NO VAGAR DA PENUMBRA
15 de Outubro de 2014

TP_FACE_REC.SM_JPG.JPG                  Fotomontagem de páginas da revista The Face de Outubro/1990

 

O que esconde a superfície de bonomia de uma cidade do interior americano? Que género de pulsões e que tipo de disfunções que se manifestam na intimidade são ocultadas pela cortina da normalidade? Quando David Lynch e Mark Frost, pirateando os mecanismos da soap opera ensaiaram uma resposta com Twin Peaks, nasceu um culto. Jorge Leitão Ramos, no Expresso (A Revista, edição de 23/03/1991), notou a “subversão surpreendente” que a série “introduziu nos padrões ficcionais”, dado que “cada avanço no decorrer da ficção se traduzia não num aclaramento mas numa crescente obscuridade”.
Twin Peaks , mais do que pelo enredo, valia pela atmosfera, pelas figuras excêntricas, pelas idiossincrasias inquietantes, pela obsessiva presença de um mal difuso que se infiltrava pelos interstícios das mais ou menos calorosas relações sociais duma cidade suburbana. David Toop escreveu na The Face (Outubro/1990) que toda a gente tinha algo a esconder – “um filho deficiente, uma sociedade secreta, um marido violento, um relacionamento adúltero, um consumo de estupefacientes ou um negócio manhoso”. Toop, que viu na série “uma forma elaborada de pop art”, entrevistou Lynch , que lhe confessou “adorar uma cidade pequena” , mas que “não pode ser demasiado pequena, tem de ser suficientemente grande para que nem toda a gente se conheça e no entanto existam lugares agradáveis e também segredos estranhos e doentios”. E o segredo, que pode conduzir ao afastamento para assegurar a sua preservação, pode também ser um factor de união em nome de uma partilha que gera alívio e cumplicidade. Para Inês Pedrosa (Expresso – A Revista, edição de 17/11/1990) “em Twin Peaks, as pessoas começam por ser infiéis por desilusão e continuam a ser infiéis pelo absoluto desespero que só encontra conforto no mútuo sequestro de um segredo”.
Exibida no Estados Unidos entre 1990 e 1991, duas temporadas no total de 30 episódios, a série regressará em 2016 com nove episódios dirigidos por David Lynch. A nova temporada será temporalmente localizada na actualidade e o elenco ainda não foi revelado. O que nos permite alguma especulação: regressarão Donna (Lara Flynn Boyle) e Audrey (Sherilyn Fenn) para nos mostrar como evolui a sedução aos quarenta? E James (James Marshall) permanece o “rebelde sem causa” na meia-idade, encavalitado na sua mota, ou terá cedido ao conformismo? E Joan Chen? Continua, ao interpretar Josie Packard, a projectar aquela ideia de que o perigo a rodeia, mas passa por ela deixando-a intacta e causando danos colaterais?
“Don’t let yourself be hurt this time” é o primeiro verso da letra que Lynch escreveu para o tema-título da série, musicado por Angelo Badalamenti e interpretado por Julee Cruise. Vinte e cinco anos depois, que tal uma cover version por Lana Del Rey? Quem melhor para reinterpretar este tema e este verso que parece apelar à experiência para tentar, inutilmente, prevenir a dor. Porque numa cidade de 51 201 residentes ela fatalmente eclodirá. Seja a dor associada ao crescimento, à decepção ou ao luto.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 19:56 link do post
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