NO VAGAR DA PENUMBRA
07 de Fevereiro de 2017

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                           "Retrato de Peggy Guggenheim" de Alfred Courmes

                                         (Courtesy of Bert Christensen)

 

Entrevistada para a edição de Fevereiro da Harper’s Bazaar, Madonna explicou o seu empenho na luta pelos direitos das mulheres, pelos direitos dos homossexuais e pelos direitos civis em geral com o facto de sempre se ter sentido oprimida. Reconhecendo que este papel de vítima se coaduna mal com o seu estatuto de vedeta pop branca, rica e bem-sucedida, atribuiu esse sentimento ao facto de ser mulher e se ter “recusado a viver uma vida convencional”. Ter criado uma família heterodoxa e “ter amantes três décadas mais jovens” causa desconforto nas pessoas, conclui.

Para além de referências ao seu novo projecto cinematográfico, Loved, que irá realizar e em cujo argumento colaborou, uma adaptação do romance de Andrew Sean Greer The Impossible Lives of Greta Wells, o tópico Donald Trump tornou-se incontornável, com a cantora a comparar a noite das eleições a “um filme de terror”. “Não é um sonho mau. Aconteceu mesmo”. Na altura em que concedeu a entrevista, Madonna percepcionava a comunidade artística como demasiado acomodada, sem que ninguém adoptasse uma posição política ou exprimisse uma opinião firme contra Trump. E atribuía essa neutralidade a cálculos profissionais, mais concretamente para “manterem a popularidade”.

Madonna, enquanto criatura política, acredita na liberdade de expressão, e que as mulheres “detêm o poder sobre a sua sexualidade e sobre a forma de a expressar”. E, sobretudo, não acredita que haja uma determinada idade em que não se possa “dizer, sentir e ser aquilo que se quer ser”.

 

Não será abusivo concluir que Peggy Guggenheim (1898-1979) deteve o poder sobre a sua sexualidade e exprimiu-a da forma que entendeu. A dado momento, gabou-se de ter tido mais de 400 amantes (entre eles Marcel Duchamp e Samuel Beckett), embora haja uma estimativa que aponta para o milhar de parceiros. Uma amiga frisou a Milton Esterow, que escreveu um artigo para a Vanity Fair (Palazzo Intrigue) acerca da batalha legal em que estão envolvidos alguns dos seus descendentes, relacionada com a colecção de arte do século XX exposta em Veneza no museu de arte moderna mais visitado de Itália, que Peggy se sentia atraída pela inteligência dos homens. Não era uma questão de beleza física. Casou por duas vezes, mas certo dia, quando questionada acerca de quantos maridos tivera, respondeu espirituosamente: “Refere-se aos meus ou aos das outras mulheres?”

Esterow, que a qualifica como “enfant terrible do mundo da arte e um dos seus mais influentes mecenas”, refere que em 1949 ela adquiriu o palácio do século XVIII no Grande Canal, em Veneza, e rapidamente o transformou num salão vanguardista frequentado por convidados do calibre de Tennessee Williams, Somerset Maugham, Igor Stravinsky, Jean Cocteau e Marlon Brando. A sua colecção de arte agrupa 326 quadros e esculturas, incluindo trabalhos de Picasso, Pollock, Miró, Dali, Rothko e Giacometti.

Ninguém, incluindo a própria, sabia avaliar exactamente a extensão da sua riqueza. Logo aos vinte e um anos, na sequência do falecimento do pai (vítima do afundamento do Titanic, prescindindo do seu lugar no salva-vidas a favor da sua amante francesa), Peggy herdou 450 000 dólares, o “equivalente a cerca de 6,4 milhões nos nossos dias”. Generosa com os amigos, revelava-se “poupada nas coisas triviais”. A urna com as suas cinzas foi enterrada num canto do jardim do palácio, na proximidade dos restos mortais dos seus catorze cães. Repousa numa propriedade que testemunha a sua paixão e fidelidade à arte. A mesma fidelidade que lhe dedicaram Cappucino, Sir Herbert, Madam Butterfly e os restantes onze caninos.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:44 link do post
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