NO VAGAR DA PENUMBRA
22 de Março de 2016

Criamos intimidade com os actores que vemos no ecrã. Mesmo que por pudor interiorizemos a distância - são estranhos de quem só conhecemos personagens e de cujos desempenhos deduzimos qualidades e defeitos num processo absolutamente falível –, não deixamos de experimentar empatia ou repúdio. Há actores, porém, que independentemente do perfil moral do papel que interpretam gozam da nossa cumplicidade. Quer sejam pilares de bondade, vilões incorrigíveis ou criaturas menos maniqueístas e mais próximas de uma certa noção de verosimilhança. E se ainda por cima exibem o que se denominou chamar de star quality, nada ofusca o brilho dos seus desempenhos. Nicolau Breyner era um desses actores. Apesar do pioneirismo e do brilho do seu registo cómico, o meu Nico de estimação habitava o território do drama. Aos seus papéis ditos sérios emprestava uma intensidade e uma multiplicidade de cambiantes que desafiavam o estereótipo e estabeleciam uma autenticidade muito para além das convenções do naturalismo. Herman José disse ao Expresso que ele tinha um “lado amaliano”, pontuado por “momentos de profunda tristeza”. Não sei se esta circunstância particular contribuiu para a excelência dos seus desempenhos dramáticos. Ou se o induziu, para contrabalançar, a recorrer à comédia. O que sei é que agora a tristeza é também nossa. Porque quem representou tantas vidas, esgotou a sua. E a perda é nossa. Irrecuperável.

 

A Dra. Leanne Rorish sabe uma ou duas coisas acerca da sensação de perda. Um acidente de viação privou-a da família e agora, no serviço de urgência, caótico e fervilhante, de um hospital é responsável por decisões que podem salvar vidas. E por diagnósticos que equilibram a ponderação de dados com base na tecnologia com uma intuição médica apurada pela experiência. E pela noção que escolhas extremas implicam decisões de risco e, por vezes, pouco convencionais. Neste jogo da vida há, literalmente, vidas em jogo. Marcia Gay Harden interpreta Leanne na série Code Black com a dose indispensável de determinação acompanhada por uma capa de serenidade magoada. Não parece haver raiva nem negociação. A aceitação é apenas uma forma de continuar a jogar um jogo viciado.

 

O Direito joga-se numa arena para iniciados e almas temerárias. Explorar os subterfúgios legais e as lacunas da lei, e lidar com os egos é tão importante quanto o rigoroso conhecimento dos diplomas legislativos, dos prazos do processo e dos rituais da corporação. Mais importante ainda é gerir a informação. Dentro e fora do tribunal. Naquela fluida fronteira entre a verdade e o inadmissível, a legalidade e a infracção. Marcia Gay Harden teve uma breve participação em Como Defender um Assassino, série protagonizada pela fabulosa Viola Davis. Tal como Marcia, Viola é uma daquelas actrizes que não permitem que a brevidade de um papel impeça a genialidade do desempenho, o que pode ser comprovado pela sua participação no filme Dúvida. Na série em causa, ao interpretar a poderosa e tortuosa Annalise Keating, ao mesmo tempo implacável na barra do tribunal e vulnerável sem ser fraca na vida privada, Viola toca todas as cordas da emoção humana. E mostra-nos que tal como no tribunal pode ser sinuosa a relação entre a justiça e a verdade, também na vida quotidiana podemos sucumbir à circunstância de ter de agir para além do bem e do mal.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:11 link do post
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