NO VAGAR DA PENUMBRA
01 de Novembro de 2016

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A revista Vanity Fair proporcionou um encontro entre a historiadora Doris Kearns Goodwin e Barack Obama para uma espécie de balanço dos dois mandatos do homem que celebrou a audácia da esperança. Obama, acerca das condições do exercício do cargo, explicou que não atribuiu grande relevância às vicissitudes diárias, às circunstâncias das popularidades efémeras ou das críticas virulentas, apostando sempre na perspectiva de longo prazo (“O que é que estou a construir que perdurará?”). Citou o número de pessoas que usufruem agora de seguro de saúde (20 milhões) como o exemplo acabado de uma reforma que se revelou mais eficaz e menos dispendiosa do que ele próprio esperava, e não deixou de reconhecer que à semelhança de outros programas do género também o Affordable Care Act necessitará de afinações.

 

Mas o fim do seu segundo mandato coincide também com uma conjuntura política americana pejada de radicalismo e agressividade sem precedentes, que ele atribui a um conjunto de factores: discursos que apostam na manipulação dos instintos primários e que favorecem o extremismo,  “a balcanização dos media” que impede o consenso sobre um conjunto de factos ou ideias, a influência do poder financeiro no financiamento das campanhas e no condicionamento do poder legislativo e o próprio “colapso das estruturas partidárias”.

 

Confessa que a situação na Síria o perturba e incomoda, embora não esteja convencido de que uma abordagem mais agressiva (e menos negocial) pudesse ter produzido resultados significativamente diferentes. E que o envio de tropas para o terreno implica um processo de decisão não isento de angústia, porque coloca vidas em risco e há que balancear cuidadosamente os prós e contras. Algo de semelhante se passa em relação aos raides aéreos, porque ele nunca quis ser “um Presidente que decide matar pessoas de forma confortável e ligeira”. Nem criar nos subordinados a percepção de que o uso de armas para matar se tornou um procedimento de “rotina ou abstracto”.

 

Barack Obama afirmou ter como objectivo essencial das suas intervenções “comunicar a verdade”. Mesmo quando a mensagem não era bem recebida, ou considerada demasiado longa ou “professoral”. Porque acredita na capacidade dos americanos para processar informação mais densa e com cambiantes. E provavelmente também crê na habilidade dos seus concidadãos para destrinçar a verdade da mentira. Ainda para mais quando ela é flagrante, hiperbólica e abstrusa como sucede com as intervenções do candidato Trump. De quem, aliás, Obama diz ser o veículo da “expressão de certos medos e ressentimentos” presentes na sociedade americana, e ter “um temperamento inadequado para o cargo” que ambiciona.

 

Será ele em privado muito diferente da figura pública que o mundo conhece? Obama admite duas tendências que se manifestam em privado e que controla nas suas aparições públicas: praguejar é uma delas; a outra é ser sarcástico e fulminante na análise dos assuntos. Não será muito difícil imaginar qualquer uma destas duas facetas a emergir em todo o seu esplendor cada vez que ele se debruçar, na confidencialidade da Sala Oval, sobre as declarações e a figura do inefável candidato Trump.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:44 link do post
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