NO VAGAR DA PENUMBRA
13 de Setembro de 2016

Os inimigos de Alex chegaram a deixar-lhe “recuerdos” quando lhe assaltaram a casa. E tornaram-no alvo de escutas, que todavia não o incomodam porque não tem “segredos”. Também não tem “amigos na magistratura” e, se “praticar erros grosseiros, ninguém na magistratura o vai acolitar”. E, por falar em acólitos, na infância encenava homilias, o que talvez se possa relacionar com o facto de encarar o trabalho como uma espécie de sacerdócio. Por não ter “muitos amigos com quem possa refeiçoar”, prefere almoçar em casa com a mulher. “Espartanamente”. Talvez antes de ouvir, no escritório do seu lar doce lar, as escutas que trouxe do seu posto de trabalho.

 

Porque ele farta-se “de trabalhar horas a fio”, aplicando “o direito aos factos” e tomando uma decisão. O ídolo do Correio da Manhã, grande combatente da corrupção, diz que a ideia de que ele é um “super-juiz” é uma “corruptela”, que não encoraja, embora a ache “engraçada”. Simplesmente, precisa de ganhar dinheiro para fazer face aos encargos que tem. Até porque não herdou nenhuma fortuna, nem “tem dinheiros em nome de amigos” nem “contas bancárias em nome de amigos”. Portanto, conclui-se, amigos nem para refeiçoar nem para cravar. E, infelizmente, mesmo o trabalho extraordinário não lhe propicia um “income bruto” muito significativo. Um “income” já muito afectado pelos cortes que começaram com “o senhor engenheiro José Sócrates” (anteriormente conhecido como o senhor José Pinto de Sousa).

 

O juiz Carlos Alexandre, que concentra em si os processos mais complexos e que se sente incomodado com as violações do segredo de justiça, defende a delação premiada e assegura não ser uma pessoa perigosa, porque não usa o poder de “forma malsã” e é um “cultor da lei moral de Kant”. Confessa-se “falível como toda a gente”, e diz não ter ambições políticas, mas um amigo ouvido na reportagem-entrevista da SIC diz que ele é “a reserva moral do regime”.

 

O que levará alguém que é retratado como avesso ao contacto com os jornalistas a conceder uma entrevista deste teor nas vésperas de terminar o prazo para apresentação da acusação da Operação Marquês? E como conciliar o rigor e a sobriedade da magistratura com alusões desnecessárias e acintosas aos dinheiros e às contas bancárias em nome de amigos que não tem?

 

Este episódio hagiográfico, aparentemente destinado a construir um perfil de simplicidade, honradez, imparcialidade e incorruptibilidade, sublinha as fraquezas humanas. Que são a kryptonite do super-juiz. Como interpretar a graçola e a exibição de um poder benévolo? Sintoma de vaidade, tantas vezes o outro lado da modéstia, ou sinal de impotência? Não será Carlos Alexandre o seu pior inimigo?

 

A procissão ainda vai no adro. Por quem os sinos dobrarão? Pelos arguidos condenados, pelo processo mal instruído ou pelo juiz “saloio” e kantiano com “nervos de aço, algodão nos ouvidos e sangue de lagarto”?

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:11 link do post
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