NO VAGAR DA PENUMBRA
17 de Janeiro de 2017

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A voz de Maria Barroso ecoou nos claustros dos Jerónimos, declamando Álvaro Feijó. Clareza e claridade, emoção e subtileza, ênfase sem pompa. “Que nos importa, aos dois, ir sem destino”, eis as derradeiras palavras ditas com superlativa dicção e inquestionável intencionalidade. Não consigo imaginar melhor maneira de homenagear um homem que assumia ter “uma visão literária da vida”. E que amava a cultura e os criadores. Há um perfume de aventura nesta proposta de viagem sem rota (o que não quer dizer sem propósito ou objectivo) que se adequa às personalidades que exaltam a liberdade. Um destino já tinha sido cumprido por aquele que pôs ao serviço da pátria uma certa ideia de democracia. O que garantirá a Mário Soares um lugar na História de Portugal e no panteão da memória dos que não são inconscientes, nem ressentidos, nem ingratos.

 

Num texto escrito em 23 de Abril de 2005, Mário Soares tece algumas considerações sobre “a velha dicotomia direita/esquerda”. Crítico feroz do que apelidava de “capitalismo de casino”, nesta reflexão Soares afirma que os progressistas (a esquerda) “não aceitam um sistema de governo neo-liberal, no sentido económico, onde o único valor é o dinheiro, baseado na ‘teologia do mercado’, com a consequência, sempre verificada, dos mais ricos esmagarem, necessariamente, os mais pobres, numa espécie de darwinismo social que, a prosseguir, nos reconduz à ‘lei da selva’.” Daqui extraia a necessidade da importância de um “Estado árbitro” com capacidade regulatória.

Timothy Garton Ash, num artigo para a New York Review of Books, sintomaticamente intitulado Estará a Europa a desintegrar-se?, retoma a alusão à divinização de determinadas opções de política económica, afirmando resolutamente que uma das chaves para a solução da crise europeia reside na necessidade de “Angela Merkel e Wolfgang Schäuble deixarem de tratar a economia como um ramo da teologia”. O autor, que defende que a crise financeira de 2008-2009 iniciou um novo período histórico marcado por “três tipos de crises mais abrangentes: do capitalismo, da democracia e da integração europeia”, considera que palavras como neoliberalismo, globalização e populismo são termos insuficientes (prefere a expressão democracia iliberal) para definir uma situação em que “um governo que emerge de uma eleição justa e livre procede à demolição das fundações da democracia liberal” sem, contudo, se transformar, necessariamente, numa ditadura tout court. E explicita aquilo que considera estar na origem da “tragédia da Europa do Sul: as falhas profundas no desenho da zona euro e as receitas inapropriadas apresentadas pelos países credores do Norte da Europa, nomeadamente a Alemanha”.

Numa altura em que desapareceu o grande obreiro da nossa opção europeia, em que parte da esquerda se prepara para discutir abertamente a saída do euro e em que o Governo socialista dá corpo a uma atitude menos aquiescente em relação aos dogmas das instituições da União Europeia, ainda assim não parece restarem dúvidas de que os portugueses estão maioritariamente com a Europa. Mesmo esta Europa. E a Europa? Continua connosco?

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:26 link do post
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