NO VAGAR DA PENUMBRA
08 de Outubro de 2014

Como diria a outra, não há coincidências. Partindo desta proposição, resta-nos o fado, o destino. Ora este, segundo o jornalista desempregado que protagoniza o último livro de Manuel Jorge Marmelo, O Tempo Morto é um Bom Lugar (edição da Quetzal), pode muito bem ser “uma invenção dos homens para sacudirem dos ombros alguma da responsabilidade pelos actos que praticam”.
Ora sucede que uma simultaneidade temporal uniu a minha leitura do livro com o regresso da sacerdotiza do telelixo, Teresa Guilherme, com mais uma edição do alarve programa Secret Story. O romance gira à volta de um jornalista que aceitou escrever a autobiografia de uma celebridade da “Reality TV”, uma mestiça de nome Soraya, ao lado de cujo cadáver acaba por acordar, o que resulta no seu encarceramento. Logo no início do livro, M.J. Marmelo descreve assim os concorrentes de programas deste género: “Lavam-se, despem-se, fornicam, dormem, discutem e insultam-se em directo, e fazem absoluta questão de, a cada passo, fazer alarde de uma profunda ignorância (…)”.
Com o decorrer do tempo, e a envolvência amorosa, Herculano, o jornalista, acabou por julgar ver nos silêncios de Soraya algo mais que “vacuidade ou falta de assunto”, descortinando até uma “sageza discreta”, uma compreensão de que “estar calada pode ser uma virtude essencial”, impedindo “os indivíduos de transitarem pela vida prodigalizando ignorância e estupidez”.
Não posso dizer o mesmo dos actuais concorrentes de Secret Story. Pela simples razão de que para tal precisaria de visionar ininterruptamente as sucessivas edições do reality show, tarefa impossível dado que esta versão da “vida tal qual ela é” me provoca um irreprimível asco. Acreditar na espessura da dignidade humana daquelas pessoas passa necessariamente por recusar vê-las naquele contexto.

 

Enquanto uns procuram recriar-se enquanto figuras toscas e estereotipadas de uma ficção manhosa da realidade, em busca da celebridade enquanto inanidade, outros retiram-se da existência comum para criar o seu próprio espaço de respiração, onde o cinema e a leitura são vícios e ponto de partida para alinhavar versões do real onde as personagens se destacam pela impossibilidade de se intuir todos os seus cambiantes.
Ana Teresa Pereira foi guia-intérprete e escreveu para jornais e revistas. Tem 56 anos e publicou 36 livros. Diz que não é um “bicho-do-mato”, mas nem sempre está disponível para responder a solicitações. Raramente aceita falar em público, nem sempre atende o telefone e responde apenas a alguns emails. Isabel Lucas, que lhe traçou um perfil e recolheu declarações no Ípsilon da passada sexta-feira, diz que ela “aceitou conversar, mas na conversa intercala momentos de enorme abertura com outros de retracção”. E o que há de tão extraordinário nisso, apetece-me escrever? Será que a exposição pública, espontânea ou solicitada, terá sempre que manter a linearidade, optando entre dois pólos extremados, entre a revelação incondicional e a reserva intransigente?
Talvez não seja uma exorbitância imaginar Ana Teresa Pereira como uma personagem das suas ficções, uma daquelas que não se confinam a um livro e se repetem em obras sucessivas como convidados inesperados que acolhemos com uma benevolência a rondar o entusiasmo. Poderíamos chamar-lhe Anne, imaginá-la entre flores e gatos, livros e sessões contínuas de cinema. Anne conheceria tanto a intensidade dos sentimentos quanto a sua transitoriedade, e poderia dizer como a narradora de Até Que a Morte nos Separe (Novembro de 2000, Relógio D’Água): “Sempre gostei de histórias de solidão. (…) Não conhecia o amor. Ouvira dizer que existia, mas não tinha bem a certeza. E no entanto pressentia que só podia vir assim, quando a solidão era desmedida, e que depois nos deixava sozinhos de novo.”

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:04 link do post
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