NO VAGAR DA PENUMBRA
14 de Outubro de 2015

 

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As folhas caídas, inertes, já se deixam arrastar pelo vento, e o Sol já não nos tenta iludir com a memória dos raios de Agosto. Outubro irrompeu para mergulhar a nação num drama shakespeariano. Arquitectam-se cenários inimagináveis, preparam-se jogadas de alto risco, rasgam-se vestes. As pitonisas dos jornais de referência e os líderes de opinião em geral receitam moderação e sentido de Estado. Excomungam o radicalismo (em que país peroraram eles nos últimos quatro anos?). Há intrigas que se urdem, conspirações que se adivinham, poker faces que se afivelam; a indústria do bluff prospera, o comércio de lugares dispara. O filme é mais divertido que inquietante. Mas entediante com o seu plot carregado de avanços e recuos na acção, e actores espaventosos em overacting. Felizmente que existe a Literatura. E a Música.

 

Portanto, enquanto aguardo que a elite política descubra uma “solução de governabilidade”, embrenho-me com deleite no último tomo de Jonathan Franzen, Purity. E travo conhecimento com Pip Tyler e a sua demanda pelo pai ausente, que a leva à Bolívia e ao relacionamento com Andreas Wolf, uma espécie de clone de Julian Assange. Wolf, para alguém que se dedica à exposição impenitente dos segredos tem destes uma visão mais matizada. “Os segredos são uma forma de saberes que tens um interior. Um exibicionista radical é uma pessoa que renunciou à sua identidade. Mas a identidade num vazio também não tem sentido. Mais tarde ou mais cedo, o teu interior necessita de uma testemunha”, diz ele a Pip. E mais à frente defende que para se ter uma identidade é preciso intimidade com outras pessoas, e que esta se constrói partilhando segredos. É difícil perceber como se compatibiliza esta correlação segredo/intimidade/identidade com a exposição em massa de segredos, ainda que possa ocorrer noutro plano, o das organizações ou dos estados. A própria Pip se debate com os mistérios da sua própria identidade, com um pai desconhecido e uma mãe com um nome falso e segredos que tornam a intimidade mãe-filha, no mínimo, incompleta. Que pureza (transparência, genuinidade, perfeição) é plausível neste contexto? Talvez por isso, Purity renegue o nome de baptismo e se apresente como Pip.

 

Elizabeth Grant também preteriu o seu nome de baptismo em favor do cinemático Lana Del Rey. Regressa agora com Honeymoon. Reinam as orquestrações sumptuosas, os ritmos lentos, as vocalizações lânguidas, as entoações dramáticas de mulheres atormentadas e maltratadas pelo desejo ou pela roleta russa do amor. “I feel free when I see no one / And nobody knows my name”, canta ela. Brian Hiatt chamou-lhe em 2014, na Rolling Stone, “Vamp of Constant Sorrow”, e citou o editor discográfico David Nichtern que a viu como alguém com o aspecto exterior de Marilyn Monroe e o interior de Leonard Cohen. Mas há também espaço para o desprendimento luminoso, mesmo que seja um mero intervalo no spleen. Mais uma recuperação do cancioneiro de Nina Simone, Don’t let me me misunderstood, funciona como uma ilustração desta dualidade do seu reportório.

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:14 link do post
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