NO VAGAR DA PENUMBRA
15 de Março de 2016

1210_12_5_prev.jpg                                                 Imagem: freefoto.com

 

Julgava eu (erro imperdoável) que em termos de ignorância, incompetência e teimosia num candidato à Casa Branca George W. Bush tinha sido o apogeu. Bush, em Junho de 2001, dirigindo-se ao primeiro-ministro sueco Goran Perrson e desconhecendo que estava a ser filmado, afirmou: “É surpreendente que eu tenha ganho. Apresentava-me contra a paz, a prosperidade e o poder instalado”. Sendo improvável, não é impossível que Donald J. Trump possa vir a rever-se nestas palavras.

 

A sequência alucinante de afirmações disparatadas, proclamações ofensivas e asserções não substanciadas, embrulhada numa ignorância atrevida e num simplismo risível, é tal que nos obriga a ponderar se o que vemos é a manifestação em bruto de um ego incomensurável ou se há aqui uma estratégia despudoradamente assente no populismo. Quantas dimensões tem a criatura? O espectáculo pirotécnico das suas afirmações leva-nos a cair no erro de o subestimar? Encoberto pela fanfarronice, residirá algum bom senso?

 

Num artigo publicado em Outubro do ano passado na New Republic, Jeet Heer escreveu que Trump estava a concorrer às eleições como um “populista bilionário”, e que embora fosse incongruente com esta opção a sua “constante defesa do privilégio”, ele parecia ter criado uma “fórmula apelativa” ao unir “populismo e plutocracia”. Nesta plataforma, ele conseguiu reunir o apoio da classe alta interessada em manter os benefícios que encaram como inalienáveis e também de uma certa classe média baixa que não se revê nos conceitos tradicionais de esquerda e direita.

 

Mas estará esta coligação improvável a avaliar devidamente os riscos inerentes a um Trump Presidente? Acreditar na retórica da restauração da grandeza da América é estímulo suficiente para ignorar perigos como o que foi apontado pelo editorialista do New York Times Nicholas Kristof: “Há algum pesadelo mais assustador que o Presidente Donald J. Trump numa crise internacional tensa, indignado e impaciente, com o seu dedo transpirado no botão nuclear?”. Kristof que destaca nele a “notável ignorância acerca de assuntos internacionais”, considera que mesmo que nunca seja eleito já causou dano à nação americana, ao “reforçar caricaturas” associadas aos Estados Unidos e ao “manchar” a respectiva “reputação”, e acaba a compará-lo ao iraniano Ahmadinejad.

 

Ele não recua perante nada. E sobrevive a tudo. Afirmações não confirmadas por dados objectivos, puras falsidades ou tiradas incendiárias. Apoios indesejáveis ou demarcações convenientemente esquecidas. Tiradas veladamente racistas ou abertamente sexistas. Prestações em debates ou em comícios em que trata os adversários com uma insolência adolescente, onde se enquadra magnificamente a sua alusão à grandeza não da América mas do símbolo da sua masculinidade.

 

Num texto deliciosamente intitulado The Weird Inconsequentiality of Donald Trump (Despite His Towering Penis) e publicado no The Huffington Post, Peter Schwartz apelida-o de “neo-fascista racista que activa as emoções primitivas dos americanos assustados, vulneráveis e zangados”. Considerando que uma eventual presidência de Trump introduziria um enorme factor de incerteza, motivada pelo facto de se escolher um “louco para líder” ou “uma pessoa manipuladora que nos quer fazer crer que é louca”, Schwartz defende que estamos a “testemunhar a primeira eleição presidencial em formato reality TV”. O que é inquestionavelmente confirmado pelo artigo de David Von Drehle na Time – para Trump “as audiências (ratings) são poder. Não só as audiências da TV, mas também ‘os novos ratings’ como ele lhes chama: likes no Facebook, pesquisas no Google, menções no Twitter e seguidores no Instagram”.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:22 link do post
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