NO VAGAR DA PENUMBRA
05 de Maio de 2015

Thomas_Hart_Benton_O_Candidato.jpg

                  "O Candidato" de Thomas Hart Benton (Courtesy of www.bertc.com)

 

Tal como a pescada, o estadista antes de o ser já o era. A comparação justifica-se até tendo em conta o seu carinho pelas peixeiras. E pela lavoura e pelos reformados e pelos contribuintes…De facto, tirando os momentos de camisa desabotoada quase até ao umbigo (um fã do estilo Tom Ford?), mesmo em momentos de lazer ou informalidade a sua indumentária e o seu porte perpetuavam a imagem do homem de Estado, algures entre o lorde inglês e o abastado proprietário rural.

 

Como destacada voz do quarto poder, nunca se coibiu de apreciações definitivas e lapidares: Cavaco tinha “dias de imitação de ditador”, Durão Barroso “não é dado à sinceridade”, Catroga era apelidado de “cobarde” e “sonso” e Dias Loureiro “o ministro mais desperdiçado do Governo” (premonitório…no século seguinte, Passos Coelho viria a defini-lo como um “empresário bem-sucedido” que sabe que para “vencer na vida” temos de “ser exigentes, metódicos”). Em Janeiro de 1993, no primeiro acto da peça Irrevogável, escreveu o estadista: “Se há uma certeza pessoal que eu posso divulgar é a de que não tenho a menor intenção de me submeter a votos”. Partindo do princípio que jamais lhe passaria pela cabeça aceder ao poder por meios violentos e à margem do sufrágio universal, somos forçados a concluir que insondáveis mas ponderosas razões de Estado ditaram que ele se visse forçado a abjurar esta declaração.

 

Eurocéptico primeiro, eurocalmo depois, o estadista construiu um discurso político escolhendo nichos de mercado eleitoral, a quem brindava com uns sound bites que almejavam a espontaneidade mas tresandavam a dichote ensaiado frente ao espelho. Em nome da ambição, sacrificou a coerência ao tacticismo. Cortejou o radicalismo e abraçou a demagogia. É irresistível ponderarmos se isto se deve à convicção por ele expressa de que “os portugueses comovem-se com pouco e deixam-se enganar depressa e bem”.

 

No final da sua passagem pelo Ministério da Defesa, o estadista intuiu a necessidade de construir um acervo documental que preservasse para memória futura o seu engenho e arte, pelo que ao princípio da noite de um sábado tratou de permitir o acesso de uma empresa privada ao edifício do Ministério para digitalizar 61 893 páginas de documentos. Desconhecemos se esta preocupação o assolou no momento do segundo acto da peça Irrevogável, mas sabemos que, quando Passos Coelho lhe disse que ele estava a pôr em causa o país com o pedido de demissão, o estadista proferiu um, imaginamos, lancinante “oh, Pedro!”. Com esta acusação, o Obama de Massamá fez despertar no Churchill lusitano o seu espírito de missão e o seu insuperável patriotismo. Sim, podemos completar a legislatura, nem que seja à custa de sangue, suor e lágrimas!

 

No século passado, na sua pele de jornalista/analista político, o estadista concluía que “falar verdade, só a verdade e a verdade por inteiro, e[ra] um sonho difícil em política”. O que torna compreensível que quando, face às dúvidas manifestadas pela troika em relação a uma medida que implicava uma redução na receita do IVA, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus assumiu, perante o estadista, ter-lhes mentido, este tenha disparado um sonoro “Óptimo”. Quando alertado para o facto de daí a alguns meses a falsidade ser detectada, o Churchill lusitano exclamou: “Oh, Luís, a oitava avaliação é daqui a três meses, eu quero é fechar a sétima, pel’amor de Deus!”.

 

“A ‘estabilidade’ serve para quê? Não serve, seguramente, para ter o país em sobressalto e a sociedade em revoltas contínuas”, escrevinhava, em 1994, a propósito do estertor do cavaquismo, o estadista. Que, consta, se demitiu por SMS. E que agora propõe a renovação da coligação porque acha “mais seguro entregar o poder a partidos que por natureza estão mais perto da economia real”. Tal como os seus líderes, presume-se. Que pode estar mais perto da “economia real” que a experiência de liderar uma ONG com vocação para captar fundos europeus ou ser consultor numa empresa que ambicionava formar técnicos camarários para aeródromos municipais? Ou ter sido co-fundador do Instituto de Estudos Políticos e ter dirigido um centro de sondagens?

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:37 link do post
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