arquear de sobrancelha terá, com a sua acção danosa, infligido perdas da ordem dos 11,8 mil milhões de euros (3,5 mil milhões dos quais ao BES).A provar-se a acusação agora tornada pública, Espírito Santo terá sido o cérebro de uma rede criminosa que recorreu a formas mais ou menos sofisticadas de burla e falsificação. Ao contrário de Jorge Jesus e Cristina Ferreira, que legitimamente conjugam as suas ambições com as oportunidades que o mercado de trabalho lhes proporciona, Ricardo Salgado é o único, nesta heterodoxa santíssima trindade de figuras públicas, que, encurralado pelos erros próprios e pelas circunstâncias, não terá hesitado em recorrer a esquemas ilícitos para tentar preservar um império, cuja derrocada acabou por precipitar.

 

Imagem: Ilustração de Cristina Sampaio para o jornal Público.

 

SHARON STONE DESCRUZA AS PERNAS PERANTE JOÃO PAULO III

Julho 12, 2020

J.J. Faria Santos

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Sharon Stone está sentada em frente a ele, vestida de preto, recatada, mas com transparências, e o Papa João Paulo III começa logo por dizer que lhe ficaria “eternamente grato” se durante o decorrer da conversa ela evitasse o movimento de “descruzar e recruzar as pernas”. O tom é amistoso, quase sedutor, como se John Malkovich (que interpreta o Papa) estivesse a evocar o visconde de Valmont que encarnou em Ligações Perigosas. Stone sossega Sua Eminência e a conversa decorre em tom amistoso e permeável ao humor. Exemplo disto é a defesa do casamento gay para os católicos por parte dela, ao que ele responde que a Bíblia não o permite. Stone insiste e questiona se não pode haver um upgrade da Bíblia, o que obtém como resposta a explicação de que “a Bíblia não é um iPhone”.

 

Não está aqui em causa o dilema clássico de saber se é a vida que imita a arte ou se é a arte que imita a vida. Do que se trata é de um exercício provocatório em que uma sex symbol embarca na autoparódia com panache e sofisticação. É a ficção a recorrer a um facto que ocorreu (a existência de uma cena icónica do filme Instinto Fatal) para criar novas camadas de ficção, colocando uma figura real (a actriz Sharon Stone a fazer de si própria ou a ‘interpretar’ uma faceta de si mesma) a ser recebida em audiência papal. A cena abre o quinto episódio da série The New Pope, criada e realizada por Paolo Sorrentino (e exibida na semana passada no TVCine Emotion).

 

A dada altura, Stone confessa-se desconfortável, dado que um músculo da coxa (o adutor longo) estava a ficar entorpecido, pelo que se tornava imperioso cruzar as pernas no sentido oposto. Nada de particularmente ameaçador para os votos sagrados decorreu daqui. O Papa João Paulo III pediu apenas um momento para que ele e o restante séquito de clérigos desviassem o olhar num movimento síncrono. Devidamente autorizada, deu-se a coreografia das pernas, a que se seguiu novo movimento síncrono de cabeças na direcção oposta. Tudo isto foi pretexto para uma reflexão do Papa acerca da “beleza do sacrifício”, não deixando de admitir que ele pode ser acompanhado de alguma penosidade. Enfim, cada um carregará a sua cruz. Para alguns, ela foi um literal instrumento de crucifixão, um suplício para os condenados. Para outros, será somente o irromper do desejo insatisfeito face ao cruzar e descruzar de um par de pernas.

 

Imagem: Sharon Stone fotografada por Alix Malka para a Paris Match em Agosto de 2009 (pormenor)

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