NO VAGAR DA PENUMBRA
08 de Setembro de 2015

Escassos dias depois de aqui ter evocado Eugénio de Andrade a propósito do repouso das férias, eis que “o rosto aberto sobre o mar” se fecha numa máscara de horror. “Todas as fotografias estão à espera de ser explicadas ou falsificadas pelas legendas” escreveu Susan Sontag. A imagem de Aylan inanimado na praia à mercê das ondas, porém, parece repelir a palavra tanto quanto questiona o próprio acto de olhar. Sontag também escreveu que “fotografar é enquadrar, e enquadrar é excluir”. Um determinado enquadramento permite-nos ver, para além do labor burocrático dos dois guardas (fotografar, escrevinhar, cuja necessidade até se admite mas que pode ser visto, injustamente decerto, como uma acto de insensibilidade, ou então como sintoma de atordoamento seguido de refúgio na rotina dos procedimentos), o lazer incompreensível dos pescadores.

 

Numa outra fotografia, um guarda transporta já o corpo de Aylan. Inesperadamente, a imagem sugere-me Gepeto a embalar Pinóquio. Com a diferença fundamental de, neste caso, não ser necessário pedir às estrelas que o transformassem num menino verdadeiro. Infelizmente, também não podemos esperar que surja uma Fada Azul e lhe dê vida. “O que era precioso já não existe”, desabafou Abdullah, o pai de Aylan.

 

Susan Sontag diz que “nomear um inferno não é, naturalmente, dizer alguma coisa sobre como retirar as pessoas desse inferno, sobre como moderar as chamas desse inferno”. No entanto, considera meritório que as pessoas se apercebam do grau de “sofrimento causado pela perversidade humana”, das “atrocidades” que uns humanos causam a outros humanos, evitando assim a ignorância ou o esquecimento, que ela define com um “género de insuficiência moral”. Por isso, decreta: “Deixemos que essas imagens nos persigam.”

 

(Citações de Susan Sontag extraídas de “Olhando o Sofrimento dos Outros”, obra editada pela Quetzal e traduzida por José Lima.)

publicado por J.J. Faria Santos às 19:54 link do post
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