NO VAGAR DA PENUMBRA
23 de Agosto de 2016

frith.jpg                "At the Opera" de William Powell Frith (Courtesy of Bert Christensen)

 

O genérico final de um episódio da versão americana de Shameless faz aparecer o nome Sherilyn Fenn. Incrédulo, verifico que a adolescente sedutora e entediada de Twin Peaks se transformou numa loira platinada, em formato white trash, que veio reacender a chama de uma paixão antiga em Frank Gallagher, agora tão empenhado na sua “carreira” de cancer concierge (uma espécie de conselheiro para pacientes com doenças terminais, na verdade a enésima versão do oportunismo sem remorso). O sempre soberbo William H. Macy continua a liderar o elenco de uma série que se esmera na representação da mais abjecta disfuncionalidade, oferecendo com humor e destempero um retrato dos que, na terra das oportunidades, viram o pesadelo da realidade ofuscar o sonho americano.

 

O rapto da filha do chefe de Estado interino. Exigências não atendidas. A morte em directo. Um corpo profanado. Uma retaliação que resulta em danos colaterais. Uma primeira-dama à beira do suicídio. Tyrant com a sua mescla de drama político e soap opera exótica é o perfeito guilty pleasure de Verão. As personagens podem ser algo esquemáticas, mas há uma aproximação à realidade do Médio Oriente que torna a série viciante – o confronto entre moderados e radicais, as assembleias religiosas como berço do radicalismo, o general americano que oferece apoio militar, uma Comissão para a Verdade e Dignidade almejando a reconciliação possível, o jornalista idealista que se torna candidato presidencial. Como pano de fundo, a eterna dúvida de que o sufrágio eleitoral seja suficiente para fazer triunfar a democracia. Numa terra onde tribalismo rima com terrorismo e política e religião com tensão.

 

Florence Foster Jenkins, filme de Stephen Frears protagonizado por Meryl Streep, narra a história de uma socialite americana que, apesar de cantar horrivelmente, sonhava ser cantora de ópera, e que, graças aos esforços do marido, que subornou alguns críticos que assistiram a espectáculos em ambientes mais ou menos íntimos, usufruiu da ilusão do sucesso. A Time diz que Streep recusou caricaturá-la, optando por uma recriação que releva a sua bondade. Como ensina um dos hinos da bossa nova, “os desafinados também têm um coração”. Jenkins terá vivido para a arte e para o amor, como se alardeia na ária da Tosca que costumava cantar, Vissi d’arte. A reflexão que o percurso de vida de Jenkins convoca é, evidentemente, se a materialização de uma vocação sem um talento à altura da ambição condena a uma existência ilusória.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:42 link do post

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