NO VAGAR DA PENUMBRA
06 de Junho de 2017

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A pretexto da publicação americana de uma nova tradução da responsabilidade de Margaret Jull Costa de A Ilustre Casa de Ramires (The Illustrious House of Ramires), a New York Review of Books editou online um artigo de James Guida sobre Eça de Queirós intitulado O Proust de Portugal, onde se citam a convicção de José Saramago de que Os Maias é o melhor livro do maior escritor português e também a afirmação de V. S. Pritchett que compara a obra de Eça à de Proust.

 

Guida reconhece o lugar relevante de Eça na literatura em língua portuguesa e considera que, internacionalmente, ele é visto como um “par desvalorizado dos grandes escritores realistas do século XIX”. De seguida, porém, recorda a dificuldade dos críticos em catalogá-lo, equacionando até que ponto o realismo teria sido contaminado pelo romantismo, e se não seria mais apropriado encará-lo como um “camuflado escritor avant-garde”. Destacando a sua “invulgar ironia, que combina uma misantropia cortante com uma ampla e diversificada atenção à dor humana”, James Guida nota que um significativo número das personagens de Eça exibem um tom bastante crítico quando se referem a Portugal seu contemporâneo, acompanhado por uma melancolia pelas glórias do passado. E num tributo ao seu realismo, refere que “os pobres nos seus livros são verdadeiramente pobres, sem sequer a ilusão da mobilidade ascendente, susceptíveis à doença, e encorajados pela Igreja a aceitar o seu destino como sinal de virtude cristã”.

 

Em Janeiro de 1996, num artigo publicado no Expresso, Osvaldo Silvestre referia a partir da afirmação de Harold Bloom de que “o Cânone Ocidental é Shakespeare e Dante” que uma transposição para a nossa literatura deste preceito levaria a concluir que “o cânone português é Camões, Eça e Pessoa”. Uma curiosa ligação entre estes dois últimos foi estabelecida em Agosto de 2000 por Carlos Reis quando, questionado acerca do facto de ter defendido que Eça encarregava Fradique Mendes de dizer o que ele optava por silenciar, afirmou em entrevista ao mesmo jornal: “O que o impede de dar a Fradique Mendes uma autonomia mais radical ainda, de fazer dele um verdadeiro heterónimo, é a falta de um valor que será fundamental na modernidade do século XX. Esse valor é o da incoerência. A Eça, falta a noção, mais tarde assumida por Álvaro de Campos, com uma certa agressividade iconoclasta, de que se é vários num só. Isto é, a noção de que a unidade do sujeito é uma ficção.”

publicado por J.J. Faria Santos às 20:19 link do post
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