NO VAGAR DA PENUMBRA
10 de Novembro de 2015

Entrevistado por Michael Lewis para a Vanity Fair, Tom Wolfe definiu dois tipos de bloqueios criativos que os escritores enfrentam: um corresponde à suspeita de uma incapacidade (“You think you can’t do it”); o outro assenta no receio da inutilidade (“not worth doing”).

 

Don Draper sempre resolveu melhor os seus bloqueios enquanto director criativo de uma agência de publicidade do que lidou com os impasses existenciais na sua vida, radicados numa infância difícil e na construção de uma vida adulta assente numa usurpação de identidade. Daí que o ambíguo final da série Mad Men possa ser interpretado tanto como um novo começo para Don, quanto como uma preparação para o regresso ao brainstroming alimentado a álcool e tabaco, com passagens cirúrgicas por camas acolhedoras mas passageiras. Como se só o efémero repetido apaziguasse.

 

Eleanor Clift, num artigo em 2012 para a Newsweek, escreveu que o assunto principal da série era “a criação e a venda do Sonho Americano em Madison Avenue nos primórdios dos anos 60 – antes dos direitos civis, do feminismo, e dos protestos contra a guerra” forçarem toda uma enorme transformação social. E não deixou de fazer notar que Don, apesar de poder ser duro e displicente com as mulheres, demonstrou ser capaz de “reconhecer e recompensar o mérito sem temer pela sua masculinidade”, nomeadamente em relação a Peggy.

 

Peggy lutou paulatinamente pela sua carreira, ao longo de toda a série, relegando para segundo plano os afectos, acabando por conciliar estes dois planos no final. Quanto aos restantes membros do contingente feminino, de uma maneira ou de outra, acabaram por soltar as amarras da vida doméstica e domesticada. Betty, a trophy wife clássica, glacial e inatingível, perfeita e insatisfeita, regressou empenhadamente aos estudos. Joan, a beldade com uma voluptuosidade e opulência renascentistas, ponderou um relacionamento promissor mas descartou-o logo que ele interferiu com as suas ambições profissionais. E Megan, esplendorosa na representação de um tempo novo, ambiciosa e moderna, mas indisponível para ceder a caprichos masculinos indecorosos para progredir profissionalmente, não só persegue a carreira de actriz como se mostra indisponível para a submissão.

 

Quanto a Don, depois de uma travessia pelas estradas da América, acaba arrastado para um retiro hippy, onde, ao procurar confortar um estranho amargurado, parece expiar a sua culpa e reconciliar-se consigo mesmo. E isto passa, claro, por repelir a noção de que determinada acção não vale a pena. E acreditar que se é capaz. No fundo, desbloquear o impasse.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:17 link do post
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