NO VAGAR DA PENUMBRA
09 de Maio de 2017

dufy12.jpg

                       "La Tour Eiffel" de Raoul Dufy (Courtesy of Bert Christensen)

 

A reacção do independente bacteriologicamente puro Rui Moreira às palavras da secretária-geral-adjunta do PS fez-me lembrar um sketch do programa Herman Enciclopédia no qual, às tantas, alguém acabava a vociferar “Este homem não é do Norte, carago!”, comentário a que se seguia, invariavelmente, a tentativa de acalmar o furibundo com um “Oh homem, não se desgrace!”.

Moreira poderia ter-se limitado a garantir que era imune a pressões e a sustentar a sua absoluta liberdade na escolha da sua lista, mas para o tonitruante independente com um horror a essa excrescência da democracia que são os partidos tornou-se imperativo recusar o apoio de um partido “que não percebeu o seu lugar”. Que seria talvez no sótão, ou na cave, como uma visita indesejada ou um familiar inconveniente. O que ele aprecia é o estilo silent partner do partido de Assunção Cristas.

Na certeira expressão do ex-primeiro-ministro, o PS sentiu-se “enxotado” e Costa tratou de afirmar que “amigo não empata amigo”. O nº2 da Câmara do Porto resistiu à tentativa de aliciamento do nº1 e vai enfrentá-lo novamente em eleições. Moreira, que não se desgraçou, tem agora o apoio de um bloco ideologicamente mais homogéneo e mais adequado ao seu próprio posicionamento político, mas sobretudo o que todo este episódio revela é que no estilo de liderança ele é um digno sucessor de Rui Rio.

 

Parece que Marcelo não é independente (nem técnico). E, tal como Pessoa dizia de Jesus Cristo, não é especialista em questões económico-financeiras. Quem o diz é Maria Luís Albuquerque, não incluindo o Presidente no rol de entidades “independentes do Governo e da maioria”, como por exemplo a UTAO, o FMI ou as agências de rating. Mas o pensamento de Marcelo é, como os seus desígnios, insondável. Ou plural e abrangente em toda a riqueza das suas ramificações. E, tal como Luther King, ele tem, a fazer fé no Expresso, um sonho: “ver a sua família política de origem em forma para uma coligação que verdadeiramente disputasse as eleições a António Costa”. Claro que os sonhos não impedem que na realidade ele exerça (ou se esforce por exercer, ou dê a aparência de exercer) uma magistratura independente. O pretenso equívoco de Maria Luís poderá ser apenas parcial: Marcelo coopera com Costa mas o seu coração baterá sempre à direita (ele diria à esquerda da direita).

 

Emmanuel Macron é independente e afirma que não é de esquerda nem de direita. (Não, também não será radical do centro, nem da esquerda do centro, nem da direita do centro.) Há quem o caracterize como maquiavélico, teimoso, com poucos amigos e relação distante com os pais (Marine também se “distanciou” do pai…). O que parece perturbar actores políticos e analistas é que as posições dele são demasiado heterodoxas para o enquadrar em categorias políticas tradicionais. É difícil conciliar o retrato de candidato da alta finança com propostas como um sistema universal de seguro-desemprego ou sanções para empresas que abusam de contratos de curta-duração, ou ainda com a sua visão crítica de uma União Europeia demasiado submissa perante a ortodoxia alemã. O que de mais notável Macron fez até agora foi demolir a sua adversária, expondo fraquezas e indignidades. E fê-lo com vigor e utilizando uma linguagem por vezes brutal, sem receio de afugentar os eleitores ditos moderados. Há alturas em que os cálculos eleitorais não devem impedir a afirmação clara e radical de valores civilizacionais inalienáveis. Que o prémio seja a vitória deixa-nos confortados, mesmo que inquietos face ao crescimento da Frente Nacional. É caso para dizer que a luta continua.

 

A independência do Papa Francisco pode medir-se pela forma desassombrada como se pronuncia sobre diversos assuntos sem a preocupação de ponderar se o que diz se enquadra na doutrina subscrita pela Cúria Romana. As suas marcadas preocupações sociais (com as referências à “economia que mata”, “aos homens e mulheres sacrificados aos ídolos do dinheiro e do consumo” e as suas alusões às pessoas que se dizem “muito católicas” mas que fazem “negócios sujos” e se aproveitam das outras pessoas) afastam-se da corrente que insiste em censurar comportamentos e modos de vida e vincar os interditos. O Papa Francisco não hesita em afirmar que quem “só pensa em fazer muros, seja onde for, em vez de fazer pontes, não é cristão”, pelo que a sua “Igreja não tem as portas fechadas para ninguém”.

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 21:01 link do post
Maio 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
22
23
24
25
26
27
29
30
31
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
comentários recentes
Uma clarificação em resposta a interpelação do lei...
Bom dia, Mas do que li pelo menos das citações que...
blogs SAPO