NO VAGAR DA PENUMBRA
27 de Setembro de 2016

Não foi a primeira vez que o papa Francisco se pronunciou vigorosamente contra o jornalismo assente na difamação, no boato ou no mexerico, considerando-o uma forma de “terrorismo”. Num encontro com uma associação de jornalistas italianos, frisou agora que “o jornalismo não se pode transformar numa arma de destruição de pessoas ou povos, ou alimentar medos”. Embora mostrando-se compreensivo com as exigências de um ciclo noticioso de 24 horas por dia, sete dias por semana, o papa não deixou de sublinhar que uma notícia pode “destruir para sempre ou difamar injustamente” uma pessoa. Barbie Latza Nadeau escreve no Daily Beast que ele é “de longe, o papa mais consciente da importância dos media”, o que poderá explicar a insistência no tema e a convicção por ele expressa de que para os meios de comunicação social “nem sempre é fácil chegar à verdade, ou sequer aproximar-se dela”.

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Leio a frase em título – “Quis deixar um contributo para a história.” – e vejo nela a denúncia da ausência da modéstia que se aproxima da megalomania. Mais à frente na entrevista ao Sol acrescenta: “…este livro inaugura um tempo novo. Este livro vai ficar como um clássico da literatura política. E o escândalo que provocou é o escândalo que provocam todas as obras que são grandes gritos de liberdade.” Os sintomas parecem agravar-se: estaremos próximo do delírio ou da mitomania? Fiquemo-nos pela desfaçatez de José António Saraiva que nos quer fazer crer que uma mixórdia de episódios contemplando confidências privadas, desentendimentos públicos, “boletins clínicos minimalistas”, atestados de virilidade, boatos avulsos e considerações entre o ridículo e o grotesco se enquadra na categoria de “literatura política”. Do seu conceito de “gritos de liberdade” nem vale a pena perorar. Ele diz que em Eu e os Políticos há “revelações duras e outras que roçam a violação da privacidade”, e que optou por não revelar os “segredos” cuja revelação produziria “danos” que o interesse público não justificava. Passando por cima do understatement da afirmação acerca da privacidade, é evidente que o maior dano causado pela obra do arquitecto (e autoproclamado aspirante ao Nobel da Literatura…) recai justamente sobre o carácter do autor.

 

José Sócrates diz não admitir que pretendam o seu “banimento da vida pública”, muito menos “uma condenação sem julgamento”. Subscrevo sem reservas. Coisa diferente é a ideia fomentada por meios socialistas de “um processo de reabilitação do ex-primeiro-ministro” ou de uma “rentrée política do animal feroz”. A crítica justificada de um processo errático e interminável, recheado de fugas de informação e decisões discutíveis, não elide a suspeita, nem o comportamento eticamente questionável e no mínimo leviano patente naquilo que Fernanda Câncio apelidou de “relação pecuniária” envolvendo o amigo Carlos Santos Silva. Bem pode José Sócrates ver na divulgação dos seus gastos avultados uma “crítica de costumes” e um “julgamento moral”, mas não pode ignorar o impacto negativo deles no contexto do processo que o envolve. Pode não se sentir diminuído, mas está claramente condicionado. Pode não ser justo, mas é uma evidência. Como o é o facto de mesmo uma ausência de acusação ou uma absolvição não garantirem o resgate da sua carreira política.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 12:58 link do post
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