NO VAGAR DA PENUMBRA
22 de Novembro de 2016

Só a brutal experiência da desumanidade nos prepara para combater as suas manifestações? As competências para combater o mal só se adquirem mergulhando no lado negro da nossa consciência ou suportando estoicamente o abuso e a despersonalização? Tento, seguramente sem sucesso, imaginar-me cansado, ao calor inclemente, privado de água, instado a um exercício físico intenso no limite da falência física e mental, e ocorre-me uma frase de Leonard Cohen: “Não tenho medo da morte, são os preliminares que me inquietam”.

 

Não tendo especial aversão a respeitar regras ou seguir instruções, confesso que lido mal com a prepotência, que é quando o poder se aproxima da tirania. Muitas vezes em nome da manutenção da ordem. Como escreveu Jonathan Littell em As Benevolentes, “se há alguma coisa que repugne ainda mais a um militar do que a desonra, como eles dizem, é realmente a desordem”. Sinto-me incapaz de aceitar que para aceder a uma elite, qualquer elite mas sobretudo a militar, onde a palavra honra é um brasão luzente, um candidato tenha de se submeter a um ritual de humilhações e arbitrariedades. É assim que se constrói um espírito de corpo e se estimula a camaradagem?

 

Sim, consigo perceber que a guerra na maior parte das vezes não seja um jogo de cavalheiros, brutal mas leal. E que o treino para o campo de batalha requeira dureza e resiliência. Até posso aceitar que para alguns possa ser útil a passagem por uma instituição onde “a vida não precisava de elaboração e onde outros nos diziam quem devíamos ser.” (in Pássaros Amarelos de Kevin Powers). Já me parece inconcebível que as baixas apareçam no início de um curso, na sequência de sucessivos exercícios de alta intensidade e de avaliações médicas seguramente erróneas.

 

Quando entre a frase “ele está bem” e a frase “é melhor levá-lo para o hospital” uma vida se esvaiu irremediavelmente, não há código militar que resista. Powers escreveu também que “os pormenores do mundo em que vivemos são sempre secundários relativamente ao facto de termos de viver com eles”. A verdade é que não queremos ter de viver numa sociedade onde as vidas perdidas resultam não do combate a quem nos quer agredir mas do processo de selecção de quem nos protege. 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:06 link do post
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