NO VAGAR DA PENUMBRA
13 de Março de 2017

Os indicadores económicos são genericamente positivos (défice orçamental, crescimento do PIB, taxa de desemprego), existe paz social, a cooperação institucional ao nível do poder político parece ser exemplar, o Governo aparenta solidez na sua original heterodoxia e o último estudo de opinião coloca o principal partido do poder a crescer e a aproximar-se dos 40%. A nível internacional, a desconfiança parece ter-se dissipado e a solução governamental portuguesa tem despertado curiosidade e interesse. Embalado pela sua estratosférica popularidade, e para marcar o primeiro aniversário da sua chegada a Belém, o Presidente da República achou por bem afirmar ao Expresso que, apesar de ter havido “momentos maus e momentos menos bons”, o líder do seu partido nunca optou por uma “hostilização aberta”, pelo que “fica a porta aberta para Passos Coelho poder ser o segundo Governo” do seu mandato.

 

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                                              Fonte: inimigo.publico.pt

 

Podia ter sido pior. Podia ter dito que Passos poderia ser o segundo Governo do seu primeiro mandato. O Expresso explica que Marcelo está frustrado por não vislumbrar uma alternativa à geringonça. E por a relação com a sua família política ter piorado. Para um homem tão apegado aos afectos, esta evolução deve ser perturbante. Como devem ser as acusações de excessiva colagem a António Costa. (Do outro lado do espectro ideológico, há quem lhe chame intromissão.)

 

O Presidente não comenta a teoria Montenegro do regresso ao poder do PSD sem ser por intermédio de eleições, mas a jornalista do Expresso logo recorre a fonte de Belém para classificar tal cenário de “loucura”. Porquê? Bom, porque passaria a ideia de que Passos quer “evitar ir a votos”. Eis uma afirmação típica de um comentador político, mais do que uma asserção proferida tendo em conta os procedimentos constitucionais ou a prática presidencial em contextos idênticos. Quem seria a fonte?  Um assessor político, seguramente.

 

Embora desgostoso com a situação do centro-direita, o que interessa mais a Marcelo é a sua relação com o país, e essa, como diria um irrevogável ex-governante, “está a bombar”. O capital político que vai acumulando por essa via é para usar futuramente, quando e se as coisas começarem a correr mal ao actual Governo ou ao país. Aí, ele fará “o que tem de fazer”. O Presidente da República não consegue perceber como é que a direita não compreende isto. Enfim, diria eu, nem toda a gente tem a sua prodigiosa inteligência. Por outro lado, sempre ouvi falar na “direita inteligente”, o que pressupõe a existência de uma direita estúpida. Em todo o caso, para os mentecaptos ou para os menos familiarizados com subtilezas, Henrique Monteiro, na última página do mesmo jornal, tratou de pôr as coisas preto no branco: “Há quem entenda que ele dá, em excesso, a mão a António Costa. É certo, é verdade. Mas, por cada mão que lhe dá, ganha capital para lhe dar (perdoe-se o plebeísmo) um pontapé. Se Costa ultrapassar um limite que Marcelo invisivelmente traçou, ver-se-á em maus lençóis”.

 

Bem vistas as coisas, o centro-direita tem motivo para rejubilar. Contemplem, pois, a Primavera marcelista reinventada: enquanto coopera com a esquerda, Marcelo deixa a porta aberta para a direita. Mas só porque Passos Coelho não o hostilizou – catavento não é reles nem vil. Se assim não fosse, o Presidente ter-lhe-ia fechado a porta. Com estrondo, mas com a delicadeza intrínseca à sua esmerada educação no seio da elite lisboeta do século passado. Porventura, também com açúcar e com afecto.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:11 link do post
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