NO VAGAR DA PENUMBRA
20 de Agosto de 2014

LAUREN BACALL (Courtesy of www.bertc.com)

 

“A actriz do olhar insolente”, chamou-lhe o Público, espraiando-lhe o rosto na capa de forma a que ele nos interpelasse. Insolente, sim, mas também directo, intenso, desafiante, com a espessura da sua personalidade. Se estamos habituados a associar às vedetas do star system  de Hollywood atributos como a frivolidade e a superficialidade, temos a consciência imediata das excepções à regra (ou ao preconceito…) que foram, por exemplo, Katharine Hepburn e Lauren Bacall. Com uma carreira cinematográfica que não terá feito justiça ao seu talento (o teatro ter-lhe-á sido mais generoso), Bacall ficará para sempre imortalizada pelo brilhantismo dos diálogos trocados com Humphrey Bogart em Ter e não Ter e, principalmente, À Beira do Abismo, em conversas que mais pareciam duelos cuja arma de escolha seriam as setas de Cupido com elevada propensão para serem fatais para o coração. O jogo do amor, tal como o parecia conceber, era um embate de primeiros entre iguais, em plano de igualdade, em contraste absoluto, portanto, com posturas de ingénua sonhadora ou de sedutora calculista, ambas, à sua maneira, admissões de subalternidade. Intransigente no essencial, não se furtou a apoiar diversas candidaturas políticas, incluindo a de Barack Obama, emitindo opiniões que não reprimiam a contundência, como aquela em que qualificou George W. Bush de “idiota”.

 

Já Robin Williams preferia sublinhar que Bush nos oferecia inúmeros pretextos para a comédia. Como nota Anthony Lane no obituário da New Yorker, ele referiu-se ao antigo Presidente americano como uma “comedy piñata”. Williams, com um talento incomensurável e uma espantosa capacidade de improviso, brilhou de igual modo na comédia e no drama, ora canalizando a sua hiperactividade criativa para gags  e tiradas hilariantes, ora convocando o melancólico e até o sinistro para ilustrar as complexidades da mente humana. A sua predisposição para a improvisação era tal que Lane via nela a demonstração inequívoca de que estava na sua essência ser o inimigo do argumento, do enredo  (“The enemy of plot”). Como no poema de Walt Whitman que está na origem da cena icónica de O Clube dos Poetas Mortos, o Capitão jaz frio e morto no convés do navio, mas nós precisamos que o exemplo de Robin Williams persista na memória dos seus admiradores. Se mais não for, para nos recordar que a criatividade é inalienavelmente subversiva e que nem sempre o utilitário é o mais necessário. A matéria de que os sonhos são feitos ilumina as percepções da realidade.

publicado por J.J. Faria Santos às 16:07 link do post
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