NO VAGAR DA PENUMBRA
10 de Outubro de 2017

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Foi de madrugada, porque o late night é tão apropriado à análise política na intimidade dos protagonistas, que Maria João Avillez procurou “apurar a devastação” do Pedro. Concentrou-se no seu “olhar esverdeado”, no “sorriso cortez”, na “vontade férrea”. O líder que sobrevivera a “massacres vários” e a “coelhos enforcados nalguns sítios por onde passava”, que salvara o país de “catástrofes várias”, decidira partir. É assim que, no Observador, ela descreve o seu tête-à-tête com Passos Coelho, algures entre a imaginação prodigiosa de um Frederick Forsyth e a riqueza estilística de uma Danielle Steel. Para o caso de suspeitarmos de algum ressabiamento, trata de nos explicar que não é uma “passista com ranço”(?). O seu depoimento arrebatado, ainda que mortificado, é o resultado de ter “sido testemunha (sentada na primeira fila de tudo) da passada política de Passos”. Trata-se, portanto, da visão privilegiada de quem tem acesso aos corredores do poder, de quem ao fazer o primeiro esboço da História já tem a clarividência e o distanciamento suficientes para enunciar a priori os seus  grandes protagonistas, de quem despojada de paixões isola os factos claros, límpidos e indiscutíveis. Mesmo quando assina artigos de opinião.

 

Avillez apontou António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa como “dois dos grandes obreiros (há outros) da teia onde desde há seis anos se tenta asfixiar politicamente o agora ex-líder do PSD e o próprio PSD”. Denunciou a “alegria” de Marcelo com o destino de Passos, mas advertiu que o PR detesta e teme Rio. Dois portugueses que ele não ama, conclui-se. Rangel desistiu, “por razões familiares” ou assustado com a previsível dureza da campanha. Montenegro optou por abraçar a missão preferida dos líderes e barões do PSD – o comentário político na televisão. Enquanto enxameiam canais de sinal aberto e por cabo, esmeram-se nas denúncias de uma alegada hegemonia da comunicação social esquerdista e na proclamação gongórica de asfixias democráticas. Resta Santana para reanimar a luta no PPD/PSD e enfrentar Rio com toda a bravura de menino-guerreiro. E quanto ao ex-autarca nortenho, que sabemos nós? Pedro Santos Guerreiro diz que ele “é um homem perigoso para quem o critica” e que “terá de mostrar se tem visão tamanha ou tacanha”. Quanto a mim, sei de um Rio que convive mal com o escrutínio dos média, que parece bater aos pontos Passos na obstinação e que ostenta uma “visão” (sejamos generosos…) demasiado tecnocrática da actividade política (recordo a tristemente célebre máxima “quando ouço falar de cultura puxo logo da calculadora”).

 

Curiosamente, uma outra colunista do Observador, Maria de Fátima Bonifácio, depositava em tempos grande confiança em Rui Rio, mais exactamente num pacto de bloco central firmado entre ele e António Costa. Numa entrevista ao Jornal de Negócios em 2013 declarou: “Não tenho nenhuma dúvida de que um pacto entre Rio e Costa seria muitíssimo melhor para o país do que um pacto entre Seguro e Passos.” Claro que nessa altura não definia Costa como alguém que “não respeita ou honra a sua própria assinatura”, como hoje o qualifica. Mas, por outro lado, também Passos, alguém que diz hoje prezar e admirar, era objecto de uma análise pouco lisonjeira: “O Passos é muito impreparado, viu-se pela quantidade de erros calamitosos que já fez, pela maneira como gere o país e pela atitude.” Mudou de opinião, o que é certamente legítimo, mas não terá sido por causa do “olhar esverdeado”. Deve ter-lhe agradado o zelo governamental  na aplicação da cartilha ideológica. Palpita-me que terá mudado de opinião em relação a Rio. Deve tender a vê-lo agora como alguém que, para a citar, “atrapalha, impede ou sabota as reformas que pudessem talvez abreviar a chegada de Portugal à História”. Todos sabemos que certa direita se acha no lado certo da História. Só me surpreende a modéstia do talvez.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:25 link do post
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