NO VAGAR DA PENUMBRA
14 de Junho de 2016

O estadista usa Moleskines de capa verde escura personalizados com monograma dourado made in Roma. E redige discursos em folhas brancas, imaculadas, seis ou sete linhas, não mais, onde um par de rasuras implica o desterro para o cesto do lixo e o recomeço. Porque é “muito estético”. O que explicará também a predilecção pelos tecidos ingleses para os fatos, e pelos botões com a inscrição carpe diem.

 

O estadista idolatra Churchill, mas segue um princípio da Sra. Thatcher que epigramaticamente sintetiza da seguinte forma: “se ficarmos muito tempo em cargos de liderança ou perdemos paciência para os outros ou exigência connosco e com ou outros” (in Público, edição de 8.06.2016). O estadista não tem um percurso ideológico e doutrinário inconsistente e contraditório – a sua acção é um testemunho das virtudes do pragmatismo. O seu patriotismo é de tal modo exacerbado que pagou “um preço de reputação” para melhorar um Governo. Obedeceu à consciência, disse, que num ápice se revelaria volúvel ou inconsciente.

 

Nesta nova etapa, fora do Executivo, vai continuar a ajudar a nação “na promoção das exportações portuguesas (…) agora do lado da sociedade civil e do associativismo empresarial” (Expresso, 10.06.2016). E a dar aulas. E a fazer conferências. E comentários na caixa que mudou o mundo. A República pode esperar. E ele também. E no entretanto, para completar a metamorfose de populista para popular, este moralista imprevidente ir-se-á insinuando na intimidade dos portugueses, via ecrã televisivo, com os seus ditos espirituosos e o seu terno e eterno sentido de Estado.

publicado por J.J. Faria Santos às 19:45 link do post
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