NO VAGAR DA PENUMBRA
09 de Fevereiro de 2016

INIMIGO_PÚBLICO.jpg                                               Fonte: inimigo.público.pt

 

João Vieira Pereira, director-adjunto do Expresso, em reacção a um SMS de António Costa em finais de Abril do ano passado, tornou público o sentimento de nunca ter sido “atacado” ou ter-se sentido “tão condicionado por alguém com responsabilidades políticas ou públicas”. Quase dez meses depois, estoicamente, pronuncia-se negativamente sobre o Orçamento do Estado, “apesar do bullying constante que existe sobre quem ousa pensar contra esta esquerda”.

 

João Vieira Pereira começa por esclarecer no seu mais recente artigo no jornal que defende “ideias facilmente identificadas com a direita”. Confesso que fiquei estupefacto e estarrecido. Julgava eu que escrevendo ele sobre economia e finanças, todo o seu pensamento seria balizado por conceitos indiscutíveis e ideologicamente neutros, simplificados para os simples e os não iniciados através de fórmulas como “contas certas”, “honrar as dívidas” ou “não há dinheiro”. Mas mais surpreendente foi a menção ao bullying que vitimaria quem critica “esta esquerda”. Em que planeta terá vivido o director-adjunto do Expresso nos escassos meses desde que este Governo tomou posse? Analistas e comentadores, à esquerda e à direita, exercendo o seu direito à livre expressão, sem se sentirem condicionados ou molestados, têm vergastado com virulência o Governo liderado por Costa. Parece-me que Vieira Pereira tem de ser menos, digamos, piegas…

 

Paquete de Oliveira notava recentemente no Público a existência nos meios de comunicação e no seu “exército de comentadores” de uma contradição entre um “nacionalismo patrioteiro” na narração dos acontecimentos desportivos e a forma como “renegam tão facilmente a protecção de valores nacionais e identitários de uma pátria, bem visível na forma como estão a ‘cercar’ o Governo face às trincheiras que lhe estão a montar a Comissão Europeia ou as agências de rating”. Alguns dias depois, no mesmo jornal, Francisco Assis, insuspeito de simpatias pelo actual Governo, criticava a “insensibilidade a roçar a arrogância” da Comissão Europeia”, e saudava a existências de alternativas políticas, assentes no facto de que “a existência de regras balizadoras consubstanciadas em limites quantitativos referenciados ao PIB não anula a margem de manobra dos executivos nacionais em termos qualitativos”. Que haja quem não queira utilizar essa margem, acrescento eu, em nome de uma “estratégia” difusa de “ir além da troika” pertence ao domínio da livre escolha. (Mas isto era no tempo da social-democracia raramente para enganar os papalvos; agora estamos no tempo novo da social-democracia sempre…).

 

Obviamente, a ideia do domínio de uma ideologia de esquerda na comunicação social portuguesa não sobrevive a um teste empírico. Mais do que o papel dos comentadores, é a própria acção jornalística, a sua dependência de agendas alheias e a necessidade de reforçar a pluralidade de perspectivas que está em causa. Ainda para mais quando, como refere Paquete de Oliveira, “os media prosseguem, desapercebidos e avessos, a estudar a sua importância na construção das realidades que nos cercam”. Nada sintetiza melhor este estado de coisas do que a última manchete do jornal satírico O Inimigo Público: “Orçamento passa em Bruxelas e lança dezenas de comentadores numa depressão profunda”.

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:10 link do post
Fevereiro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
comentários recentes
Uma clarificação em resposta a interpelação do lei...
Bom dia, Mas do que li pelo menos das citações que...
blogs SAPO