NO VAGAR DA PENUMBRA
29 de Julho de 2015

A associação das palavras terapia e literatura na mesma frase ressoa a manuais de auto-ajuda ou a publicações do reino da medicina. Não é nada disto que a escritora e antropóloga social Ceridwen Dovey abordou num artigo para a New Yorker intitulado Can reading make you happier?. Na verdade, o que está em causa na biblioterapia, nas palavras da autora, “é uma designação lata para a prática ancestral de encorajar a leitura para um efeito terapêutico”. Renitente à ideia da literatura como “prescrição” e avessa às recomendações de outros leitores, não sendo uma pessoa religiosa a autora confessa interesse no facto da crença num “ser superior” poder funcionar como “táctica de sobrevivência emocional”. Especificamente para poder lidar com a dor inevitável de perder um ente querido. Entre as recomendações de leitura que recebeu da biblioterapeuta estiveram obras de Hermann Hesse e Saul Bellow, e também O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago.
De acordo com Ceridwen Dovey, a expressão biblioterapia apareceu pela primeira vez em 1916 num artigo no The Atlantic Monthly, embora possa ter raízes na Antiga Grécia, se levarmos em conta que os gregos inscreveram na entrada de uma biblioteca em Tebes que aquele era “um local de cura para a alma”. Dovey enumera os benefícios de que os leitores regulares usufruem: dormem melhor, tem uma auto-estima mais elevada, menores índices de depressão e um grau inferior de stress. Além do mais, tem um efeito semelhante à meditação, induzindo nos nossos cérebros uma espécie de “estado de transe “ que desperta o prazer.

 

Uma conotação radicalmente diferente da expressão “prazer da leitura” é assumido pelo projecto de videoarte “Literatura Histérica” do fotógrafo e cineasta Clayton Cubitt. A obra está disponível ONLINE e anuncia ter sido objecto de mais de 45 milhões de visualizações em mais de 200 países. O seu propósito assumido é “explorar o dualismo mente/corpo” ou “o contraste entre a cultura e a sexualidade”. Em que é que consiste? Uma mulher sentada a uma secretária lê um livro em voz alta enquanto vai sendo estimulada sexualmente com um vibrador pela companheira e assistente feminina de Cubitt, Katie James (oculta debaixo da mesa), até atingir o clímax. O livro é escolha livre da leitora. Uma participante escolheu Walt Whitman, outra Bret Easton Ellis, mas poderiam ter escolhido uma manual de uma máquina de lavar ou a lista telefónica. Como descreveu uma participante, Toni Bentley, em artigo na Vanity Fair, a partir de certa altura estava a ler “apenas foneticamente, o sentido tinha-se evaporado, e apenas palavras isoladas mantinham a ressonância”.
Cubitt, o artista, diz-se “interessado em subverter as imagens progressivamente mais sofisticadas que as pessoas têm de si mesmas”. Bentley define este projecto como “um conceito simples, espirituoso e, no entanto, profundo”. Considera que o título da obra é uma referência a uma expressão cunhada por Michel Foucault, e relembra o paralelismo entre a histeria e o “desejo erótico frustrado” na viragem para o século XX. Um instrumento clínico inventado na década de 80 do século XIX, o vibrador, é agora usado, conclui Toni Bentley, numa “muito pública demonstração do prazer feminino soberano numa zona livre de homens por debaixo da mesa de Cubitt”.
Cubitt estava interessado na subversão mas não no controlo, pelo que deu liberdade às participantes para escolherem livros, roupas e penteados, e isto parece ter redundado numa afirmação do feminismo enquanto forma de poder. Mesmo que encenado por um homem. Seria menos poderoso ou menos feminino se as mulheres estivessem a lavar a louça ou a redigir um artigo sobre física quântica para uma publicação científica? Porque em última análise apetece perguntar: o que é que tudo isto tem a ver com literatura?

publicado por J.J. Faria Santos às 20:02 link do post
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